Manual de Sedução Ii - do You Love Me?
3 Capítulo 3 - Camus e a luz da razão
- Depois, quando tudo estiver resolvido, você me agradece. Agora vamos... não é seguro ficar muito tempo no mesmo lugar.
- Certo, vamos. – Milo concordou, saindo do bar e rumando para algum lugar com muita gente, até o amanhecer, onde provavelmente teria um novo encontro com Shion.
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Para Shion, aquela fria noite demonstrou que não estava mais lidando com o pirralho de anos atrás. Milo estava mais forte emocionalmente e mais seguro de si, apesar da diferença de poder entre eles. A sua vontade era de acabar logo com aquilo, mas não poderia. A presença de seu filho e a certeza de que ele lhe escondia algo o impedia. Milo demonstrou astúcia, não poderia agora agir precipitadamente. Agir contra ele sem saber exatamente o que disse para Shaka era arriscado demais. Deveria ter acabado com ele há muito tempo, mas jamais imaginou que o garoto fosse tentar desafiá-lo e por isso deixou que ele vivesse.
Dentro de seu confortável carro, o ariano estava com a cabeça fervendo de raiva, não só pela audácia do desafio, mas por ter se permitido cair numa armadilha. Estava mais do que óbvio que ele planejou tudo aquilo, só não entendia como tinha conseguido prever uma ação sua, o que culminou num ato quase teatral onde Shion se viu impossibilitado de fazer qualquer coisa. O escorpião sabia que a presença de todos num único encontro limitaria e muito a sua ação, principalmente ante a presença de seu filho.
Bufou. Não era de se esperar que Milo tentasse convencer Camus de que algo em sua vida estava errada. Sem a proteção da confiança e da credibilidade, ele ficaria vulnerável e se afastaria, permitindo que Shaka pudesse seguir com o caminho meticulosamente arquitetado. Mas ao contrário do que pensou, a vulnerabilidade não o deixou frágil. Algo ou alguém o estava encorajando a se insurgir contra ele, e isso era inadmissível.
Shion elevou calmamente uma das mãos e acariciou os próprios cabelos, indicativo claro para Shaka de que seu pai estava nervoso. Na verdade, o loiro indiano também estava nervoso. Ele ainda estava um tanto incrédulo por tudo o que tinha acontecido e a sensação de perigo o alertava para ter o máximo de cuidado.
- Você falou com ele? – A voz suave e tranqüila do ariano em nada transparecia o ódio que sentia. Shaka olhou para ele e tentando manter o equilíbrio, perguntou:
- Com Milo? Não, na verdade eu fiquei tão surpreso que...
- Não falou com ele pelo celular? – Só de imaginar que seu próprio filho estava mentindo por culpa daquele idiota o fazia transbordar de ódio, cerrando o punho com força para tentar conter-se. Shaka empalideceu, olhando assustado para o pai.
- Celular? – Não sabia o que dizer. Milo disse que acontecesse o que fosse que não contasse ao pai sobre a breve conversa. Shion sorriu e olhou docemente para o filho, levando umas das mãos ao rosto frio e pálido do indiano, acariciando levemente.
- Aprendestes tão rápido a mentir? Anos de trabalho e de purificação para aquele lá vir e estragar tão rapidamente? – Apesar de indignação, Shion mantinha-se calmo e carinhoso.
- Papai... – Shaka não conseguiu prosseguir, pois Shion tornou a falar.
- Não vou deixar que ele macule a sua pureza, meu filho. Não se preocupe, eu resolverei isso. – Shion retirou suas mãos e voltou a olhar pela janela.
- Como assim? O que vai... – Foi novamente interrompido.
- Já disse... não se preocupe com nada. –Sua voz saiu um pouco mais firme do que de costume e tentando tranqüilizá-lo, sorriu-lhe mais uma vez. O loiro pôde ver a nuance de seus olhos, uma nuvem negra e sombria e temeu pela vida de Milo, mas nada disse.
