Manual para ser pedida em casamento

2 You never gave a warning sign...I gave so many signs...


Notas iniciais
Oiieeeee, demorou mais chegou<3

POV BELLA

Existe um tipo de silêncio que não acontece porque as pessoas não têm nada a dizer.

Ele acontece porque alguém já disse tudo… e ninguém percebeu.

Foi exatamente assim que eu me senti naquela noite na casa dos Cullen.

A sala estava cheia de vozes, risadas e o som de taças de cristal sendo colocadas sobre a mesa de centro enquanto Esme terminava de servir o bolo de aniversário de casamento dela e de Carlisle. A casa inteira parecia iluminada por uma felicidade calma e estável, daquelas que fazem parecer que o amor é algo simples, previsível e perfeitamente organizado. Emmett estava encostado na poltrona com as pernas abertas de forma exagerada, gesticulando dramaticamente enquanto contava alguma história absurda do hospital que provavelmente envolvia ele tentando levantar pesos que claramente não deveria levantar. Rosalie revirava os olhos a cada frase, mas o pequeno sorriso no canto da boca denunciava que ela já tinha ouvido aquela história pelo menos vinte vezes e ainda assim gostava de ouvi-la de novo. Alice estava sentada no chão, organizando mentalmente algum evento que provavelmente ninguém sabia que iria acontecer ainda. Jasper observava tudo com aquele ar tranquilo de quem aceitou há muito tempo que amar aquela família significava aceitar também o caos que vinha junto.

E Edward...Edward estava sentado ao meu lado.

Tão perto que meu braço encostava no dele.

Tão perto que eu conseguia sentir o calor do corpo dele mesmo com o ar frio da noite entrando pelas grandes janelas da sala.

E ainda assim…Parecia que ele estava a quilômetros de distância.

A piada de Emmett tinha acontecido alguns minutos antes.

E ainda ecoava na minha cabeça.

—Bella já pegou mais buquês de casamento do que qualquer pessoa que eu conheço! — ele tinha dito rindo alto, apontando para mim como se tivesse acabado de fazer a maior descoberta do século.

A sala inteira tinha explodido em gargalhadas.

Inclusive eu, porque às vezes rir é mais fácil do que explicar o que você realmente sente.

— Isso é estatisticamente impressionante — continuou Emmett com aquele tom teatral dele, levantando uma taça de vinho como se estivesse fazendo um brinde. — Já estamos em… quantos? Seis? Sete?

— Dez — corrigiu Alice imediatamente, com um sorriso inocente.

— Isso já está começando a parecer um sinal do universo.- disse Rosalie antes de levar a xícara de chá aos lábios, olhando discretamente para Edward como se estivesse esperando que ele finalmente entendesse a indireta.

— Ou um aviso — acrescentou Emmett.

Mais risadas.

Mais olhares divertidos.

E então eu fiz a pior coisa possível.

Eu olhei para Edward e ele estava rindo também, não um riso cruel. Muito menos um riso desconfortável, apenas… rindo.

Como se fosse realmente só uma piada, como se aquilo não tivesse nenhum peso.

Como se dez anos da nossa vida não estivessem escondidos dentro daquela frase.

Meu estômago se contraiu lentamente, porque naquele momento eu percebi algo que era muito mais doloroso do que qualquer piada de Emmett.

Edward não estava rindo porque era insensível.

Ele estava rindo porque… ele simplesmente não estava vendo.

Não estava vendo os sinais, não estava vendo os buquês que eu tinha pegado nos últimos anos como se fossem pequenas piadas do destino.

Não estava vendo as conversas que eu tentava puxar sobre o futuro.

Não estava vendo os silêncios cada vez mais longos quando alguém perguntava quando seria nosso casamento.

Não estava vendo que cada uma dessas coisas tinha sido um pedido de socorro.

— Bella?- A voz de Esme me puxou de volta para o presente.

— Sim?- disse baixo e levantei os olhos.

— Quer mais bolo, querida?- perguntou Esme com aquele sorriso doce que sempre fazia a casa parecer mais quente.

— Não, obrigada.- disse sorrindo automaticamente.

Edward virou o rosto na minha direção naquele momento.

Os olhos verdes dele me analisaram com aquela atenção cuidadosa que sempre me fazia sentir como se ele conseguisse enxergar todas as minhas camadas.

— Está tudo bem? — perguntou ele em voz baixa.

Por um segundo eu pensei em dizer a verdade.

