Manual para ser pedida em casamento
7 We could have had it all… but we loved in the dark...
Notas iniciais
POV BELLA
Capri nunca dorme.
Eu demorei alguns dias para perceber isso, mas naquela madrugada ficou impossível ignorar. A cidade continuava viva mesmo quando tudo ao meu redor parecia em silêncio. As luzes ainda brilhavam nas encostas, o mar continuava se movendo lá embaixo com aquela calma enganosa, e o vento carregava o som distante de risadas, música, taças sendo erguidas em algum lugar que não era o meu quarto.
Mas dentro de mim…
Tudo estava quieto demais.
Eu não consegui dormir.
Fiquei deitada por horas olhando para o teto, revivendo cada segundo daquela noite como se minha mente estivesse determinada a me punir por cada sentimento que eu ainda não tinha coragem de organizar. O jantar, os olhares, a presença de Edward… a forma como tudo parecia ter voltado sem aviso, como se o tempo não tivesse passado e, ao mesmo tempo, tivesse passado demais.
Depois de um tempo, eu desisti.
Levantei devagar, sentindo o frio do chão nos pés descalços, e caminhei até a varanda. O ar noturno me atingiu de imediato, fresco, salgado, real demais. Eu me apoiei na grade de ferro e fechei os olhos por um segundo, tentando encontrar algum tipo de equilíbrio dentro do caos que parecia ter se instalado em mim.
Eu achei que fugir fosse suficiente.
Achei que mudar de país, de rotina, de cenário… fosse suficiente para reorganizar o que eu sentia.
Mas ninguém nunca me contou que a parte mais difícil não é ir embora.
É perceber que o amor vai junto.
Meu celular vibrou sobre a mesa atrás de mim.
Eu não precisei olhar para saber quem era.
Alice.
Suspirei antes de atender.
— Bella?
— Estou acordada — respondi antes mesmo dela perguntar.
— Eu imaginei.
Havia algo diferente na voz dela.
Menos leve.
Mais… direta.
— Você pode vir até o nosso quarto?
Eu hesitei por um segundo.
— Agora?
— Agora.
E Alice não era do tipo que repetia pedidos.
O quarto delas estava iluminado apenas por um abajur quando entrei. Rosalie estava sentada na poltrona perto da janela, braços cruzados, expressão séria demais para aquele horário. Alice estava em pé, andando de um lado para o outro como se estivesse organizando pensamentos invisíveis.
As duas me olharam ao mesmo tempo.
E eu soube.
Aquilo não era uma conversa leve.
— Senta — Rosalie disse, direta.
Eu sentei na ponta da cama.
O silêncio que veio depois foi desconfortável.
Pesado.
Real.
Alice foi a primeira a falar.
— A gente precisa conversar.
Eu soltei uma pequena risada sem humor.
— Isso nunca termina bem.
— Não termina mesmo — Rosalie respondeu.
Aquilo me fez levantar os olhos.
Alice parou de andar e me encarou.
— Bella… você precisa colocar os pés no chão.
A frase veio sem suavidade.
Sem rodeio.
E doeu mais do que eu esperava.
— Eu estou com os pés no chão — rebati, mesmo sabendo que não era totalmente verdade.
Rosalie arqueou uma sobrancelha.
— Sério? Porque da última vez que eu chequei… você está há quase um mês em outro país, sem trabalhar, sem falar direito com seu pai, ignorando completamente a vida que você construiu por dez anos.
Silêncio.
— Isso não é você — ela completou.
Aquilo me atingiu.
Forte.
Alice se aproximou um pouco mais.
— A gente entende por que você veio — ela disse, mais calma agora. — Entende mesmo e super te apoiamos. Mas isso… — ela fez um gesto vago ao redor — …isso não pode virar sua nova realidade baseada só em emoção.
Eu engoli em seco.
— Eu precisava de um tempo.
— Tempo não é abandono — Rosalie respondeu na hora.
A firmeza dela me fez desviar o olhar.
— Você não só se afastou do Edward — ela continuou — Você se afastou de tudo.
Alice respirou fundo antes de continuar.
— E agora você está no meio de um furacão emocional tentando tomar uma decisão que vai afetar o resto da sua vida.
Meu peito apertou.
— Eu não estou tomando decisão nenhuma.
— Esse é exatamente o problema — Alice respondeu.
Silêncio.
Pesado.
Sufocante.
— E o Edward? — ela perguntou então.
Meu coração apertou automaticamente.
— O que tem ele?
Alice me olhou como se estivesse tentando me fazer encarar algo que eu estava evitando.
— Você ama ele.
Eu não respondi.
Porque negar seria mentira.
— Mas você também está machucada — ela continuou. — E isso muda tudo.
Rosalie assentiu.
— Amar alguém não significa que você tem que aceitar tudo.
As palavras ficaram no ar.
E então…
Alice mudou completamente o tom.
— E tem outra coisa.
Eu levantei os olhos.
— Damon.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
— O que tem ele?
Alice cruzou os braços.
— Você mal conhece ele, Bella.
