Manual de Sedução Ii - do You Love Me?
22 Capítulo 22 - O destino do escolhido
Notas iniciais
Aproveitando, dedico esse capítulo a Minos de Griffon! Já estou até pensando em torná-la coautora dessa fic, pelo taaanto que ela me ajuda nos momentos de aperto! Como sempre, betando ou ajudando a desembolar minha mente, sempre junto! Muito obrigada mesmo amiga!! =D
Enfim... vamos a leitura porque esse capítulo é O CAPÍTULO!! RS
– Minos? O que faz aqui? – Camus perguntou, mas foi ignorado.
– Como ousa entrar em minha casa desse jeito e ainda dizer tal absurdo! — Shion retorquiu.
– Não é nenhum absurdo e sabe muito bem disso! Seu passado é muito mais sombrio do que poderíamos supor, Shion. Mas se é este o caso, talvez ele possa relembrá-lo disso... – Minos abriu espaço e por detrás dele apareceu um homem que deixou pálido.
– Não acredito... – Balbuciou. – Dohko...
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Os olhos se cruzaram de relance e imediatamente Dohko sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. Há muito tempo não encarava aqueles olhos tão sombrios e enigmáticos, escondidos sob o manto impecável da sobriedade de um homem de negócios que só a boa posição social que ostentava poderia oferecer. Mas não se enganava fácil, principalmente quando o assunto era Shion. Sim, era ele mesmo, por mais incrível que lhe parecesse, era o mesmo Shion de antes quem estava bem a sua frente. Conhecia-o muito bem para saber que não tinha mudado nada.
O ariano, por sua vez, assustou-se ao ver o amigo de longa data. Empalideceu imediatamente, com a impressão de estar vendo um fantasma. Mais maduro, o homem que agora o encarava não deixara a característica imponência enfraquecer pelos anos e nem reprimir-se pelo sofrimento naquele que fora para ambos um passado repleto de pecados. Mas era ele, e não podia acreditar. Não, era para ele estar morto!
O passado distante veio a tona e uma lágrima solitária correu a face de Shion junto com as lembranças, odiosas cenas que vivenciou com ele. A dor, o medo e a angústia, misturada com a revolta de ter perdido seu grande amor. Decidido a deixar tudo para trás e levar consigo a esperança de vingança em seus braços, o abandonou para trás, ele, seu amor, seu Dohko, que sozinho acolheu no peito a culpa que era de ambos e a fúria de um povo que não era seu. Por um grilhão que não lhe cabia. A culpa de amar...
– Senhor Shion, desculpe-me... – A empregada afobada apressou-se correndo. – Eu avisei que não era para entrar... eu... Se quiser posso chamar os seguranças! – Ela ameaçou olhando para os visitantes. Minos fechou os olhos e sorriu.
– Vai expulsar o seu melhor amigo de sua casa, Sr. Shion? – Minos desafiou antes que o ariano falasse qualquer coisa. A surpresa era, sem sombra de dúvida, a melhor das armas de ataque. O ariano fechou os olhos e respirou fundo.
– Dohko... pensei que estivesse morto! – Balbuciou tentando evitar as lágrimas. Mas que desgraça de destino era esse?
– Eu também pensei que estivesse morto. – Eles se olharam novamente como que para ter certeza de que não era nenhum engano. Não, não poderia ser. Seus corações jamais se enganariam a tal ponto.
– Quem é você? — Camus perguntou para Dohko, percebendo que o homem mexia muito com o ariano, que o fuzilou com os olhos.
– Este homem, Camus, tem a resposta que você tanto procura. – Minos respondeu, percebendo que o outro se mantinha quieto. Camus franziu o cenho e mirou atentamente para o homem que não tirava os olhos de Shion. A resposta veio como se o despertasse de um pesadelo, fazendo Shion fitar atentamente a Minos. Então era isso, tivera todo esse trabalho de descobrir seus segredos, ir atrás de seu amor, somente para encurralá-lo? Não, não agora que estava tão perto, não deixaria que ninguém o impedisse. Cumpriria sua promessa de qualquer jeito!
