Notas iniciais
TODA ESPERA AQUI É RECOMPENSADA! Hoje é dia de fazer diferente, mesmo sem uma POSTAGEM ~final~ Que tá recheada e com surpresinhas lá embaixo! Enjoy!

Os Oliveiras

19h52 Iara Muniz

Tô aqui na minha, vendo série com o Sávio na casa dele, qnd de repente...

(completem a frase)

19h55M. Lins

O telefone toca e falam que vocês ganharam um prêmio milionário

(Tá rolando mto desses golpes, né?)

19h56 Dani Ela

O tio Márvio aparece e se senta bem no meio de vocês

19h56 Iara Muniz

Já aconteceu, mas não

Próximo!

19h58 B.

Pistas?

20h00 Iara Muniz

Algo a ver com música

20h00 B.

E nada do show da virada, né?

20h03 Dani Ela

Depois daquela corrompida no arquivo, os meninos estão editando tudo de novo

Então pode demorar mais uns dias

20h48 Vinícius Garra

Que tipo de música envolve?


Confiro a última notificação da conversa que rolava no grupo da galera e sorrio lindamente ao ver essa interação do Vinícius no chat. Sorrio mais provocativa quando ele aparece na sua sala, agora de cabelos molhados, do banho que ele insistiu precisar tomar.

Basicamente apareci na sua casa antes do próprio, o que foi um bom sinal. Depois do ensaio, ainda fiquei com a galera lá na pizzaria e terminamos jantando por lá mesmo, o que deu um pouco mais de ânimo pro Murilo. Ele chegou todo jururu e saiu um jururu renovado (efeito dos Oliveiras em peso!), o que significa que meu mano permanece com aquela sua carinha chateada, pelo fato de o problema não ter sido resolvido, porém, está lidando melhor com o caso. Tão melhor que já no carro, ele pediu pra vir aqui na casa de Djane pra pegar os tais livros que falei pra ele. Se usei isso de desculpa pra ver meu Vini e descobrir o que mais o seu avô aprontou, meu mano nem reclamou. Na verdade, ficou mais determinado e ansioso quando chegamos antes do Vini e de Djane.

A sogrinha respondeu que tava abastecendo e em minutos apareceu toda iluminada, achando que nossa aparição fazia parte do plano. Não de todo, o que ela percebeu logo de cara quando topou com o Murilo na calçada. Ao entrarmos, tomei um tempo com ela para fazer uma pequena introdução do caso.

- O que é essa cara do Murilo?

- Ele descobriu que o mundo é mundo.

Falei de brincadeira, enquanto nos afastava dos outros dois. No caso, Murilo sabendo que eu tava abordando o assunto com Djane. Para esclarecer a tamanha interrogação dela, adentrei na questão com uma insinuação, só que ela entendeu de outra forma.

- Aliás, eu quero ver uns livros com a senhora.

Na varanda, Djane procurava as chaves da porta de casa “me dando lição”, pois achou que eu me referia à monografia.

- Só vamos ter essa conversa depois de as aulas voltarem, mocinha.

Ri bondosa e fiz uma nova tentativa de esclarecer.

- Não é pra mim não, Djane; é pro Murilo. Na verdade, talvez seja melhor que ele se explique. Pra ver se ele entendeu o que andei falando, ou se saiu de outra forma.

A professora fez uma cara de que não entendeu de novo, mas viu que eu não tava brincando sobre isso. Não tava exatamente séria, tampouco fazendo zoeira.

- Tudo bem, eu converso com ele.

- Podem levar o tempo que precisar, tá?

Nesse ponto sim que pisquei pra ela, que entendeu que era pra demorar um pouquinho, que era minha vez de sondar o território com seu filho. Só que tão logo Djane levou meu mano para o seu escritório, Vinícius mal me deu um beijo e passou direto pro banho, que dizia estar uma zona e que seu avô hoje “tava que tava”.

— Olha só ele!

— Ele o quê?

Nem meu Vini consegue disfarçar, traz consigo toda uma malandragem. Mas tá, entro no jogo dele, que sei que quer ouvir elogios, senão, ser agraciado por sua participação no grupo dos Oliveiras. Nos outros dias não teve muito papo, então acabou não tendo algo, não como agora. Abro espaço pra ele no sofá e no coração.