— Eu conheço o suficiente.
Rosalie soltou um riso curto.
— Conhece?
Aquilo me irritou.
— Ele é gentil, ele...
— Ele é perfeito demais — Rosalie interrompeu.
Silêncio.
Alice se aproximou mais.
— Você sabe quem é a família dele?
Eu franzi a testa.
— Isso não importa.
— Importa sim.
A voz dela ficou mais séria.
Mais afiada.
— Você já pesquisou sobre ele?
Meu silêncio respondeu.
Alice suspirou.
— Eu pesquisei.
Meu estômago revirou.
— Alice…
— Existem coisas — ela continuou — Que não são exatamente… bonitas.
Rosalie se inclinou para frente.
— O nome Salvatore aparece em uns sites de fofoca europeus com frequência demais.
Meu coração acelerou.
— Que tipo de coisas?
Alice hesitou.
O que era raro.
— Escândalos.
— Dinheiro.
— Negócios… duvidosos.
Rosalie completou:
— E o irmão dele.
Aquilo me fez travar.
— Irmão?
— Sim — Alice disse. — E, aparentemente… ele é pior.
O silêncio que caiu foi pesado demais.
— Isso não significa que ele seja uma pessoa ruim — Alice continuou rapidamente. — Mas significa que você não conhece a história completa.
Eu fiquei parada.
Tentando processar.
— Bella — Rosalie disse, mais suave dessa vez — Você está se apaixonando por alguém em um mês… enquanto ainda ama outra pessoa há dez anos.
Aquilo…
Aquilo foi o golpe final.
— Isso não é um conto de fadas — Alice completou. — E você não pode tomar essa decisão só porque Capri é bonita.
Meus olhos arderam.
— Então o que vocês querem que eu faça?
Alice me encarou.
— Eu quero que você seja honesta.
— Com quem?
Ela não hesitou.
— Com você.
Eu saí do quarto delas com o coração completamente bagunçado.
As palavras ainda ecoando.
Edward.
Damon.
Minha vida.
Minhas escolhas.
Eu caminhei sem pensar.
Sem destino.
Até parar.
Na frente dele.
POV EDWARD
Eu sabia que ela viria.
Não porque Alice disse.
Mas porque… era Bella.
Ela sempre vinha quando precisava de respostas.
E eu estava ali.
Encostado na parede do corredor, como um homem que não sabia mais o que fazer com as próprias mãos, com a própria vida, com o próprio tempo.
Quando ela apareceu…
Tudo parou de novo.
— Bella…
— A gente precisa conversar — ela disse.
E dessa vez…
Não havia fuga.
POV BELLA
O corredor parecia estreito demais.
Ou talvez fosse só a sensação de ter Edward parado na minha frente depois de tudo que aconteceu, depois de tudo que eu tentei deixar para trás e claramente não consegui. A luz amarelada dos abajures deixava tudo mais íntimo, mais silencioso, como se o mundo inteiro tivesse sido reduzido àquele espaço entre nós dois.
Ele não se aproximou.
E isso, de alguma forma, doeu mais do que se tivesse.
— A gente precisa conversar — eu repeti, mais baixo dessa vez.
Edward assentiu devagar.
— Eu sei.
A voz dele estava diferente.
Mais contida.
Mais… real.
Eu respirei fundo, tentando organizar as palavras, mas elas não vinham na ordem certa. Nada dentro de mim estava em ordem.
— Eu não sei por onde começar — confessei.
Ele soltou uma pequena exalação, quase um riso sem humor.
— Eu sei.
Silêncio.
Pesado.
Cheio de coisas não ditas.
Edward passou a mão pelos cabelos, como sempre fazia quando estava nervoso, e desviou o olhar por um segundo antes de voltar para mim.
— Então deixa eu começar.
Meu coração disparou.
— Eu errei.
Simples.
Direto.
Sem defesa.
Aquilo me desmontou imediatamente.
— Eu achei que tinha tempo — ele continuou. — Achei que podia esperar o momento certo, o cenário perfeito… achei que você ia estar lá quando eu finalmente decidisse fazer tudo do jeito certo.
Eu senti os olhos arderem.
— E eu não estava — murmurei.
— Não — ele disse, com uma calma que doeu mais do que qualquer acusação. — E você não tinha que estar.
Silêncio.
— Eu não te perdi porque você foi embora, Bella — ele continuou, a voz mais baixa agora. — Eu te perdi muito antes disso. Eu só… não percebi.
Aquilo foi como um golpe.
Porque era verdade.
E ouvir aquilo dele… tornava tudo mais real.
— Eu esperei, Edward… — minha voz falhou no meio da frase. — Eu esperei tanto que teve uma hora que eu nem sabia mais se estava esperando você… ou só esperando alguma coisa mudar.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Como se estivesse sentindo cada palavra.
— Eu sei.
— Não — balancei a cabeça. — Você não sabe.
Ele abriu os olhos.
— Então me diz.
E dessa vez…
eu disse.
