Manual para ser pedida em casamento
19 Take Me To Church
Notas iniciais
POV BELLA
A Toscana parecia um sonho mal contado, daqueles que começam bonitos demais e, sem aviso, se transformam em algo errado, distorcido, impossível de ignorar. O sol atravessava os vitrais altos da capela improvisada, espalhando luz dourada pelo chão de pedra, desenhando padrões perfeitos que não combinavam com o peso que existia dentro de mim. Tudo ali era cuidadosamente pensado para parecer elegante, para parecer digno de um casamento de conto de fadas, mas a verdade era que cada detalhe gritava controle, cada flor perfeitamente posicionada, cada cadeira alinhada, cada olhar atento das pessoas presentes… tudo fazia parte de um cenário onde eu não tinha escolha. O vestido branco abraçava meu corpo como uma mentira bem construída, leve no tecido, mas pesado no significado, porque nada daquilo era pureza, nada daquilo era começo, nada daquilo era amor. Minhas mãos estavam frias, imóveis ao lado do corpo, enquanto eu caminhava pelo corredor, sentindo como se estivesse assistindo a mim mesma de fora, como se aquela não fosse realmente eu, apenas uma versão vazia sendo conduzida até um destino que eu nunca teria escolhido. O som da música ecoava suave, quase bonito, mas distante, como se estivesse vindo de outro lugar, como se não fosse feito para mim, e talvez não fosse mesmo. Porque naquele momento, tudo o que eu conseguia sentir era uma mistura sufocante de confusão, medo e uma sensação constante de que algo dentro de mim estava prestes a quebrar de vez.
— Respira, amore… — a voz de Damon veio ao meu lado, baixa, controlada, suave demais para alguém que estava destruindo tudo ao meu redor, e aquilo fez meu estômago revirar de um jeito quase instantâneo, porque não havia hesitação nele, não havia dúvida, não havia culpa.
Eu não olhei para ele, mas senti sua presença se aproximando, senti o calor do corpo dele perto demais, senti o controle que ele exercia sem nem precisar tocar, e isso era pior do que qualquer coisa. Eu tentei falar, tentei puxar alguma força de dentro de mim que ainda fosse minha, mas minha voz saiu fraca, quebrada, como se não tivesse peso suficiente para existir naquele espaço que ele dominava completamente.
— Eu não… — comecei, mas não consegui terminar, porque nem eu sabia exatamente o que estava tentando dizer, talvez um pedido, talvez um protesto, talvez um último resquício de resistência que ainda insistia em sobreviver.
— Ancora… — ele murmurou, inclinando levemente a cabeça, como se estivesse realmente interessado, como se aquilo fosse apenas mais um detalhe dentro de algo inevitável — você ainda acha que pode lutar contra isso?
Aquilo me atingiu de um jeito estranho, porque não era só provocação, era convicção, e isso tornava tudo mais perigoso. Eu dei mais um passo, depois outro, o vestido deslizando pelo chão com um som suave demais para o que aquilo representava, e foi então que eu vi. No fim do corredor, parado como se não pertencesse àquele cenário, como se fosse a única coisa real em meio àquela encenação cuidadosamente construída, estava Edward. O coração bateu forte, forte demais, como se estivesse tentando compensar todo o tempo em que ficou silencioso, e por um segundo eu não soube se aquilo era real ou apenas mais uma ilusão criada pela minha própria mente desesperada.
— Edward… — meu sussurro saiu quase sem ar, fraco, mas carregado de tudo que ainda existia dentro de mim.
Ele não desapareceu. Não se dissolveu como as outras imagens. Ele estava ali, firme, os olhos fixos em mim com uma intensidade que atravessava tudo, que atravessava o vestido, o espaço, o controle, que atravessava até mesmo o estado confuso da minha mente. E naquele instante, pela primeira vez desde que tudo começou, eu senti algo diferente do medo. Eu senti esperança.
