Manual de Sedução Ii - do You Love Me?
23 Capítulo 23 - A verdade por trás da verdade
Notas iniciais
Para a leitura, aconselhamos ouvir o som de Somewhere I Belong, do álbum Meteora do Link Park ^^
http://letras.mus.br/linkin-park/65466/traducao.html
– Desgraçado! – Ele se ergueu e pegou sua arma, manchando-a com o sangue de Shaka em suas mãos. – Você só traz desgraça! – Apontou a arma para o ruivo, que estremeceu. Fechou os olhos, preparando-se para a morte. Estava sem a sua arma, não poderia se defender.
Ouviu tiros. Um, dois, três. E depois silêncio. Um silêncio tão grande que pensou estar morto. Será que morreu sem perceber? Sentiu um peso cair sobre seu colo e o segurança o soltar. Abriu seus olhos e se deparou com Shion ensanguentado, caído sobre seu colo. Olhou para os lados e viu o delegado Shura, acompanhado de Aioria. O delegado ainda estava com a arma em punho. Ele matara Shion, aquele demônio, finalmente, estava morto.
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– Nem mesmo o mais louco dos loucos invadiria, despreparado, a alcova de um psicopata... – Respondeu, após ter sua sanidade questionada quando Milo soube de sua invasão à Mansão Lamure. Um sorriso discreto e pretensioso se desenhou em sua face. — Eu não estava sozinho, Milo. Muito menos agi por impulso, como você costuma fazer.
O escorpião estava boquiaberto com o que lhe era narrado. Ainda estava na cama do hospital, frustrado por sua fuga ter sido descoberta, aflito pelos acontecimentos que se anunciavam, mas nada poderia tê-lo preparado para o que ouvia de Minos: — Então, quem estava com você?
Levantou-se da cadeira onde estava sentado, ao lado do leito de Milo, caminhando até a grande janela daquele quarto hospitalar, observando a movimentação na rua.– Além dos meus dois homens de confiança, havia um chinês, de nome Dohko, um amante da juventude de Shion. – Levou as mãos para trás segurando um de seus pulsos.– Contava com a surpresa que certamente desestabilizaria aquele homem, mas também com a experiência e competência de meus guarda-costas. – Voltou-se para Milo fitando-o serenamente– Minha estratégia de levar o tal chinês pareceu dar certo no início, achei que não precisaria recorrer à violência, principalmente com a presença de Shaka que frearia qualquer reação enérgica de Shion. Confesso que mesmo preparando-me para o pior, a forte reação dele à presença de Dohko fez-me baixar a guarda. Sorte minha, ser tão cauteloso e armar todo um esquema antes de invadir aquele local.
O loiro chocou-se ainda mais e, confuso com o novo personagem na história, perguntou: — Amante da juventude de Shion...? Conte essa história melhor, Minos!
– Dohko foi a razão da loucura de Shion... – Deu uma pausa levando o indicador aos lábios e ao pensar melhor, corrigiu-se.– Não... Ele foi apenas o veículo, Shion já seguia este caminho graças ao fanatismo incutido em si pelo seu próprio povo. Quando jovem, ele era cotado para ser o tal "escolhido", porém Dohko surgiu em sua vida derrubando todos os dogmas que lhe foram impostos e "corrompendo-o". Eles tiveram um caso que não demorou a ser descoberto pela aldeia e sofreram as consequências disso; Dohko foi açoitado quase até a morte e Shion, que fora obrigado a assistir tudo e depois escorraçado, jurou vingança ao pensar que seu amante havia realmente morrido, o que não aconteceu e graças à investigação de Radamanthys pude encontrá-lo em um vilarejo isolado em seu país natal.
A história narrada lembrou-lhe muito a sua própria e a de Camus, que corrompeu Shaka em sua juventude o que levou a ambos a essa situação caótica, mas não se pronunciou, permitindo que Minos seguisse com sua explicação.
– Confesso que vê-lo tão fragilizado, quando seus olhos caíram sobre Dohko, foi um prazer inenarrável. – O escorpião ouviu e jurou ter visto um brilho sádico no olhar do homem que lhe falava com um discreto sorriso.
Mas o loiro estava incrédulo demais para pensar nessas nuances do ariano. Aquela história era mais surreal do que jamais pôde imaginar. — Espere... o que está dizendo? Que Shion já foi o escolhido? Igual Shaka? Céus... isso é loucura!– Tombou no recosto da cama, aturdido.
– Nem tanto, meu caro... Toda ação gera uma reação. Apenas isso; causa e consequência... – Balbuciou aproximando-se dele, sorrindo torto e fechado, como sempre.– Para ajudá-lo como prometi, precisava saber bem mais do que me foi dito, bem mais do que você sabia, por isso mandei Radamanthys investigar a vida de Shion e tão logo ele encontrou o tal Dohko, fui buscá-lo. Saber o que impulsionava Shion e qual era seu real objetivo era fundamental para desarticulá-lo.
Milo o fitou atentamente, assimilando as palavras que lhe eram ditas. Pensava que talvez devesse estar impressionado com toda a estratégia armada por ele, mas não estava. Fosse pelo que fosse, imaginava que o forte senso de justiça de Minos o conduziria a ajudá-lo. — E eu que pensei que tinha viajado e me deixado na mão...– Sorriu de lado.
– Às vezes, a melhor estratégia é recuar... – O ariano alargou o sorriso pretensioso e segurou-lhe a mão, apertando um pouco entre as suas, em uma atitude cúmplice. — Me expus ao fazer seu jogo e juntar todos os envolvidos naquela festa, pois queria ver até onde você iria. Porém, além de seu plano não levá-lo a nada, quase o fez perder a vida. Shion não era nenhum idiota, no mínimo desconfiava que de alguma forma eu estivesse envolvido na história. Então meu súbito desaparecimento foi proposital, no intuito de afastar quaisquer desconfianças sobre mim. Assim fiquei livre para investigar e esquematizar um plano. Sinto muito por fazê-lo pensar que o havia abandonado, mas para enganar nossos inimigos, temos que começar por nossos aliados.
O singelo toque em sua mão aliviou o coração do loiro, naquele momento. — Sei que não sou bom para descortinar e desarmar psicopatas, minha área é outra, você bem sabe...– Sorriu maliciosamente. — Mas ao menos sei que fiz a escolha certa ao te procurar. Obrigado por ter se arriscado tanto, Minos!
– Não me arrisquei, eu já disse. O único que encarou Shion de peito aberto foi você, Milo. – Desfez seu sorriso adquirindo seriedade. Voltou o olhar para a porta, indo até ela e trancando-a. Então se voltou para Milo novamente e começou a dizer, quase em um murmúrio.– O que vou te dizer agora é estritamente sigiloso e ficará entre nós. Se te revelo é porque sei de tua capacidade de manter-se calado mesmo em face de tortura e possibilidade de morte.
O semblante de Milo fechou-se novamente ante a atitude do ariano. Com um gesto, indicou que prosseguisse, sentindo o coração palpitar ante ao que ele diria.