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- Ai... eu estou acabado! – Reclamou Aioria, enquanto se esticava para diminuir as dores por ter dormido de mau jeito. – Não tinha um carrinho melhor para passar a noite não, hein Milo!? – Perguntou manhoso enquanto alongava o pescoço.
- Foi o que deu para arrumar. – Disse secamente enquanto observava a sua casa, ao longe. O Passat anos 90 velho de cor marfim em que os dois passaram a noite pertencia ao tio de Ana, sua secretária. O automóvel, apesar de velho, proporcionava certa segurança aos seus passageiros, pois com sua documentação irregular, ninguém chegaria até eles através do número da placa. Estacionado na esquina de sua residência, perto de outros carros também estacionados, ele praticamente sumia na rua, proporcionando para o escorpião uma visão boa de sua casa e também certa invisibilidade.
- Eu posso pelo menos ir lá fora esticar as pernas? – Aioria perguntou.
- Não. É arriscado demais você ficar lá fora. – Disse calmamente sem tirar os olhos de sua mira.
- Agente está aqui a noite toda Milo... quanto tempo mais vamos precisar esperar? Acho que eles não vão...
- Aioria! – Milo finalmente voltou seu olhar para o amigo. Suspirou, também estava cansado. – Eu sei que você está cansado, eu também estou. Mas acredite amigo, Shion não vai deixar barato o que eu fiz e com certeza está planejando me procurar para acertar as contas. – Disse, assustado com a naturalidade com que dizia isso. Resignou-se, sabia onde estava se metendo quando decidiu fazê-lo pagar. – Me desculpe fazer você passar por isso. – Disse desviando o olhar. Talvez não devesse ter metido Aioria nessa confusão.
- Ei!! Não tem que se desculpar! Eu mesmo insisti para que você não cruzasse os braços para as atrocidades daquele cara. Eu vim porque quis, sou seu amigo não poderia deixá-lo sozinho nessa! – Aioria disse colocando a mão no ombro do loiro. Milo sorriu-lhe.
- Obrigado pela força amigo! – O aperto forte de mãos selou o compromisso. Estariam juntos nessa perigosa empreitada.
- Escuta... você tem certeza que eles vão vir? – Perguntou, olhando para a casa de Milo. Mas não foi preciso esperar muito. O loiro nem precisou abrir a boca, pois já avistavam um carro preto estacionando em frente a sua casa.
- Vai ser muita sorte se ele estiver lá. – Comentou Aioria, já se esquecendo do cansaço.
- Improvável, ele não vai dar esse mole. – Milo disse, enquanto pegava uma máquina de fotografia.
- Vai fotografar daqui? – Aioria perguntou, olhando para o pára-brisa.
- Pela janela. – Disse já colocando uma mão pra fora e tirando algumas fotos. A tensão tomou conta deles, enquanto observavam alguns homens discretamente arrombarem a casa de Milo e entrarem. Meia hora depois, eles saíram e Milo tirou mais algumas fotos, tentando esconder-se ao mesmo tempo.
- Vamos lá? – Aioria perguntou ao ver que os caras saíram. Milo respirou fundo e depois de alguns minutos, eles foram para dentro de casa.
A visão era realmente assustadora. A porta estava arrombada e todos os móveis quebrados. Parecia que um furacão tinha acabado de passar por ali, revirando tudo e deixando apenas o teto e as paredes no lugar. Era um aviso velado e Milo se arrepiou.
- Cara! Eles destruíram tudo! – Aioria comentou, caminhando por entre os destroços dos móveis. Apesar de chocado, Milo começou a fotografar o estado de sua casa. Aioria olhou para o amigo e a impassibilidade dele o intimidou. – Milo, você está muito calmo. Às vezes o medo é bom para saber onde devemos parar. – O escorpião parou com as fotos, como se estivesse refletindo.
- Sim, se eu soubesse, nunca teria começado. – Disse e Aioria teve a certeza de que ele não falava do que faziam agora.
- Muito bem! – Aioria respirou fundo, tentando raciocinar em meio à destruição. – Enfurecemos um psicopata que te odeia; estamos sendo caçados por ele; e ele acaba de mandar um monte de caros mal encarados destruir sua casa. – Parou para encarar Milo como se não acreditasse no que falava. – E o que fazemos agora?
