Manual para ser pedida em casamento
6 This Is My Song… and It’s for You
Notas iniciais
POV EDWARD
Eu não consigo tirar os olhos da janela do avião.
Lá embaixo, o oceano parece uma superfície interminável de vidro escuro, cortada de vez em quando por nuvens finas que fazem tudo parecer ainda mais distante, ainda mais irreal. Faz três semanas desde que Bella saiu de Seattle, mas o tempo, desde então, tem se comportado como uma coisa defeituosa, um relógio quebrado insistindo em avançar quando na verdade tudo dentro de mim continua parado no mesmo segundo. Alice está sentada ao meu lado, inquieta como sempre, mexendo na alça da bolsa e olhando para mim a cada poucos minutos como se tentasse decidir se eu vou desabar ou se já desabei e simplesmente ainda não percebi.
Emmett está duas fileiras atrás, falando alguma coisa em voz baixa com Rosalie, e Jasper mantém o rosto calmo, mas eu sei que ele está atento a tudo. Eles estão aqui por causa dela. Por minha causa. Ou talvez por causa dos dois.
Eu devia estar pensando em Capri, na viagem, no trabalho, no motivo oficial que me trouxe até a Itália com o pretexto de “férias obrigatórias”, palavras de Aro que ainda ecoam na minha cabeça com um tipo de ironia cruel. Em vez disso, tudo o que eu penso é nela. No jeito como Bella falou comigo pela última vez. Na maneira como a voz dela não tremeu, embora eu tenha ouvido algo quebrado por baixo de cada palavra. Na forma como ela me disse que esperou dez anos. Dez. Como se estivesse me entregando uma sentença que eu mesmo escrevi e nunca li.
Eu me inclino para trás no assento e fecho os olhos por um instante. Tão teimosamente, a memória me devolve cenas pequenas demais para parecerem importantes quando aconteceram, e grandes demais agora para suportar.
Bella na cozinha, cantando baixinho enquanto mexia alguma coisa numa panela.
Bella descalça no sofá, com uma de minhas camisas e o cabelo preso de qualquer jeito.
Bella rindo comigo em um jantar qualquer, enquanto eu pensava que ainda havia tempo.
Eu deveria ter comprado flores.
A frase surge na minha cabeça com uma simplicidade brutal, quase vulgar. Eu deveria ter comprado flores, ter feito co que ela esperasse menos, ter dito o que sentia antes que o silêncio se tornasse um hábito, antes que o hábito virasse distância. Não era sobre o anel. Nunca foi só sobre o anel. Era sobre o que ele representava. O futuro. A escolha. O tipo de certeza que eu achei que poderia adiar em nome da perfeição.
Eu olho de novo para a janela e respiro fundo.
Talvez eu tenha sido um idiota.
Não talvez.
Eu fui.
Bella não precisava da proposta perfeita. Ela precisava de mim. Precisava de alguém que dissesse, sem rodeios, que a queria ao lado dele para o resto da vida. E eu achei que estava sendo cuidadoso, romântico, responsável. Na verdade, eu só estava atrasando a única coisa que ela queria ouvir.
Quando o avião começa a descer, não é Capri que aparece pela janela. É Nápoles.
As luzes da cidade se espalham pela costa em manchas douradas e irregulares, como se alguém tivesse derramado constelações sobre a terra e esquecido de recolhê-las. O mar, escuro e vasto abaixo de nós, reflete os pontos de brilho com uma delicadeza quase cruel, porque tudo ali parece bonito demais para ser carregado com o peso que eu trago no peito.
Eu continuo olhando para fora.
Mas não estou vendo a cidade.
Estou vendo tudo o que eu deixei de fazer.
Bella não precisava da proposta perfeita.
Ela precisava de mim.
Precisava de alguém que dissesse, sem rodeios, que a queria ao lado dele para o resto da vida.
E eu achei que estava sendo cuidadoso, romântico, responsável.
Na verdade…
eu só estava atrasando a única coisa que ela queria ouvir.
Alice se inclina um pouco para perto.
— Você está pensando demais — ela sussurra.
Eu nem olho para ela.
— É difícil não pensar — confesso, suspirando, ainda com o olhar vidrado no céu preto além da janela.
— Eu sei.
Ela dá um pequeno suspiro, como se já tivesse aceitado que vai precisar me carregar emocionalmente pela próxima semana inteira.
— Quando chegar lá, não deixe o medo falar por você.
Eu quase sorrio.
Quase.
