- Marin... isso é estranho. Porque Milo não me contaria?

- Tem alguma coisa que não sabemos e só Shion tem a verdade.

Camus recostou-se na cadeira, pensativo. Marin tinha razão, e provavelmente a resposta para todas essas coisas estranhas estavam aí, no que Shion diria.

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Camus perdeu as contas de quantas vezes desejou que estivesse errado sobre Milo e que o loiro viesse com alguma resposta plausível sobre o que fez, mas sequer uma desculpa formal lhe foi direcionada. Muitas vezes tentava encontrar pistas nas palavras de Milo que justificasse tudo o que ele fez, ou quem sabe uma mera irresponsabilidade juvenil pudesse mostrar que apesar do que fez, ele poderia ter mudado e que o amasse de verdade.

Mas não foi o que aconteceu. Cada dia que passava Milo se mostrava cada vez mais afundado nessa teia de conquistas e sedução que para ele sempre foram vazias de sentimentos. Milo cresceu e se especializou em enganar as pessoas, em criar personagens que iludissem as vitimas para que acreditassem que o par perfeito tinha chegado. Doce ilusão, a verdade era que nada do teatro armado era verdade e a pessoa caía num mar de decepção e amargura, tal qual ele mesmo caíra anos atrás.

Já tinha perdido as esperanças de que Milo fosse realmente inocente. Ao usar Marin como vítima, Camus sentiu-se enojado e num instinto de proteção com a amiga, tentou protegê-la a todo custo. Mas agora, uma centelha de esperança se acendeu. Seja ele inocente ou culpado, o fato incontestável para Camus era que algo na história lhe havia faltado e ele queria muito descobrir o que era. E quem sabe assim provar a culpa ou a inocência de Milo. E se havia uma pessoa que poderia ajudá-lo a reconstruir toda essa história, certamente seria ele.

Em frente à porta de seu velho amigo, a idéia de Milo ser inocente o atormentou. Será? Repetia-se mentalmente enquanto duvidava que descobrisse pelo próprio Milo. Tocou a campainha, a espera do anfitrião da casa.

- Ora, mas há quanto tempo não é, meu amigo? – Saga não deixou de demonstrar sua surpresa e alegria por receber a visita inesperada de Camus.

- É verdade... faz muito tempo mesmo. – Sorriu-lhe, acatando o abraço fraterno do amigo.

- Depois do ano novo você nunca mais apareceu! – Riu. – Nem acreditei quando recebi sua ligação. Mas entre, a casa é sua!

- Obrigado. – Entrou timidamente observando a pequena, mas confortável residência. Saga fechou a porta e indicou o sofá.

- Eu me mudei tem poucos dias, por isso a bagunça. Quer beber alguma coisa? Um café, quem sabe? – Perguntou com um meio sorriso.

- Eu aceito o café. – Camus riu.

- Pelo visto os seus gostos não mudaram tanto. Ainda muito viciado em cafeína? – Perguntou brincando enquanto ia para a cozinha sendo seguido pelo ruivo.

- Nem tanto, mudei um pouco os meus vícios. – Riu da brincadeira do amigo.

- Eu lembro muito bem que você não respirava sem o seu habitual café matinal. Todo dia e toda hora estava tomando um pouco de café. – Sorriu amplamente ante a lembrança enquanto preparava a bebida. Para ele, foram bons tempos.

- Sim, e você sempre dizia que um dia a cafeína substituiria meu sangue nas veias. — O ruivo riu um pouco mais alto diante de tal lembrança.

- E substituiria mesmo, ainda bem que parou de beber tanto. – Sorriu olhando para Camus.

- É... mas hoje as coisas mudaram, inclusive os vícios. Milo é o único vício do qual não me livrei. – Disse e sua voz saiu um tanto mais melancólica do que gostaria. Saga percebeu e arqueou uma sobrancelha, mas desviou o olhar, se ainda conhecia bem o ruivo, de nada adiantaria perguntar diretamente o que estava causando aquela estranha tristeza.

- Então... você e o Milo voltaram a ser amigos?

- Sim, depois que voltei para cá e assumi os negócios do meu pai agente se encontrou e voltamos a nos falar esporadicamente. – Camus dizia demonstrando todo o seu ar blasé de quem não está nem aí. Um fato que estava longe de ser verdade.

