Manual para ser pedida em casamento

18 Will You Still Love Me When I’m No Longer YoungandBeautiful?


POV BELLA

A Toscana era bonita demais para ser real.

E talvez fosse exatamente por isso que tudo parecia errado.

O sol atravessava os vinhedos com uma suavidade quase cruel, iluminando cada detalhe daquele lugar como se fosse uma pintura viva, perfeita demais, silenciosa demais, como se o mundo tivesse sido cuidadosamente moldado para parecer seguro… enquanto, na verdade, tudo ali gritava o contrário. O vento era leve, o cheiro de terra aquecida pelo calor preenchia o ar, e por alguns segundos , poucos demais ,eu quase consegui esquecer.


Mas então eu puxei a maçaneta novamente e ela não abriu.

Meu coração desacelerou de forma estranha.

Não em alívio,mas em compreensão.

Eu não estava ali por escolha.

Eu estava presa.


— Non funziona così… — a voz dele veio atrás de mim, baixa, quase paciente demais.


Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo o ar pesar dentro do peito, antes de me virar lentamente.


Damon estava encostado na parede como se estivesse assistindo tudo aquilo há muito tempo, como se cada tentativa minha fosse apenas parte de algo que ele já tinha previsto. Os braços cruzados, a postura relaxada, o olhar fixo em mim com uma intensidade que não era mais charmosa… era sufocante.


— Abre a porta — eu disse, firme, mesmo com o coração batendo mais rápido.


Ele não se moveu.


— Não.


— Eu não estou pedindo — dei um passo à frente.


— Nem eu estou oferecendo — respondeu, descruzando os braços devagar.


O silêncio entre nós se esticou, pesado, cheio de tensão acumulada, como se qualquer palavra errada pudesse incendiar tudo de vez.


— Isso não vai funcionar — eu disse, sustentando o olhar — você não pode me manter aqui.


Ele inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando a frase.


— Eu já estou mantendo.


— Contra a minha vontade.


— Ainda assim… — ele se aproximou um passo — você não foi embora.


Aquilo me atingiu direto.


— Porque você não me deixa ir — retruquei.


— Porque você não sabe para onde ir — ele respondeu.


— Eu sei exatamente — minha voz falhou por um segundo — eu quero voltar pra casa.


Silêncio.


E então ele sorriu.


Mas não foi leve.


— Questa… — ele murmurou, olhando ao redor — é a sua casa agora.


Meu estômago revirou.


— Não — eu disse — nunca vai ser.


O olhar dele mudou.


Lentamente.


Como se algo dentro dele estivesse sendo empurrado para fora.


— Edward deixou você ir — ele disse.


Aquilo doeu.


— Ele me deixou escolher.


— Ele te deixou fugir — corrigiu.


— Você não sabe nada sobre nós.


— Sei mais do que você imagina.


Silêncio.


Pesado.


Perigoso.


— Eu vi você antes mesmo de você saber quem eu era — ele continuou, a voz mais baixa agora — desde a revista… desde o primeiro dia.


Meu coração falhou.


— O quê?


Ele deu mais um passo.


— Eu sabia que você ia quebrar — disse — só precisava esperar o momento certo.


Aquilo gelou meu sangue.


— Você é doente.


Ele sorriu.


— Io sono determinato.


— Isso não é amor — eu disse.


— Eu nunca disse que era.


Silêncio.


— É melhor.


O ar ficou pesado demais.


— Não chega perto de mim — eu disse, recuando um passo.


Mas ele não parou.


Nunca parava.


E dessa vez… não havia espaço.


A mão dele agarrou meu braço com força, puxando meu corpo contra o dele antes que eu pudesse reagir, e o impacto da proximidade tirou o ar dos meus pulmões.


— Damon— tentei, mas não consegui terminar.


Porque ele não estava ouvindo.


Os lábios dele vieram contra os meus sem aviso, sem espaço, sem escolha.


Não foi um beijo.

Foi invasão.

Meu corpo travou por um segundo.