— Você fala como se o medo já não tivesse falado por mim por anos.
Alice fica em silêncio por alguns segundos.
E quando volta a falar, a voz dela está mais suave.
Mais honesta.
— Ela ainda te ama, Edward.
Meu peito aperta de um jeito tão doloroso que eu preciso me obrigar a continuar respirando.
— Você não sabe disso.
— Sei sim — ela responde, firme, sem olhar para mim. — O problema é que isso não significa que ela vai esperar para sempre.
Eu fecho os olhos outra vez.
Porque é isso que me trouxe até aqui.
Não foi coragem.
Não foi esperança.
Foi pânico.
O pânico de perder Isabella Swan de um jeito tão definitivo que nem mesmo o amor seria suficiente para alcançar depois.
E então, como se minha mente tivesse decidido me torturar com algo doce antes de me destruir por completo, uma lembrança vem à tona.
Cancún... 2 anos atrás...
Bella tinha me convencido a ir quase por acaso, com aquele olhar brilhando de entusiasmo e a voz cheia de planos que eu, como sempre, tentei fingir que não me abalavam tanto quanto realmente abalavam.
Foi uma viagem simples.
Só nós dois.
Sol. Mar. Areia branca. Um quarto com sacada para o oceano.
Mas o que eu lembro não é do hotel.
É de Bella.
Ela estava parada na areia, o cabelo solto sendo levantado pelo vento quente, os olhos fechados por causa do sol, rindo enquanto eu fingia reclamar que ela tinha me arrastado para longe de Seattle sem me dar chance de recusar. Havia uma liberdade nela naquela tarde que me marcou de um jeito que eu nunca esqueci. Bella virou para mim com os pés afundando na areia e abriu aquele sorriso que sempre conseguia me desarmar por completo.
— Você está me olhando como se eu tivesse cometido um crime — ela disse, rindo.
Eu cheguei mais perto, tirando os óculos de sol dela do rosto para poder vê-la melhor.
— Você me sequestrou para o México.- brinquei.
Ela ergueu a sobrancelha, provocadora.
— E você veio mesmo assim.
Eu sorri.
Porque era verdade.
Eu sempre ia.
Sempre iria.
Mesmo quando fizesse pouco sentido.
Mesmo quando eu estivesse cansado.
Mesmo quando o mundo parecesse demais.
Porque com Bella era assim. A vida, que tantas vezes me parecia uma sequência de obrigações, ficava mais leve quando ela estava perto. Em Cancún, naquela tarde, ela puxou minha mão e me levou para a beira da água, onde o mar batia de leve nos nossos tornozelos. Depois se virou para mim com um sorriso tão aberto, tão confiante, que tudo dentro de mim pareceu se acomodar por um instante.
— Edward?
— Hum?
— Eu gosto quando você para de pensar e só me olha — ela disse, muito baixo.
Eu lembro de ter rido, porque era a minha reação automática sempre que ela chegava perto demais da verdade.
Mas então ela encostou a testa na minha, ali mesmo, no calor da praia, com o mar estalando ao redor de nós, e completou:
— Parece que você está aqui de verdade...
Essa lembrança me atinge com tanta força que preciso abrir os olhos outra vez.
Eu olho para a janela do avião e vejo apenas a escuridão sobre o mar.
Mas sinto tudo de novo.
O vento.
A areia.
A mão dela na minha.
A maneira como Bella sempre conseguia me trazer de volta para o momento presente sem pedir nada em troca.
Foi isso que eu perdi.
Não uma mulher bonita.
Não uma namorada.
Perdi a pessoa que fazia de mim alguém melhor sem jamais tentar me moldar à força.
Alice continua me observando de canto.
— Você vai ficar me ouvindo ou vai continuar com essa cara de funeral?- diz ela fazendo bico.
— Eu não estou com cara de funeral.- solto uma risada curta, sem humor.
— Está sim.- diz Ela cruzando os braços.— E está com a mesma expressão de quem vai pedir desculpa com atraso de uma década.
Eu fecho os olhos por um segundo.
Porque talvez seja exatamente isso.
Quando o avião pousa em Nápoles, tudo dentro de mim parece mais tenso, como se até o corpo soubesse que eu estou prestes a encarar a consequência de todos os meus erros.
Eu sigo com os outros até o barco, mas Cancún continua comigo.
Bella na água.
Bella rindo para mim como se o mundo inteiro ainda fosse simples.
Bella me olhando com aquela confiança que eu não soube honrar quando ainda tinha tempo.