— Tu todo participativo e nada ciumento. Gosto assim. Até porque já dei lição hoje em um, não quero ter que repetir a matéria.

Enquanto bem se acomoda e passa o braço por meus ombros, Vinícius estala a língua, sacando de quem tô falando.

— Tá explicada aquela cara do Murilo. É muito grave?

— Um pouco. Coisas do serviço que interferem na vida pessoal. Mas agora ele tá sabendo do panorama e Djane tá lá guiando os próximos passos dele.

O namorado faz que se espanta, com graça.

— Precisou da minha mãe pra isso? Então foi sério mesmo.

Eu, muito da dúbia, solto apenas algumas informações sobre isso.

— Ele só precisa de uma intervenção mais caprichada, com gente que entende do assunto. E com pelo menos dois livros pra levar pra casa.

— Tu sabe que tô mais perdido do que...?

Suspiro, sabendo que não teria por que mentir. Aliás, não quero. É só que é mesmo uma situação bem chata.

— O Murilo teve uma briga feia com a Aline. E ela quase terminou com ele bem na minha frente.

Vinícius vê que eu não tô de sacanagem e isso o pega de surpresa.

— Nesse nível? O que aconteceu?

— Ele repreendeu ela no trabalho por conta de uma roupa. Mas por conta daquele b.o. que anda rolando no departamento dele. Tu sabe, né?

Vini assente, preocupado. Só que ele faz isso de uma maneira tão seduzente, na maior inocência, mexendo em seus cabelos meio molhados, que quase, quase roubo seus fios macios para mim.

— Ele me disse por alto... Mas já estão de bem?

Ignoro um pouco da seduzência do namorado, já que ele mesmo nem percebe o que faz.

— Não, ainda vão precisar conversar de novo. Enquanto isso, eu disse pra Djane apresentar umas ideias pra ele. Sobre entender esse tipo de conflito no trabalho.

Mas aí meu Vini solta a pérola que todo homem fala e que é a questão que eu tava chamando a atenção do Murilo.

— Acontece em todo lugar, não tem jeito.

— Tem que ter um jeito. Mas com a orientação certa.

— Indireta pra mim, namorada?

— Indireta pro mundo.

Vez que pego um pouco no seu pé (só um pouco) e ele sente que não foi nada legal, trata logo de mudar suas ideias.

— É, acho que vale. O que me lembra de uma coisa interessante que o Sávio me disse naquele outro dia... quando tu e eu brigamos. Ele disse que às vezes o namorado grita com a namorada.

Por essa eu que não esperava! Mas que eu queria saber daquele papo dos dois, isso eu queria. Principalmente porque o namorado fica um tantinho acanhado com isso, mexendo no meu cabelo como quem não quer nada.

— E aí eu perguntei se ele anda gritando com a minha irmã. Ele disse que eles não são de gritar, mas que também brigam. Mas ele tava falando aquilo... Porque eu gritei contigo.

Tá explicado por que ele fica tão hesitante de repente. Assim, emendo eu:

— A gente gritou um com o outro.

Ainda arrependido daquilo (que bom!), Vinícius se aproxima mais para ficarmos abraçados. Ele me envolve pelos ombros e por meu dorso, e apoia a cabeça em mim. Estava geladinho do banho e com uma loção mais amena, que até me relaxa mais, pelo senso de conforto. Na verdade, ele me desarma. Não que eu estivesse pronta pra ser resistência. É só que é bom que ele veja que isso, isso de gritar, não é algo bom. Pra nenhum casal é.

— Eu não gosto quando a gente chega nesse ponto.

— Eu também não... É a hora que a gente diz as piores coisas e magoa o outro.

— Na hora, é tudo insano. A gente não pensa com clareza.

É exatamente isso. A gente não pensa direito. Mas no que ele me beija o rosto com delicadeza, eu penso sobre isso com certa clareza. Penso também na situação do meu irmão e no que mamãe aconselhou para nós dois. Disse ela que temos a chance de fazer diferente. O diferente que nos reconecta.

