Manual de Sedução Ii - do You Love Me?
9 Capítulo 9 - Despertar
- Não, tudo bem. Vou conversar com ele, vou tentar convencê-lo. – Camus colocou as mãos no ombro dele chamando sua atenção.
- Não sabe como isso é importante para mim. – Sorriu e teve o sorriso retribuído.
- Eu sei sim... — Shaka disse, sorrindo-lhe complacente. Entendia os motivos para Camus estar tão aflito. Sempre soube dos grandes problemas que eles tiveram e sempre se sentiu meio responsável, apesar de não imaginar o que teria feito para se sentir assim. Mas uma coisa era certa, iria ajudá-los no que pudesse. Isso sim era o certo a fazer.
-------------------------*------------------------------*------------------------------
Milo tinha acabado de receber alta do médico, não sem antes receber todas aquelas instruções típicas, muito repouso e nenhum aborrecimento. Duvidava que ele pudesse seguir tais recomendações. Ele estava em seu quarto com Anapanter conversando animadamente, talvez se preparando para sair, e de tão animado pôde ser ouvido no corredor do hospital. Camus hesitou um pouco ouvindo as risadas lá de dentro do quarto do loiro, ainda parado em frente à porta por alguns segundos, respirando fundo, segurando com força a mochila de Milo que acabou ficando consigo depois de toda aquela confusão, pensando no que diria, no que perguntaria. Enfim, depois de alguns segundos tocou discretamente na porta e ouviu Milo gritar para que entrasse.
- Oi. – Camus entrou timidamente e ficou parado perto da porta, esperando uma oportunidade para se aproximar. Percebeu que o clima alegre se desfez e que eles ficaram sérios. Esperou um pouco sem saber exatamente o que fazer.
- Oi Camus. Tudo bem? – Ana cumprimentou.
- Estou bem, obrigado. E você?
- Estou bem também, obrigada. – Camus observou que Milo já estava de pé arrumando algumas coisas perto da cama. Eles se entreolharam e então percebeu o olhar que Milo lançou para a mochila. – Isso aqui é seu. Eu coloquei o convite que o Minos te deu ai. – Disse entregando a mochila, mas voltando a uma distância razoável.
- Obrigado. – Milo agradeceu reconhecendo-a. – Ele sabe que estou aqui? – Perguntou referindo-se a Minos.
- Sim, eu disse a ele. Inclusive pediu que ligasse para ele depois. – O loiro assentiu.
- Bem... eu vou esperar você lá fora, está bem? – Ana sugeriu ao perceber o clima tenso que se instaurou. Aproximou-se de Milo e sussurrou um se cuida e depois saiu, não sem antes se despedir de Camus.
- Eu agradeço por você ter pago a conta do hospital, mas não precisava Camus. – Milo disse assim que se viu sozinho com Camus, mas não o encarou.
- Que isso, não foi nada demais. – O ruivo disse se aproximando um pouco. – Eu falei com o médico. Ele disse que você está bem e que até já te deu alta... – Sondou para saber para onde ele iria.
- Sim, ele já me deu alta sim.
- E você vai para sua casa? – Teve que ser mais direto, pois o loiro não lhe deu alternativa.
- Não, vou para casa da Ana.
- Entendo. Ainda por causa dos assaltantes? – Enfim conseguiu a atenção dos olhos sérios de Milo. A expressão que se via neles era de uma sobriedade inquietante. Como se quisesse mostrar algo que está escondido, e muito bem escondido. Camus soube identificar esse olhar, porque, antes de outro qualquer, ele mesmo se utilizava desse olhar com o loiro para dizer o que a boca não dizia.
- É... – Milo limitou-se a dizer ainda olhando para Camus. Eles ficaram se encarando por um tempo, em silêncio, analisando um ao outro para ler em seus olhos aquilo que as palavras não se atreviam a revelar.
- Eu ajudo. – Camus quebrou o silêncio, sentando na cama, mas mantendo o contato visual. O loiro arqueou a sobrancelha sem entender. – Você disse que precisava de minha ajuda. Se você precisa então eu ajudo. – Milo finalmente entendeu, engoliu em seco e voltou a mirar a sua bolsa com um ar perdido.
- Ah... é isso... – Sussurrou.
- Sim, é isso. E então? Do que está precisando? – Camus perguntou muito atento a tudo que Milo dissesse. O loiro por sua vez ficou calado, sempre desejou ouvir tais palavras, mas agora, diante da recém ameaça de Shion, a insegurança lhe abateu e ficou na dúvida no que responder.
- Milo? – O ruivo chamou vendo que ele mantinha-se calado. Milo respirou fundo e voltou a olhar para ele.
- Camus eu... eu só preciso que confie em mim. – Milo disse e Camus concordou com a cabeça e suspirou pesaroso.