E então, no meio do barco, com o vento cortando o rosto e Capri surgindo lentamente no horizonte, eu entendo uma coisa com uma clareza brutal.
Eu não vim para pedir uma chance.
Eu vim para tentar merecer uma.
POV BELLA
Eu ainda estava na varanda da suíte quando ouvi a primeira vibração do meu celular.
Capri à noite tinha um brilho quase indecente. As luzes da cidade se espalhavam pelas encostas como pequenas brasas douradas, e o mar, escuro lá embaixo, refletia a lua com uma beleza tão calma que quase me fazia esquecer de respirar. Damon estava atrás de mim, recostado na grade de ferro da varanda com uma taça de vinho na mão, observando o horizonte como se já pertencesse a tudo aquilo. Ele usava uma camisa branca com os primeiros botões abertos, o cabelo levemente bagunçado, e o perfil dele parecia ter sido esculpido para a luz da noite. Era irritante o quanto ele parecia pertencer àquela ilha.
— Você está longe daqui de novo — ele disse, sem me olhar.
Eu pisquei, saindo do devaneio.
— Desculpa.
Damon virou o rosto para mim e sorriu de lado.
— Não se desculpe...Non mai...
Eu senti o calor subir pelo meu pescoço.
Ele fazia isso o tempo todo, como se me desarmar fosse um hábito natural. E talvez fosse. Damon não tinha nada da delicadeza cuidadosa de Edward. Ele era outra coisa. Um tipo de presença que não pedia licença, mas também não exigia nada. Ele apenas entrava, observava, entendia sem falar demais. E isso deveria me assustar mais do que assustava.
Meu celular vibrou novamente sobre a mesa de vidro antes mesmo que eu conseguisse decidir se queria olhar para ele.
Eu já sabia quem era.
Alice.
A expectativa não veio como surpresa, veio como um peso lento descendo pelo peito, porque desde a ligação mais cedo eu já estava andando em círculos por dentro, tentando fingir naturalidade para Damon, para mim mesma, para o céu de Capri que parecia bonito demais para o que eu estava prestes a enfrentar. A noite seguia viva ao nosso redor, com as luzes da ilha refletindo no mar e o som distante da cidade subindo da encosta como uma canção abafada, mas dentro de mim tudo parecia mais quieto do que deveria. Damon estava atrás de mim na varanda, em silêncio, como se soubesse que aquele momento precisava acontecer antes de qualquer outra coisa.
Eu atendi devagar.
— Bella? — a voz de Alice veio baixa, apressada, carregada daquela energia impossível de disfarçar.
Fechei os olhos por um instante.
— Eu sei que vocês chegaram a Nápoles — respondi antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa. — Não precisa fingir suspense, Alice.
Do outro lado da linha, eu ouvi o som de alguém falando alto ao fundo, provavelmente Emmett, e depois a voz dela, agora com um pequeno riso contido.
— Então você já sabe?
— Eu não sou exatamente ignorante, Alice.
Ela soltou um suspiro que parecia meio risada, meio derrota.
— Estamos no barco. Acabamos de sair do porto.
Meu coração apertou numa fisgada tão nítida que precisei me apoiar na beirada da mesa.
Barco.
Não mais avião. Não mais aeroporto. Agora eles estavam realmente vindo pelo mar, atravessando a água entre Nápoles e Capri, e isso fez tudo parecer mais concreto, mais próximo, mais inevitável. Eu podia quase imaginar a linha escura do Mediterrâneo abrindo caminho para eles, o barco balançando sob o vento da noite, Edward em algum lugar ali, olhando para a ilha se aproximar com o mesmo silêncio que estava me destruindo por dentro.
— Bella? — Alice chamou de novo, dessa vez mais suave. — Você está bem?
Eu ri sem humor.
— Não.
A sinceridade saiu tão crua que por um segundo ninguém do outro lado respondeu. Depois ouvi Emmett dizer alguma coisa e Rosalie mandá-lo calar a boca, como se até eles estivessem entendendo que aquele não era um momento para piadas.
Damon se aproximou devagar, sem tocar em mim ainda, só ficando perto o bastante para que eu sentisse a presença dele como um tipo de apoio silencioso.
— Estão Chegando ao porto? — perguntei.
— Sim — Alice respondeu. — Em alguns minutos.
Eu olhei para o horizonte escuro, para o mar abaixo da varanda, como se pudesse ver o barco cortando a água antes mesmo de ele surgir.