– Antes de tudo precisa saber que a vida de executivo que levo é apenas uma fachada. – Disse tirando da carteira sua identificação. – Eu trabalho para o governo, Milo, faço parte da Cia. Seu caso não passou de um hobby para mim. Foi um prazer retribuir a ajuda que me deu há alguns anos atrás, mas nem de longe essa história se equipara a tudo que já enfrentei em meu trabalho. Sempre estive resguardado, em todos os momentos, principalmente quando adentrei a mansão Lamure.
Milo arregalou os olhos ao constatar a identificação que lhe era apresentada. — Você, um agente secreto da Cia? – Voltou a mirar o rosto quase aristocrático do amigo. — Eu vou morrer e não verei tudo!– Meneou a cabeça, um tanto confuso. Se bem que aquilo até fazia sentido. Porque uma pessoa normal não faria as coisas que ele fez tão naturalmente. O ariano ignorou o comentário.
– Sinto muito pela falha de segurança em minha residência. – Disse e guardou a documentação novamente – Até então eu não fazia ideia da ousadia de Shion, e foi graças aquele episódio que pude mensurar a gravidade de seu caso e mobilizar um esquema. Eu não tenho certeza se esse erro grotesco veio do desespero ou da arrogância de Shion, mas isso não importa. O que importa é que ele o fez e graças a isso pude conhecê-lo. Depois daquele episódio, ordenei total vigilância sobre você e também ele. Precisava ter certeza que sua integridade física não seria mais afetada, ao mesmo tempo recolher provas contundentes contra Shion para entregá-lo à justiça e levá-lo a julgamento. – Suspirou um pouco frustrado. – É uma pena que todo o serviço investigativo feito seja arquivado sem nem ter possibilidade de uso, já que Shion está morto.
Milo ouvia atentamente a declaração de Minos, até o ponto em que ouviu uma coisa que o deixou sem ar. Sentiu um frio percorrer-lhe a espinha com aquela informação. Aquilo, era mesmo possível...? – Morto? Shion está... morto?
– Está... Um psicopata a menos no mundo, afinal. — Murmurou mais para si e voltando a sorrir pretensioso. — Shura deve estar feliz com sua condecoração após a ação policial que resultou na morte daquele fanático. Deixemos que ele receba os louros... – Disse com ironia deixando um risinho cínico escapar pelos lábios. – Melhor noticiarem que um bom policial alvejou um homicida, do que revelarem que um franco-atirador meteu uma bala em sua cabeça!
Milo estremeceu e forçou-se para não chorar, apesar de não conseguir evitar que seus olhos marejassem. Ouvia ao fundo a voz de Minos falando algo sobre bons policiais, mas não prestou a atenção. O alívio em saber que Shion estava morto era a única coisa que lhe vinha à mente. O homem que por quase toda a sua vida o atormentou e torturou, aquele maldito finalmente estava morto. — Acabou...– Murmurou baixinho sentindo uma lágrima de dor correr por seu rosto. Engoliu em seco a dor e a aflição que o consumia há anos e saber que aquilo finalmente tinha acabado era um bálsamo tão grande que temia não ser verdade. — Deuses, acabou!– Murmurou um pouco mais alto.
– Sim... Acabou! — Murmurou voltando à serenidade fria. – Vou tirar meus homens de seu encalço e tudo voltará à santa paz. – Levantou, afastando-se e voltando mirar pela janela. — Claro que essa paz só será possível enquanto você mantiver segredo de tudo que ouviu aqui. Do contrário não poderei garanti-la. – Disse em uma ameaça velada e voltou-se novamente para ele fitando-o com um olhar duro. – Estamos entendidos?
Um arrepio passou por seu corpo ao ouvir o que o outro dizia. Rapidamente engoliu as lágrimas, limpando as que marcaram o rosto. — Claro...– Murmurou, entendendo o recado. — Mas... Conte-me mais detalhes. Como tudo aconteceu?– Perguntou voltando a mirá-lo.
Quer mesmo os detalhes? — Perguntou arqueando as sobrancelhas– Não vejo problema algum em contar-lhe já que temos um pacto de silêncio.
Milo sentiu o coração apertar, com receio do que ouviria, mas queria muito saber tudo o que tinha acontecido até a morte de Shion. Por fim, confirmou gestualmente que desejava toda a verdade, para que ele continuasse seu relato. Minos e fitou por uns instantes e depois voltou a olhar pela janela, para só depois começar seu relato:
– Depois do atentado que sofreu em minha casa, tomei para mim a responsabilidade de resolver esse problema no qual vocês se meteram, ou acabariam mortos. Eu já imaginava, pelo pouco que havia me dito, que esse homem era um psicopata, mas sua ação audaciosa ao tentar matá-lo em minha residência me fez pensar que ele fosse algo mais que um simples homem enlouquecido em busca de vingança. Então, decidi que precisava investigar mais para saber com quem eu estava lidando. Comecei a suspeitar de algo depois de ouvir uma conversa entre Shaka e Saga, ainda em minha casa:
Flash Back — Noite da tentativa de assassinato de Milo (parte do capítulo 12)
– Eu sei que as atitudes dele não são compreendidas por vocês, mas acredito num bem maior. O meu pai tenta me proteger porque não quer que aconteça comigo o que aconteceu com ele. – Shaka como sempre defendia o comportamento possessivo de seu pai, acreditando piamente na imagem de santo homem que Shion construíra para enganá-lo e manipulá-lo. E foi então que, sem que ambos percebessem minha presença, ouvi uma história no mínimo muito interessante:
– Há muito tempo, os pais dele foram mortos numa emboscada quando ele era ainda um bebê e então o seu padrinho o encaminhou para um colégio de padres. Quando tinha por volta de uns cinco anos, ele recebeu a visita de um oráculo, porque depois que ele nasceu, muitas desgraças aconteciam à volta dos que os cercavam. Então ele foi levado por um sacerdote para o Tibete para ser deixado lá depois que seu padrinho morreu. E lá se encontrou com outro oráculo, uma espécie de guia espiritual dos habitantes de um pequeno vilarejo. O sacerdote negociou a sua partida do templo dos monges porque o guia daquele vilarejo acreditava que ele poderia regenerar o seu povo. Então, depois de alguns anos preso no templo, ele deixou o lugar e foi morar com o guia. Lá ele era venerado por muitos que diziam ser ele a reencarnação de Buddah. E tudo ia muito bem para ele até que apareceu outro homem e mudou tudo. Ele foi desmascarado por esse homem e humilhado na frente de todo o povo e então fugiu, prometendo a todos que traria o verdadeiro Buddah. Depois de muito procurar, ele me encontrou ainda bebê num orfanato na Índia e ouviu a lenda de que todos os doentes que me tocavam ficavam curados. Acreditando que eu era a reencarnação de Buddah, ele me adotou e me treinou para ser aquele que traria luz e esperança para aquele povo que o rejeitou.
Fim do Flash Back
– Eu já tinha mandado investigar o passado de Shion quando você me procurou, mas com essas informações adicionais, pudemos chegar nesse homem que apareceu na vida de Shion e mudou tudo: Dohko. À principio, eu não entendi o que Shaka queria dizer com ‘mudar tudo’. Mas depois que conheci Dohko e o escutei, percebi que realmente aquele homem era o centro de tudo.