– Eu não tenho outra escolha, não é mesmo? — O ruivo disse. – Se não for pelos fatos eu não saberei a verdade. - Emendou. Milo franziu o cenho.
- Como assim?
- Milo... eu não sou burro. Eu sei que tem alguma coisa acontecendo entre você e o Shion. E também sei que você não vai me dizer, não importa o que eu faça ou diga. Então a única chance de saber o que está acontecendo é lhe ajudando, mesmo que às cegas. – Milo ficou olhando para Camus sem acreditar em tais palavras. Piscou algumas vezes pensando no que diria. Olhou bem fundo nos olhos do ruivo e então disse:
- Você pode simplesmente esquecer. Ir embora, não querer saber de nada. Sempre há uma escolha. É só querer e escolher. – Camus devolveu o olhar intenso e sorriu discretamente.
- Você tem razão. Eu escolhi saber a verdade. – Camus declarou.
- E por quê? Porque resolveu saber a verdade? Não são mais suficientes os fatos que o levaram a crer que eu não passo de um canalha? – Milo perguntou um tanto confuso. Camus se levantou e se aproximou ainda mais dele. Estavam muito próximos e então o ruivo levantou a mão para acariciar a face do loiro.
- Porque é a primeira vez em muito tempo em que eu vislumbro a possibilidade de você não ser tão canalha quanto eu achava. É a primeira vez em que vejo os fatos indicarem nessa posição. E sinceramente, ninguém nesse mundo quer mais que você seja inocente do que eu. Sempre pensei em como seria maravilhoso se eu estivesse errado sobre você. Apesar dos fatos mostrarem o contrário. É o que sempre desejei do fundo do meu coração. Eu sei que posso estar me iludindo... – Camus estremeceu com a ideia e então se afastou ficando de costas para o loiro. O movimento foi notado por Milo, mas este nada fez. – Mas... é mais forte que eu. Eu quero, eu escolhi me agarrar nessa chance. Essa possibilidade que só agora, depois de tanto tempo, apareceu. – Disse quase como se fosse uma confissão. O loiro sentiu seus olhos marejarem, mas se segurou.
- Camus... obrigado. – O escorpiano soltou como num suspiro de alívio, num misto de sentimentos que o deixavam estarrecido.
- Não é preciso agradecer. – Camus sorriu e voltou a olhar para Milo, mas em seus olhos não se notavam a ternura que o momento pedia. – Mas eu preciso que você confie em mim, Milo. – Eles se encararam e os sentimentos ali eram tão intensos que eles podiam sentir. Mas a confusão também se fazia presente entre eles. Era tudo muito forte, palpável até mesmo.
- Eu não tenho motivos para desconfiar de você. – Disse sem saber exatamente onde ele queria chegar.
- Então você não tem motivos para esconder de mim o que há entre você e Shion? – Camus perguntou.
- Tenho, mas não tem a ver com confiança.
- E tem a ver com o quê? – Milo desviou o olhar para suas coisas e, hesitante, respondeu:
- Tem a ver com algo bem maior que, infelizmente, você não pode saber agora.
- E porque eu não posso saber?
- Porque... se você souber... vai ser muito ruim para todo mundo. – Milo disse da forma mais vaga que conseguiu, ainda olhando atento para suas coisas. Camus ficou encarando-o sem saber o que dizer. Considerou várias hipóteses, mas todas elas pareciam fantasiosas demais.
- Como vou te ajudar se nem a verdade você quer me dizer? Se não confia a mim a verdade dos fatos que eu desconheço?
- Eu confio... em você. Mas não em quem está perto de você. – Milo declarou voltando a olhar para ele.
- Você fala do Shion? – Camus arriscou o palpite. O loiro mordeu o lábio inferior e voltou a olhar para sua mochila, calado. O ruivo se aproximou e tocou no queixo do outro, erguendo sua cabeça para que o encarasse. – Diga-me Milo. — Pediu.
- Eu não posso. – O loiro sussurrou, fechando os olhos para não ver a tristeza nos olhos do outro.
- Como eu poderei fazer isso? – Camus perguntou e em sua voz pôde ser notada uma profunda melancolia.
- Eu não posso... não posso falar. – Milo disse tentando fazer com que suas palavras vazias transmitissem o que queria nas entrelinhas. Camus fechou os olhos, cansado de toda essa história.
- Por quê? – Sussurrou a pergunta.
- Porque... eu sei o por quê. Por favor, Camus... Eu não posso dizer. Não agora. Eu... – Milo não podia negar que até mesmo a reação de Camus diante da verdade o assombrava.
- Você sempre me cobrou confiança, confiança entre nós, até mesmo agora... me pede para confiar em você. E sem explicar nada me pede para não ver, para não entender... agora que você mesmo precisa que eu confie, mas eu preciso da verdade. Eu não sei se consigo assim Milo...