– O que você quer? – O ariano perguntou para o antigo amigo de forma rude, respirando fundo e comprimindo o sentimento dentro de si. Dohko estremeceu. Esperava outra atitude. Agora que estavam juntos, não tinha porque tratá-lo dessa forma.
– Quem deveria fazer essa pergunta sou eu... Porque está fazendo todas estas coisas?
– Não sei do que está falando... – Desconversou, olhando para a empregada, confirmando que deveria chamar os seguranças.
– Porque inflige a Shaka tais grilhões que sabe serem falsos?
– Você não sabe o que diz... Shaka é um iluminado! Ele tentou desvirtuá-lo de seu caminho! – Indicou a Camus. – Mas eu o impedi...
– Mentira Shion! Você sabe muito bem que isso é uma mentira! Pare de se enganar e principalmente pare de enganar Shaka!! Não percebe que com essa vingança só está trazendo desgraça e destruição para você e pra ele!!?? Tal como disse a profecia... não permita que isso termine desse jeito Shion... por favor! – As lágrimas caíram chocando ainda mais o ruivo, que não conseguia entender nada do que ele dizia.Mas achou por bem seguir o conselho mudo de Minos e apenas observar.
– Não me peça isso... – Shion cerrou bem os olhos para evitar lágrimas e desviou o olhar. – Eu prometi a você que me vingaria. Que faria dele um escolhido...
– Ele não é o escolhido! Não é assim como você também não era! Nunca foi... – Murmurou chateado. Shion manteve-se inerte. Era doloroso ouvi-lo, era perturbador.
– Eu vou cumprir, Dohko... – Disse com um fio de voz, finalmente voltando seus olhos para eles. O chinês engoliu em seco, os olhos de seu amor estavam vazio, oco, permeado por uma sombra de ódio e insanidade. – Não importa se Shaka é ou não é o escolhido! Se a profecia é verdadeira ou não, não me importa!! Vou cumprir a promessa que fiz no seu leito de morte. Vou transformar Shaka num líder, no escolhido e colocá-lo no seu lugar de direito, e assim dominar aquele lugar, todo aquele povo. Terei o poder pelas mãos de Shaka, e terão que se curvar diante de mim, diante do homem que humilharam, pisaram e agrediram! – Disse friamente mandando os seguranças levarem os três, inclusive Camus. Naquele mesmo dia levaria o seu filho para a vila e tudo estaria resolvido. Sua promessa seria cumprida. Ele só não esperava que...
– O quê...? – Shaka perguntou incrédulo. Ouvia a conversa escondido na escada que dava para o andar de cima há pouco tempo, mas suficiente para ouvir o próprio pai dizer que ele poderia não ser quem era. – O que está dizendo, papai? – O loiro se virou para o pai.
– Shaka?! – Assustou-se, mas fez um esforço descomunal para manter a calma e não demonstrar. – O que está fazendo aqui? Há quanto tempo está ouvindo esta conversa?
– Tempo suficiente para ouvi-lo dizer que não sou o escolhido! – Gritou magoado.
– Não foi isso o que eu disse... Ele é um estrangeiro, não é da nossa terra. Ele não acredita nas profecias do nosso povo! Para ele, nem você e nem ninguém é o escolhido... Mas sabemos a verdade, Shaka. Você é o escolhido e provará isso... – Disse colocando as mãos no ombro do filho, tentando convencê-lo.
– Pare de mentir para o garoto! Você nem mesmo é nativo daquele povo, sabe muito bem que essa profecia é falsa! Você sabe por que a viveu na pele!! – Dohko vociferou num misto de raiva e decepção.
– Ele mente Shaka! Ele mente e você sabe disso! Ouça-o! — Camus gritou fazendo Shaka encará-lo.
