Notas iniciais
Um capítulo de A A A A A A bracitos A conchego A poio  nimo e A mor incondicional dos Lins Albuquerque Camargo

Hoje até o Fred tá no esquema!

Seu Júlio foi esperto, deu com uma cajadada em dois coelhos – metaforicamente, claro. Se fosse de verdade, a paulada seria nesse velhinho. Palavras da Iara, não minhas.

Acontece que ele mexendo no jardim, no outro fim de semana, não foi tão ao acaso. Já estava arrumando o disfarce dele, isso sim. E um agrado para a Iara. Dois, na verdade. Preparava a poda para montar um terrário pro Fred e para criar uma demanda específica pro Vinícius. No caso, hoje esse senhorzinho iria solicitar auxílio de seu futuro arquiteto (e paisagista) para algumas missões na casa, desde o terrário a possíveis quebra-quebra. Talvez aumentar o escritório? Havia, afinal, espaço no quintal.

Por que isso – requisitar a atenção do Viníciusseria um agrado para a Iara?

Porque a gente tava organizando a festa de aniversário surpresa desse bonitinho. A Iara é a cabeça articuladora e o restante da gangue confere como seus peões. E a gente precisava do Vinícius distraído nesse domingo para poder levar parte da turma ao ensaio. No caso, eu e a galera vamos fazer um ensaio escondido hoje à tarde na pizzaria. Já os familiares do Vinícius, que teriam pouca participação de palco, poderiam treinar seus versos e cantorias sem tanto exercício vocal. Poderiam fazer isso com o Youtube em suas casas mesmo, até porque as músicas já foram separadas. Poisé, a Iara já se adiantou nessa.

Além desse “momento neto e avô”, trabalhando em uma coisa que ambos gostam, manter o Vinícius ocupado era válido para que ficasse focado em algo sem fazer perguntas demais. Até mesmo para ficar longe de mim. Porque se eu aparecesse no almoço de hoje, ele não me largaria, e na hora de eu ir embora, tendo que sair logo após a refeição, seria bem capaz de ele me seguir, ou insistir para ir junto, e eu não poderia fazer isso. Não sem a Iara me matar.

Aliás, até a própria não vai pra esse almoço, pois vai contar também que foi convidada diretamente pelo tio Márvio para a feijoada de vitória do Botafogo. Se o tio de Sávio é botafoguense, aí eu já não sei. O que sei é que é pro seu Júlio, Djane e Filipe segurarem o Vinícius em casa. Tá liberado inventarem o que for.

Então nem preciso dizer um A de diferente, nem mesmo justificar a expressão de jururu do Murilo nesse momento. Ao Vinícius, eu só disse que hoje é dia da Lia e que eu meu irmão tava insistindo nisso faz dias. Meu Vini tinha ouvido o papo de mudar os ares, só não curtiu isso de ele não estar no pacote. Eu não queria mentir para ele, mesmo que por essa grande causa, então quando ele perguntou se tinha a ver com a minha mãe, pelo fato da sua recente partida, eu não neguei, nem afirmei, deixei no ar. Acho que só por isso ele perdoa minha falta neste dia.

Recebo uma fotinha do seu Júlio mostrando a área onde pensa em montar o terrário e sorrio, querendo muito poder ver a cena desses dois atuando juntos. É cedo, então nem o Vini, nem Djane chegaram lá. De qualquer maneira, peço mais fotos e que Djane filme os dois em trabalho.

Ao Vinícius, mando uma fotinha da Lia que eu tirei ontem, quando o Alfonso tava lavando louças, antes daquela situação toda com a Aline. Digo que a princesinha da casa tá gritando tanto que é capaz de ele ouvir da residência dele. Ela tá na fase de se comunicar assim, então fica um alvoroço com todo mundo estimulando a guria.

9h48 Vinícius Garra

Manda um beijo do tio Vini pra ela


9h48 M. Lins

E pra mim, não manda não?


9h49 Vinícius Garra

Tem que vir buscar


Ah, safado esperto! Já ia escrever uma respostinha sacana pra ele quando surge outra mensagem notificando minha tela. É do Murilo, ele estando no quarto dele, eu na sala, ambos na mesma casa.


9h50 Murilo_Lins

Pode ficar um pouquinho aqui cmg?