Às vezes esse diferente é dar um tempo para o outro, às vezes é tomar um rumo complemente avesso mesmo. Vai de cada situação e do que cada um precisa naquele instante.

Eu já vinha refletindo sobre isso com as abordagens distintas que tivemos (eu e o Murilo) com mamãe enquanto ela passou um tempo com a gente. Quando recaíamos nas mesmas atitudes, o cenário continuava o mesmo, inóspito ou desconfortável; mas quando tomávamos outra saída, e principalmente dando abertura a ela, e ela o mesmo, as coisas encontravam um eixo melhor.

Mas naquela situação minha com o Vini, eu não vi nada disso. Dei uma surtada e não pensei com lucidez. Não sem a intervenção dos outros depois do ocorrido. Nesses termos, dei e continuo dando o suporte que posso ao Murilo, algo que imagino que a Lisbela esteja fazendo pela irmã também. Uma hora esses dois vão engrenar. Né?

— Acho que eles vão precisar de um tempo maior pra retomar essa conversa. Deu uma dó enorme do meu irmão, mas, ao mesmo tempo, se ela não tivesse gritado, eu não sei se ele teria entendido o problema. Depois ela me disse que precisou que eu presenciasse, pro Murilo sentir o que foi o constrangimento dela.

— Pesado. Ela disse mesmo que ia terminar ou só ficou nas entrelinhas?

Alcanço a cabeça dele com a minha num chamego meio jururu. Pudera! Assisti aquela bomba explodir e tive que dar conta do Murilo, segurar a barra com ele. Acho que só agora que estou sentindo mais o que foi aquela situação.

— Disse, com todas as letras. Disse que afastaria a Lia e tudo mais. E ela estaria certa de fazer isso se o Murilo não se consertasse. Mas ele falou que não vai mais acontecer. Daí ela saiu e ficamos um tempo na cozinha. Conversei com ele também. Aproveitei que ele foi chamado a atenção e que tava atento pra esse aspecto de assédio e babaquices masculinas.

Considerando o quanto o Vinícius e o Murilo são amigos, por um segundo achei que o namorado fosse me falar algo na mesma linha de defesa do meu irmão, mas não. Ele me surpreende de novo nessa noite em outro comentário – e um que não é de todo sério, tampouco zoeira. É uma sugestão bondosa.

— Acho que ele conversar com o Sávio também seria uma boa ideia.

Eu seguro um sorriso, amassando um lábio no outro, porém, por outra razão. Porque o Sávio conversou com o Murilo, que tava todo xôxo na pizzaria. O Bruno de primeira acusou nosso amigo de estar fugindo da raia de ensaiar no palco, o que era bem provável mesmo, mas a gente sabia que aquilo era genuíno. Eu não sei o que eles papearam, só sei que o Bruno também foi dar uma apoio pro meu irmão.

Posso contar isso pro namorado? Não até seu aniversário. Então estico assunto sobre essa conversa que menciona.

— Seria, é? E o que vocês tanto conversaram naquele terraço?

— Ele disse que pessoas confusas falam coisas mais confusas ainda.

Fato. Dou minha anuência com nossas tragédias no bolso.

— Vide só todas as nossas brigas intensas. Que foram muitas.

Vinícius se aconchega a mim, amoroso e consciente delas. Principalmente do que temos feito depois delas.

— Mas agora a gente conversa.

Acarinho seu rosto próximo do meu, que sabe que essa é uma dessas conversas.

— Só a melhor coisa que podemos fazer. Mas às vezes tomar um tempo separados é uma boa. Um tempo, não uma eternidade.

Se esse meu adendo é uma indiretinha diretinha, é ele quem vai dizer. De qualquer forma, vale para os dois.

— Sabe que sempre parece uma eternidade pra quem tá na berlinda, né?

— Ô se sei... Já estive nos dois lados. Mas acho que a gente tem que deixar nossa ansiedade de lado e pensar no que o outro precisa. Se é tempo pra pensar, que dê esse tempo. E geralmente é questão de tempo... O que mais o Sávio disse?

— Ah, papo de homem.