Flash Back — Viagem de Minos à China
Encontrei-o em um vilarejo simples e pacato, no interior da China. Era uma aldeia tão isolada, que os poucos moradores, pessoas simples, estranharam quando eu e meus homens chegamos à região. Nossa inusitada presença chamou a atenção de todos os que ali viviam, o que tornou ainda mais fácil encontrar aquele homem humilde, de aparência séria e bondosa.
– Boa tarde senhores, em que posso ajudá-los?
– Boa tarde, o senhor é o Dohko?
– Sim, sou eu...
– Eu sou Minos, estou vindo da Grécia e sou conhecido de um velho amigo seu: Senhor Shion Lamure, do Tibete... – O homem deixou cair a vasilha que carregava, ficando imediatamente lívido. Era mesmo ele!?
– Não... Não pode ser... – Ele murmurou aturdido.
– E porque não? – Perguntei, estranhando sua reação.
– Por que... meu amigo, meu velho amigo está... morto! – Apesar do choque, a frase fora dita com a certeza de quem ouvia falar de um fantasma, o que me deixou ainda mais curioso. – O senhor deve estar enganado. Deve ser outra pessoa...
– Senhor Dohko. Garanto que se há algum equívoco aqui, certamente não é de minha parte. – Disse firme para fazê-lo crer que eu falava a verdade. – Venho da parte do senhor Shion Lamure, pai de Shaka Lamure, o futuro escolhido, guia de seu povo, reencarnação de Buddah.
Aqueles olhos arregalados não me deixaram duvida alguma de que aquele homem estava verdadeiramente assustado com a revelação, só restou descobrir por que ele pensava que Shion estava morto.
– Então... é ele! Shion está vivo!? – Seus olhos já lacrimejavam quando ele me perguntou.
– Sim, está.
– Senhor! Eu sempre pensei que estivesse morto! Graça aos Deuses! E como o senhor me encontrou? Ele está a minha procura? – A evidente emoção e o meio sorriso do homem poderia ser apenas alegria pela boa notícia, mas minha intuição dizia que havia algo mais ali.
– Não exatamente, é uma longa história. Assim como creio que o senhor também tem uma longa história a me contar... – Sugeri sutilmente, eu sabia que precisava ser cauteloso, porém não havia como. – Porque nós não conversamos melhor no caminho?
– Caminho? Onde pensa em me levar? – Dohko externou sua desconfiança justificável e eu, percebendo isso, retirei de meu bolso uma foto de Shion para provar-lhe que realmente o conhecia. O chinês emocionou-se ainda mais, deixando algumas lágrimas caírem, ao ver a foto em suas mãos, sua sinceridade em demonstrar sentimentos, de certo modo, chegou a comover-me. – Posso levá-lo até ele, aproveito e conto como vim parar aqui. E você me conta a sua história... O que acha?
Fim do Flash Back
– Ele titubeou um pouco, desconfiado, mas acabou aceitando vir comigo. No caminho, quando lhe contei tudo o que ele vinha fazendo por aqui em nome da pureza de Shaka, testemunhei quão horrorizado ficou, mas não chegou a ser uma surpresa. Talvez acreditasse mesmo que Shion não fosse forte o suficiente para suportar sua própria dor sem surtar. Ele o conhecia muito bem.
– Talvez já fosse um louco desde aquela época... – Milo emendou. Minos deu de ombros.
– O fato é que não foi difícil convencê-lo a pressionar Shion até que ele confessasse toda a verdade. Aquele é um grande homem, em sua simplicidade. Seu amor não o impediu de agir conforme aquilo que acreditava ser o certo. Ao contrário, desejava que seu ex-amante pagasse por seus crimes e se visse livre, enfim, de todo o mal que carregava em seu coração. Tinha a esperança de ele mesmo convencê-lo do caminho correto, mas infelizmente não teve tempo para mais essa missão.
– E onde ele está agora?
– Já voltou para sua terra-natal. Foi o único presente no velório de Shion... Logo depois providenciei seu retorno.
– Deve ter sido horrível para ele, o homem que amava e pensava estar morto; a alegria por sabê-lo vivo para logo depois vê-lo morrer bem a sua frente... Que tragédia! – Milo comentou condoído.
– Sim, mas acho que ele já estava preparado para isso...
– Como assim?
– Quando chegamos à cidade, retornei as ligações de Aioria e fiquei sabendo que Camus já sabia de tudo e se encaminhava furiosamente para a casa de Shion, logo mandei meus homens para a mansão Lamure. No meu carro, enquanto preparava-me para entrar na casa, alertei-o que muitas coisas poderiam dar errado e que ele precisava ter consciência dos riscos.
Flash Back — Dia da morte de Shion e Shaka
Escolhi um local próximo à mansão Lamure para que minha equipe fizesse os preparativos necessários para nossa entrada e enquanto meus homens montavam os equipamentos e testavam os pontos de escuta que usaríamos, Dohko mantinha-se à parte de toda a operação, eu podia sentir quão tenso e ansioso ele estava e preocupado com seu estado, achei por bem orientá-lo melhor salientando o que ele iria encontrar quando invadisse aquela mansão.
– Sei que ele foi uma pessoa importante, mas saiba que ele não é mais o mesmo homem que conheceu...
– Nem eu sou mais, Senhor Minos...
– Sim, mas o que quero dizer é que ele se tornou perigoso e, quando ameaçado, pode ser ainda mais perigoso...
– Está dizendo que ele pode me matar? – Ele me fitava com grande preocupação.
– Estou dizendo que ele é imprevisível e sim, pode acontecer dele atentar contra tua vida. Meus homens estão aqui para garantir nossa segurança e impedir qualquer ação violenta, inclusive alvejá-lo se isso for preciso. Você precisa se preparar...
– Eu sei... – Foi tudo que ele me disse antes de encerrar-se em profundo silêncio. Ele sabia dos riscos, e principalmente sabia o que eu e meus homens estávamos fazendo. Estou certo que, naquele silêncio, ele estava se preparando para o pior.
Fim do Flash Back
– Mesmo ele sabendo de antemão o que poderia acontecer, ainda assim deve ter sido muito difícil para ele. Ver no que Shion se transformou, a sua morte... – Milo concluiu.
– Sim, mas ele sabia e já previa que algo daquele nível poderia acontecer. Tinha a esperança de conseguir mudar e salvar a vida e alma de Shion, mas infelizmente isso não lhe foi possível. – Minos olhou para o loiro e pensou por um instante. – Confesso que também eu não esperava uma reação tão desesperada de Shion. Apesar do ambiente controlado, indicando o perigo da missão, senti por um breve momento a sua fé e cheguei a cogitar que realmente nada de mal aconteceria. Doce ilusão...
Flash Back — Dia da morte de Shion e Shaka
Dentro do carro, os últimos preparativos foram feitos de modo silencioso e extremamente profissional pelos meus homens que logo nos deixaram e voltaram ao furgão para monitorar as gravações das escutas. Radamanthys assumiu seu posto localizado no terraço do prédio em frente da mansão e munido de um rifle de alta precisão, ele tinha uma ampla visão do jardim e do interior da casa.