Esmoreço um tantinho com esse seu pedido. Murilo não é de pedir nada assim, até porque ou ele chega já reclamando suas faltas ou se recolhe demais. E desde ontem, desde que chegamos, meu maninho tá ausente. Depois que saímos da casa da Lisbela, só passamos no supermercado e ele nem desceu. Tampouco reclamei, acho que ele queria ficar sozinho mesmo. Tinha tanto no que pensar e ele tomar o tempo dele era importante. Por conta disso, preferi até mesmo comprar mais comida pra deixar o almoço e jantar só no ponto de esquentar, pra ninguém ter que ficar na cozinha mais do que o necessário.

E como meu mano tava recluso e eu sem poder nem chegar perto do Vinícius, assistia alguns episódios de Dawson’s Creek sozinha, com saudades da minha mãe. Com essa mensagem do Murilo, no entanto, penso eu em matar dois coelhos com um telefone só. Quer dizer, vou tirar meu irmão daquele quarto e vou ligar pra nossa querida mãe, para agitar mais os ânimos dessa casa vazia.


9h51 M. Lins

Vem pra cá!

No que ele demora a responder, já ia me levantar para arrastar a criatura até o sofá, mas aí quando eu calçava as chinelas, aparece ele se arrastando até a sala. Debaixo do braço, traz algo que me chama atenção. É almofada que mamãe deu de presente com o nome de casal dele. Murilo não diz nada ao me alcançar, só coloca a almofadinha amarela de coração sobre as minhas pernas e se deita ao sofá, com a cabeça em Muline. Literalmente. Assim, logo ofereço um cafuné, um carinho que ele precisava.

Nem eu queria esticar assunto sobre a confusão de ontem, não no sentido de importunar demais, ou de ficar somente na velha pergunta “como tu tá?”. Colocar mamãe na parada era perfeito para a ocasião e de outras tantas maneiras.

— Sei de algo que vai ser bom pra mim e pra ti. Hora de eu nos levar pra outro lar.

Com esse anúncio, que ele não pergunta e pouco se mexe, eu desligo a televisão e ligo para o número de dona Helena sem pestanejar. Ao ouvir que ela atende, já me lanço na empreitada:

— Oi, mãe. O que tá fazendo?

Um barulho de água de torneira e coisas de cerâmica ficam um tanto nítidas vindo do outro lado.

— Tô aqui assistindo teu pai lavar a louça. Vivi pra ver e não canso de ver. É uma coisa linda assim.

Ela soa apaixonada, encantada e provocativa ao mesmo tempo, para meu agrado.

— Ah, é? Quais as chances de rolar vídeo disso?

— Olha, uns 80%. Mas os 20% decisivos são dele. Tenho que pedir autorização, tu sabe.

— Pois pede.

Dá pra ouvir mamãe afastando a cadeira e indo até o meu pai. Dá pra ouvir também quando ela diz “tua princesinha quer registro disso em vídeo” e quando ele responde, malandrão, vem um “é claro que ela quer” e um “mas vai ter que vir pra cá pra ver isso”.

— Ouviu teu pai?

— Ouvi. Só ficou a dúvida se eu tenho que ver ao vivo ou se posso gravar vídeo dessa imagem preciosa ao vivo.

— Acho válido as duas opções. Mas aí tu tem que vir pra saber qual ele vai aceitar.

— Feito. E isso significa que ele vai ter que continuar fazendo pra eu ver isso.

Ouço ela passar o recado mais uma vez, toda geniosa. Quanto retorna à ligação, entendo que não tá no viva-voz e acho até melhor. Principalmente considerando a criaturinha que está no meu colo, quieto demais.

— A que devo a honra da senhorita me ligar?

Sorrio discretamente por essa indiretinha – tava demorando!

— Do jeito que a senhora fala, até parece que não liguei esses dias. Todos esses dias!

— Eu gosto de ouvir, tu sabe.

Sei e sei bem demais. Sei também que ela gosta quando a gente é sincero e no momento eu só quero me derramar pra ela. Não exatamente falar das saudades dela, mas demonstrar essas saudades em outras palavras. Assim, mantendo o carinho no cabelo baixo do meu irmão, eu não enrolo sobre isso.

— Mãe, eu e o Murilo tamo precisando de colinho.

Isso faz a criaturinha levantar as sobrancelhas, meio surpreso e atento.

— De saudades?

— Também. Mas aconteceu umas coisas chatas esses dias.