— Edward está aí, não está? — minha voz saiu mais baixa do que eu queria.
A pausa de Alice foi mínima, mas suficiente para confirmar tudo.
— Está.
Minha garganta apertou tão forte que por um instante a respiração pareceu coisa demais.
Eu já sabia.
Mas saber não tornava aquilo mais fácil.
Não tornava a ansiedade menor.
Não tornava a lembrança da última vez em que o vi mais suportável.
— Bella… — Alice começou, num tom cuidadoso, como se estivesse tentando tocar uma ferida sem me machucar. — Você quer que eu diga a ele alguma coisa?
Eu encarei o vazio à minha frente.
O mar.
As luzes.
A cidade.
Tudo estava onde devia estar, e ainda assim parecia deslocado.
— Não — respondi por fim. — Só traz ele para cá.
A voz dela ficou mais baixa.
— Você vai conseguir.
Eu quase sorri, mas o que saiu foi só uma exalação curta, quase um tremor.
— Eu não sei se isso é verdade.
— É sim.
Ela desligou logo depois, e o celular ficou pesado na minha mão por alguns segundos, como se carregasse mais do que uma ligação. Carregava a confirmação de que meu passado estava literalmente atravessando o mar para me encontrar.
Damon tocou de leve meu ombro.
— Eles chegaram ao porto?
Assenti devagar.
— Estão desembarcando agora.
Ele observou meu rosto por um instante antes de falar, a voz calma, sem cobrança, sem ciúme aparente, como se ele entendesse que a última coisa que eu precisava naquele segundo era ser pressionada.
— Então vamos descer juntos.
Eu o encarei.
— Você não parece nem um pouco incomodado.
Damon deu de ombros com aquele sorriso pequeno e irritantemente bonito que parecia nascer fácil demais nele.
— Bella, io sono italiano. — A voz dele veio baixa, quase divertida. — Se eu fosse odiar todo homem que chega atrasado para alguém que ama, eu viveria cansado.
Eu soltou uma risada curta, involuntária, e por um segundo aquilo aliviou a pressão no meu peito.
Ele pegou a taça de vinho da minha mão, deixou a garrafa sobre a mesa e abriu a porta da suíte para mim com uma gentileza tão natural que quase doeu mais do que se ele fosse grosseiro. Damon não me tratava como uma mulher prestes a entrar em colapso, e talvez por isso eu me sentisse ainda mais perto de colapsar. Ele apenas me conduzia como se eu ainda pudesse sustentar meu próprio peso.
No corredor, o silêncio parecia mais apertado.
— Ele vai me odiar imediatamente? — Damon perguntou, agora num tom quase leve, como se estivéssemos falando de alguma reunião social e não do homem que eu tinha amado por dez anos.
Eu soltei uma risada baixa, ainda tensa demais para ser humor de verdade.
— Talvez.
— Perfetto. — Ele sorriu. — Eu gosto quando uma noite já começa com algum tipo de risco.
Eu devia ter revirado os olhos.
Talvez até tivesse pensado em rir de novo.
Mas a cada passo em direção ao lobby eu sentia meu coração se desarranjar mais, como se meu corpo já soubesse o que minha mente ainda tentava organizar.
Quando chegamos ao saguão, eu o vi.
Edward estava parado perto da entrada com Alice e Rosalie de um lado, Emmett e Jasper do outro, como se o mundo inteiro tivesse se rearranjado só para colocá-lo ali, diante de mim. O rosto dele parecia mais magro, a expressão mais cansada, os olhos mais fundos, como se a travessia de Nápoles até Capri tivesse levado embora alguma coisa dele no caminho. E ainda assim ele era inegavelmente Edward. O mesmo contorno firme do rosto, o mesmo cabelo bronze um pouco desalinhado, a mesma presença que fazia o ar mudar de temperatura sem pedir licença.
Ele me viu.
E eu vi a respiração dele falhar.
Não foi dramático. Foi pior. Foi silencioso.
Como se o mundo inteiro tivesse recuado só para deixar espaço para aquele segundo.
Edward deu um passo.
Depois outro.
E eu senti meu próprio corpo esquecer como se movia.
Não foi surpresa.
Eu já sabia que ele viria.
Foi impacto.
Foi realidade.
Foi ver de verdade, depois de semanas imaginando, o homem que ainda conseguia me desarmar só com o jeito como me olhava.
— Bella… — ele disse.
Meu nome na voz dele ainda tinha o poder cruel de sempre.
