Manual para ser pedida em casamento

3 Maybe It’s True That I Can’t Live Without You...



POV BELLA

O aeroporto de Seattle durante a madrugada tinha um tipo de silêncio estranho.

Não era exatamente silêncio, porque havia o som constante de malas sendo puxadas pelo chão polido do terminal, o eco distante das vozes no sistema de som anunciando voos para cidades que pareciam existir apenas em mapas, e o murmúrio baixo de conversas entre viajantes cansados que esperavam seus embarques segurando copos de café quente entre as mãos.

Ainda assim parecia silencioso.

Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, eu estivesse completamente sozinha.

Eu estava sentada perto do portão de embarque, segurando meu cartão entre os dedos enquanto observava as pessoas ao meu redor. Uma família inteira discutia sobre quem tinha ficado responsável pelas passagens. Um casal jovem dormia encostado um no outro em duas cadeiras apertadas. Um homem de terno digitava freneticamente no laptop enquanto falava ao telefone em um tom de voz que deixava claro que ele provavelmente ainda estava no trabalho, mesmo estando prestes a atravessar o oceano.

E então havia eu.

Sentada ali.

Esperando um avião que iria me levar para o outro lado do oceano.

Longe de tudo o que eu conhecia.

Longe da vida que eu tinha construído durante dez anos.

Longe de Edward.

Meu celular vibrou nas minhas mãos.

A tela acendeu com duas mensagens.

Alice:

Você já embarcou?

Rosalie:

Não desista agora.

Eu respirei fundo antes de responder.

Bella:

Estou indo.

Fiquei olhando para a tela por alguns segundos depois de enviar a mensagem, como se esperasse que algo dentro de mim mudasse de ideia naquele último momento.

Mas não mudou.

Alguns minutos depois chamaram meu voo.

As pessoas começaram a se levantar ao meu redor e formar uma fila organizada que avançava lentamente em direção ao portão.

Eu me levantei também.

Meu coração estava batendo mais rápido do que deveria. Não por medo, mas porque eu sabia que aquele momento significava algo muito maior do que apenas uma viagem.

Quando o avião finalmente decolou, Seattle desapareceu lentamente sob as nuvens. As luzes da cidade se tornaram pequenos pontos dourados até sumirem completamente.

Eu encostei a testa contra o vidro frio da janela enquanto o avião atravessava as nuvens.

Seattle desapareceu sob mim.

A cidade onde eu tinha construído dez anos da minha vida estava ficando para trás.

E pela primeira vez em uma década inteira…

Eu estava indo para algum lugar sem Edward Cullen.

Capri era ainda mais bonita do que eu imaginava.

A primeira coisa que me chamou atenção foi o mar.

O azul parecia impossível.

Perto das rochas, a água era turquesa clara, quase transparente, revelando pedras brancas no fundo. Mais longe ela se tornava um azul profundo que parecia não ter fim, refletindo o céu de uma maneira tão perfeita que às vezes era difícil distinguir onde um terminava e o outro começava.

As falésias brancas se erguiam acima do mar como muralhas naturais, pontilhadas por casas coloridas e jardins cheios de flores.

Era ridiculamente lindo.

O tipo de lugar que parecia ter sido criado exclusivamente para histórias de amor.

Eu passei a primeira semana explorando a ilha sozinha.

Caminhando por ruas estreitas cheias de lojas pequenas, tomando café em mesas ao ar livre enquanto observava turistas tirando fotos de cada esquina e passando horas sentada perto do mar apenas… pensando.

Pensando na minha vida.

Pensando em quem eu era sem Edward.

Pensando se era realmente possível existir sem aquela parte da minha história.

E na maioria das vezes…

A resposta parecia confusa.

Porque cada lugar bonito que eu via me fazia pensar automaticamente em uma coisa.

Edward teria adorado isso.

Uma semana depois de chegar em Capri, eu estava sentada em um pequeno bar perto da marina tentando abrir uma garrafa de vinho.

E falhando miseravelmente.

A rolha simplesmente não queria sair.

— Posso tentar? — perguntou uma voz masculina atrás de mim.

Eu virei o rosto.

E por um segundo esqueci completamente o que estava fazendo.

Porque o homem parado atrás de mim parecia ter saído diretamente de um daqueles filmes italianos antigos que passam tarde da noite na televisão.

Ele era alto, com cabelos escuros levemente bagunçados e olhos azuis intensos que pareciam carregar algum tipo de confiança natural.

— Posso? — repetiu ele com um pequeno sorriso.

— Claro — respondi, entregando o saca-rolhas.

Ele girou o objeto duas vezes.

A rolha saiu imediatamente.

— Pronto. — disse ele finalmente, puxando a rolha com facilidade antes de servir um pouco do vinho na minha taça.

O gesto foi calmo e elegante, como se abrir garrafas para desconhecidas em bares à beira do Mediterrâneo fosse uma coisa que ele fizesse todos os dias.

Ele colocou a garrafa sobre a mesa e estendeu a mão.

— Damon.

Eu apertei a mão dele.

— Bella.

Ele inclinou a cabeça levemente, me observando com uma curiosidade divertida que parecia estudar cada detalhe do meu rosto.

— Americana?

Eu ri baixo, levando a taça aos lábios.

— É tão óbvio assim?

Damon deu de ombros com um sorriso preguiçoso.

Solo un po’. — respondeu em italiano antes de completar em inglês. — Apenas um pouco.

Os olhos azuis dele brilharam com divertimento.

— Mas não se preocupe… Capri está cheia de americanos perdidos.

Ele fez uma pequena pausa antes de acrescentar:

— Mas poucos tão interessantes quanto você.