Um único segundo e então eu empurrei, com força.


— NÃO! — minha voz saiu quebrada.


Eu recuei, respirando rápido, o peito subindo e descendo sem controle.


— Não encosta em mim… — disse, a voz falhando.


E então...o tapa.


O som ecoou seco, meu rosto virou com a força do impacto, a pele queimando imediatamente, e por um segundo o mundo pareceu sair do eixo, como se tudo tivesse sido deslocado dentro de mim.


Silêncio.

Pesado.

Irreal.


Quando levantei os olhos…ele não parecia arrependido.


Parecia… frustrado.


— Non fare così… — disse, passando a mão pelo rosto — você força situações que poderiam ser… perfeitas.


Meu estômago revirou.


— Perfeitas? — repeti, quase rindo de incredulidade.


Ele se aproximou de novo, mais lento.

Mais controlado.


— Eu estou te dando tudo — disse — e você ainda luta.


— Isso não é dar — eu rebati — isso é tirar.


Silêncio.

E então…ele me encurralou.

De novo.

A parede nas minhas costas, sem espaço.

Sem saída.


— Você ainda vai entender — ele murmurou.


Minha respiração travou.


— Eu nunca vou querer isso — eu disse.


Ele segurou meu rosto.

Forte demais.


— Vai — respondeu.


E foi nesse momento…que algo dentro de mim mudou.


Porque o medo ainda estava ali.

Mas não era mais maior que a certeza.

Eu não ia ceder.

Mesmo quando ele tentou me dobrar.

Mesmo quando o mundo pareceu encolher.

Mesmo quando tudo ficou confuso, pesado, distante demais…

Eu não me entreguei.

Porque enquanto eu ainda soubesse quem eu era…ele nunca teria tudo.

Nunca.

E foi isso que me manteve ali.

Respirando.

Resistindo.

Esperando.

Porque, em algum lugar…eu sabia.


Isso ainda não tinha acabado.

E quando acabasse…não seria do jeito que ele queria.



A água estava quente demais.

Quente a ponto de arder.


Quente a ponto de fazer minha pele ficar vermelha, sensível, quase dolorida… e ainda assim não era suficiente. Eu aumentei mais. Girei o registro até onde dava, até o vapor começar a tomar conta do banheiro, até o ar ficar pesado e difícil de respirar, até não conseguir mais enxergar meu próprio reflexo no espelho.


Mas eu ainda sentia.

Eu fechava os olhos e ainda sentia.

Como se aquilo tivesse ficado gravado na minha pele.

Como se meu corpo não fosse mais meu.


Minhas mãos tremiam enquanto eu esfregava os braços com força, depois os ombros, depois o colo, descendo rápido demais, desesperada demais, como se existisse alguma maneira de apagar aquilo, como se fosse sujeira de verdade, algo físico, algo que pudesse simplesmente ser removido.


— Sai… — eu sussurrei, a voz falhando — sai de mim…


Mas não saía.


Nada saía.


A água escorria, levava o calor, levava o vapor… mas não levava a sensação.

Meu estômago revirou.


Eu me apoiei na parede do box, sentindo o azulejo frio contrastar com a temperatura da minha pele, tentando me ancorar em alguma coisa real, alguma coisa que ainda fosse minha, porque naquele momento… eu não tinha certeza de mais nada.


Eu não me reconhecia.

Era como olhar para alguém que eu conhecia… mas não era eu.

Meu corpo estava ali.

Mas eu não estava dentro dele.


— Isso não sou eu… — murmurei, fechando os olhos com força.


E então…Edward.


A imagem dele veio sem aviso.

O jeito que ele me olhava.

O cuidado.

O toque.


A forma como ele sempre esperava.


Sempre respeitava.

Meu peito apertou de um jeito quase insuportável.


— Edward… — meu sussurro saiu quebrado.


A água continuava caindo.

Mas agora eu não estava mais tentando limpar nada.

Eu só estava tentando não desmoronar.


Porque pela primeira vez…eu senti medo de mim.


