- Boa noite. – Disse secamente e fechou a porta atrás de si, encostando-se nela, completamente arrasado.

- Porque eu não consigo te esquecer Camus? – Murmurou baixinho, deixando uma única lágrima correr por seu rosto.

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A lágrima não teve muito tempo para cair no peito do loiro, que logo a resgatou, praguejando sozinho contra Aioria por obrigá-lo a esse encontro e também contra si mesmo por permitir-se chorar por aquele homem. Suas mãos correram rápidas para limpá-las e poder não se sentir tão emocionalmente miserável quanto agora. Mas de súbito, algo lhe ocorrera. Com o coração aos pulos, correu até a janela. O carro de Camus estava ali, estacionado em frente ao hotel. O outro carro, porém, preto e de vidro fumê, estava estacionado na outra esquina oposta a do hotel, numa distância não muito longe.

- Merda! – Reclamou enquanto corria e pegava algumas coisas e uma camisa, preparando-se para sair dali o mais rápido possível. É claro que sem saber sua localização, Shion iria tocaiar Camus para tentar descobrir o seu paradeiro e definitivamente não iria arriscar. Aquele carro poderia ser de Shion ou não, mas ele não ficaria ali para ter certeza. E pensando nisso, juntou as suas poucas roupas e uma mochila velha e saiu do quarto correndo e chamando por Camus enquanto colocava de qualquer jeito suas roupas dentro da mochila. Camus já estava quase na portaria quando ouviu os gritos de Milo e então voltou um pouco a tempo de ver Milo esbaforido e jogando sua mochila nas costas.

- Ainda bem que te peguei a tempo! – Milo disse aliviado, esbaforido pelo susto e pela correria.

- O que deu em você? Você não disse que estava cansado? – Camus perguntou, estranhando aquele comportamento de Milo. O loiro encarou Camus que franzia o cenho, sem entender nada. O que dizer a ele? Não poderia dizer a verdade, tampouco deixar que ele saísse. Ficaria vulnerável demais estando sozinho. O que fazer?

- Ahh é que eu pensei melhor, e acho que você tem razão, esse hotel é uma merda mesmo! – Ele disse e logo se ouviu o porteiro pigarrear, indignado.

- Realmente. – Camus concordou olhando para o local ignorando a cara feia do funcionário. – Mas então, isso significa que você vai voltar para casa?

- Não... – Milo puxou Camus um pouco mais para perto das escadas para que o funcionário não o ouvisse. – Eu não posso voltar para casa. – Concluiu sem saber se já era hora de contar que tinha sido assaltado por Shion.

- Porque não?

- Porque... – Milo hesitou. – porque minha casa foi assaltada.

- O que? – Camus assustou-se.

- Não grita! – Milo pediu. – É... minha casa foi assaltada e eu não quero voltar pra lá até descobrir quem fez isso.

- Mas do jeito que você ta falando parece que acha que vão voltar...

- Pode ser, eu não sei.

- Milo... você está me escondendo alguma coisa, não está? – Milo suspirou enraivecido. Não gostava quando ele o pressionava desse jeito. É claro que ele adoraria dividir essa preocupação com Camus, mas o ruivo jamais acreditaria nele.

- É Camus, eu estou. Tem umas paradas sérias acontecendo comigo, mas eu não quero te falar porque você sempre acha que estou mentindo, armando, ou alguma coisa desse gênero. Então não adianta nada te contar... – Acabou gritando, descontando seu nervoso em Camus que ficou atônito sem saber o que dizer. – Desculpe... – Pediu. Apesar de tudo sabia que Camus tinha razões, distorcidas por Shion, para pensar tudo isso e que provavelmente estaria muito confuso agora.

- Não, tudo bem. Você está certo. – Camus sentiu um aperto forte no coração nessa hora e sua garganta entalou. – Apesar de não ser muito fácil para mim. – Murmurou e abaixou a cabeça, segurando as lágrimas em seus olhos marejados. Porque as coisas têm que ser assim? Milo pensou.

- Eu... preciso de você, Camus. Muito. – Disse não conseguindo segurar algumas lágrimas que teimavam em cair por seu rosto impassível. Não tinha outro jeito. Não iria conseguir sair daquela situação sem ajuda. Camus assustou-se com aquilo e voltou a mirar o rosto estranhamente frio e sofrido. Nunca tinha visto um olhar como aquele em Milo e isso o assustou. – Eu sei que não confia em mim, que me odeia e tudo o mais... – A voz de Milo ficou embargada e ele não conseguiu concluir. Fechou os olhos firmemente, tentando ser forte, mas não estava mais agüentando aquilo. Era muita coisa para sua mente, para o seu coração. Estava se sentindo fraco, cansado e triste. Muito triste. As palavras de Camus, as desconfianças, a sensação terrível de ser odiado pelo homem que mais amava, a injustiça que sofreu por tanto tempo, a volta de Shion, as ameaças, o medo, a insegurança.