Damon puxou a cadeira à minha frente e se sentou como se aquela mesa tivesse sido reservada para ele desde o começo da noite. O movimento foi relaxado, confiante, como se ocupar o espaço ao meu redor fosse a coisa mais natural do mundo.

Ele apoiou os cotovelos na mesa e inclinou ligeiramente a cabeça.

Allora… — disse ele com um pequeno sorriso. — Está viajando sozinha, americana?

— Estou.

Damon assentiu devagar.

— Interessante… porque normalmente isso significa duas coisas.

— Quais?

Ele girou lentamente a própria taça de vinho.

— Ou você acabou de terminar com alguém…

Ele fez uma pequena pausa.

— …ou está pensando seriamente em terminar.

Eu ri baixo.

— Você sempre analisa estranhos em bares?

Damon sorriu de lado.

Tranquilla. Eu só faço isso com as pessoas interessantes.

Ele se inclinou um pouco mais para frente.

— E, mamma mia… você definitivamente parece ser uma delas.


POV EDWARD

O apartamento está silencioso.

Não é apenas silêncio.

É o tipo de silêncio que parece errado.

Como se algo essencial tivesse sido arrancado daquele lugar e deixado um espaço vazio no meio da sala.

Bella.

Eu caminho lentamente pela sala, passando a mão pelos cabelos enquanto observo tudo ao redor.

O sofá ainda tem a manta que ela sempre usava nas noites frias de Seattle.

O livro que ela estava lendo continua aberto na mesa de centro, com um marcador improvisado feito de papel dobrado.

Tudo está exatamente como ela deixou.

Mas ela não está.

Eu caminho até a cozinha e pego uma xícara de café.

Está frio.

Provavelmente porque eu esqueci de beber.

De novo.

Meu celular vibra sobre a bancada.

Eu sei exatamente o que vou ver antes mesmo de desbloquear a tela.

Fotos.

Capri.

Bella.

Eu deslizo o dedo pela tela.

Primeira foto.

Ela está sentada em um restaurante à beira do mar usando um vestido branco leve que o vento insiste em bagunçar. O sol ilumina o rosto dela enquanto ela sorri para quem tirou a foto.

Eu prendo a respiração.

Eu não lembro da última vez que vi Bella sorrir assim em Seattle.

E a pior parte…

é perceber que talvez eu tenha sido o motivo.

Livre.

Leve.

Como se o mundo não pesasse sobre os ombros dela.

Eu deslizo para a próxima foto.

E então meu estômago se contrai.

Porque ele está lá.

O italiano.

Moreno.

Alto.

Camisa branca aberta no peito.

Ele não está tocando nela.

Mas está perto o suficiente para que eu entenda o que está acontecendo.

Eu desligo a tela.

Mas a imagem continua na minha cabeça.

Bella.

Em Capri.

Sorrindo para outro homem.

Eu fecho os olhos.

— Como eu deixei isso acontecer… — murmuro, passando a mão pelo rosto.


POV BELLA

O sol começava a se pôr sobre o Mediterrâneo quando Damon e eu caminhávamos pela marina. A luz dourada refletia na água criando pequenos brilhos que pareciam dançar na superfície do mar.

Dai… — disse Damon depois de alguns segundos de silêncio. — Ninguém vem sozinho para Capri sem uma boa história por trás. Você veio esquecer alguém?

Eu demorei alguns segundos antes de responder.

— Eu acho… — murmurei por fim — que vim descobrir se consigo viver sem ele.

Damon virou o rosto para mim lentamente.

Capisco… — disse ele em tom baixo. — Isso explica muita coisa.

— Explica?

Ele assentiu.

— As pessoas que estão fugindo sempre olham para o mar desse jeito.

Eu ri.

— E de que jeito eu estou olhando?

Ele me observou por alguns segundos antes de responder.

— Como se estivesse tentando decidir se vale a pena voltar.

Nós paramos perto da borda do porto. O vento levantou meu cabelo e uma mecha caiu sobre meu rosto.

Damon levantou a mão e afastou a mecha com cuidado.

Cara mia… — murmurou suavemente. — O vento daqui tem péssimo timing.

O gesto foi simples.

Suave.

Mas meu coração acelerou mesmo assim.

E naquele momento eu percebi algo irritante.

Eu estava comparando.

Edward era calma.

Edward era segurança.

Edward era casa.

Damon…

Damon era outra coisa.

Impulsivo.

Provocador.

Perigosamente charmoso.

Ele se inclinou um pouco mais perto.

— Você está pensando demais.

— E isso é um problema?

Ele deu de ombros.

Magari. Capri não é um bom lugar para pensamentos complicados.

— E o que é um bom lugar para Capri?

Damon apontou para o horizonte, onde o sol começava a desaparecer no mar.

— Momentos simples.

Ele voltou os olhos para mim.

— Tipo duas pessoas caminhando juntas e percebendo que o pôr do sol fica melhor quando não se está olhando sozinho.

Eu ri baixo.

— Você sempre fala assim com turistas?

Ele sorriu.

Figurati. Só com as que parecem carregar uma história interessante.

Eu fiquei em silêncio.

Porque naquele momento uma lembrança surgiu na minha cabeça.

Edward segurando minha mão.

Edward sorrindo para mim em algum lugar qualquer de Seattle.

Edward dizendo que me amava.

E naquele momento eu percebi uma coisa dolorosa.

Talvez eu tivesse vindo para Capri descobrir quem eu era sem Edward.

Mas isso não significava que eu tinha deixado de ser a pessoa que o amava.

Porque algumas histórias…

mesmo quando parecem quebradas…

ainda continuam vivendo dentro da gente.

E algumas pessoas…

mesmo quando estão a um oceano de distância…

ainda fazem o mundo inteiro parecer incompleto.