– Tudo certo, estou posicionado e visualizo o senhor Shion e Camus. Aparentemente estão apenas conversando. – Através da escuta, ouvi meu braço direito e melhor atirador informar-me da situação que encontraríamos quando entrássemos. Na propriedade Lamure, infiltrado, já havia outro homem de confiança, o que me garantiu meu acesso a casa sem maiores problemas. Assim que tudo ficou pronto, dei início à operação:
– Ok, nós vamos entrar agora. – Disse e voltei-me para Dohko. – Tem certeza? – Referia-me à negativa de Dohko em usar de escutas.
– Sim, não quero essas coisas grudadas em mim. Isso só servirá para deixar-me mais nervoso do que já estou, vai atrapalhar mais do que me ajudar.
– Muito bem, que seja. Vamos entrar. – Disse e dei a partida aproximando-me da entrada da propriedade.
Logo o grande portão da mansão abriu-se e pude ver o homem que ficaria responsável por nossa segurança no momento em que adentrássemos a casa. Discreto, o agente manteve distancia segura para preservar seu anonimato e ao mesmo tempo zelar por nossa integridade física.
Não tivemos problemas para chegar até Camus e Shion, e fiquei satisfeito quando Shaka brindou-nos com sua presença; o cerco estava armado.
A conversa fora tensa e, como eu previ, a presença do ex-amante do senhor Lamure contribuiu e muito para isso. Concentrei-me na operação, seguro por saber-me sob a guarda de meus homens, era uma situação muito corriqueira para mim. Porém, essa tranquilidade fora abalada quando, por impulso, Camus rendeu o segurança que Shion mandara chamar para forçar nossa retirada. Eu sabia que ele não seria capaz de matar ninguém, mas precisava certificar-me que tudo estava como deveria ser. Então olhei de soslaio pela janela e pude vislumbrar de longe o brilho da luz do sol refletido em algo, indicando que Radamanthys estava em alerta máximo e pronto para puxar o gatilho, caso necessário. De outro lado, meu agente infiltrado observava a movimentação do lado de fora, misturado aos outros seguranças que vieram quando chamados, aparentemente tudo estava sob controle.
Porém, a situação reverteu-se. Não demorou muito e Camus foi rendido pelo segurança de Shion que se manteve por perto e aproveitando-se de um momento de distração imobilizou-o tornando a ameaçar sua integridade física. Notei que algo estava errado devido à reação tardia de meu franco-atirador quando Shion apontou uma arma para Camus, nessa hora ele já deveria estar morto!
– Ele está fora de alcance, entrou no ponto cego. – Ainda perguntava-me em silêncio o que poderia estar acontecendo quando ouvi Radamanthys na escuta e analisei o que acontecia: Quando Shion tomou as rédeas da situação e inverteu os papeis, ele caminhou pela sala e, sem saber, protegeu-se ao sair da direção da janela, o que impediu a ação efetiva de Radamanthys que não poderia arriscar-se a dar um tiro no escuro e ferir outra pessoa. Só restou meu outro segurança que, eu bem sabia, não teria tempo de impedi-lo, visto que se mantinha fora da casa. – Atenção: ele está armado e vai alvejar Camus! Repito: ele está armado e vai alvejar Camus!
Um silêncio de assombro pairou por alguns segundos, antes que todos se apercebessem da gravidade dos fatos que se desenrolaram. Tão rápido quanto o surto de Shion, foi a necessidade que se abateu sobre mim para controlar o incontrolável. Meus sentidos aguçaram e, percebendo a ameaça, dei um passo para trás instintivamente. Em piscar de olhos, os acontecimentos sucederam à morte de Shaka. Eu observava tudo ao redor, procurando meu agente através da grande janela e percebendo que ele já não se encontrava lá fora. Foi quando me atentei para Camus completamente estático, o sangue que espirrara em sua face contrastava com a pele ainda mais pálida devido ao susto e desespero.
– A profecia! – Tive a nítida impressão de escutar o chinês sussurrar bem baixinho em meio à surdez provocada pelo estampido da arma disparada. Dohko estava lívido ao meu lado, parecia reviver o drama do passado, assombrado com os presságios de uma lenda viva. A morte de Shaka e o seu sacrifício em nome do pai fez surgir a confusão da profecia cumprida, tanto quanto fora alegada tempos atrás.
– Não, não é possível! Não posso crer! Shaka não pode ser o escolhido! – Dohko murmurou mais alto, molhando sua face com mais lágrimas. As palavras de Dohko me tocaram profundamente naquele momento.
– "O sangue do escolhido será derramado em nome da paz. Do ventre da mãe para os braços do pai até a morte, serás eterno em tua missão de salvar teu povo da impureza, da iniqüidade, do coração vil e enganador. Aos leões teu corpo será lançado e com sangue lavará a iniquidade, mas teu espírito, intocado e puro, se elevará para toda a glória." – A profecia que Dohko me contara quando nos conhecemos ecoou em minha mente. E só então percebi o que se passava na cabeça do chinês. Voltei meu olhar para o loiro caído, que era levado pela morte, num ato que dava vida à profecia de uma forma impressionante e perturbadora. A mesma profecia que deu início a essa tragédia e que por infortúnio, Shaka acabara cumprindo ao dar seu sangue para que Shion não prosseguisse em seu caminho de destruição. Que irônico! O mito tornou-se realidade... Shaka mostrou-se o verdadeiro messias daquele povo, mesmo que nunca venham a saber de seu sacrifício.
– Um homem foi alvejado! Alerta máximo! – Ouvi Radamanthys dizer enquanto Shion corria para abraçar o filho morto.
– Vou entrar! – Meu agente respondeu imediatamente. – Se tiver uma chance, não hesite, atire!
Os olhos do ruivo, marejados, pareciam ter perdido a vida e sua alma parecia ter desaparecido, vagando por um lugar distante, até finalmente se cerrarem numa total entrega ao desespero. Algo semelhante ocorria com Dohko. O chinês parecia não acreditar no que via. Sem ação, ele observava os fatos, impotente diante da ferocidade que se estampava no homem que fora o grande amor de sua vida, enquanto este se erguia do abraço com o finado filho para o golpe final.
A ação inesperada de Shaka deixou-me preocupado e eu olhei à minha volta aguardando uma ação mais contundente do meu agente. Certamente ele estava em vias de invadir o local revelando seu disfarce e o fez quando Shion sobressaltou do corpo de seu filho para finalmente atingir o inerte ruivo, saindo do ângulo seguro onde estava e se mostrando novamente em frente à janela. Foi quando vi sangue espirrar de sua cabeça devido ao silencioso e certeiro tiro do meu atirador de elite. Ao mesmo tempo, outros tiros preencheram o silêncio do local, alvejando, não apenas Shion, mas também os seguranças que invadiram a sala onde estávamos e já esboçavam reação.