- Se tivesse confiado antes, quando éramos tão amigos que nos reconhecimentos em nós mesmos, talvez hoje... – Milo não conseguiu concluir, pois sua voz embargou.
- Os fatos mostram mais do que palavras Milo. Eu sou um homem racional, sempre fui. Você sabe disso. – O ruivo alegou em sua defesa.
- Então fique com os fatos e deixe as palavras comigo. — Camus se deu por vencido e abriu os olhos, encarando aqueles olhos que agora estavam vermelhos de tão agoniados.
- Tudo bem. Não quero que fique assim. – Disse e se afastou um pouco. Milo sentou na cama olhando para o chão fixamente. Ficaram algum tempo em silêncio, pensativos.
- Leve o Shaka para a festa do Minos. – Milo declarou fazendo Camus voltar a mirá-lo. Mesmo sem entender, concordou.
- Eu vou levar. – Camus disse encarando profundamente Milo, que não o encarava.
- Eu... eu tenho que ir... – Milo disse pegando sua mochila e saindo sem olhar para o ruivo. Saiu e fechou a porta atrás de si, procurando por Ana. Assim que a encontrou, foi atrás dela. – Vamos embora?
- Claro, mas você está bem? – Perguntou vendo como ele estava agitado.
- Estou sim, mas vamos? Vamos logo! – Pediu quase puxando Ana pelo braço.
-----------------------------*----------------------------------------*----------------------------
Assim que chegou a casa de Ana Milo se jogou no sofá da casa de Ana, fazendo-a rir.
- Estava com saudades de deitar em um sofá gostoso como esse... – Milo declarou sorrindo.
- Então espere para ver a cama! – Ela riu mais ainda ao ver os olhos dele brilharem. – Eu vou pegar uma toalha para você tomar um banho. – Ele assentiu e, pegando a toalha, foi tomar um banho bem demorado e relaxante. Quando voltou, a mesa já estava posta para o jantar. Ele sorriu.
- Assim eu fico muito mal acostumado. Eu já disse isso não é? Você está me mimando muito! – Ele riu com vontade, sentando à mesa.
- Ahh... você merece. – Ela disse sorrindo e sentou também. Ela queria muito perguntar o que eles tinham conversado, mas também queria que ele relaxasse, então preferiu se calar. – Você quer que eu coloque uma música? – Perguntou.
- Ah pára Ana! Parece até que estou doente! Estou muito bem, não precisa desses dedos todos!! – Ele riu novamente.
- Mas o médico disse que você precisa descansar e. — Ela argumentaria, mas ele a interrompeu.
- Sim, e estou descansando: Acabei de tomar uma relaxante e demorada ducha e agora estou aqui com essa mesa maravilhosa cheia de coisas deliciosas para comer, na companhia da melhor amiga que alguém poderia ter! Sem falar que nos últimos dois dias eu só fiz dormir naquele hospital! Então... pode crer, eu estou bem descansado! – Ele riu segurando a mão dela.
- Bom... se você diz... – Ela rendeu-se diante do radiante sorriso dele.
- Exatamente, é o que eu digo! Na verdade, só falta uma coisa para ficar perfeito. – Ele disse fazendo um ar pensativo.
- O que?
- Praia! Amanha irei bem cedo à praia! – Ele disse animado e ela sorriu.
- Irá surfar?
- Bem, isso eu não sei, porque eu estou sem a minha prancha. Mas com certeza irei à praia. – Ele disse enquanto comia.
- Está certo. – Ana deu-se por satisfeita. – Você vai ficar aqui até quando?
- Só até a festa...
- Tem certeza? Não é perigoso?
- Sim, é por isso que não posso ficar. Eu não sei ainda o que vai acontecer nessa festa, aliás, eu até preciso falar com o Minos sobre isso, mas de qualquer maneira creio que depois dessa festa Shion não esteja tão disposto a parar de me perseguir. Por agora, enquanto ele achar que eu estou submisso a ameaça dele, não acho que corremos perigo.
- E o que você pretende fazer nessa festa? – Ana arrependeu-se assim que fez a pergunta. – Desculpe-me Milo. Você tem que descansar e não pensar nessas coisas...
- Não se preocupe. Eu tenho mesmo que pensar nisso. O que quero é me aproximar do Shaka, já que eu não consigo simplesmente fazendo uma visita.
- Mas porque ele é tão importante?
- Ele é peça central, tem todas as informações que ligam os fatos, é um homem que inspira a confiança do Camus e o temor do Shion, e principalmente, ele tem bom coração. Se esse problema tem alguma solução, certamente se passa por ele.
- Entendi. Mas você acha Shion vai deixar você falar com ele?