POV EDWARD
A porta se abriu com um impacto que ecoou pela capela inteira, o som forte quebrando a falsa harmonia daquele lugar e arrancando todos da ilusão confortável que Damon havia construído. Eu não lembrava de ter pensado, não lembrava de ter decidido, porque no momento em que eu vi Bella ali, parada no altar, vestida de branco, com aquele olhar distante que não combinava com ela, tudo dentro de mim simplesmente reagiu. Meu corpo se moveu antes da minha mente, meus passos firmes demais contra o chão, meus olhos incapazes de sair dela, como se qualquer desvio fosse um risco real de perdê-la de novo. O ambiente era bonito, absurdamente bonito, mas não importava, nada importava além dela. Cada detalhe parecia fora de lugar quando comparado com a imagem dela ali, imóvel demais, silenciosa demais, como se estivesse presente apenas fisicamente, enquanto o resto dela estava lutando em algum lugar onde eu não conseguia alcançar. Meu peito apertou de um jeito violento, quase insuportável, porque aquilo não era só errado, aquilo era cruel, e eu senti, com uma clareza brutal, que se eu tivesse chegado alguns minutos depois… talvez não houvesse mais nada para salvar.
— Bella… — minha voz saiu baixa, mas firme o suficiente para atravessar o espaço entre nós, carregada de tudo que eu não tive coragem de dizer antes, de tudo que eu deixei para depois achando que teria tempo.
O silêncio caiu pesado, denso, quase palpável, e eu senti todos os olhares se voltarem para mim, mas nenhum deles importava. Damon virou o rosto devagar, como se aquilo fosse apenas mais uma interrupção inconveniente, como se ele ainda estivesse no controle de tudo, e quando ele sorriu, aquele sorriso calmo, calculado, eu soube que nada ali seria simples.
— Sempre dramático, Cullen… — ele disse, com uma leve inclinação de cabeça, como se estivéssemos em uma conversa casual, como se aquilo não fosse um sequestro disfarçado de casamento — Você tem um timing interessante.
Eu não respondi imediatamente, porque não havia nada que valesse a pena dizer para ele naquele momento. Tudo o que importava estava na minha frente, e eu precisava que ela voltasse, precisava que ela me visse, precisava que ela escolhesse. Eu dei um passo à frente, sentindo cada músculo do meu corpo tenso, preparado, pronto para qualquer coisa que viesse.
— Solta ela — disse, simples, direto, sem espaço para interpretação, porque aquilo não era um pedido, nunca foi.
Damon não se moveu, mas algo mudou no olhar dele, algo sutil, quase imperceptível, mas suficiente para deixar claro que aquela situação não estava mais exatamente como ele havia planejado. E foi nesse instante, nesse pequeno espaço de tensão crescente, que tudo saiu do controle de uma forma que ninguém ali poderia prever.
POV BELLA
O mundo voltou de uma vez só, como se alguém tivesse arrancado um véu pesado que estava sobre mim, e tudo ficou mais nítido, mais intenso, mais real do que eu estava preparada para lidar. Eu vi Edward, de verdade, não como uma lembrança, não como um desejo, mas ali, presente, olhando para mim como se eu ainda fosse dele, como se nada tivesse sido suficiente para apagar o que existia entre nós. Meu coração disparou de um jeito quase desesperado, e meu corpo finalmente respondeu, finalmente se moveu, finalmente tentou ir até ele, porque tudo em mim gritava que era ali que eu precisava estar. Mas então a mão de Damon fechou ao redor do meu braço, firme, forte, impedindo qualquer movimento, trazendo de volta aquela sensação sufocante de controle que eu estava tentando escapar.
— Non andare… — ele disse baixo, perto demais, como se ainda tivesse o direito de decidir por mim.
— Me solta — eu respondi, puxando o braço com força, sentindo pela primeira vez que eu tinha energia suficiente para lutar de verdade.
E foi nesse momento que tudo aconteceu rápido demais. Eu vi o movimento antes mesmo de entender completamente, vi a mudança no corpo dele, vi a intenção antes da ação, e quando percebi, já era tarde. A arma surgiu na mão dele como algo natural demais, como se sempre tivesse feito parte daquele plano, e o som do disparo cortou o ar de uma forma brutal, definitiva, impossível de ignorar.
Eu não pensei.
Não hesitei.
Eu só agi.
Meu corpo se moveu por instinto, por amor, por algo mais forte do que qualquer medo, e quando eu me joguei na frente de Edward, tudo o que existia dentro de mim se resumiu a uma única certeza: eu não ia deixar ele levar aquele tiro.
O impacto veio como um choque seco, inesperado, e por um segundo… não houve dor. Apenas um vazio estranho, um silêncio interno que parecia absorver tudo ao redor, como se meu corpo tivesse desligado a própria percepção para lidar com o que estava acontecendo. Mas então o calor veio, espalhando rápido pelo meu peito, pesado, sufocante, e minha respiração falhou de uma forma que eu nunca tinha sentido antes.