Quando dei por mim, meu agente estava à minha frente, ofegante, com a arma fumegante em punhos, protegendo-me com seu próprio corpo, e o delegado Shura, em posição de tiro e com a arma igualmente fumegante, encontrava-se à porta de entrada da sala, junto a Aioria. Tudo fora demasiadamente rápido e incrivelmente sincronizado, como se a polícia local e meus homens estivessem sob o mesmo comando, algo que não passou de pura coincidência. Posso dizer que a ação foi bem sucedida, pois contou com três seguranças baleados e uma vítima fatal. Shaka morrera pelas mãos do pai. Meus homens não puderam evitar sua morte, mas o saldo fora positivo já que minha finalidade era proteger Camus e acabar com a ameaça que Shion representava a suas vidas.
– Senhor Minos? O que faz aqui? – O delegado Shura perguntou.
– Tentando proteger meu amigo... Mas por sorte o senhor e seus homens chegaram a tempo para evitar essa tragédia. – Disse indicando o ainda estático ruivo. – Ele precisa de uma ambulância.
– Iremos providenciar... Precisamos que nos acompanhe para o registro da ocorrência. Quem é você? – Perguntou para o chinês que ainda olhava, extremamente abalado, o corpo ensanguentado de Shion ao chão.
– É claro... Este é Dohko, amigo de Shion. É uma longa história. – Expliquei, acompanhando o delegado enquanto os policiais cercavam a área e chamavam a ambulância.
Fim do flashback
– Então você revelou toda a história para o delegado? – Milo perguntou.
– Não tudo. Mas o suficiente para provar a inocência de Saga e tirá-lo da cadeia, provando que o verdadeiro autor de seu atentado fora na verdade Shion. Uma perícia na mansão fora suficiente para conseguirmos as provas.
– Então Saga já está livre? Uma boa notícia, enfim!
– Sim, saiu a tempo de ir ao velório de Shaka. – Milo franziu o cenho.
– Eu não sabia que eles eram amigos... – Minos novamente parou para pensar por um instante.
– Tenho para mim que foram mais do que amigos... – O loiro arregalou os olhos.
– O que? Porque diz isso?
– Nada demais Milo, apenas uma questão de percepção. Saga sabia de mais coisas do que pensávamos e tinha uma relação mais aberta com Shaka do que imaginávamos. Ao que parece, foi ele quem plantou a dúvida na cabeça do rapaz. Isso fez uma diferença estratégica imensa. Soube que o irmão gêmeo foi identificado como o responsável pelo tiro que recebeu?
– Sim, ouvi dizer. Mas nem sabia que Saga tinha irmão!
– Eles se descobriram há pouco tempo, mas esse irmão de Saga seguiu um caminho errado.
– E desde quando Saga sabia disso?
– Desde a festa em minha casa...
– O que? Então ele sempre soube e nunca disse nada?
– Diz ele que tentou proteger o irmão. O delegado tentou indiciá-lo como cúmplice, mas por sua intensa colaboração na elucidação dos fatos, acabou tendo apenas que prestar alguns meses de serviços à comunidade.
– Impressionante! Então o irmão de Saga foi contratado para me matar... E ele foi preso? – Perguntou. Minos sorriu discretamente refletindo sobre o fato curioso que tomou conhecimento ao escutar as gravações, no mínimo curiosas, feitas pelo homem que Radamanthys encontrara no local da explosão que mandara investigar após da ligação de Shaka, na noite em que Milo fora baleado.
Flash Back – Noite da tentativa de assassinato de Milo
– Kanon... Já colocaram a bomba no teu carro... – O loiro de madeixas cumpridas deixava a mansão de Shion, carregando a maleta com a metade do pagamento pelo serviço, quando seu colega de profissão cochichou através do ponto de escuta em seu ouvido. – Shion pretende acioná-la por controle remoto!
– Ah... cogitei que ele poderia usar desse artifício. – murmurou disfarçadamente adentrando o veículo.
– Pensei que seriam mais inteligentes e colocariam cronômetro nos dando alguns minutos! Não temos mais como prever quando será acionada! – murmurou preocupado em pensar que seus planos foram frustrados – O que vai fazer? – perguntou o colega em um cochicho preocupado ao vê-lo entrar no carro.
– Detoná-la! – Kanon balbuciou um tanto sarcástico ao dar a partida. – Não é esta a serventia das bombas, Aiacos?!
– Você está louco? Ele pode detonar teu carro a qualquer momento! – O rapaz resmungou nervoso. – Saia já daí!
– Acalme-se cara... Esse tipo de dispositivo pode acionar uma bomba a um raio de quinhentos metros. – O loiro brincou um pouco mais à vontade ao afastar-se do casarão em direção ao portão principal do imóvel. – Shion não será louco de explodir um carro diante de sua própria casa, ainda mais matando o assassino de Milo Seferis. Seria como assinar sua confissão de culpa! – suspirou pensativo. – Tenho pelo menos até a esquina para sair daqui, Shion deve estar mesmo desesperado para se livrar de mim preferindo um dispositivo de média distância com acionamento por controle remoto, quando poderia usar um cronômetro e deixar meu carro explodir à milhas daqui. Ele quer ter certeza de minha morte.
– Kanon... você está se arriscando demais! – O jovem voltou a se pronunciar tentando manter a calma. – E se ele explodir essa coisa antes? Esse cara é louco, imprevisível!
– Aiacos, tua função é espionar mansão Lamure, foi para isso que eu o infiltrei entre os seguranças da casa... – O gêmeo resmungou um pouco irritadiço ao passar pelo grande portão e estacionar o carro há alguns poucos metros da casa, mantendo-o ligado. – Cuide de tuas escutas, pois meu trabalho, sei bem como fazer.
– Kanon, você quer morrer?! Largue logo esse carro e saia daí agora mesmo! Senão eu...
O loiro puxou o freio de mão e desceu do carro puxando o banco do motorista para frente e pegando de qualquer jeito o corpo inerte de um antigo rival que estava ainda vivo e extremamente sedado, ajeitando-o rapidamente no banco do motorista, cantarolando alguma melodia enquanto ouvia os protestos de seu parceiro pela escuta.
– O que foi, Aiacos? Por acaso está com ciúmes do presuntinho fresco aqui? – voltou a ironizar descontraído ao entrar no carro pelo carona e dar partida no veículo, guiando-o em direção norte e acelerando-o. Pegou a própria arma, prendendo-a à cintura de sua vítima e pegou o celular apertando a discagem automática, colocando-o na mão do defunto.
– Pare já com isso, Kanon! Você está brincando com a sorte! – Seu parceiro tornou ríspido, sua vontade era gritar com ele. – Merda, Kanon! Eu sabia que não devia tê-lo deixado seguir com esse plano maluco! Você não leva nada a séri... – O moreno irritadiço e mal-humorado terminaria de falar se não fosse interrompido pelo barulho da explosão que o deixou surdo momentaneamente. – Kanon! – desesperado, sussurrou várias vezes, observando a bola de fogo que subia ao norte da mansão. – Kanon, responda, seu puto! – Como não obtinha resposta, pensou no pior.
– Merda! – Resmungou nervoso enquanto correu para o portão norte e ficou ainda mais desnorteado ao ver ao longe a esquina vazia onde o carro era lambido pelas chamas. – Kanon... Fala alguma coisa, porra! Não me inventa de morrer agora, maldito! Porra eu não acredito nisso! – tirou a escuta jogando-a no chão e apoiou a testa no muro sentindo os olhos marejarem enquanto murmurava. – Não acredito que você fez uma merda dessas, seu cretino! Não com a experiência que você tem! Você sempre foi inteligente o suficiente para manter-se vivo!