- Temos que pegar Shaka. – Milo sequer titubeou. Mas sabia que não seria fácil.
- O que? Pensei que você tivesse marcado um encontro com ele.
- Sim, eu disse que queria falar com ele. Mas ele não me ligou mais. Isso significa que Shion deve ter desconfiado de alguma coisa e o segurou.
- Bom, se isso aconteceu mesmo, como nós vamos pegar o monge loiro? Quer dizer, você não está pensando em ir até a casa do cara e arrancar o loiro de lá, não é?
- Não. Seria muito arriscado. — Aioria suspirou aliviado.
- Então, como fazer isso?
- Temos que fazer o Shaka vir até nós. – O leonino arqueou uma sobrancelha.
- Como? Convidando-o para uma festa!?- Milo o encarou e riu.
- Não é uma má ideia. Vamos. – Eles então saíram da casa, não sem antes avisar a polícia do ocorrido na casa de Milo.
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Naquela manhã, Camus chegou ao trabalho muito mais cedo do que de costume. Suas olheiras profundas denunciavam que ele passara a noite completamente às claras. O ocorrido com Milo, sua postura, seu desdém para com ele, a estranha informação falsa de Shion o deixavam cada vez mais confuso. E se antes já tinha a sensação de que algo acontecia pelas suas costas, agora essa sensação era ainda mais forte.
- Não teve uma boa noite? – Marin perguntou, entrando em sua sala. Camus sorriu amargo.
- É tão óbvio assim?
- Sim, suas olheiras estão de dar medo. – Brincou, levando um sorriso no rosto cansado de Camus.
- Não consigo deixar de pensar na noite de ontem. O comportamento de Milo, a acusação de Shion... Algo muito estranho está acontecendo e eu não sei o que é. – Indagou a si mesmo, levando às mãos a cabeça, tentando encaixar algum sentido naquela história toda. Marin olhou o amigo e suspirou. O amigo estava certo, queria falar-lhe, mas não podia.
- Sabe... eu não gostei nada, nada desse Shion. Ele é tão.... estranho. – Disse tentando fingir indiferença. Camus a encarou curioso. Ela apenas confirmou, gesticulando com as mãos. – Intuição feminina. – Emendou.
- Eu conheço Shion há muito tempo. O Shaka, o rapaz que você levou para conhecer a fundação, ele estudou comigo e com o Milo. – Camus sorriu saudoso ante a lembrança. – Ele chamava tanto a atenção. Era engraçado. Todos queriam ser amigo dele, mas acho que ele gostou de mim. Ficamos muito amigos e andávamos sempre juntos.
- Imagino que Milo deve ter ficado com ciúmes. – Marin complementou sorrindo.
- Eu não sei. – O sorriso morreu na boca ao lembrar-se de Milo. – Eu sei que depois que Shaka apareceu tudo mudou entre nós. Pode ser que ele tenha se sentido rejeitado sim, mas nunca demonstrou isso. No começo, eu tentava equilibrar entre ficar um pouco com os dois, mas o Shaka era tão dependente de mim, parecido comigo, ele me entendia sempre e era tão calmo, centrado e inteligente. Não é que eu não gostasse de ficar com Milo, mas é que ele sempre fazia alguma coisa que me irritava, ele era impulsivo, elétrico, intenso, muito diferente de mim. Eu acho que acabei me aproximando muito mais do Shaka esperando ver nele um pouco do que não encontrei no Milo.
- Eu entendo. – Marin tentou confortá-lo.
- Certa vez o Shion apareceu na escola. Logo de cara eu percebi o quanto ele era protetor com o filho. Eu lembro que cheguei a pensar que chegava a ser insano tanta proteção, mas eu tentava entender. Ele era pai e sabia que o filho era ingênuo demais e não saberia se defender.
- Eu não achei o Shaka tão ingênuo assim. Ele me pareceu tão sábio.