– Calem a boca!! – Shion gritou, perdendo o restante do autocontrole. Shaka se virou para o estrangeiro e depois para o pai. – Levem-no, agora! – A ordem autoritária e até raivosa de Shion saiu com a força de um tambor até os seguranças que acabavam de chegar, mas o loiro o impediu.
– Esperem! – Shaka gritou e os seguranças pararam. Seu coração estava acelerado e tremia por dentro.
– O que é isso, Shaka?! – Shion repreendeu o filho. – Vai para seu quarto, agora! – Ordenou, segurando no braço do filho. – Tirem eles daqui!! – Gritou para os seguranças. Camus sabia que se saíssem da casa naquele momento, perderia a chance única de fazer Shion pagar por todos os seus crimes. Não estava entendendo direito o que estava acontecendo nem o que aquele homem dizia, mas com certeza ele tinha muitas respostas que Shion não quer que venham a tona. Por isso, sem pensar muito, aproveitou que a confusão desconcentrara o segurança que o segurava e se desvencilhou do segurança e, num movimento rápido e preciso, o rendeu com a arma que lhe fora entregue por Shura, deixando Minos e Shaka surpresos e assustados com a ação impetuosa do sempre frio Camus. Fez o segurança entregar sua arma, rapidamente.
– Não vamos sair daqui até tudo estar esclarecido! – Camus gritou para Shion. – Mande-os embora ou vou atirar nele! — Ordenou para que os outros seguranças saíssem dali. Shion ficou um tempo olhando aquela cena, não deixaria que aquele ruivo dominasse a situação.
– O que está fazendo, Camus?! – Shaka perguntou, assustado com a atitude dele.
– Não vou mais permitir que faça o que bem entende! Chega Shion, chegou a hora de você pagar por seus crimes! – Vociferou e olhou para os outros seguranças. – Saiam ou vou matá-lo! – Gritou raivoso.
– Esperem! – Shion gritou ao ver os seguranças saírem. – Ele está blefando!
– Pois experimenta para ver!! Depois de tudo o que eu passei por sua causa, Shion, não me importo de ter que para a cadeia se for pra livrar Milo de você!! – Disse friamente e acionou o gatilho da arma. – Vão pagar pra ver!!?? – Gritou para os seguranças, que se retiraram.
– Então, estamos vendo quem é o verdadeiro Camus Verseau! É bom que veja, meu filho, o tipo a quem confiou ao invés de mim! Um sujeito capaz de atentar contra a vida de um inocente somente para atender a seus objetivos! – Tentou plantar a dúvida em Shaka.
– Cala a boca! Não adianta negar, sua máscara caiu!! Todo mundo já sabe o que você fez! Tentou enganar até o pobre do Shaka com essa estória de escolhido, até tentar matar o Milo você foi capaz para conseguir com que ele fosse o tal escolhido! Diz a verdade! Foi porque transei com ele que você se voltou contra nós, não foi?!! — Gritou o ruivo, tentando instigar Shion a contar de uma vez. Ele trincou os dentes de raiva, se a situação continuasse desse jeito, não poderia mais reverter. Tinha que calá-lo, de um jeito ou de outro. Pensando nisso, deu uns passos para trás para alcançar a escrivaninha, procurando sua arma.
– Não sou eu que atento contra a vida de inocentes, Camus! Pare de mentir!
– Você tentou matar um homem...? Por causa de uma vingança inútil?! – Dohko assustou-se.
– Tudo pelo poder... – Complementou Minos, seriamente.
– Vocês não possuem provas contra mim! Nada! – Shion gritou.
– Pai! Deixe que ele fale! Ou tem algo a esconder? Tem algo a esconder de mim?! Algo que eu não possa saber?! – Shaka o desafiou como nunca antes. Ele sentia-se terrivelmente inseguro com essa atitude, mas não suportava mais viver com essa desconfiança.