— Edward — respondi, e foi tão baixo que quase perdi a própria voz no processo.
Ele parou diante de mim, perto o suficiente para que eu visse o cansaço nos olhos, a barba por fazer, a tensão nos ombros, o tipo de fragilidade que eu nunca tinha visto nele com tanta clareza. Havia algo diferente ali. Não era só arrependimento. Era alguém que tinha atravessado a própria culpa para estar diante de mim.
— Você veio — eu disse, porque precisava de alguma coisa simples para me sustentar.
Ele soltou uma respiração curta, quase sem humor.
— Eu vim.
A simplicidade disso quase me destruiu.
Os olhos dele desceram para mim como se estivesse tentando me decorar de novo, como se o tempo que me perdeu ainda fosse uma coisa que ele pudesse pagar em silêncio.
— Você está bonita — ele disse.
E a frase, tão comum, me atingiu como se fosse uma confissão.
Porque não tinha pose.
Não tinha técnica.
Era só Edward sendo Edward.
Direto. Verdadeiro. Tarde demais, talvez, mas verdadeiro.
— Você também — respondi, e na hora tive vontade de rir da própria estupidez, porque ele estava visivelmente destruído e eu estava ali chamando isso de bonito.
Edward quase sorriu.
Quase.
Mas antes que qualquer coisa mais pudesse acontecer, Damon surgiu ao meu lado com a mesma tranquilidade impecável de sempre.
— Bella.
Eu fechei os olhos por meio segundo.
Quando me virei, ele já estava perfeitamente composto, como se não houvesse tensão elétrica alguma no espaço entre Edward e eu. Damon olhou para o homem à minha frente com educação absoluta e estendeu a mão.
— Você deve ser Edward.
Edward apertou a mão dele com uma rigidez que ele tentou disfarçar.
— Edward Cullen.
— Eu sei — Damon respondeu com um sorriso calmo, quase amigável demais para aquele momento. — Damon Salvatore. Piacere.
Edward sustentou o olhar dele por um instante.
— Prazer.
Damon inclinou levemente a cabeça.
— Bella me falou sobre você.
Aquilo me fez virar o rosto para ele tão rápido que quase senti o pescoço reclamar. Eu não tinha falado muito sobre Edward. Quase nada. E Damon sabia disso. Ele sabia também o suficiente para usar essa frase como um gesto aparentemente inocente e, ao mesmo tempo, completamente eficaz em me desestabilizar.
Edward também percebeu. Eu vi.
Só não era raiva ainda.
Era surpresa.
E algo mais difícil de nomear.
— Só coisas boas — Damon acrescentou, com leveza demais para ser considerado provocação, e justamente por isso ficou ainda mais desconcertante.
Alice tossiu para esconder um sorriso. Emmett arregalou os olhos como se já estivesse decidiu gostar do italiano. Rosalie virou o rosto, claramente tentando não rir. Jasper manteve aquela calma habitual, mas eu vi o canto da boca dele quase ceder.
Damon, enquanto isso, parecia perfeitamente à vontade.
— Vocês acabaram de chegar? — ele perguntou ao grupo todo, como se essa fosse a parte mais importante da noite.
— Acabamos — Emmett respondeu antes de qualquer um. — E eu já gosto de você.
Damon riu.
— Isso foi rápido.
— Eu sou um homem intuitivo.
— Isso é perigoso.
— Eu sei.
Rosalie fechou os olhos por um instante.
— Eu não acredito que estou assistindo isso.
Alice, ao contrário, estava praticamente radiante, como se toda essa tensão fosse exatamente o tipo de entretenimento que ela sempre suspeitou merecer.
— Damon, o terraço ainda está de pé? — ela perguntou, já se interessando pelo hotel inteiro como se nem estivesse vendo a implosão emocional ao lado.
— Está sim — ele respondeu. — E a vista vale a caminhada.
Emmett apontou para ele imediatamente.
— Eu continuo gostando dele.
— Isso é porque ele tem um barco — Rosalie respondeu seca.
— Exatamente.
Eu olhei para Edward.
Ele não parecia furioso com Damon.
E era isso que o estava desmontando por dentro.
Porque Damon não tinha nada de fácil para odiar. Nenhuma grosseria, nenhuma arrogância, nenhum gesto possessivo que justificasse a raiva de Edward. Ele era educado com Alice, gentil com Rosalie, brincalhão com Emmett, respeitoso com Jasper e… cuidadoso comigo. Mais do que isso. Cuidadoso de um jeito que não pedia nada em troca.