- E como ele está? Fiquei sabendo que ele escreveu um livro. – Perguntou enquanto depositava a bebida na xícara. – Nunca o imaginei como escritor... – Riu um pouco.

- Ele está bem. – Preferiu ser sucinto. – Falando nisso, sabe quem encontrei esses dias? O Shaka. – Comentou indiferente enquanto aceitava a bebida quente e sentava-se à mesa, assoprando o calor que vinha dele.

- É mesmo? E ele virou um monge mesmo? – Perguntou sentando-se em frente a Camus.

- Bom, eu não sei direito. Mas acho que ele está caminhando para isso.

- Hunn... Diga-me. Ele pode ser monge? Quer dizer... vocês não...

- Eu não sei. – Camus sabia exatamente onde o amigo queria chegar e para evitar constrangimentos, resolveu responder rapidamente. Alguns segundo e eles ficaram em silêncio. Camus sabia por que estava ali, mas não sabia como perguntar. Talvez sua expressão o tivesse denunciado, ou talvez Saga fosse perspicaz demais, o fato é que ele acabou notando o embaraço do amigo e perguntou:

- Você veio aqui só para matar as saudades? – Perguntou casualmente, como quem não quer nada. Camus bebeu um gole da bebida, tentando achar as palavras certas.

- Bem... na verdade, não. Eu vim aqui porque eu queria conversar com você sobre... sobre eu e Milo... na época da escola. – Disse e depois voltou a beber um gole, tentando disfarçar sua aflição. Saga o olhou interrogativamente, tentando entender onde o ruivo queria chegar.

- Refere-se ao que Milo fez? – Ponderou bem as palavras antes de pronunciá-las.

- Sim. – Juntou toda a sua coragem e mesmo sentindo sua barriga revirar e um frio correr-lhe a espinha, conseguiu proferir essa mera afirmativa. Saga estranhou mais ainda.

- E porque quer falar disso agora, depois de tanto tempo?

- Eu preciso saber de como as coisas aconteceram exatamente. – Disse e olhou nos olhos do amigo. – Quero saber sobre outra perspectiva. – Mesmo sem entender porque o amigo resolveu desenterrar essa história depois de tanto tempo, resolveu falar.

- Bom, eu não sei muita coisa. Apenas que teve um dia em que cheguei à escola e todos comentavam que Milo tinha conseguido levá-lo para a cama e alguns levantavam hipóteses de como ele teria conseguido. – Foi sincero.

- Você ouviu o Milo contando a história?

- Não, mas alguns amigos meus ouviram. – Comentou e viu quando ele abaixou a cabeça, entristecido. – Camus, porque está me perguntando essas coisas agora? Você já sabe isso tudo!

- Na verdade, eu só sei o que me contaram... – Foi sincero. A verdade era que toda essa história estava começando a fazê-lo duvidar até mesmo do que ele mesmo tinha presenciado.

- Como assim? – Arqueou a sobrancelha completamente confuso. – Ele dopou você para levá-lo para cama. E depois contou para todos. Só vocês dois sabiam o que tinha acontecido, e se não foi você quem contou... – Dizia um tanto revoltado como se essa obviedade fosse clara demais para ele estar falando aquilo.

- Eu sei... – Camus fechou os olhos e levou às mãos a cabeça, visivelmente cansado. Saga percebeu e se aproximou, colocando as mãos sobre o ombro do amigo.

- Camus, o que está acontecendo? Porque esta me fazendo essas perguntas?

- É que... sei lá, é muito confuso. Eu não sei explicar direito. Nem eu entendo exatamente. – Camus dizia um tanto vago olhando para a xícara já vazia, preocupando o amigo. Saga suspirou, tentando achar algo para dizer que ajudasse o amigo a desabafar.

- Camus, me fala... o que aconteceu para você ter essas duvidas logo agora? – Camus pensou um pouco, respirou fundo e começou a falar.

- O Shion, o pai do Shaka. – Começou a dizer ainda incerto. – Nós dois temos negócios juntos. E isso já tem muito tempo. Desde que voltei para cá, o Shion me procura para acertar alguns negócios.

- Sim, e o que tem isso?

- Bom, é que... você não o conhece, mas ele é um cara muito preocupado com o filho, principalmente com a pureza dele.