– Filho... sabe que não o escondo nada... – Sua respiração começou a se alterar. Estava perdendo o controle de Shaka, sabia disso, estava sentindo em seu olhar.
– E então? – Shaka intimou.
– Eles só falam mentiras! – Respondeu.
– Deixe que eu mesmo avalie isso...
– Você não pode...
– Posso sim! Se já posso ser empossado como reencarnação de Buddah, posso saber se alguém mente ou não! – Shion calou-se. Não estava acreditando naquilo, ele estava desafiando-o. Poderia mandá-lo subir, mas isso inundaria sua cabeça de desconfianças, e isso sim era perigoso.
– Muito bem... vamos ver se você tem condições de ver quem mente.– Ali ele poderia controlar melhor o rumo da conversa.
– Que história é essa de vingança?Porque diz que não sou o escolhido? – Shaka perguntou para Dohko, aturdido.
– Porque é o que diz a profecia... diz que o escolhido será a reencarnação de Buddah, nativo da região, um ser iluminado, perfeito em sabedoria, pureza e bondade. E... nenhum homem é capaz de alcançar tamanha elevação. É uma utopia, uma lenda que nunca poderá ser cumprida além do próprio Deus. Shaka... você é um homem, por mais bondoso e puro que seu coração seja, você e nem ninguém conseguirá tal feito.
– Mentira! Você não acredita... nunca acreditou! Mas Shaka sim pode alcançar a elevação necessária para manifestar a sua essencial divina, especial...
– Nem você acredita mais nisso, Shion! – Gritou em vão. – Céus, depois de tudo o que passamos, não é possível que ainda acredite em tal coisa!
– Porque não conta a sua história, Dohko?! – Minos sugeriu, recebendo com tranqüilidade o olhar quase assassino de Shion.
– Dohko! – A voz saiu raivosa, mas baixa. Era uma ameaça velada. Mas uma ameaça que foi ignorada. O chinês respirou fundo e olhou fundo nos olhos do loiro.
– O seu pai foi criado para ser o escolhido, como você. Eu o conheci numa viagem que fiz e... nos apaixonamos. – Fechou os olhos, deixando as lágrimas correrem por sua face. – Mas, como sabe, o escolhido não pode se apaixonar, não pode se envolver. Tem que manter a castidade. Eu não sabia, mas ele sim. Então, nos tornamos amantes, secretamente. Eu sabia que jamais aceitariam nosso amor, mas nunca imaginei que algo nessa magnitude pudesse acontecer. Eles, do povoado, descobriram nosso segredo, nosso romance... – Levou as mãos ao rosto, limpando suas lágrimas. – Eu nunca acreditei nessa coisa de escolhido, de reencarnação. Mas era importante para ele... – Disse encarando os olhos de Shion. – Apesar de não ter nascido na Índia verdadeiramente, ele fora acolhido e criado porque o oráculo deles havia dito que o escolhido cumpriria sua missão fora de seu reduto, então creram que o escolhido viria, desta vez, fora da região. Quando acolheram Shion, acreditaram que ele era o nascido escolhido e o criaram e educaram para tal. – Shaka encarou o pai que mantinha os olhos marejados.
– Sim, eu sempre soube que ele já fora o escolhido. – Falou e virou-se para Dohko que continuou:
– Quando cheguei ao povoado, me apaixonei imediatamente. Ele parecia tão... doce e iluminado. – Fechou os olhos, sorrindo com a lembrança do passado. – Nem de longe lembra este homem a minha frente. – Murmurou magoado. – Ele também se apaixonou por mim. De início eu não sabia o que esse sentimento significava, que ele estava corrompendo a lenda. O escolhido era puro, casto, iluminado, sábio... características que não se encaixavam com ele, por mais que se esforçasse. Quando descobri, aquilo pareceu um absurdo, só mais uma crendice dessas de vilarejo. Ele não podia fazer isso conosco, não poderia sacrificar nossas vidas e nossa felicidade em prol de uma lenda. Mas ele o fez... – Não conseguiu evitar que mais lágrimas marcassem sua face.