- Sim, ele é muito inteligente, às vezes parece um ser sobrenatural. – Marin riu.
- Sim, foi essa a impressão que tive.
- Mas ao mesmo tempo ele é muito ingênuo, não percebe a maldade humana, e acaba correndo um sério risco.
- Hunn... mas será que essa ingenuidade toda não foi fruto da educação do pai? – Camus riu.
- Você não gostou mesmo dele, não é? – Riu mais ainda. Ela confirmou seu desgosto fazendo uma careta. – Talvez ele tenha agravado a situação do filho ao evitar que ele tivesse experiências, mas eu entendo, foi o modo dele de mostrar o amor que tem pelo filho. Eu sei que ele tem toda essa pose de chefe de máfia, mas ele é um cara legal. Nunca fez nada que pudéssemos dizer algo contra ele. – Marin mordeu o lábio inferior e se aproximou da mesa de Camus, apoiando os braços.
- Bom, ele fez agora. – Diante da expressão confusa de Camus, ela emendou. – Mentiu dizendo que Milo o perseguia, quando sabemos que ele estava no Japão. – Camus suspirou.
- É... mas porque ele faria isso?
- Não sei, mas deve ter a ver com o Milo, senão porque ele mentiria envolvendo o nome do Milo?
- Shion tem certa raiva de Milo. Assim que Shaka foi para a escola, ele investigou a vida de todos os garotos e conhecia bem o jeito de Milo. Ele tem medo de que ele corrompa o filho.
- Como assim?
- É, na verdade, eu sempre achei isso muito estranho. O Shion colocou na cabeça que Milo corromperia o Shaka simplesmente por causa do comportamento devasso que o Milo sempre teve, essa mania que ele tem de seduzir todo mundo. Ele achava e ainda acha isso por causa do temperamento, das atitudes do Milo, sempre seduzindo facilmente as pessoas até hoje.
- Ele não confia na santidade do Shaka?
- Parece que não. E nem deveria. – Marin o encarou surpresa. – Ele não é tão puro assim quanto parece.
- Porque diz isso?
- Bem, a verdade é que... o Shion sempre temeu que ele tentasse seduzir o Shaka, mas... bem, no final das contas, quem acabou corrompendo-o fui eu.
- O que??? – Marin se sobressaltou. Essa parte da história ela não conhecia.
- Eu... teve uma vez, naquela época, em que eu e o Shaka... nós...
- Vocês transaram??!!
- É, transamos. – Camusconfirmou sem graça.
- Meu Deus! – Marin não sabia o que dizer.
- Eu tenho a impressão que o Shion desconfia de algo, só que ao invés de achar que eu o seduzi, ele desconfia que foi o Milo.
- Essa história é muita louca! Espera! Deve ser isso mesmo!
- O que?
- Olha... você não disse que o Shion era obsessivo com a pureza do Shaka? Então, o que você acha que ele faria se descobrisse que você transou com o filho dele?
- Ele não descobriu, se descobrisse nunca teria assinado um contrato comigo.
- Tudo bem, e o que ele faria se descobrisse ou desconfiasse que Milo seduziu Shaka? – Camus parou para pensar um pouco.
- Eu... eu não sei o que ele seria capaz de fazer.
- Então, seja lá o que ele faria, essa mentirinha deve estar no pacote. – Ela disse se recostando na cadeira.
- Mas... depois de tanto tempo? – Apesar de fazer sentido, aquilo era estranho demais.
- Hunn... se ele acha que Milo o seduziu, talvez ele tenha feito algo lá atrás, e o Milo não te contou. – Marin dizia como se aquela fosse à verdade, e para Camus aquela nova hipótese mudava tudo na sua cabeça. Apesar de fazer sentido, era incrivelmente estranho e surreal.
- Marin... isso é estranho. Porque Milo não me contaria?
- Tem alguma coisa que não sabemos e só Shion tem a verdade.
Camus recostou-se na cadeira, pensativo. Marin tinha razão, e provavelmente a resposta para todas essas coisas estranhas estavam aí, no que Shion diria.
Continua...
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