Se ele fosse cruel, Edward poderia se agarrar a isso.
Mas Damon não era cruel.
Ele era caloroso.
E isso tornava tudo muito pior.
— Vamos? — Damon perguntou, em um tom que parecia anunciar apenas uma noite bonita, e não a colisão de duas vidas inteiras no saguão de um hotel italiano.
Eu assenti, sem conseguir dizer nada.
E o espaço entre mim e Edward, que já era insuportável, se estendeu mais um segundo antes de virar movimento de verdade.
POV EDWARD
Quando vi Bella ali, no saguão, eu senti algo dentro de mim ceder de uma maneira quase imperceptível e, ainda assim, devastadora.
Ela estava mais bonita do que qualquer lembrança tinha sido capaz de preservar.
O cabelo caía de um jeito suave pelos ombros, a pele parecia tocada pela luz da própria ilha, e os olhos dela… os olhos dela tinham alguma coisa que eu não reconheci de imediato. Não era só felicidade. Era vida. Uma vida que eu não tinha visto nela em muito tempo e que me fez perceber, num golpe seco, o tamanho do que eu tinha perdido.
Ela sabia que eu vinha.
Isso era o que mais me desconcertava.
Ela já sabia.
Então o que eu vi não foi surpresa.
Foi escolha.
Foi ela decidindo, diante de mim, o que fazer com tudo aquilo.
E então Damon apareceu.
O nome dele já vinha me atormentando antes de eu sequer vê-lo. As fotos, as poucas informações, a ideia de um homem novo cercando a mulher que eu tinha deixado escapar. Eu esperava um idiota arrogante, algum tipo de caricatura fácil para meu ressentimento. Mas quando ele apertou minha mão e se apresentou com uma educação absurdamente confiante, eu entendi o problema.
Eu não podia odiá-lo.
E isso me deixou mais furioso do que eu achei possível.
Damon era gentil com todo mundo.
Alice estava encantada em poucos segundos.
Emmett, obviamente, já tinha adotado o sujeito como se eles fossem amigos de infância. Rosalie estava tentando manter a dignidade, o que no caso dela significava levantar uma sobrancelha de vez em quando. Jasper observava tudo em silêncio. E Bella… Bella estava ali entre nós dois como se o mundo tivesse resolvido se divertir com a crueldade mais elegante possível.
Eu queria estar com raiva.
Queria encontrar alguma imperfeição em Damon, alguma arrogância, algum gesto de posse que me desse uma razão simples para lutar.
Mas ele era o tipo de homem que fazia o ambiente inteiro relaxar sem esforço.
E isso me irritou mais do que qualquer grosseria teria irritado.
Quando entramos no terraço, Capri parecia quase inacreditável. O mar escuro lá embaixo refletia a lua em linhas de prata, as luzes da ilha eram pequenas feridas douradas na encosta, e a mesa estava posta com uma elegância que só tornava tudo mais irreal. Eu vi Bella parar por um instante antes de olhar para Damon com uma espécie de surpresa silenciosa.
Ele realmente tinha preparado tudo.
Não era encenação.
Não era pose.
Era cuidado.
E eu senti isso como se fosse uma afronta pessoal.
Ele puxou a cadeira para Bella com uma naturalidade que me causou mais desconforto do que eu gostaria de admitir.
— Prego, Bella — disse ele, como se aquela noite fosse apenas uma sequência de gestos gentis.
Sentei-me tentando não parecer um homem à beira de perder a compostura por causa de um italiano impecável demais para ser real.
Emmett já estava perguntando sobre o barco.
— Você tem mesmo um barco?
— Tenho.
— Eu sabia.
— Isso muda alguma coisa?
— Muito.
Eu quase ri.
Quase.
Mas preferi observar. Observar Damon com Bella, com meus amigos, com o espaço ao redor dele inteiro. Ele fazia perguntas. Ouviu Alice com atenção, respondeu Jasper sem apressá-lo, riu de Emmett de uma forma que parecia honesta demais para ser encenada, e tratou Rosalie com uma educação que eu não consegui usar para construir minha raiva. O pior era que ele se mostrava confortável sem se impor. Não tentava tomar o lugar de ninguém. Não tentava me desafiar. Não tentava marcar território.
E talvez por isso eu odiava não conseguir odiá-lo.
Porque se ele fosse um idiota, tudo ficaria mais simples.
Mas ele não era.