— Edward… — tentei dizer, mas minha voz saiu fraca, distante, como se não fosse realmente minha.
Os braços dele me seguraram antes que eu caísse completamente, fortes, desesperados, como se ele pudesse me manter ali apenas pela força da vontade.
E naquele momento, enquanto tudo começava a desaparecer de novo, enquanto os sons se afastavam e a luz ficava mais difusa, eu soube.
Eu tinha escolhido e ninguém podia tirar isso de mim.
POV EDWARD
O mundo não desacelerou quando Bella caiu nos meus braços, ele simplesmente deixou de existir da forma que eu conhecia, como se tudo ao redor tivesse sido sugado para um ponto distante enquanto apenas uma única coisa permanecia real: ela. O peso do corpo dela contra o meu não era só físico, era absoluto, era o tipo de presença que preenchia cada espaço dentro de mim e, ao mesmo tempo, parecia escapar por entre meus dedos como algo impossível de segurar. O vestido branco, que minutos antes parecia apenas parte de uma encenação cruel, agora estava manchado de vermelho, um vermelho vivo demais, quente demais, espalhando-se rápido pelo tecido como se estivesse contando uma história que eu me recusava a aceitar. Minhas mãos tremiam enquanto seguravam o rosto dela, como se o simples ato de tocá-la fosse a única coisa que me mantinha de pé, como se qualquer deslize pudesse fazer tudo desmoronar de vez, e talvez fosse exatamente isso. O som ao redor, vozes, passos, gritos, tudo parecia distante, irrelevante, porque nada daquilo importava enquanto os olhos dela ainda estavam abertos, enquanto ainda existia alguma resposta, alguma centelha de vida ali.
— Bella… — minha voz saiu quebrada, arrastada, como se tivesse sido arrancada de dentro de mim com força — Fica comigo… por favor… olha pra mim…
Ela piscou devagar, como se o mundo estivesse pesado demais para acompanhar, como se cada movimento exigisse uma luta silenciosa que ninguém além dela podia ver, e ainda assim ela tentou, porque era isso que ela fazia, ela sempre tentava, mesmo quando tudo estava contra ela. O olhar dela encontrou o meu com dificuldade, mas quando encontrou, foi como se todo o resto desaparecesse de novo, como se aquele instante fosse o único que realmente importava. Eu me inclinei mais, aproximando meu rosto do dela, como se pudesse encurtar a distância entre nós, como se isso fosse suficiente para impedir o inevitável, como se a proximidade pudesse ancorá-la ali comigo.
— Eu tô aqui… — sussurrei, desesperado, sentindo a própria voz falhar no meio das palavras — Você vai ficar comigo, tá ouvindo? Você vai ficar…
Mas eu sabia que não era uma promessa que eu podia cumprir, e essa era a parte mais cruel de tudo, porque pela primeira vez na minha vida, amar alguém não era suficiente para proteger.
Atrás de mim, o som veio como um rasgo violento na realidade, um colapso que não podia ser ignorado, e mesmo sem querer, mesmo sem desviar completamente a atenção dela, eu soube. Damon não era mais o homem controlado, frio, calculista que tinha construído aquele cenário absurdo, ele era apenas alguém quebrando, e quando olhei, a visão confirmou aquilo de uma forma quase desconfortável. Ele estava no chão, literalmente no chão, como se as pernas não fossem mais capazes de sustentá-lo, como se o próprio corpo tivesse desistido de funcionar diante do que tinha acontecido. As mãos dele tremiam de um jeito incontrolável, os olhos arregalados demais, fixos em Bella como se ele estivesse tentando voltar no tempo apenas olhando, como se aquilo pudesse ser desfeito se ele quisesse o suficiente.
— Io non volevo… — a voz dele saiu em pedaços, arrastada, quase irreconhecível — Bella… amore… guardami… per favore…
Meu corpo reagiu imediatamente, puxando ela mais contra mim, protegendo mesmo sabendo que já era tarde para isso, mesmo sabendo que aquele gesto não mudaria o que já tinha sido feito, mas era instinto, era necessidade, era tudo que me restava naquele momento.
— Não chega perto — falei baixo, mas firme, a voz carregada de um aviso que não precisava ser repetido.