Fim do Flash Back
– Esse homem morreu em uma explosão logo depois de receber o pagamento. – explicou voltando a mirar a janela e lembrou-se do dia posterior à morte de Shion e Shaka.
Flash Back — Dia seguinte à morte de Shion e Shaka
O dia seguinte correra relativamente tranquilo na mansão de Minos. Ainda teria que ir à delegacia prestar depoimento e depois seguiria para o hospital ver como estava Milo. Mas antes, tomou calmamente seu desjejum. Estava sozinho quando um dos seguranças surgiu no cômodo.
– Senhor...
– O que deseja? – Perguntou um tanto contrariado. Não gostava nada quando era interrompido em seu desjejum.
– Vim comunicar que o substituto do senhor Radamanthys já se apresentou hoje cedo e assumiu seu posto. – O ariano limpou os lábios com um lenço, calmamente, e se ergueu.
– Muito obrigado. – Disse e se dirigiu em silêncio, mas com passos firmes, para a sala de segurança da mansão. –Quero falar com o novo chefe de segurança . – Exigiu.
– Sim, senhor. – O homem se apressou para apresentar-se. Era o mesmo segurança infiltrado na mansão Lamure. – Fui recomendado pelo próprio Radamanthys para o posto, senhor, e estarei disposto a honrar o posto a mim atribuído e ser digno de sua confiança. – O homem era firme, tal como o chefe de sua segurança deveria ser. Minos o analisou por uns instantes.
– Confio em meus homens e se Radamanthys julgou você capaz de substituí-lo, que assim seja. Você já pode começar hoje mesmo.
– Como quiser senhor. – acenou discretamente com a cabeça e mostrando que já estava interado com suas obrigações e continuou. – Radamanthys já partiu em missão, essa manhã. Pediu que informasse que já deixou tudo pronto antes de sua partida.
– Onde está a documentação que Radamanthys ficou de me entregar? Imagino que ele já o tenha deixado contigo...
– Sim, senhor. Por favor, acompanhe-me. – Minos seguiu seu novo chefe de segurança até a sua sala reservada. – Aqui está.
Logo lhe foi entregue um envelope. O ariano sentou-se à mesa e abriu o documento necessário para oficializar a promoção do amigo. Junto à papelada, também havia uma petição do ex-guarda-costas, recentemente promovido, onde o mesmo requeria um parceiro. Minos franziu os cenhos, conhecia muito bem Radamanthys para estranhar aquele pedido, sabia que o amigo de longa data preferia trabalhar sozinho e por isso mesmo o apelidara por “lobo solitário”. Porém logo um sorriso despontou em sua face quando percorreu os olhos sobre a folha e viu que se tratava da nova aquisição que fizera para seu departamento; um franco-atirador, assim como o amigo um dia fora quando entrou na corporação, perito em assassinatos isentos de suspeita.
– “Esses homens têm uma lista de assassinatos tão extensa quanto a minha, não podemos desperdiçá-los jogando-os em uma cela! São extremamente competentes, perfeitos para o trabalho.” – Quase lhe era possível escutar afirmação veemente que o ex-chefe da segurança fez quando este indicou os novos contratados.
– Está concedido... – Murmurou para si mesmo. – Sabe se ele levou alguém consigo para esta missão? – Perguntou ao rapaz, que respondeu negativamente.
– Sinto muito, mas isso ele não me informou. Radamanthys costuma ser discreto ao que se refere a seu trabalho.
– Sim, eu sei. – Riu.
Fim do Flash Back
– Morto? – Milo perguntou abismado.
– Sim, Kanon está morto. – Afirmou para espanto do loiro.
Flash Back – Noite da tentativa de assassinato de Milo
Alguns minutos se seguiram em um silêncio sepulcral. Já na entrada norte da Mansão Lamure, o jovem observava em choque as chamas consumirem o próprio carro e pôde avistar algo parecido com um corpo ardendo entre as chamas. Rezava aturdido para que não fosse o amigo ali, quando seu celular tocou. Porém, demorou a atinar ao fato e estranhou não conhecer o número, estranhou ainda mais ao constatar que a ligação era a cobrar.
– Aiacos, sou eu, Kanon! – a voz ofegante de Kanon pôde ser ouvida, seguida de uma tosse, depois de longos minutos de uma espera interminável. – Desculpe-me, mas a escuta já era e eu deixei meu telefone no carro!
Aiacos recostou-se no muro escorregando até sentar no chão e esfregando o rosto, tentando se acalmar.
– Filho da puta! Quer me matar do coração?! – cochichou extremamente irritado e ouviu em resposta uma gostosa gargalhada de Kanon, porém respirou aliviado ao escutar a voz do amigo de longa data. – Você está bem? O que aconteceu?
– Tirando algumas arranhaduras que obtive ao pular de um carro em movimento e a falta de fôlego depois de correr durante uns cinco minutos até achar o orelhão mais próximo, estou ótimo! – Kanon respondeu descontraído e então pigarreou mudando para um tom sério. – “A encomenda foi entregue!” – escutando em resposta uma risadinha baixa e aliviada do parceiro que escutara sua curta conversa com Shion.
– Você não vale nada Kanon! – O amigo disse ainda sorrindo de alívio. – Um dia ainda vai se matar!
– Bom... Teoricamente, esta é a ideia! – respondeu com certa ironia. – Mas é bom que fique apenas na teoria mesmo.
– Tudo bem... darei sequência ao plano e irei me apresentar à polícia. – O colega sussurrou mais descontraído. – E você me deve um carro novo!
– Não, não diga nada à polícia, entendeu bem? – Kanon respondeu um pouco apressado. – Não é a esses tiras pé de chinelo a quem entregaremos as informações que coletamos. Já combinamos isso!
– Calma cara! Apenas irei explicar à polícia como meu carro acabou nas mãos de um assassino. Nada demais, apenas alegarei furto. – Disse tentando acalmar o parceiro. – O carro está no meu nome, esqueceu? Mais cedo ou mais tarde a polícia chegará até mim e serei intimado a depor! Não se preocupe, eu já havia esquematizado tudo. Enquanto você executava o serviço sujo para Shion dei queixa de roubo.
– Ok, então presta atenção: Aquela organização investiga Shion já faz algum tempo... – Tornou Kanon sério e visivelmente preocupado. – Eles não agem “à luz do dia”, entendeu? São a nata da Cia e não faço ideia do por que estão atrás desse mafioso chinfrim. De qualquer forma de nada servirá nosso material se a polícia local e a mídia tiverem acesso, perderemos o valor pra eles e certamente nosso plano será descoberto, então tome muito cuidado com o que dirá. Precisamos deles pra abafar minha “morte”, ou vai tudo por água abaixo!
– Merda de organização complicada essa viu! Seria muito mais fácil se eu soubesse a quem procurar. – resmungou um tanto frustrado. – Que seja! Como é que vou chegar até eles?