- Creio que não, é por isso que preciso de Camus lá, como da primeira vez, ele não terá como negar sem que todos desconfiem dele. Só que agora com Camus mais ligado e numa festa onde terei tempo para fazer alguma coisa.
- E quando vai ser a festa?
- Eu não sei, deixa-me ver. Camus disse que colocou o convite dentro da mochila. – Milo começou a procurar na sua mochila e notou alguma coisa estranha. – O envelope... – Sussurrou para si mesmo, agora procurando o envelope branco no qual guardara as fotos que tirou de sua casa sendo assaltada.
- O que foi?
- O envelope... – Milo disse ainda mais alto, revirando sua mochila no chão em busca das fotos. – Não está aqui. – Constatou assustado. Será que Camus...?
- O que não está ai? Que envelope é esse?
- O envelope com as fotos que tirei da minha casa. Eu as coloquei aqui dentro. Tenho certeza!
- Não está mais aí?
- Não... Será que o Camus...? – Milo encarou Ana, incrédulo.
--------------------------------*--------------------------------------*-------------------------------
Camus saiu do hospital e foi logo para o seu escritório e lá se trancou por um bom tempo. Precisava de tempo sozinho para refletir sobre tudo o que estava acontecendo. As palavras de Milo martelavam em sua mente, tanto quanto o pedido de ajuda daquela noite, que veio com aquele olhar que quebrou seu coração. Aquela imagem ficou gravada martelando sua cabeça, pondo em cheque tudo o que sempre acreditou.
Era fato que algo estava acontecendo, mas o que exatamente? Não sabia dizer. Somente que Shion estava no meio. Será que tem a ver com aquele dia em que Milo o dopou? Ou será que está mais uma vez tentando se iludir, como disse Saga? O que Shion poderia ter a ver com isso? E principalmente, do que Milo tem tanto medo? Será que é por esse mesmo medo que ele não revela o que está acontecendo? Será que está sendo ameaçado? Mas pelo que estaria sendo ameaçado?
Camus retirou do bolso o pequeno envelope que retirou da mochila de Milo. Dentro, as fotos dos assaltantes entrando na casa de Milo e outras mostrando, provavelmente, o resultado do assalto. O ruivo recostou-se em sua cadeira e ficou olhando atentamente para aquelas fotos, analisando, tentando entender porque Milo tirou fotos da sua casa sendo assaltada. E principalmente, porque não entregou as fotos para a polícia?
E porque nas fotos parece que ele sabia que seria assaltado? Ao olhar atentamente para as imagens, Camus teve a nítida impressão de que Milo sabia que, mais cedo ou mais tarde, aqueles homens estariam em sua casa. Talvez por isso foi dormir e manteve-se naquele hotel de quinta. Sim, ele sentia-se ameaçado e por isso não voltou para casa. Ele acredita que esses homens podem voltar.
Mas se assim for, isso significa que não se trata se um simples assalto. E então explicaria porque Milo não quer falar nada, deve estar sendo ameaçado. Mas por quem? Ele pediu para chamar Shaka, será que ele também está sendo envolvido? As palavras do loiro indiano vinham à mente, lembrando-se da conversa que tiveram.
“-Ele disse que precisava muito falar comigo. Tudo aconteceu rápido, eu não esperava que ele estivesse lá e muito menos que me procurasse. Perguntou se podia me ver, que precisava muito de minha ajuda, conversar, resolver algumas coisas.”
Milo pediu ajuda também para Shaka, assim como para Camus. Mas no que Shaka, um homem que só vive para meditações, poderia ajudá-lo? O nome de Shion vinha-lhe a mente incessantemente, fazendo-lhe referencia de que, além deles não se gostarem, ser a única pessoa que liga tanto Milo quanto Shaka.
“- Ah, na época o Milo me ajudou num segredo, quando fui a uma casa de show e ele estava lá e me ajudou a sair do lugar sem maiores problemas. Eu bebi um pouco, foi a primeira e última vez. Ele me ajudou muito nesse dia. Acabou que meu pai descobriu, mas mesmo assim meu pai ficou grato a ele porque me ajudou a ir para casa com segurança. E foi nesse momento que ele e meu pai conversaram pela primeira vez.”
Shion não poderia ter ficado grato a Milo, senão ele não teria tantas reservas com Milo. Segundo Shion, suas reservas são fundamentadas pelo comportamento promiscuo do escorpião em sua adolescência, então como ele teria ficado grato? O mais lógico seria ele pensar que Milo levara o loiro indiano para a casa de Show e não acreditado na história.
Com certeza a resposta estava com Shion e nessa festa não poderia chamar apenas Shaka. Pensando nisso, Camus guardou novamente as fotos em seu bolso e ligou para o escritório de seu sócio-amigo.
Continua...
Fale com o autor