Em simplesmente olhar para ele e dizer:

Não. Não está.

Mas eu não disse.

— Claro — respondi rápido demais, pegando minha taça de vinho para evitar o olhar dele.

Edward ficou me observando por alguns segundos.

Eu senti isso.

Senti o peso da atenção dele sobre mim.

E então, como sempre fazia quando achava que eu precisava de conforto…

Ele deslizou a mão por baixo da mesa e entrelaçou os dedos nos meus. O gesto foi automático, natural e amoroso.

E meu coração apertou tanto que quase doeu.

Porque Edward sempre sabia como cuidar de mim.

Ele sempre sabia quando eu estava triste.

Sempre sabia quando eu precisava de um gesto pequeno.

Sempre sabia quando eu precisava de silêncio.

Ele simplesmente não sabia…que eu precisava de um futuro.

Alguns minutos depois, enquanto Carlisle contava uma história sobre os primeiros anos do hospital e Emmett fazia comentários sarcásticos no meio da narrativa, eu senti Edward puxar discretamente a cadeira um pouco mais perto da minha.

Eu virei o rosto para ele.

— O que foi?- perguntei

— Você está com frio.- disse Ele sorrindo levemente.

Franzi a testa.

— Não estou — respondi

— Você está tremendo.- Edward repondeu já tirando o blazer.

Antes que eu pudesse protestar, ele colocou o blazer sobre meus ombros com aquele cuidado que parecia fazer parte da essência dele.

O tecido ainda estava quente do corpo dele e tinha o cheiro familiar do perfume que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.

Eu fechei os olhos por um segundo.

Porque aquilo era exatamente o problema.

Edward era gentil, atento e o tipo de homem que percebia quando eu estava com frio antes mesmo de eu perceber.

Mas aparentemente…Ele não percebia quando eu estava quebrando por dentro.

— Obrigada — murmurei.

— Sempre — respondeu ele.

Rosalie observou a cena do outro lado da sala.

Ela levantou uma sobrancelha para Alice, que apenas sorriu.

Mais tarde, quando todos estavam espalhados pela sala conversando, Edward levantou do sofá de repente.

— Um minuto — disse ele.

Eu observei ele caminhar até a cozinha.

Ele voltou alguns segundos depois.

Com um copo de água.

E um pequeno prato.

— Morangos.- disse ele colocando os dois na minha frente.

Eu pisquei.

— Por quê?- perguntei

— Você quase não comeu nada hoje.- Ele deu de ombros.

Meu coração deu um pequeno salto.

— Como você sabe disso?- questionei

Edward me encarou como se a resposta fosse absurdamente óbvia.

— Porque eu presto atenção.- disse sorrindo torto.

O olhar dele era tão sincero, tão cheio de cuidado… que aquilo fez algo dentro de mim se quebrar um pouco mais.

Porque Edward prestava atenção em tudo, menos no fato de que eu estava esperando há anos por algo que nunca parecia chegar.

Quando finalmente nos despedimos e saímos da casa dos Cullen, uma garoa leve caía sobre Forks.

Edward abriu a porta do carro para mim como sempre fazia.

Eu entrei e ele fechou a porta.

Deu a volta e então parou.

— Espere um segundo.-disse

Ele caminhou até o porta-malas e pegou um guarda-chuva.

Eu franzi a testa.

— Edward… nós já estamos dentro do carro.- resmunguei

— Eu sei.-disse ele sorrindo e então abriu minha porta novamente.

— O que você está fazendo?- perguntei aborrecida.

— Você esqueceu sua bolsa no porta-malas.- disse tranquilo.

Ele segurou o guarda-chuva sobre mim enquanto eu pegava a bolsa. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Como se cuidar de mim fosse simplesmente… parte de quem ele era.

Eu fiquei observando ele enquanto voltávamos para o carro e naquele momento uma pergunta se formou dentro da minha cabeça com uma clareza cruel.

Se Edward me amava tanto… Por que ele nunca tinha pedido para se casar comigo?

A estrada até Seattle estava silenciosa.

O som do limpador de para-brisa marcava um ritmo constante enquanto a chuva escorria pelo vidro do carro.

Edward dirigia com uma mão no volante e outra estava repousando sobre minha coxa. O gesto era tão familiar que parecia fazer parte da estrutura do universo.

— Você ficou quieta de repente — disse ele depois de alguns minutos.

— Só estou pensando.- Eu continuei olhando pela janela.