- Pureza? – Saga não disfarçou sua surpresa, sabia bem o que tinha acontecido entre o loiro e Camus.

- Eu sei... eu sei...

- Bom, mas o que isso tem a ver com Milo?

- Saga... – Disse e finalmente voltou seu olhar para o amigo. — O Shion, ele é tão obcecado com essa história de pureza do Shaka que, até hoje ele nutre raiva do Milo. Ele sempre achou que Milo iria corrompê-lo.

- Mas...

- Mas fui eu! Eu corrompi o Shaka! – Disse levantando-se abruptamente, não conseguindo mais segurar a sua aflição.

- E o Shion sabe disso?

- Não. Eu... eu acho que não. Mas ele tentou... tentou me jogar contra o Milo ontem. Eu acho que ele... que ele desconfia de algo, talvez do Milo.

- Como assim?

- Eu acho que ele desconfia que o Milo tirou a pureza do Shaka. Só isso explica porque ele tem tanto medo do Milo ficar perto do Shaka. – Camus disse e finalmente voltou a se sentar enquanto Saga parava para pensar em tudo o que estava ouvindo.

- Camus, eu não estou entendendo... O que você quer dizer com isso? Se ele tem medo de que Milo transe com o loiro... o que isso tem a ver com a história sua com ele?

- Eu não sei... – Camus levou às mãos a boca, sentindo-se perdido. – Mas a questão é... o que Shion faria se descobrisse? – Perguntou retoricamente. Saga ficou olhando para o ruivo, visivelmente preocupado.

- Camus... calma. Olha, toma essa água. – Levantou-se e pegou um copo de água para o amigo. – Você está muito nervoso. — Disse entregando o copo, sendo aceito pelo ruivo.

- Eu sei que eu estou parecendo um louco e que toda essa história não parece ter sentido nenhum. – Disse e logo depois tomou um grande gole d’água. – Mas é que você não conhece o Shion. Ele é muito obcecado com essa história de proteger o Shaka e evitar que ele perca e pureza e essas coisas. Eu me lembro que ele me pediu, na época da escola, que cuidasse para que Shaka não fosse usado pelos outros alunos. Pediu-me para protegê-lo. Dava para ver que ele era meio obcecado com isso. E se ele por acaso descobrisse ou desconfiasse que Shaka, o que ele faria? Ele faria alguma coisa? – Balbuciou as últimas palavras e bebeu o resto da água não conseguindo prosseguir com o raciocínio.

- Está bem. – Saga tentou organizar os pensamentos. – Então o tal Shion é um pai obcecado pela pureza do filho, e você tirou essa pureza dele e agora acha que ele descobriu ou desconfia disso. Então... ele te fez alguma coisa? – Perguntou.

- Não, ele não me fez nada comigo... – Ponderou. Não se lembrava de nada que ele tenha feito. – Mas eu acho que ele desconfia do Milo!

- Certo. Então, ele fez alguma coisa com Milo?

- Eu não sei... o Milo nunca me contou nada sobre isso.

- Será que não é porque nunca fez nada porque nunca desconfiou de nada? – Arqueou a sobrancelha, chegando à conclusão mais óbvia possível. Camus suspirou frustrado.

- Mas... porque ele teria tanta restrição com o Milo?

- Bom, possivelmente pelo histórico de pegador dele.

- Mas a ponto de me colocar contra o Milo? – Levantou-se novamente. – Eu não sei, mas algo me diz que tem alguma coisa que eu não sei. – Ponderou e pela primeira vez se deixava levar pela intuição.

- Você ainda o ama muito, não é? – Saga observou um tanto amargo.

- O que? – Saga mudou tão radicalmente de assunto que Camus não teve tempo de processar o que Saga quis dizer.

- Sabe o que eu acho dessa história toda? Você está tentando arranjar um jeito de talvez pensar que Milo não seja tão... sem escrúpulos como sabemos que ele foi! Camus, não adianta tentar se enganar... por mais que o tal Shion seja um maluco, não muda o que Milo fez. Ele te estuprou, Camus! — Saga disse revoltado.

- Eu... eu sei disso. – Disse envergonhado.