— Eu comecei a me sentir… invisível.- A palavra saiu mais pesada do que eu esperava.— Como se a minha vida estivesse pausada esperando você decidir viver a sua comigo.
O silêncio que veio depois foi devastador.
Edward não tentou interromper.
Não tentou justificar.
Ele só… ouviu.
E isso, ironicamente, fez tudo doer mais.
— Eu te amava — continuei, a voz mais firme agora. — Eu ainda te amo...Muito.
Os olhos dele vacilaram.
Mas eu continuei.
— Mas amar você começou a doer mais do que fazia sentido.
A frase ficou no ar.
Irreversível.
Edward engoliu em seco.
— Eu nunca quis que você sentisse isso.
— Eu sei.
— Eu nunca quis te machucar.
— Eu sei.
— Então por que parece que eu fiz exatamente isso?
Eu soltei uma risada fraca.
— Porque você fez.
Silêncio.
Mas não era um silêncio vazio.
Era um silêncio cheio de verdade.
Edward deu um passo na minha direção.
Devagar.
Como se estivesse atravessando algo invisível.
— Eu não vou fingir que posso consertar tudo agora — ele disse. — Nem que eu mereço uma chance só porque finalmente percebi o que eu fiz.
Meu coração apertou.
— Mas eu preciso que você saiba de uma coisa.
Eu levantei os olhos.
— Eu te amo, mas do que qualquer coisa nesse mundo.
A forma como ele disse aquilo…
Sem dramatizar.
Sem forçar.
Só… verdade.
— E dessa vez eu não estou esperando o momento perfeito.
Meu coração disparou.
— Eu estou aqui.
Silêncio.
— Tarde — completei, quase sem perceber.
Ele assentiu.
— Talvez.
Aquilo deveria ter me dado alívio.
Mas não deu.
Porque eu ainda sentia.
Eu ainda queria.
E isso era o pior de tudo.
Edward levantou a mão devagar.
Parou no meio do caminho.
— Eu posso…?
A pergunta ficou suspensa entre nós.
Meu corpo respondeu antes da minha mente.
Eu dei um pequeno passo para frente.
Foi o suficiente.
A mão dele tocou meu rosto.
E tudo desmoronou.
Não era só toque.
Era memória.
Era casa.
Era tudo que eu tentei esquecer voltando de uma vez só.
Eu fechei os olhos.
E por um segundo…
eu só senti.
Edward se aproximou.
A respiração dele misturando com a minha.
O espaço entre nós desaparecendo.
E então…eu vi.
Não com os olhos.
Mas dentro de mim.
Damon.
O sorriso dele.
A forma como ele me olhava.
A forma como ele não pedia nada.
E ainda assim estava ali.
Eu recuei.
De repente.
Como se tivesse acordado.
A mão de Edward caiu lentamente.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez…
mais pesado.
Mais definitivo.
— Bella… — ele começou.
Eu balancei a cabeça.
— Eu não posso.- Minha voz saiu quebrada. — Eu não posso fingir que nada mudou.
Os olhos dele escureceram.
Mas ele não discutiu.
— Eu ainda te amo — eu disse, sentindo as lágrimas finalmente escaparem. — Mas eu não sei mais se a gente… — minha voz falhou — …se a gente ainda é o que era.
A frase ficou entre nós.
Como uma sentença.
Edward fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
E quando abriu novamente…
ele estava mais calmo.
Mais triste.
Mais… real.
— Eu entendo.
E aquilo…
Aquilo doeu mais do que qualquer outra coisa que ele poderia ter dito.
Porque ele não estava lutando.
Ele estava aceitando.
E isso parecia… o fim.
POV EDWARD
Eu não tentei impedir ela.
Não dessa vez.
Eu fiquei ali.
Parado.
Observando enquanto Bella se afastava.
Cada passo dela parecia levar alguma coisa minha junto.
E pela primeira vez em dez anos…eu não fui atrás.
Porque amar alguém também é saber quando não puxar de volta.
Eu passei a mão pelo rosto.
Respirei fundo.
E percebi algo com uma clareza cruel.
Eu ainda tinha ela.
Mas não da forma que eu conhecia.
Não da forma que era fácil.
Não da forma que era minha.
E talvez…
talvez isso fosse pior do que perder completamente.
POV BELLA
Eu entrei no quarto em silêncio.
Mas eu sabia que ele estava acordado.
Damon estava sentado na cama, a luz baixa iluminando parcialmente o rosto dele. Ele não perguntou onde eu estava. Não perguntou com quem eu estava.
Ele só me olhou.
E foi o suficiente.
— Você chorou por ele — disse, calmo.
Eu parei.
Sem conseguir mentir.
Sem conseguir responder.
Damon se levantou devagar.
Se aproximou.
Não me tocou.
— Eu sabia que isso ia acontecer — ele murmurou.
Silêncio.
— E mesmo assim… — ele respirou fundo — …eu ainda estou aqui.
Meu peito apertou.
Eu finalmente levantei os olhos para ele.
E naquele momento…
pela primeira vez…
eu não sabia.
Não sabia por quem eu estava chorando...
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