– Eles virão até você! Não se preocupe, vai saber logo assim que eles puserem os olhos em ti. – Balbuciou sério, porém voltou a escarnecer. – Quem sabe eles não te arrumam uma morte melhor que a minha?– Riu novamente ao tirar sarro do amigo. – Como um terrorista atingindo alguma torre com um avião cheio de combustível, talvez... Afinal, você é indiano!
– Sou nepalês, idiota! Nepalês! – Não aguentou e tornou a acompanhar Kanon em uma contida risada.
– Que seja, senhor Nepalês... Eu preciso ir, agente se topa por aí. – Ao desligar o telefone, Kanon pegou a maleta recheada que ganhou de Shion e seguiu seu rumo desconhecido.
Enquanto isso, na mansão Lamure, Shion também sorria, mas diferente do parceiro de Kanon, acreditando-se vitorioso em mais um de seus planos macabros.
Fim do flash Back
Algumas batidas na porta chamaram a atenção dos dois amigos. Minos ergueu-se indo até ela e abrindo-a.
– Senhor Minos, lamento interromper, mas o senhor tem um compromisso daqui a pouco, precisamos ir. – Seu novo guarda-costas e chefe da segurança de sua casa o chamou, sério.
– Tudo bem, Aiacos, eu já estava mesmo de saída. – Minos respondeu serenamente e logo seu agente retirou-se esperando-o no corredor. Depois que viu o rapaz afastar-se da porta, voltou até o amigo acamado. – Sinto em ter que deixá-lo agora Milo, mas acredito que não se importe com a solidão já que não corre mais risco algum.
– Não, imagina Minos, fique a vontade. – o escorpião respondeu sem imaginar que um dos homens responsáveis pela operação que lhe rendeu um tiro estivera diante de si. – Agradeço pela visita esclarecedora e por tudo que fez por mim.
– Não agradeça, eu apenas paguei meu débito contigo, o fiz em memória de Albafica. Se não fosse por você, nós nunca teríamos... – Soltou um longo e pesaroso suspiro. – Você sabe.
– Sim, eu sei. Sinto muito pelo que houve a ele. – disse condoído.
– Eu que agradeço. – ficou um tempo em silêncio sentindo o amargor em seu coração. – Graças a ti, pudemos nos conhecer e viver dias felizes, isso que importa. Agora preciso ir, até mais. – Minos deu o assunto doloroso por encerrado despedindo-se do amigo com um breve aperto de mãos e deixou o local indo embora com seu funcionário.
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Longe dali, num recanto do balneário caribenho, o odor de suor masculino e sexo se mistura à maresia, impregnando o quarto do luxuoso iate. O sol ilumina o céu azul dando um toque especial ao romance dos belos homens que fazem amor.
Os corpos entrelaçam-se sobre o colchão d’água da cama redonda em um lento vai e vem ao mesmo tempo em que murmúrios e sussurros roucos segredam ao pé dos ouvidos sentimentos antes inconfessáveis.
A face do inglês, sempre tão sisuda e fria perante os outros, cede lugar à sofreguidão voluptuosa enquanto este estoca forte e profundamente o íntimo de seu amante que arfa manhoso ondulando-se contra ele. Gemidos guturais ecoam pela grande suíte, tornando-se cada vez mais constantes e urgentes, simultâneos ao ritmo da dança erótica que a cada segundo torna-se mais intensa e a proximidade do orgasmo é sentida.
A sinfonia prazerosa de gemidos, silvos e arfares, culmina no retesar dos músculos perfeitamente talhados e transforma-se em um único urro de prazer quando Radamanthys arremete-se mais forte alcançando o êxtase absoluto e inundando o íntimo do amante com seu sêmen, ao mesmo tempo que o parceiro arqueia-se jogando a cabeça para trás, perdendo a voz para o silêncio libidinoso ao derramar-se entre ambos, lambuzando seus abdomens sarados com o fruto de seu prazer.
Ofegante devido a tanto esforço físico, o homem dono dos orbes âmbar, quase dourados, deixa-se cair sobre o amante trêmulo que sorria igualmente ofegante.
– Nunca imaginei que nos reencontraríamos novamente. – Murmura o amante, tão exausto quanto o outro. – Achei que os boatos fossem verdadeiros.
– Hum... Forjar minha morte depois do que fizemos na Itália foi necessário. – Radamanthys responde em um murmúrio e passa a acariciar com a ponta do nariz o pescoço do outro e escutando seu ronronar em resposta. – Ou entregava a máfia italiana à Cia e me tornava um agente, ou há esta hora estaria em alguma cova rasa de algum lugar, em Toscana.
– De fato, tive sorte de não estar envolvido diretamente, se soubessem de minha existência com certeza me aconteceria o mesmo que ocorreu a Valentine.
– É... ele era um bom homem. – aparta-se do amante levantando-se e espreguiça sua bela nudez ao sol. Aquele assunto lhe é desagradável, Valentine fora praticamente criado junto consigo, considerava-o como irmão. – Mas agora nós dois estamos aqui, juntos novamente, isso é o que importa, o resto ficou no passado. – Balbucia desconversando.
– Verdade... E agora assim como você, sou dado como morto na Grécia e tornei-me um agente da Cia, depois de ser considerado um dos homens mais procurados da Polícia Internacional. – Seu amante ajeita-se melhor sobre a cama colocando os braços cruzados atrás da cabeça e cruzando também as pernas. –Realmente foi muita sorte minha te encontrar entre os envolvidos no caso Lamure. Se não fosse por você, as negociações seriam mais difíceis.
– Nem tanto. – Sorri com o comentário feito pelo amante que se levanta indo até ele abraçando-o. – O material que você e Aiacos nos entregaram era suficiente para, no mínimo comprar suas liberdades. Além do mais, conheço meu chefe o suficiente para saber que, assim como eu, ele perceberia que você errou aquele tiro de propósito.
O loiro de longas melenas riu baixo, um tanto debochado, descansando o queixo no ombro forte do parceiro, acariciando os braços fortes do outro. – Achei que ninguém perceberia, Rada.
– Ora, Kanon! Você achou que logo eu, um atirador de elite e que ainda por cima te conheço tão bem depois de trabalhar contigo por tanto tempo na máfia italiana, não perceberia que você, um dos melhores atiradores que conheço, não matou Milo porque não quis? Em um tiro a queima-roupa? Eu nem precisei ler o relatório de balística, bastou apenas passar as vistas naquele quarto e saber que foi você quem atirou! E meu chefe é um ótimo criminalista para sacar isso tão bem quanto eu. – O geminiano sorri pretensioso. – A verdade é que você não quis matar Milo, senão o teria feito. Nem mesmo um amador erraria aquele tiro! – Distancia-se do amante e pega o celular no bolso de sua calça que jazia no chão.
– De fato. Sou bom demais para errar, e bom demais para saber quando minha morte está encomendada... Aquele velho pensou que me passaria a perna... – Pondera um tanto indignado com o antigo chefe. – Mas no fim foi ele quem comeu capim pela raiz!