Ele era o tipo de homem que parecia feito para ser amado em voz alta.
Bella falava menos do que os outros, mas eu via os pequenos sinais nela com uma clareza dolorosa. A maneira como os ombros dela enrijeciam quando eu a encarava. Como os dedos apertavam a taça antes de ela beber. A forma como o olhar às vezes escapava para o mar, como se procurar o horizonte fosse mais seguro do que continuar me olhando.
Ela estava nervosa.
Por mim.
Por mim e por tudo o que eu representava.
Eu queria dizer que entendi isso tarde demais.
Mas a verdade é que eu vinha entendendo aos poucos há semanas, e ainda assim a chegada dela em carne e osso, a poucos metros de mim, continuava sendo mais difícil do que qualquer culpa imaginada em Seattle.
Quando Bella e Damon se afastaram por um instante para conversar em uma lateral do terraço, Emmett praticamente se inclinou para mim com um sorriso travesso.
— Ele é bom, né?
Olhei para ele como se estivesse procurando a piada.
— O que você quer dizer com “bom”?
— Bom. Educado. Rico. Sabe sorrir sem parecer um lunático. Ele é quase irritante de tão agradável.
Eu apertei a mandíbula.
— Você gostou dele em cinco minutos.
— E você está com raiva disso por quê? — Emmett perguntou, sem a menor delicadeza.
Porque eu queria dizer que Damon era uma distração.
Porque eu queria dizer que ele estava perto demais.
Porque eu queria dizer que Bella não deveria estar sorrindo para outro homem como se eu não tivesse chegado ao fim do mar para vê-la.
Mas não disse nada.
Porque a verdade mais inconveniente de todas era que Damon estava sendo tão impecável que eu não tinha onde enfiar minha raiva.
Se ele fosse cruel, eu já teria encontrado meu lugar.
Mas ele era gentil.
E Bella… Bella parecia dividida entre a segurança dessa gentileza e a dor muito mais antiga que ainda tinha meu nome.
Talvez fosse isso que me mantivesse ali.
Talvez ainda existisse alguma coisa para mim se eu conseguisse ser melhor do que o homem que esperou demais.
POV BELLA
Damon me levou para uma lateral do terraço com a mesma leveza com que teria me convidado para dançar.
Lá atrás, as vozes dos outros viravam um som abafado, misturado à brisa da noite e ao mar lá embaixo, como se Capri quisesse nos dar um pouco de privacidade sem realmente nos deixar sozinhos. A lua iluminava o rosto dele de um jeito quase injusto, e eu tive a sensação irritante de que ele sabia exatamente o que estava fazendo comigo e ainda assim não me pressionava por isso.
— Você está muito quieta — ele disse, com doçura.
Eu prendi a respiração.
— Eu sei.
Damon sorriu de leve.
— E eu imagino o motivo.
Eu ergui os olhos para ele.
— Damon…
Ele balançou a cabeça quase imperceptivelmente.
— Eu não preciso de detalhes, bella. Non adesso.
Meu peito apertou.
A forma como ele dizia meu nome sempre parecia íntima demais para ser inocente, mas Damon nunca a usava como arma. Usava como quem oferece uma coisa que não espera receber de volta.
— Eu gosto de você — ele disse, e a simplicidade da frase quase me desmontou. — Molto.
Eu engoli em seco.
— Damon, eu não queria—
— Lo so. — Ele sorriu, paciente. — E eu não estou pedindo nada hoje. Nem amanhã. Nem agora.
Eu o encarei, sentindo a pele queimar sob o olhar dele.
— Você não devia estar tão calmo.
— Perché? — Ele inclinou a cabeça. — Porque o homem que você amou por dez anos acabou de entrar no mesmo hotel que eu?
Meu silêncio foi resposta suficiente.
Damon tocou meu rosto com a ponta dos dedos, um gesto tão leve que quase parecia pedir licença.
— Eu não vou competir com isso como se fosse uma corrida — disse ele, muito baixo. — Não vou fingir que sua história com ele não importa. Importa, sim. Eu vejo. Eu entendo. Mas também não vou me desculpar por estar aqui com você.
Aquilo me atingiu de um jeito tão inesperado que precisei desviar o olhar por um segundo.
— Eu não quero te machucar.
Damon soltou uma pequena risada sem humor.
— Bella, você já está sendo cuidadosa demais comigo para alguém que acha que pode me machucar.
Eu quase sorri.
Quase.