No fim das contas, ela não tava de todo errada na sua despedida – mal ela foi embora e a vida nos sugou e nossos pares nos colocaram doidos, muito doidos.

— Hmmm... Tipo o quê, posso saber?

Encaro minha mão entremeada ao cabelo do meu irmão e hesito só por um segundinho. No que falo, deixo que vaze com um belo de um resumão, agora bem mais calma em falar sobre o assunto.

— Eu e o Vini brigamos. E agora o Murilo com a Aline. A gente falou besteiras e nos ferramos bonito. Mas pedimos desculpas e já consertamos a confusão. Não tá de tudo ok, mas tá se encaminhando pra isso, eu acho. E um colinho seu seria tudo agora.

Do outro lado, mamãe se derrete por essa entrega.

— Ô, meus amores. Tenho só que desligar o... o... Ligo em cinco minutinhos, tá bom?

— Tá bom.

Com a ligação finalizada, Murilo se vira pra mim e se manifesta.

Nada como um problema alheio para nos entreter e nos distrair dos nossos, né?

— O que foi isso com o Vini?

Sem firulas, respondo. Ou melhor, assumo.

— Por um minuto muito louco, achei que ele ia perdoar o Aguinaldo e surtei feio.

— Por que achou que ele ia fazer isso?

Continuo a enrolar umas pontinhas de seu cabelo, quase que sendo minha forma de desanuviar essa nuvem pesada que está em sua testa e ombros. Descarrego um pouco de mim também.

— Porque eu vi ele se reconciliando com o Sávio, o que foi lindo, e a cena toda foi por conta de o Sávio contar como foi o resgate de Djane. E aí, no meio dessas emoções todas, lá estava eu achando que ele faria o mesmo com o Aguinaldo. Porque a gente descobriu que ele não tá numa situação legal, do tipo coisa séria, e... sei lá, não dava pra ignorar isso. E também porque pareceu que eu tava sendo muito insensível por conta desse problema. E eu vi que o Vinícius ficou balançado... Por conta do resgate de Djane.

— O que foi que vocês descobriram do Gui?

— Ele e a mãe ainda são alvos e eles precisaram sair de casa. Estão agora no antigo apartamento da Iara. Que lá tem câmera e segurança.

— Caramba!

— Poisé. Daí eu dei uma pequena grande surtada e falei umas besteiras. Isso foi naquele dia na casa do Bruno, então quando a gente começou a discutir feio, a galera se meteu e nos separou. E depois nos uniu. Mas... foi complicado. Teve uma hora que até a Iara achou que eu tava odiando ela, porque ela tá ajudando o Aguinaldo. Então a gente se demorou um pouco resolvendo isso, pra depois eu rever o Vini e a gente conversar melhor. Mas ficou acertado que eles vão apoiar o Gui. E... eles estão me apoiando nesse distanciamento. Eu não preciso me envolver.

— Sinto muito, Mi.

Dou de ombros, demonstrando que isso é uma situação bem chata, porém, que não é lá o fim do mundo e que estamos melhor do que achava que estaríamos a esse ponto.

— Eu só precisei colocar isso às claras, então as coisas estão seguindo um melhor rumo. E deu um saldo bom. Ainda mais que o Vini se resolveu de vez com o Sávio.

Murilo abaixa o olhar de mim, encarando nada em especial, com pensamentos que ele não revela, só segue se mantendo presente a mim e à minha conversa.

— Verdade.

Eu, por outro lado, preciso deixar mais uma coisa às claras. Assim, do topo do seu cabelo, alcanço as laterais como forma de fazê-lo mais atento a mim e ao que quero lhe dizer.

— Olha, Mu, eu vou contar isso pra mamãe, mas tu não precisa dar detalhes do teu caso, tá? Não quero te expor, quero apenas que receba amor.

Ele pisca, mais aliviado.

— Valeu.

No entanto, apesar da minha atenção aos seus cabelos, vejo uma lagriminha sua descer e aí escorrer pelo lado. Com o polegar, desmancho o caminho dela e tento ser o mais caridosa possível, para que não rejeite os seus próprios sentimentos, tampouco esconda-os de mim.

— Eu sei que foi um negócio sério, mas vocês não terminaram. Isso é algo bom.

Murilo vira o rosto para o lado da televisão, envolvido por isso novamente. No que funga, também coça um olho com a palma da mão.