– Pois então, foi exatamente para evitar que você fosse preso por tentativa de assassinato, homicídio e forjar a própria morte, que Minos decidiu a meu pedido que, além da nova identidade, você e nosso amigo fariam parte da corporação. Seus dons e atributos são muito úteis à Cia para deixarmos que apodreçam na prisão por causa de um sociopatazinho de quinta. Sabe que eu nem reconheci Aiacos quando o encontrei junto aos destroços do que um dia fora um carro? – Pergunta mais como um comentário, discando um número e faz sinal para que esperasse um pouco. – Alô, Minos?! – Kanon rola os olhos e cruza os braços torcendo os lábios.
– Acabamos de dar a trepada do século e a primeira coisa que ele faz ao levantar da cama é correr pro celular para ligar para o chefinho... Só falta por os detalhes sórdidos no relatório! Ninguém merece! – Resmuga enciumado, meneando cabeça em desaprovação. Radamanthys percebe sua irritação e sorri safado.
– Radamanthys, não esperava uma ligação sua tão cedo. – Escuta o chefe do outro lado da linha. – Como está a missão?
– A situação foi resolvida, estarei de volta este fim de semana. – informa em sua usual seriedade.
– Ótimo! – Minos é sucinto e apenas informa. – Já encaminhei sua papelada para a sede.
– Viu minha petição? – Radamanthys pergunta curioso. – O que achou?
– Sim, vi... Achei justo. – O comandante responde e ri baixinho e malicioso. – Dei meu aval e encaminhei junto com o resto da documentação necessária. Pode dizer ao teu amante que de hoje em diante ele será teu guarda-costas. A partir de agora você é o novo supervisor de operações da base na Inglaterra e ele estará sob tua supervisão, aliás... Poderá apresentar-se em Londres daqui a duas semanas, então aproveitem bastante sua "lua de mel" no mar caribenho. Quero relatório, juntamente com o de Kanon, até segunda-feira, na minha mesa. Até mais.
Radamanthys também ri discretamente ao constatar que seu ex-chefe e amigo de longa data fora tão sagaz quanto ele previa, percebendo que Kanon fora junto consigo, e despede-se finalizando a ligação.
– Pronto, agora poderemos aproveitar melhor a viagem, pois Minos nos conseguiu duas semanas de folga. – O inglês suspira satisfeito.
– Minos... Minos... Minos... – Bufa aborrecido. – Do jeito que fala tanto dele, me pergunto se sou tão importante quanto o seu chefe...
– Não tente comparar... – Alarga um belo sorriso ao constatar o ciúme latente.
– Porque não? Do jeito que são grudados me pergunto se meu novo patrão não vai pegar no meu pé por tua causa.
– Porque... Minos é um amigo de longa data e se cheguei onde estou, devo a ele, pois me deu a mesma oportunidade que estendeu a você e nosso ex-mascote. – Disse aproximando-se felino. – Mas não é com ele que precisa se preocupar, e sim com seu novo chefe!
– Novo chefe?! – O grego pergunta sobressaltado, mas logo se recompõe dando-lhe as costas e observando a paisagem paradisíaca pela janela panorâmica do iate. Tenta esconder sua frustração, não queria ficar longe do amante depois de tantos anos sem se verem. – Porra Rada, eu pensei que eu ficaria na sua equipe e nós dois seríamos parceiros!
– E seremos! – Chega bem perto de Kanon e sussurra maliciosamente ao seu ouvido. – Você está olhando para o novo supervisor de operações especiais da Cia na Inglaterra. – Dá uma pausa para curtir o reflexo do belo sorriso pretensioso que observa pelo vidro da janela. – E minha primeira providência foi entregar um requerimento onde peço que você assuma o papel de meu guarda-costas.
– Hunnn... Interessante. E acha que ele concederia? — Murmura esperançoso.
– Já concedeu, de hoje em diante você é meu homem de confiança! – Radamanthys o vira para si bruscamente e o toma novamente num beijo ardente, sob o sol caribenho.
Enquanto os dois agentes tornavam aos beijos carinhosos e toques apaixonados, ao redor do iate o sangue, dos corpos de um conhecido mafioso italiano e seus capangas, tingia de vermelho as águas cristalinas do mar, servindo de alimento aos vários tubarões brancos que rodeavam a embarcação.
Mais tarde, Radamanthys e Kanon ateariam fogo à luxuosa barcaça e a abandonariam em chamas no alto-mar, voltando para a costa com a lancha que utilizaram para chegar até ela.
Continua...
Notas finais
Minos de Griffon:
Dedicatórias:
À Belle Princess:
Eu só tenho que agradecer pela oportunidade de conhecer-te, partilhar de tuas ideias, doar um pouco as minhas e deixar minha marca nesta fict. É-me uma grande honra que compartilhe comigo desta obra maravilhosa, a qual acompanho desde o primeiro capítulo da primeira temporada e não me canso de indicá-la aos meus conhecidos e amigos.
Belle, tua escrita me emociona de todas as formas que possa imaginar, você tem o dom, menina! Conseguiu envolver-me de uma forma tal que me foi impossível não querer pelo menos betar tua obra e me fez ir além dando pitacos e te enchendo a paciência com minhas ideias tortas até chegarmos à sincronia tal que nossas escritas se fundiram em uma só, gerando este decisivo capítulo. rsrs
Meus parabéns, nunca deixe de escrever, pois você nasceu para isso!
Aos leitores de Rosa selvagem (se ainda houver algum rsrs):
Quero aproveitar o ensejo para reafirmar que não desisti de terminá-la, mas devido a vários contratempos, ainda não consegui terminar o próximo capítulo. Sei que já não publico há mais de um ano e estou em grande débito para com todos que a leem, porém a falta de tempo e inspiração devido a tantas coisas que vêm acontecendo em minha vida nestes meses, têm me impedido de continuar. Também devo dizer que ultimamente ando com algumas crises de inspiração, o que me animou a escrever um bom pedaço, e agora falta pouco para terminá-lo. Espero concluir o mais breve possível para poder postá-la. Abraços a todos.
À minha querida Joana Darc,
quero que saiba que eu e Belle demos muito duro neste capítulo e que a decisão de trazer Kanon de volta foi uma homenagem que eu dei ideia, uns capítulos antes, para fazemos a ti, pois eu sei o quanto adora o Kanon, principalmente se estiver se agarrando com o Rada. rsrs
Tua amizade me é muito cara e você me faz muita falta. Esperamos que tenha gostado da singela surpresa e curtido esse jeito bandido que demos ao teu (um dos meus também) casal favorito. Quero que volte logo à ativa para podermos terminar nossa tão esperada fict, minha eterna Kanon.
Para sempre tua Radamanthys:
Minos de Griffon
Curiosidades: A parte que me coube desse ch foi confeccionada ao som de Somewhere I Belong, do álbum Meteora do Link Park ^^
http://letras.mus.br/linkin-park/65466/traducao.html
Vale a pena conferir, pois acho que sintetiza bem o turbilhão de emoções de todos os personagens envolvidos neste ch.
Belle : *Chorandolitros*
Só acrescentando que o próximo capítulo, o último, virá muito em breve, pois só falta um tiquinho. ^^ snif!
Um beijo a todos!!!
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