- Mas não parece. – Saga sequer disfarçou sua tristeza. A verdade é que nunca conseguiu esquecer Camus, apesar de saber que jamais teria uma chance com ele.

- Saga... eu, eu sei que parece que o que estou fazendo é um modo de inocentá-lo do que ele fez, mas não é isso. Se eu estou aqui te falando todas essas coisas, é porque dessa vez, realmente me ocorreu que algo naquela historia toda ficou faltando. Por favor...

- Camus eu...

- Por favor, Saga, eu sei que não tenho o direito de pedir-lhe isso. – Corou, sabia dos sentimentos do amigo. – Mas eu peço que me ajude a montar esse quebra cabeça. Eu não posso contar com mais ninguém. Por favor! – Pediu olhando profundamente nos olhos do amigo. Saga ficou em silêncio, não sabia o que dizer. Por um lado queria ajudá-lo, pois sabia que isso o perturbava muito. Por outro, achava que isso iria alimentar mais uma vez a esperança na inocência de Milo e sabia que uma nova decepção seria muito mais doloroso para o ruivo.

- Camus... eu acho que você não devia mexer mais nessa história. Você vai acabar se decepcionando mais ainda. Sabemos que o que for que descobrirmos, e se descobrirmos alguma coisa, em nada vai aliviar a culpa dele. – Fez uma última tentativa, apelando para a razão.

- Eu não consigo, não consigo deixar de pensar nisso, deixar pra lá. Eu não posso não mexer nessa história, eu não vou ficar em paz enquanto não descobrir o que está acontecendo. Mas eu prometo que não vou me iludir quanto ao Milo. – Saga ouviu atentamente. Sabia que era pouco provável que Camus acatasse sua sugestão. Suspirou prevendo que o amigo se meteria em mais dor e sofrimento. Mas o que poderia fazer? Ele estava realmente muito perturbado com toda essa história. Não poderia deixá-lo sozinho. Suspirou contrariado.

- Tudo bem Camus, eu te ajudo então. – Disse sem muita convicção. – Mas como vamos saber se esse Shion fez ou não alguma coisa contra o Milo?

- Eu preciso que você me conte toda a história que você conhece, preciso colher o máximo de informação possível, qualquer coisa que eu não sabia. Qualquer coisa! – Camus pediu e Saga se ajeitou na cadeira. Pelo visto iriam revirar absolutamente tudo do passado deles.

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A mansão era realmente luxuosa e imponente. O portão de grade talhado com a letra M em ouro e pedras preciosas demonstrava que o dono do lugar era um homem riquíssimo e que não se importava em esbanjar seu dinheiro. Milo ficou muito pouco tempo encarando o portão e logo adentrou sendo seguido de perto por alguns seguranças da casa.

O silêncio entre eles era justificável. O dono da casa prezava pela harmonia silenciosa do ambiente quase fúnebre e qualquer barulho fora de hora o irritava. Aquele homem, apesar de ser muito sociável, era também muito austero e mantinha a rotina de sua casa com mãos de ferro. Cada detalhe da decoração foi cuidado pelo próprio, desde o piso amadeirado e reluzente da grande e imponente sala, até os quadros renomados, com pinturas que remetiam as paisagens naturais e outros um pouco mais ousadas e modernas.

Mas o que Milo mais apreciava neste homem, e do qual poderia tirar certo proveito agora, era de seu enorme senso de justiça. Podia ser agressivo e até cruel com seus adversários nos negócios, mas com a ética que era desconhecida para homens como ele.

- Sr. Milo Seferis, é um grande prazer revê-lo! – Falou o homem assim que o loiro adentrou seu sóbrio e belo escritório. Milo sorriu o seu melhor sorriso ao rever seu velho amigo e quem sabe, um importante aliado contra Shion.

- Sr. Minos de Griffon, o prazer é todo meu! – Cumprimentou se aproximando e apertando sua mão.

Continua...

Notas finais
N/A: Minos de Griffon é um espectro de lost canvas.... mas eu não vi lost canvas kkkk. Bem, mas eu resolvi atender ao pedido de uma amiga homônima rs e coloquei o Minos na fic. Se ele ficar meio ooc relevem, eu não conheço muito a história e nem a personalidade dele, minha base será totalmente o Minos da fic Rosa Selvagem. Valeu espero que tenham curtido! Bjs!!