— Em quê?- questionou

— Em muita coisa.- Respirei fundo.

Edward não insistiu, apenas apertou minha coxa levemente.

— Você sabe que pode me contar qualquer coisa. -disse ele.

Eu sabia e talvez fosse exatamente por isso que as palavras ficaram presas na minha garganta. Porque se eu começasse aquela conversa…Eu não sabia se conseguiria parar.

No dia seguinte eu resolvi seguir o manual de alice, eu iria fazer uma viagem sem Edward, já havia comprado a passagem apenas de ida, sem data para volta e a minha mala estava aberta no meio da cama. Vestidos espalhados, sandálias, Óculos de sol e dentro de uma pequena nécessaire de renda preta…

Lingeries que Rosalie tinha praticamente empurrado para dentro da minha bolsa dizendo que “qualquer mulher precisa estar preparada para aventuras internacionais”.

Eu estava dobrando um vestido quando ouvi a porta do apartamento abrir.

O som das chaves.

Passos.

Edward.

Meu coração apertou automaticamente e ele apareceu na porta do quarto alguns segundos depois.

Ainda usando o terno do trabalho, com a gravata afrouxada e cabelo levemente bagunçado.

Os olhos dele percorreram o quarto lentamente e pararam na mala.

Silêncio.

— Então… — disse ele finalmente.

Continuei dobrando o vestido.

— Então?

Edward caminhou até a cama, abriu a nécessaire com curiosidade e tirou um conjunto de lingerie vermelho.

Extremamente vermelho.

Extremamente pequeno.

— Essa aqui é nova.- disse ele provocativo e levantou as sobrancelhas.

Respirei fundo, enquantoEdward segurou a peça entre os dedos.

— Eu vou nessa viagem… — disse ele lentamente — ou você está pensando em me trocar por um europeu?

O tom era brincalhão, mas naquele momento…Eu estava cansada demais para brincar.

— Quem sabe — respondi.

Ele piscou.

— O quê?

Fechei a mala devagar.

— Talvez quando eu voltar eu volte casada com um italiano.

O sorriso dele desapareceu.

— Bella…

— O que foi?

— Isso não tem graça.

— Engraçado — murmurei, olhando diretamente para ele — Você pareceu achar muita coisa engraçada no almoço de domingo.

Silêncio.

Edward passou a mão pelos cabelos.

— Aquilo foi só uma piada do Emmett.

Eu ri.

Mas não foi um riso feliz.

— Claro que foi.

— Bella…

— São dez anos, Edward.

Ele ficou completamente imóvel.

— Dez anos — repeti, sentindo a garganta apertar. — Todo mundo ao nosso redor está construindo uma vida… e nós continuamos exatamente no mesmo lugar.

— Eu não sabia que você estava se sentindo assim — disse ele em voz baixa.

Aquilo doeu,do jeito mais profundo possível.

— Eu achei que você soubesse — murmurei.

Ele deu um passo na minha direção.

— Bella…

Balancei a cabeça.

— Não faça isso.

— Isso o quê?

— Fingir que essa conversa é nova.- disse revirando os olhos.

Silêncio.

— O que você quer que eu faça? — perguntou ele.

Respirei fundo.

— Eu quero saber se nós estamos caminhando para o mesmo lugar.- confessei

Edward abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu e naquele momento…Eu entendi tudo.

— É isso — murmurei.

— Bella…

— Eu acho que nós precisamos de um tempo.

O silêncio que caiu entre nós parecia pesado demais para respirar.

— Um tempo? — repetiu ele.

— Sim.

— Você está terminando comigo?

— Não.

Olhei diretamente nos olhos dele.

— Eu só preciso descobrir quem eu sou sem estar esperando você tomar uma decisão.

Edward parecia completamente perdido.

— E o que isso significa para nós?

Segurei a alça da mala.

— Enquanto eu estiver na Itália…- Minha voz falhou por um segundo.— Eu vou estar solteira.

O silêncio que veio depois foi devastador.

Edward continuou parado no meio do quarto, como se ainda estivesse tentando entender em que momento aquela conversa tinha começado.

E talvez esse fosse exatamente o problema.

Para mim, aquela conversa vinha acontecendo há anos.

Em cada buquê que eu pegava.

Em cada casamento que assistíamos.

Em cada vez que alguém perguntava sobre nosso futuro.

Eu tinha dado todos os sinais.

E Edward…

Edward simplesmente não tinha visto nenhum deles.