- Milo... – Camus levou suas mãos ao rosto do loiro, tentando confortá-lo. Não estava entendendo absolutamente nada e tinha consciência de que Milo o escondia alguma coisa, aliás, fato esse que foi confirmado pelo próprio há poucos instantes. Mas apesar disso, o seu coração tremeu fortemente, sentindo que ele estava em perigo, e lhe assaltou uma súbita vontade de abraçá-lo, de protegê-lo, de cuidar dele. Mas apesar da comoção, a única coisa que conseguiu fazer foi acariciar-lhe a face. Por outro lado, Milo assustou-se com o toque repentino e voltou a encará-lo. A última coisa que queria era receber a piedade dele, e era exatamente isso o que parecia.

- Eu não quero a sua piedade. – Disse, mas sua voz saiu tão fraca que mal pareceu um sussurro. Ouviu Camus dizer alguma coisa, mas não conseguiu distinguir. As suas pernas lhe traíram sem força, assim como a sua visão sem forma, e caiu sob o peito de Camus, perdendo o foco das coisas. O cansaço, que já era grande, tornou-se insuportável. Seus olhos se fecharam antes que pudesse reagir, desmaiando no colo do ruivo.

- Milo?? – O aquariano o segurou firme em seus braços, assustado com o repentino desmaio de Milo. Percebendo-o mole, o levou no colo até seu carro e saiu em disparada, sem perceber o carro preto em sua escolta. O seu coração estava aos pulos olhando Milo deitando no banco de trás pelo retrovisor, aquele homem que sempre foi tão altivo, tão forte, tão incrivelmente poderoso em seu olhar. De repente ali, caindo em seus braços sem que soubesse o motivo de tudo isso.

As coisas aconteceram muito rápidas para Camus. Os médicos, a correria, o hospital, Milo desmaiado e nada de acordar. No meio desse turbilhão, o telefonema de Marin o ajudou a recompor as idéias, mas não muito. Camus se sentia num beco sem saída. O pedido de Milo era estranho, mas verdadeiro, tinha certeza disso. Ninguém nesse mundo poderia duvidar dele nesse momento, seus olhos mostravam medo, cansaço, depressão. Seja lá o que fosse, Milo estava precisando de ajuda. E ele queria ajudar, mas não sabia como, não sabia do que, que tipo de perigo ele se enfiou? Estava às cegas, no escuro, sem saber o que fazer. Sentou na cadeira do corredor do hospital, esperando a resposta médica. Suspirou longamente fechando os olhos e apoiando a cabeça na parede, cruzando as mãos entre as penas abertas, também estava cansado, também precisava de ajuda.

- Camus? – Ele ouviu a voz de Saga, mas não abriu os olhos. Ele então sentou ao lado de Camus, fazendo-o sentir mais perto a sua presença.

- Que bom que veio. – Disse num sussurro.

- Vim assim que me avisou. O que aconteceu com ele?

- Eu não sei. – Finalmente abriu os olhos, encarando um ponto imaginário na parede. – Ele simplesmente desmaiou e não quer acordar.

- Você sabe se ele tem alguma coisa, alguma doença?

- Não, não que eu saiba.

- Hunn... é estranho mesmo.

- Ele me pediu ajuda.

- O que? – Saga não entendeu o que ele tinha dito.

- O Milo... antes de desmaiar. – Franziu o cenho, tentando lembrar-se de todos os detalhes. – Disse que precisava de mim.

- Precisava como? Do que ele precisava?

- Eu não sei, ele não disse. Mas... o olhar dele... era tão... intenso. Ele estava apavorado, Saga. – Camus sentiu um arrepio correr por seu corpo. Do que ele tinha tanto medo? – Acho que ele queria proteção. Queria que eu o protegesse. – Emendou.

- Mas proteger do que?

- Eu não sei... – Camus levou as mãos à cabeça, confuso.

- Bem... ele deve te dizer quando acordar.

- Não... ele não vai dizer.

- Como não? Se ele te pediu ajuda... – Mas Camus o interrompeu.