Não sei se ele não quer revelar as coisas ou se tá me instigando. Tenho que arriscar.

— Que seria...?

Um tanto tímido, daquele jeitinho dele quando quer logo passar pelo tópico, mas que se dá a oportunidade de falar (pra não dizer que não disse nada), meu Vini afrouxa os braços em mim.

— Ele disse que queria... Que quer muito ser meu amigo. Daí eu me desculpei pelas merdas que fiz, ele pelas merdas que fez... Estamos construindo algo daí.

Um lucro afinal! Um saldo muito bom. Tão bom que dou um beijinho estalado de incentivo no meu Vini, que fica, novamente, todo sem jeito.

— Eu fico realmente feliz.

— É, ele é um cara legal. Só agora que tô vendo o que vocês tanto falam dele. Ele é muito parceiro mesmo.

— Isso ele é. O Bruno também recomenda esses conselhos.

Se não fosse o ensaio de hoje (ou o seu aniversário surpresa durante a semana), meu Vini teria estado na pizzaria com a gente, também lidando com essa situação, e isso faz imagens se formarem na minha mente.

— Agora tu me fez imaginar o que seria uma noitada de vocês. Com esses “papos de homem” que vocês falam.

— Acho que seria legal. Mas seria melhor ainda com vocês, garotas. Tu acha mesmo que eu vou deixar de sair com a minha namorada pra ficar ouvindo papo de marmanjo?

Rio a danar com essa, o que me lembra que o Vini não é lá muito chegado a certas reuniõezinhas. Mas isso era porque ele não tinha achado seu grupo de pessoas pra ser sociável. Com os Oliveiras, acho que isso vai mudar pra melhor.

— Se um amigo estiver precisando de um amigo, acho que pode rolar. Tudo bem se rolar. E acho que até juntar o Bru com o Murilo seja uma boa coisa, porque ele começou a estudar sobre esse lance de assédio no trabalho. Em termos de administrar conflitos, de entender o que acontece e o que dá pra fazer.

Queria dizer que foi uma boa coisa, porque isso aconteceu, mas vez que foi no contexto da surpresa de seu aniversário, não posso soltar isso de maneira tão gratuita.

— Sério? Pergunto por que às vezes ele parece meio avoado. Ou eu que ainda não vi esse lado dele.

Poderia eu dizer “ouvi e vou contar”, mas não quero provocá-lo nesse ponto.

— É provável que não tenha visto mesmo, porque depois daquela confusão dele com a Dani na viagem e como a relação deles foi ficando instável, ele tem levado isso a sério e a fundo. Enfim, seria uma noitada interessante.

Vinícius faz uma carinha de impressionado, que, no entanto, logo se desmancha quando lanço eu uma observação:

— Se bem que tu e o Murilo junto falando sobre isso, não sei o quanto tu sairia vivo. Acho que eu teria que estar mesmo no meio de vocês.

Não foi uma indireta, e foi zoeira, mas o namorado pergunta sobre isso com uma pontinha de preocupação.

— Tá dizendo que... que eu te assediei?

Inclino a cabeça para o lado, o lado que ele não está e acho que vou mesmo ter que repassar a matéria que coloquei pro Murilo. Parte dela, no caso. Não passei a mão na cabeça do meu irmão, então não deveria na do Vini.

— Eu lembro que tu falava dos “gaviões” perto de mim, mas não se considerava um. O que eu tava falando pro Murilo é que muitas dessas situações tem uma interpretação diferente na cabeça dos caras. Não sei dizer ao certo se era assédio, até porque eu também tava interessada, mas algumas coisas... hmmmm... tomaram um rumo... errado.

— Tipo o quê?

— Tipo aquele beijo que tu me roubou enquanto “em tese” eu tava dormindo, “inconsciente” no quarto de hóspedes daqui.

A gente já tinha conversado mais ou menos sobre isso, só que foi no sentido de eu revelar que tava consciente naquela situação, nem de todo apagada, nem de todo desperta, mas que depois fiquei em alerta, sem um pingo de sono e sem descanso.

Ao momento, meu Vini se distancia um pouco de mim, apesar de não me soltar, e fica um tanto pensativo e vacilante. Talvez assustado também.