– Você nunca acreditou... Nunca entendeu o que aquilo significava para mim. – Shion murmurou, estremecendo ao reviver toda aquela história. Dohko sorriu triste.
– E não era mesmo para acreditar... A lenda do escolhido não pode ser cumprida, uma missão que jamais deveria ter saído do imaginário popular. – Suspirou cansado. – Eu sugeri que fugíssemos, eu tinha que voltar para a minha terra, então sugeri que ele viesse comigo, para que a gente pudesse viver nosso amor, mas ele não quis. Preferiu ficar... talvez ele nunca tenha me amado de verdade. – Disse magoado. Shion desviou o olhar, mas não falou nada. – Eu fiquei magoado, mas entendi. Ele queria, achava que devia isso àquele povo que lhe deu tudo e tanto esperava dele. Não queria decepcioná-los, não queria frustrar todo aquele povo que tanto fez para que torná-lo o grande líder. – Disse e os olhos de Shaka marejaram, se voltando para o pai, num sorriso cúmplice.
– Eu entendo esse sentimento, e compartilho desse sacrifício. – Sussurrou e de certa forma aliviou o coração de Shion.
– Um sacrifício em vão, eu diria. Não o culpo por isso, nem sempre controlamos o que sentimos. Aliás, na maioria das vezes não controlamos. – Shaka voltou seu olhar para Dohko. – Só que eles descobriram tudo. Não sei como, porque éramos cuidados com isso, mas eles descobriram tudo e ficaram furiosos. Foi terrível, eles se sentiram enganados. Essas paradas são levadas muito a sério por eles. Sentiram-se enganados por Shion, e... – Fechou os olhos, exprimindo a dor de suas lembranças. – Nos infligiram todos os tipos de humilhações, nos agrediram... tínhamos que pagar um preço muito caro.
– Você foi levado para a morte por corromper o escolhido... o maior dos pecados. E eu vi tudo. Consegui fugir e pude ver escondido tudo o que lhe fizeram, todas as crueldades, todas aquelas barbaridades... eu... não entendia aquilo. Como eles podiam ter coragem de fazer aquelas coisas! Foi... uma cena horrível! Foi desumano... não sei como conseguiu sobreviver! – Shion saiu de seu silêncio entorpecido pelas lembranças, sentindo-se enojado por elas.
– Mas eu não me arrependo Shion! Eu passaria tudo de novo para viver o que vivemos... – Disse e logo um momento silencioso se fez presente, alguns constrangidos outros com verdadeiro pesar. – Você prometeu vingança e capturou a nova geração do escolhido. O homem que guiaria aquele povo nos mandamentos do amor e perdão. Mas ele nunca veio e nunca virá, porque eles nunca o receberiam... Eles não teriam base para receber alguém assim...
– Isso é o que você pensa, Dohko! Não representa a verdade!
– Você sabe muito bem que essa é a verdade! Shaka... – Disse chamando a atenção do loiro. – Tenho certeza que você tem essas mesmas dúvidas, que você sente, bem dentro do seu coração, que apesar da sua própria vontade, você sabe que não é o escolhido. Você sente isso... ele também sentiu! Aposto que todos sentem! – Disse e viu Shaka abaixar o olhar. Acertara em cheio.
– Eu... sim, sempre tive. – Balbuciou. No fundo, não podia negar. Sempre achou que não era o escolhido.
– Shaka... não duvide! – Shion gritou. – Não entre no jogo dele!
– Shaka... o que nós vivemos prova isso. – Camus disse, agora as coisas pareciam mais claras. É claro que ao saber de toda aquela história, tudo fez sentido, principalmente pelo seu histórico com o loiro, mas ainda faltava algo. Shion o encarou revelando todo o seu ódio pelo ruivo.