— Eu só... sou um idiota.

Abaixo o braço dele para que não fique se machucando ou se martirizando. Em adição, faço um novo carinho próximo de seus olhos, esses que piscam agitados demais.

— Acho que podemos dizer que tu foi um idiota lá na situação do serviço, mas não vai ser mais. Eu sei que vocês vão se resolver. Do jeito de vocês.

— Eu achei que...

Então ele comprime todo o rosto e logo leva um braço para esconder sua visão de mim. Pois chorava e se lamuriava.

— Own, Mu.

Com o braço dobrado, só a parte debaixo de seu rosto que ficava disponível pra mim e ela tremia com ele em sofrimento assim. Dolorido assim. Infelizmente, nesse ponto, não poderia interrompê-lo. Estávamos faz um tempo lidando com emoções intensas desses jeito, esvaziando elas de nós, e se ele se permite isso, não serei eu a impedi-lo. Montanhas e fortalezas também têm seus pontos de vulnerabilidade. Também estouram, implodem, e pra ficar tudo bem, não se pode interferir. Tem que deixar acontecer.

— Eu ssssei que ela... que e-ela tá certa, m-muito certa, mas eu...

Murilo busca ar e um mínimo de autodomínio para se expressar. Termina tirando o próprio braço do rosto e se levantando do meu colo. Senta-se melhor ao meu lado, o que me permite abraçá-lo com cuidado. Ele me recebe bem nessa, mas não se recebe bem, todo embargado.

— Eu não sei como eu vou voltar naquela casa, Mi. Eu não sei como ela vai olhar na minha cara.

Deitada ao seu ombro, agarro seu braço para me manter ali.

— Ela tava magoada, Murilo. Pessoas magoadas falam coisas ruins.

Mas meu mano na verdade queria se torturar. E isso eu não deixo.

— Eu sou muito estúpido mesmo.

— Tu já foi algumas vezes e sei que vai se esforçar pra não acontecer de novo.

— Parece o dia que gritei com a Tamara, tudo de novo!

Eu sei que no momento o que eu falo pode passar sem ele me ouvir de fato, vez que está tão envolto do que se sente, entre pesos e culpas e vergonhas, mas mantenho minha linha de pensamento e minha voz doce e calma.

— E tu voltou lá e pediu desculpas e prosseguiu.

— Mi...

Beijo-o no ponto do ombro onde retenho minha cabeça. Ele foi minha fortaleza e eu serei a dele, inabalável diante de seus medos.

— Tudo o que tu falar de negativo, eu vou dar meu jeito de tornar positivo. Lembra?

Isso parece amainar algo em seu peito, que suspira pesado, deixando a tensão recair das costas aos braços. Em resposta, Murilo só meneia a cabeça, mesmo que ainda se mostre desnorteado de tudo. Por isso, puxo sua cabeça para encostar na minha, para que descanse dessa batalha, dessa intensa batalha interna.

— Tu, aliás, me dizia outra frase... Como era mesmo?

No que ele tenta mover a cabeça de novo, eu seguro, mantendo nós dois ao seu ombro. Por sorte, a frase me vem inteirinha e não hesito. E declaro com a mesma calma e doçura e zelo que disse uma vez pra mim.

— “Vocês sempre dão um jeito de se resolver. Sempre”. Tu falava sobre minha relação com meus amigos e tô aqui te dizendo isso sobre a Aline. Vocês vão encontrar o jeito de vocês.

A dúvida e a esperança, no entanto, se embaralham nesse momento. Faz parte, lembro a mim mesma também.

— Será?

Solto-o e só pra enfatizar bem a mensagem.

— Amanhã é um outro dia para recomeçar, Murilo. Isso tu me ensinou bem. Vocês se amam e vocês vão encontrar um novo caminho.

O que eram piscadas agitadas antes, agora só sobram as lentas, mas que internalizam isso que digo. Murilo tomba então para trás, ao encosto do sofá e expira forte. Encosto-me também ao espaldar de lá, ficando ao seu lado. Por um tempo, deixo que respire e que encontre seu caminho de volta. O fato de mamãe não retornar de imediato é até melhor. Se ligasse, eu deixaria tocando acho. Porque esse era um momento pra sentir e deixar assentar.