- Ele não confia em mim o suficiente. Disse que eu sempre acho que ele está mentindo e que não adiantaria nada me contar. – Disse sentindo um aperto no coração, mas sorriu amargo. – Mas ele tem razão de pensar nisso. Eu sempre duvidei dele.

- Mas você tinha motivo para duvidar. Camus, não deixe que essa situação do Milo lhe confunda as idéias. Não se esqueça de tudo o que ele já fez até agora, Camus. Ele também não é nenhum inocente Camus.

- Eu sei...

- Mas não parece. – A voz de Shion surpreendeu aos dois, principalmente a Camus.

- Shion? O que faz aqui? – Camus perguntou confuso. Não tinha avisado a ele que Milo tinha passado mal, como ele descobriu?

- Vim pegar uns exames e me deparei com você aqui. Acabei ouvindo a conversa. Ele está ai? – Perguntou olhando para onde provavelmente Milo estava sendo cuidado. Camus sentiu um calafrio e depois de algum tempo, respondeu.

- Sim... ele passou mal, mas os médicos já estão lá cuidando dele. – Camus respondeu olhando fixamente para Shion.

- Entendo que você se sinta confuso Camus. Sei dos seus sentimentos para com ele, mas não deixe que isso turve a sua razão. Esse jovem já deu provas suficientes de que não é confiável. Não se deixe enganar. Nessas horas temos que nos atentar aos fatos para que a ilusão não nos confunda.

- Eu farei isso. – Camusdisse, sem querer prolongar o assunto.

- Se quiser eu posso te dar uma carona... – Mas Camus novamente o interrompeu.

- Eu vou ficar até ele acordar. Obrigado.

- Camus...

- Não se preocupe Shion, não estou me enganando. Só quero me certificar de que ele vai ficar bem. – Shion concordou com um gesto de cabeça, sem poder fazer muito. Iria se retirar, mas voltou ao se lembrar de algo.

- Ah! Shaka disse que queria falar-lhe... – Mas novamente Shion foi interrompido por Camus.

- Diga a ele que amanhã conversaremos. – Sem alternativa, Shion se retirou do local, sob os olhares curiosos de Saga.

- Muito bem, pode explicar o que foi isso? – Saga perguntou, percebendo o tom ríspido do amigo.

- Eu não posso explicar. Só posso sentir. – Disse fechando os olhos e recostando-se na parede novamente. Saga arqueou uma sobrancelha, sem entender o que ele tinha dito.

- Como é?

- Eu estou numa situação delicada Saga. Eu sei que tem algo acontecendo entre eles, mas não sei o que é. A única coisa que sei é que Milo precisa de mim. Eu sei que ele fez um monte de merda e pensa outras a meu respeito, e sei também que eu não estou entendendo nada do que está acontecendo, e que provavelmente só saberei se um deles contar...- Parou sua explicação, respirando fundo, tentando ser o mais racional possível. – De qualquer forma, se tem uma coisa que eu sei nessa história toda é que, sinceramente, ele precisa de mim. Pode ser até imaginação da cabeça dele, ou algo realmente perigoso, eu não sei. Só sei que ele está apavorado e precisando de mim. E eu não posso negar isso a ele. Eu não posso e nem quero. E eu sinto que quando ele gritou meu nome naquele hotel... quando ele me chamou... ele estava me pedindo ajuda. Ele não queria ficar sozinho, ele estava com medo de ficar sozinho ali. – Parou mais uma vez, percebendo que as coisas começavam a fazer certo sentido. – E se ele não quer ficar sozinho, ele não vai ficar. – Disse e Saga sabia que aquilo era uma sentença.

- Bom... você é que sabe. – Saga disse e Camus sorriu.

- Não se preocupe, eu não estou me enganando quanto a ele. Estou apenas, dando o direito da duvida. Eu quero que ele me diga o que tem para dizer.

- Eu sei o que ele vai dizer. Que ele é inocente, ou alguma coisa nesse sentido. – Disse olhando para Camus como se o que estava dizendo era o óbvio.

- Acho que tem alguma coisa a mais nisso tudo. Algo mais do que simplesmente ele ser inocente ou culpado.

- Agora você está ficando muito misterioso. – Disse arqueando uma sobrancelha.

- Eu sei... – Camus sorriu. – Mas o que eu vou fazer? Os fatos... não há como negar os fatos.

- Eu só espero que você não sofra por alguma coisa que ele tenha feito, novamente.

- Sr. Verseau? – A voz do médico interrompeu a conversa dos amigos, fazendo Camus levantar-se de supetão.

- Sim?