– Você é o pecador que corrompe o escolhido! Ah Camus... se você estivesse no povoado, ai sim você veria o que era punição de verdade! – O ódio brotou quase instantaneamente nos olhos e na expressão de Shion, tanto que fez o ruivo estremecer.
– Papai... – Shaka também se assustou, seu pai parecia realmente o demônio. Mas ele não o ouvia. Toda a história, a volta de Dohko, as dúvidas de Shaka que o afastavam cada vez mais de seu destino, de sua vingança, todo um plano se esvaindo, tudo por culpa dele, daquele ruivo! Devia tê-lo matado quando teve oportunidade.
– Mas não... os Deuses lhe protegeram... Mas foi você! Você acabou com a vida de Shaka!
– Eu não fiz nada disso, seu doente! Éramos crianças e...
– Você tirou dele a chance de ser líder! – Vociferou, transtornado. – Sabe o que é ter todo um trabalho, toda uma promessa, toda uma vida esvair-se de suas mãos feito grãos de areia por causa da irresponsabilidade de gente como você! Eu fiz de tudo! Tudo para salvá-los... Shaka iria salvá-los! Salvar nosso povo do ódio, da iniqüidade, da lama em que eles mesmos se enfiaram... Eu iria tirá-los, salvá-los de uma vida miserável, preparando um escolhido e guiando a todos para um caminho de luz! Mas aí você e aquele depravado do Milo apareceram e estragaram tudo! Eu devia ter matado você quando tive oportunidade! Devia ter atirado eu mesmo aquele carro em cima de você! Mas fui confiar em outros irresponsáveis para fazer o serviço sujo! Imundos! Vermes miseráveis! Nem para limpar a própria cidade vocês servem! – Shaka estava com os olhos arregalados. Não podia acreditar no que o pai falava, não podia acreditar no que via! Quem era aquele homem completamente endemoniado que estava falando e gritando daquele jeito.
– Você... é doente! Éramos crianças! – Camus gritou chocado com o que ouvia, deixando correrem lágrimas pela face. Shion riu alto e debochado.
– Crianças! Crianças não fazem perversidades, seu maldito! Mas não, vocês eram a perversão em forma de homem. O outro então... só pensava em imundices! Vocês eram tão nojentos que se entendiam direito. – Fez uma pausa, num sádico pensamento. – Mas eu tenho que admitir que aquele loiro realmente gosta de você. Passar pelo que ele passou só para te proteger, realmente... – Camus franziu o cenho. – Mas você estava tão imerso na podridão que nem conseguiu ver a verdade que estava estampada bem na sua cara!
– Você! Tentou matá-lo! – Camus vociferou e tremeu, com raiva e ódio crescentes dentro de si.
– Mais do que isso, meu jovem. O pecador, o gerador do pior dos pecados, contra o escolhido, ele paga um preço muito alto. – Olhou para Dohko que estremeceu. – O preço é a morte. E eu fiz questão de matá-lo, matei seu espírito. Matei seu coração. Tirei de você quem você mais amava... – Riu divertindo-se com o sofrimento estampado no rosto do ruivo. – Você achou mesmo que ele não te amava, não é? Achou que ele te usou, te dopou, tudo para satisfazer suas perversões, não é? É... confesso que de um pervertido, não é difícil esperar algo assim. Pena que não era verdade! Eu o fiz fazer aquilo, com a condição de não tirar sua vida. E o estúpido me obedeceu, tudo para proteger você... acabou com qualquer coisa que vocês pudessem ter... Eu acabei com você! Eu acabei com vocês assim como vocês acabaram comigo!Está me ouvindo!? Eu acabei com você! – Gritou ensandecido.
– Seu maldito! – Gritou com lágrimas nos olhos e apontou a arma para Shion, mas acabou se distraindo do segurança, que o derrubou e o desarmou, segurando-o pelo pescoço. Shion riu.