Afora sua respiração se regulando, o único barulho ao redor é de um forró que algum vizinho liga, porém, nada incômodo. Não dava pra ouvir a letra, se era ou não de alguma bola fora ou de dor de cotovelo, fica só o ritmo lá longe. Quero respeitar o silêncio de meu mano, só que também tem algo que me vem na cabeça... sobre a questão do seu trabalho. Arrisco preencher o espaço com isso, uma dúvida genuína.

— Tem uma coisa que eu vim pensando ontem no carro.

— O quê?

— O que o teu outro coordenador teria feito se acontecesse essas coisas na vez dele de ser o chefe? Ou o coordenador do teu outro prédio?

Murilo só vira a cabeça pro meu lado, ainda com ela deitada ao alto do espaldar.

— Sobre o que teriam feito no caso do vestido ou no caso das técnicas?

Coloco a palavra que ele tá evitando diretamente na conversa. Não por maldade ou provocação, apenas para nomear a situação pelo que é de verdade.

— O caso sobre o assédio das técnicas. Mas agora quero saber se fariam algo em relação a tua discussão com a Aline na frente dos colegas.

Levando a mão aos cabelos, ele se vira para o teto e se demora um pouco considerando isso. Aquele peso de minutos atrás até parece voltar um pouco, uma tensão diferente, porém, que não parece carregá-lo de todo. Só está ali mesmo, porque não é algo que dê simplesmente para eliminar.

— Acho que meu antigo chefe, do outro prédio, teria ignorado. Tanto as reclamações quanto a discussão. Acho que só diria pra eu não arrumar confusão. Mas o RH ia partir com tudo pra cima dele.

— Devem, aliás. Mas o que tu acha que ele faria com o RH?

Me ajusto ao sofá só pra assistir melhor de suas expressões e movimentos, de como está processando isso. Vejo como seus olhos baixam, de maneira tristonha, e como sua mandíbula se move, estendendo suas frustrações.

— Acho que iria só dizer pros caras se comportarem, pra baixar a poeira. Ele não era de ir atrás nesses casos de... Picuinha. Quando chamava atenção, era só pra dispersar mesmo.

— E o outro chefe? Do novo prédio.

Murilo dá de ombros, meio sem vontade.

— Quase a mesma coisa. Só que não tão no sentido de dispersar, mas sim de colocar geral na linha. No caso da minha relação com a Aline, ele pediria discrição, só.

— E tu acha que isso funcionaria?

Ele baixa o olhar e expira e demora um pouquinho pra responder.

— Não.

— Acha que é um padrão pra se manter?

Dessa vez, contudo, ele não demora.

— Não.

— E tu não vê que isso em outra mão é bom?

Ele abaixa o braço de volta ao colo, derrotado.

— Não. Porque eu ainda não sei resolver.

Murilo ainda não tá vendo o que eu tô vendo, então sigo com minhas perguntas norteadoras, até mesmo para retomar o contexto da situação e eu poder compreender o que é que ele tem nas mãos em termos de coordenador.

— Daquela vez que teve o problema dos slides, quem foi que pediu a investigação? Pra saber quem era o culpado.

— A diretora. Que era chefe da Aline na época.

Foi depois de muito tempo que eu soube que a Aline era originalmente do setor do RH, o que deu sentido ao fato de ela ter sido nomeada para investigar aquela algazarra dos funcionários. Mas naquele período, quando esses dois estavam se arranjando na relação, se teria ou não uma, ela era assistente da diretora.

— Ah, ela que tava grávida, né? Naquela confusão da gravidez.

— É. Ela voltou da licença maternidade acho que em dezembro, ou novembro, não sei. Só sei que ela teve umas complicações na gravidez, então teve que antecipar a licença e ficou um tempo ausente da diretoria.

Era o que ela mais temia, lembro. Que escondeu a gravidez para que alguns projetos não fossem interrompidos quando tivesse que ficar fora. Mas aí descobriram, ou parte dessa história, que recaiu sobre a Aline, e isso deu um nó tamanho na cabeça do Murilo. Mas não é nisso que quero focar.

— Então foi uma mulher que fez a diferença. Que colocou vocês pra ir pro “aconselhamento”.

Faço as aspas e tudo, ao que o Murilo me fita, meio sem entender por que estou enfatizando isso.

— Foi.

— Hum. Será que as técnicas vão ter que esperar uma outra mulher virar coordenadora pra alguém fazer a diferença?