Mas Damon não parou, ele não conseguia parar, como se tivesse perdido completamente qualquer noção de limite, de espaço, de consequência. Ele se arrastou pelo chão até nós, o movimento desesperado, desordenado, e quando chegou perto, hesitou por um segundo antes de estender a mão, como se pela primeira vez estivesse entendendo que não tinha mais o direito de tocar nela, e aquilo… aquilo foi estranho, porque naquele instante, ele não parecia perigoso, ele parecia destruído.
— Bella… — a voz dele quebrou completamente — resta con me… ti prego… non andare…
E pela primeira vez desde que tudo começou, eu senti algo que eu não esperava sentir.
Pena.
Não porque ele merecesse, não porque aquilo apagasse nada, mas porque o que estava diante de mim não era mais um homem no controle da situação, era alguém assistindo tudo desmoronar sem poder impedir.
POV BELLA
O mundo estava distante de novo, mas não como antes, não pesado, não confuso, mas leve demais, como se estivesse escorregando para longe de mim aos poucos, como se tudo estivesse ficando silencioso de uma forma estranha, quase tranquila. Ainda assim, havia coisas que atravessavam, havia vozes que conseguiam chegar até mim, e a principal delas era a dele. Edward. Sempre Edward. O toque dele ainda estava ali, firme, quente, real, e isso me mantinha presa por mais alguns segundos, por mais alguns instantes que pareciam preciosos demais para serem desperdiçados.
— Edward… — murmurei, reunindo o pouco de força que ainda existia em mim, sentindo a própria voz escapar como um sopro frágil.
Ele respondeu na mesma hora, como se estivesse esperando, como se estivesse com medo de perder qualquer sinal de que eu ainda estava ali.
— Eu tô aqui… eu tô aqui, amor… — disse, a voz falhando, quebrando, carregada de um desespero que eu nunca tinha ouvido antes.
E aquilo doeu, doeu de um jeito diferente, porque eu não queria que ele sofresse, não daquele jeito, não por minha causa. Eu tentei sorrir, mas não sabia se consegui, não sabia se meu corpo ainda respondia como deveria, mas dentro de mim, tudo estava claro, tudo estava simples de uma forma que eu não tinha sentido antes.
— Sempre… você… — consegui dizer, com dificuldade, cada palavra exigindo mais esforço do que parecia justo — sempre você…
Os olhos dele encheram, e aquilo me partiu, porque Edward Cullen não chorava assim, não daquele jeito, não sem motivo, e eu queria dizer que estava tudo bem, queria acalmar ele como ele sempre fazia comigo, mas o tempo parecia curto demais para tudo que eu ainda queria dizer.
— Você… é a única coisa… — continuei, sentindo o ar falhar, pesado, difícil — que passa na minha cabeça… mesmo agora…
Respirei com dificuldade, sentindo o corpo ficar mais leve, mais distante, e então disse aquilo que sempre foi verdade, aquilo que nunca mudou, aquilo que nem o caos, nem a dor, nem o medo conseguiram apagar.
— Eu te amo…
E naquele momento, não havia dúvida, não havia confusão, não havia nada além da certeza de que aquilo era a única coisa que realmente importava.
Então eu senti Damon.
Não como antes.
Mas diferente.
Quebrado.
— Bella… io ti amo… — a voz dele veio em pedaços, desesperada — non sei come Katherine… non sei Elena… io… io ti amo davvero…
Eu virei o rosto com dificuldade, encontrando ele pela última vez, e pela primeira vez, eu vi quem ele realmente era sem nenhuma máscara, sem nenhum controle, apenas alguém que tinha se perdido completamente dentro do próprio amor distorcido.
— Eu sei… — murmurei, com o pouco de voz que ainda tinha — Eu te perdoo, Damon …
E aquilo…
acabou com ele.
Ele gritou, um som cru, rasgado, completamente fora de controle, como se aquela fosse a única coisa que ele não suportava ouvir, como se o perdão fosse mais doloroso do que qualquer punição.
— NON MI PERDONARE! — ele gritou, batendo no chão, completamente destruído — UCCIDIMI! QUALCUNO MI UCCIDA!
E naquele momento, enquanto tudo ao redor se desfazia, enquanto as vozes se perdiam, enquanto a luz ficava distante demais…eu só segurei naquilo que era meu.
Edward.
E a escolha que eu fiz.
E isso… foi o suficiente.
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