Medo de nunca mais conseguir me sentir inteira de novo.



POV EDWARD


O silêncio dentro do carro não era silêncio.

Era tensão.

Era urgência.


Era o tipo de quietude que existe quando todo mundo está pensando na mesma coisa… mas ninguém quer dizer em voz alta.


Stefan estava dirigindo.


Os olhos fixos na estrada, a postura rígida, as mãos firmes demais no volante.


Charlie estava no banco da frente e eu nunca tinha visto ele assim.


Não era só preocupação.

Era fúria.

Crua.

Contida.


— Você tem certeza que é aqui? — ele perguntou, a voz baixa, mas carregada.


— Tenho — Stefan respondeu — ele sempre usa essa propriedade quando quer… privacidade.


Aquilo me deu náusea.

Privacidade.

Era assim que ele chamava aquilo.

Meu maxilar travou.


Eu olhava pela janela, mas não via a paisagem, não via a estrada, não via nada além dela.


Bella.


A última vez que eu vi ela.

O jeito que ela me olhou.

O jeito que ela disse que estava com medo.

E eu deixei.


Deixei ela sair.


Meu peito apertou.


— A gente vai chegar a tempo — Stefan disse de repente.


Eu não respondi.

Porque não era isso que importava.

O que importava era em que estado eu ia encontrar ela.



POV BELLA


O vestido era lindo.

Era perfeito e eu odiava ele.


O tecido branco caía com delicadeza pelo meu corpo, ajustado na medida certa, elegante demais, sofisticado demais… como se aquilo fosse um casamento de verdade.


Como se aquilo fosse escolha.


Minhas mãos estavam apoiadas no colo, imóveis, enquanto alguém ajeitava o tecido, prendia algo no meu cabelo, falava coisas em italiano que eu mal conseguia processar.


O mundo estava… lento...

Pesado.

Distante.


— Devi rilassarti, amore… — a voz dele veio suave atrás de mim.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Tensão.

Imediata.


— Eu não sou sua — murmurei, quase sem força.


Ele se aproximou.

Muito perto.


— Ancora… — respondeu baixo — você ainda acha isso.


Meu estômago revirou.

Eu tentei me levantar.

Mas meu corpo não respondeu como deveria.

Pesado.

Lento.


Erado.


— O que você fez… — minha voz saiu fraca.


Ele sorriu.


— Só te ajudei a parar de lutar.


Meu coração disparou.

Mas meu corpo…


não acompanhava.



POV EDWARD


O carro parou e eu não esperei.


A porta abriu antes mesmo do motor desligar completamente, meus pés tocando o chão com pressa demais, com urgência demais, como se cada segundo fosse um risco real.


A casa estava ali.


Bonita.


Silenciosa.


Errada.


— Espera — Stefan disse, vindo atrás de mim — a gente precisa entrar com calma.


— Eu não vou entrar com calma — respondi.


Charlie veio logo atrás.


— Eu também não.


Stefan respirou fundo.


— Então entrem rápido.


E foi isso que fizemos.



POV BELLA


O corredor parecia mais longo do que deveria.

As luzes suaves.

O som distante.

As vozes.

Tudo parecia… fora do lugar.

Minha cabeça girava.

Meus pensamentos não se conectavam direito.

E então…eu vi.


Edward.

Parado na minha frente.

Os olhos azuis.

A expressão firme.

A presença.

Meu coração disparou.

— Edward… — sussurrei, tentando alcançá-lo.


Minha mão passou pelo ar.

Vazio.


Ele não estava ali.

Era só minha mente tentando me salvar.

E aquilo… doeu mais do que qualquer coisa.


— Vieni… — Damon disse, segurando meu braço.


Eu não reagi.

Não consegui.

POV EDWARD


A porta se abriu com força.

O som ecoou pela casa inteira e tudo dentro de mim parou por um segundo.


Porque eu sabia.

Eu sabia que ela estava ali e eu estava chegando, mas não sabia se ainda era tarde.

E aquilo…aquilo era o pior de tudo.