– Que patético! Ia atentar contra a minha vida, Camus?! – Debochou. – E olha que eu nem terminei... Imagina se soubesse de tudo o que eu o fiz pagar em seu nome! – Riu sadicamente e se aproximou perversamente do ruivo, sussurrando em seu ouvido. – Eu o fiz pagar na pele o que você devia ter pagado por ter desviado Shaka de seu caminho. Assim como aconteceu a Dohko, eu o humilhei, agredi e violentei até ele não agüentar mais! Até ele implorar por sua vida, até ele beijar meus pés para que eu parasse. Até chegar ao seu último fio de vida. Eu o fiz passar... em seu nome! – Camus sentiu seu coração falhar e sua vista embaçar, fechou os olhos. Deuses, isso não é um homem! É um verdadeiro demônio. Meu Deus, o que fez com Milo!?
– Mas não precisa ficar assim, Camus. Eu vou acabar com seu sofrimento... – Disse, mas o outro não ouviu. Era como se tivesse desfalecido. Sentia como se tivesse caído num abismo profundo, sombrio, insuportavelmente gelado, estilhaçando todos os seus ossos. De olhos fechados, ele não viu quando Shion apontou a arma para seu peito. Não viu quando ele disparou, nem quando Shaka, desesperado, se jogou na sua frente, recebendo o tiro que foi direcionado para ele.
A cena fora rápida demais. Talvez até mesmo para o loiro que percebia a visão desaparecer aos poucos. Naquele instante, a única coisa que pensava era nas coisas terríveis que seu pai fez em nome de uma profecia. Quanto sangue fora derramado por causa dela? Quantas mentes enlouquecidas ela levou? Quantos sonhos ela despedaçou? Muitos. Essa era uma profecia de calvário. E ele não quis mais participar com sua omissão, não quis deixar rastro de sangue atrás de si. Não podia permitir que seu pai concluísse aquilo.
Quando se deu conta, já era tarde demais, atirara em Shaka, seu filho, seu escolhido. Mas por quê? Porque ele se jogou na frente de um imundo?! Porque tentou salvar aquele a quem a vida já pertencia às trevas?
– Shakaaa!!! – Gritou e correu até ele, amparando-o em seus braços. Só então Camus abriu os olhos, entorpecido, não entendeu direito o que via. – Shaka, fala comigo! – Pegou o filho no colo, em prantos. Ele estava acordado, mas sangrava muito. O loiro respirava com dificuldade e olhava fixamente para o teto. – Porque, meu filho? Porque tentou salvar este homem? – Ele não entendia. Shaka sorriu.
– Não tentei... salvá-lo, ...tentei salvar você... de mais um crime... marcado em sua alma... – Falou entrecortado e sorriu. E foi-se o último suspiro de mais um escolhido marcado pela lenda do escolhido.
Shion gritou. Não podia acreditar que tinha matado o próprio filho. Era culpa dele, sem dúvida. Abriu os olhos que vertia fogo, ele estava sendo consumido.
– Desgraçado! – Ele se ergueu e pegou sua arma, manchando-a com o sangue de Shaka em suas mãos. – Você só traz desgraça! – Apontou a arma para o ruivo, que estremeceu. Fechou os olhos, preparando-se para a morte. Estava sem a sua arma, não poderia se defender.
Ouviu tiros. Um, dois, três. E depois silêncio. Um silêncio tão grande que pensou estar morto. Será que morreu sem perceber? Sentiu um peso cair sobre seu colo e o segurança o soltar. Abriu seus olhos e se deparou com Shion ensangüentado, caído sobre seu colo. Olhou para os lados e viu o delegado Shura, acompanhado de Aioria. O delegado ainda estava com a arma em punho. Ele matara Shion, aquele demônio, finalmente, estava morto.
Continua...
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