Ele então se aproximou mais um pouco, o suficiente para que eu sentisse o perfume dele misturado ao vento salgado do Mediterrâneo.
— Eu posso esperar — ele disse. — Con calma. No seu tempo. No meu tempo. Não importa. Só não quero que você pense que precisa apagar o que sente para me permitir sentir alguma coisa por você.
Minha garganta apertou com uma força que eu não estava esperando.
Porque Damon era muito mais do que a fuga bonita de uma mulher cansada.
Ele era um homem inteiro, gentil e perigoso exatamente por isso.
Eu me vi obrigada a desviar os olhos quando ouvi Emmett chamando lá de trás, alto demais e sem qualquer senso de discrição.
— Damon! Você vai ou não vai me mostrar o barco amanhã?
Damon virou a cabeça com um sorriso que parecia genuinamente divertido.
— Você é persistente.
— Eu sou dedicado.
— Isso não é a mesma coisa.
Emmett apontou para ele como se já tivesse decidido que os dois eram amigos.
— Ainda assim você vai me levar.
Damon abriu um sorriso fácil.
— Domani. Amanhã.
Emmett soltou um som vitorioso, como se tivesse acabado de vencer uma batalha internacional.
Rosalie revirou os olhos.
— Vocês dois são insuportáveis.
Alice, por sua vez, olhava para nós com uma expressão perigosamente satisfeita.
Eu vi Edward ao fundo.
E dessa vez… eu não consegui desviar o olhar.
Ele estava tentando não parecer arrasado.
Tentando.
Mas havia algo nele que não dava mais para esconder.
Não era só tristeza.
Não era só arrependimento.
Era perda.
O tipo de perda que ainda está acontecendo enquanto você respira.
Os olhos dele estavam em mim como se estivessem tentando recuperar alguma coisa que já tinha escapado. Como se cada segundo ali fosse uma tentativa silenciosa de voltar no tempo. E aquilo… aquilo me desmontou de um jeito que eu não estava preparada para sentir de novo.
Porque Edward não estava lutando.
Ele não estava discutindo.
Não estava tentando me convencer de nada.
Ele só… estava ali.
Presente.
Tarde demais.
E ainda assim, ali.
Damon falou alguma coisa ao meu lado, algo leve, algo fácil, e eu quase respondi automaticamente, quase voltei para aquela versão de mim que ria com ele, que se deixava levar pela leveza, pela intensidade, pelo presente que ele representava.
Mas eu não consegui.
Porque, pela primeira vez desde que cheguei em Capri…
eu não estava mais fugindo.
Eu estava sendo alcançada.
Por tudo.
Por Edward.
Por mim mesma.
Por aquela versão da minha vida que eu tentei deixar em Seattle como se fosse algo que pudesse ser dobrado e guardado dentro de uma mala.
Mas não era.
Nunca foi.
Porque o amor não desaparece só porque a gente decide ir embora.
Ele muda.
Ele se desloca.
Ele se esconde.
Mas ele não desaparece.
E ver Edward ali…
Respirando o mesmo ar.
Olhando para mim como se eu ainda fosse a única coisa que importava…
fez tudo voltar.
Não de forma bonita.
Não de forma simples.
Mas de forma real.
Crua.
Injusta.
Eu engoli em seco.
E por um segundo… só um segundo…
Eu quis atravessar aquele terraço, ignorar todo mundo, ignorar Damon, ignorar o tempo, ignorar os erros…e só voltar.
Mas eu não me movi.
Porque também havia Damon.
E ele não era um erro.
Ele não era uma distração.
Ele era escolha.
Presente.
Possibilidade.
E talvez fosse isso que tornava tudo ainda mais cruel.
Porque eu não estava escolhendo entre certo e errado.
Eu estava escolhendo entre dois amores diferentes.
Um que me construiu.
E outro que estava me transformando.
O vento da noite passou entre nós, trazendo o cheiro do mar e o som distante da cidade viva lá embaixo.
Capri continuava linda.
Indiferente.
Como se não tivesse ideia de que, naquele exato momento…
tudo dentro de mim estava desmoronando em silêncio.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Respirei fundo.
E quando abri novamente…
Edward ainda estava me olhando.
Damon ainda estava ao meu lado.
E eu entendi, com uma clareza assustadora, que não existia mais fuga.
Não existia mais tempo.
Não existia mais “depois”.
Só existia aquilo.
A escolha.
E pela primeira vez desde que tudo começou…
eu não fazia ideia de qual caminho eu queria seguir.
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