As sobrancelhas dele indo ao alto, de olhar surpreso e concentrado, é o que mostra que agora as peças estão encontrando seus lugares. Pra ajudar nessa sua ciência dos fatos, acrescento:

— O que tô dizendo, Murilo, é que tu pode não saber a solução, ainda, mas vai procurar por ela. E tu não precisa resolver sozinho, pode muito bem ter ajuda de outras pessoas. E pode fazer diferente do que outros coordenadores e gerentes e diretores. Toda mudança começa do pequeno, né?

Mais desperto, ele confirma.

— Acho que tu tá certa.

Pra dinamizar mais, digo isso com orgulho e entusiasmo.

— É claro que eu tô certa!

— Vocês todas estão certas. Eu só não acredito que fui parte desse antro de maluco babaca.

Fico feliz pela consciência agora ter batido no ponto certo e dele emergir o asco que esse tipo de comportamento merece. Se confirmo isso com um carinho em seu rosto, não é de estar “passando a mão na sua cabeça”. Por isso mesmo não nego o fato.

— É, tu foi.

Mais suavizado, meu mano até se permite uma zoeirinha, mesmo que um pouco embaraçado disso.

— Pensei que esse seria aquele momento que tu diria que eu não fui.

— Mas tu foi, Murilo. E não é mais. Quer dizer, vai se esforçar pra sair desse lugar. Eu gosto desse Murilo, sabe? Não que eu não amasse o outro Murilo, amava sim, mas não gostava do que ele fazia, como fazia. Gosto desse Murilin aqui.

Cutuco o nariz dele com graça, como às vezes o vô Júlio faz comigo quando me chama atenção em algo. Encho a bola dele, também como esse vôzinho faz. Só que cutucando agora meu mano no ombro.

— Tenho orgulho dele. Mais ainda quando ele admite que fez merda. E que tá lutando aqui dentro pra fazer o certo, mais disposto a procurar... hmmmm... maneiras... de fazer esse certo. E de nunca mais fazer aquilo com a Aline. Nunca mais.

O tanto que os olhos dele enchem, os meus enchem junto. Brilham. Sorrio quando ele segura minha mão que o cutucava. Não é exatamente para eu parar, é para ele levar consigo. Ele beija a lateral dela e repousa meu braço ao seu pescoço, num chamego bem mais ameno.

— Pensei que esse seria aquele momento que tu diria “te amo, maninha”.

Murilo ri o seu sorriso besta e bobo e que tanto amo, um que achei que eu não traria de volta tão cedo, mas vejo que consegui e meu coração sorri junto.

— Eu amo. E amo tu me falando essas coisas.

Justo quando eu ia abraçar minha criaturinha com tudo, meu celular começa a vibrar na minha perna. Era dona Helena atrasada ligando de volta. Quer dizer, atrasada não, na hora certa. Mostro a tela pra ele e digo:

— Hora de amar um pouquinho mais.

É, pelo jeito, aprendi muita coisa ao longo desses tempos de crises. Aprendi muita coisa com todo mundo, mas principalmente com o Murilo aberto a conversar e destrinchar sentimentos. Pra mim, agora é chegada a hora de corresponder à vida colocando isso tudo em prática. É chegada a hora de refazer o equilíbrio.

Notas finais
Hora de VOCÊS me amarem um pouquinho mais, pq tenho coisas pra aprontar. O combo de hoje fica por aqui, mas juro juradinho que volto LOGO LOGO para trazer uns MIMOS pra vocês - neste mesmo batcanal, neste mesmo batlink. Enquanto isso, deixo uns trechinhos do próximo de bônus: "- Viu só? Eu disse que tu iria gostar dessa ideia, namorado. - Tu quase me quebrou no meio da coisa toda, isso sim." e "- Te deixo um segundo e tu já tá atrás de outro, né? - Tu sempre fala desse outro e eu nunca sei quem é." e "- Tu quer mesmo ver a [SÓ NO PRÓXIMO] no teu aniversário, é isso? - Só checando. - Só querendo que seja um velório, isso sim." E "- E já que vai ser num espaço menos reservado, tu vai convidar... outras pessoitas? - Meus amigos. Me faço de cínica. - Seus amigos? - E nossos amigos. Agora tenho mais de uma mão de amigos." VEM AÍ PRA BREVE!