- O seu amigo está bem. Ele teve uma crise de estafa, mas vai ficar bem. Nós o sedamos, pois ele estava muito agitado. Amanhã deve acordar se sentindo melhor.

- Ah obrigado doutor! – Camus agradeceu aliviado. — Eu posso vê-lo? – Perguntou.

- Ele está dormindo agora, se quiser pode ir. Mas fique pouco tempo, ele precisa de muito descanso e nada de emoções fortes por agora.

- Está bem doutor. – Camus olhou para Saga num convite mudo que o outro recusou.

- Vai lá, eu te espero. – Disse se sentando na cadeira novamente. Camus concordou, se dirigindo ao quarto de Milo.

O ruivo entrou no quarto cautelosamente, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Encontrou Milo dormindo calmamente, parecendo um anjo de tão sereno. Essa imagem aquietou seu coração, que continuava aflito desde que vira aquele estranho olhar nele. Agora, aquela imagem o remetia ao passado, quando o loiro fazia alguma besteira e ia parar no hospital com alguma coisa quebrada. Ele sempre se divertia com isso, com o ar de chorão que ele fazia para tentar comover Camus, que sempre o repreendia pelas atitudes impensadas. Mas no final, acabava cedendo e acompanhando o loiro por toda a noite, ajudando-o com os deveres. Sorriu, era uma lembrança gostosa.

Aproximou-se da cama, tocando-lhe as mãos geladas. Queria tanto entender o que estava acontecendo. Levou os dedos ao rosto, afastando uma mecha loira e colocando-a atrás da orelha. Como queria voltar no tempo, não viver nada daquilo que viveram. Aproximou o rosto do dele, acariciando-lhe o rosto com a ponta dos dedos. Sussurrou quando chegou perto.

- Sei que pensa que te odeio, mas isso não é verdade. Eu tenho sim, raiva do que me fez, mas nunca consegui te odiar... não, isso não. – Sentou-se na cama e continuou o seu afago, agora pelos cabelos loiros. – Maldito dia em que você fez aquilo. Nós éramos tão felizes, eu te amava e você me amava. Você tinha aquele jeito irresponsável, mas no fundo eu sabia que você sempre voltava para mim. Não importava quantas camas você tinha visitado, era no meu colo que você chorava, era nos meus ouvidos que você desandava em falar sobre o seu dia. Era comigo que você sorria, dividia seus planos, seus sonhos. – Camus sorriu amargo. – Mas ai você resolveu mudar tudo. Sem explicação, sem aviso, você mudou meu mundo, mudou tudo. E eu nunca entendi porque você tinha feito aquilo, e contado para todo mundo. Eu me senti tão mal, tão usado. Mas o pior foi saber que você simplesmente me abandonou. Você sumiu, não me deu nenhuma explicação, nada. – Nessa hora Camus engasga com o próprio choro que teima em cair. – Eu acreditei em você Milo, quando me disse com seus atos que apenas queria me usar e se vangloriar por ter conseguido me tomar. E agora de repente você muda o discurso, diz que estava me protegendo sem me dizer do que, e me cobra confiança, me cobra amor, quando a única coisa que eu tenho de você é a mentira, a dor, o engano. Porque faz isso comigo Milo? Porque teima em confundir minha cabeça e meu coração? – Camus desaba no peito de Milo, ouvindo o ressoar do coração dele, tentando acalmar-se, pensar com clareza.

- Sr. Camus? – Aenfermeira o chama, era hora de ir.

- Eu já vou. – Ele disse para a enfermeira e então ela saiu. Ele voltou a olhá-lo.

- Você me pediu ajuda, disse que precisava de mim. Diga-me... diga-me... – Chegou bem perto do outro, sussurrando-lhe no ouvido. – Como assim precisa de mim? Do que precisa? Diga-me, por favor... – E voltou a olhá-lo sem reação. Uma lágrima correu e pingou no rosto de Milo. – Como vou te ajudar? – Perguntou secando a lágrima no rosto dele. Mas ele continuava quieto, dormindo. Selou seus lábios com um selinho demorado, calmo, terno. – Eu estarei aqui, Milo, mas preciso que me diga a verdade. – Disse e então se levantou devagar, saindo da sala como a enfermeira havia pedido. Um último olhar e Camus fechou a porta do quarto, deixando Milo dormindo dentro do quarto.

Continua...

Notas finais
N/A: Eu sei que eles estão muito chorões para uma fic que deveria ser mais sedutora. Mas é que essa temporada, e principalmente nesse inicio, ela se focará nesse drama do passado deles, que travou Camus com relação a Milo. Mas isso irá mudar. ^^