— É... Ali foi errado mesmo. Era pra ser um beijo de amigo, mas...

— Mas tu não queria ser meu amigo e me deu um beijo de não amigo. Foi beijo de gavião!

Apesar desse beliscão não literal ao seu comportamento, sorrio bem palhaça pra ele ver que esse não é um território de confusão, menos ainda de briga. Mas meu Vini fica desconcertado do mesmo jeito. Franze o rosto e tudo, perdendo-se até no que fala.

— Eu tava era muito louco naquele período da minha vida. Não que deva justificar, mas... é, eu não fui exatamente comportado. Avancei o sinal.

Acabo botando mais pilha nele, quase ralhando com ele, mas sendo palhaça sim com ele.

— E ainda tinha uma namorada na parada!

— Epa, uma namorada falsa! Quer dizer, não era minha namorada.

— Mas foi dito e apresentada pra todo mundo como tua namorada, e tu, bonitinho, não esclareceu de antemão. Poderia ter dito no começo de tudo.

Cruzo os braços, me fazendo de indignada, mas com a face mais malandra do mundo. Já Vinícius permanece sem jeito, embora dessa vez ri, fazendo um carinho no meu braço.

— Eu tava era tentando te impressionar. Não da melhor forma, mas era o que eu tinha em mente de fazer.

Outra vez ralho com um sorriso gostoso na cara, mas com o passar do tópico e do quão sério é, isso vai morrendo e se tornando o assunto delicado que é.

— Tava era tentando me driblar. Ficava flertando na cara dura e eu que ficava confusa. Eu sei hoje, e soube um tempo depois, que isso era uma farsa, mas sabe que isso acontece com outras pessoas, não sabe? Tem “gavião” por aí que avança sinal com ou sem namorada. Esse que é o problema. Porque tendo a garota o conhecimento ou não, sobre uma namorada ou sobre um compromisso do cara, sempre fica a dúvida, sempre fica a confusão. E eu me vi nessa situação, Vini. Mesmo gostando de você. Eu quis você. Mas eu também quase entrei em curto-circuito, muito indecisa sobre o que eu deveria ou não querer. Ou sentir.

Toco-o no rosto nesse ponto e assisto isso ser absorvido por ele, retraído, que agora encarava a situação de outro ângulo. Eu já havia mencionado sobre o que foi esse senso pra mim em outras oportunidades, contudo, não nesse tom de alerta e nem de como foi bem dose pra mim naquela época. Quer dizer, só pareceu uma tragicomédia de casal, percalços de uma relação que se formava. E talvez na minha cabeça tenha sido assim por um bom tempo, até que passei a ver tais coisas por essa outra ótica. Quando coisas ao redor de mim foram nomeadas pelo que eram.

— Porque se tu fosse esse cafajeste, eu não iria seguir em frente. Eu ia me afastar. Tava, inclusive, com planos de fazer isso. Eu só não tava era conseguindo. Por conta das confusões de família.

Pela lembrança, meus olhos enchem de repente e ele vê de camarote. Assim, Vinícius vira o rosto minimamente para beijar a palma da minha mão, da que o segurava, e depois me envolve por completo, terno e cuidadoso. Pesaroso também.

— Desculpa por ter te colocado nessa situação. Eu não vi isso.

Aperto-o em mim, com meus braços ao redor de seu pescoço.

— O Bruno também não viu quando tentou algo parecido com a Dani. Foi assim que ela deu um empurrão nele na festa. Merecidamente. Algo que eu deveria ter feito também, acho. Porque se fosse outro cara, outra pessoa se insinuando pra mim, passando do ponto comigo, essa deveria ter sido minha reação. Eu deveria ter abandonado o barco, independente de como estava a situação. Mas tu já tinha me amarrado a você.

Me desvencilho dele para ser mais enfática.

— Entende o que eu tô falando?

Vini desvia um pouco o olhar do meu, porém se mostra atento.

— Se eu disser que na minha cabeça foi completamente diferente, vai me odiar?

— Não. Talvez devesse, mas não. Não consigo te odiar. Mas eu consigo te dizer isso. E acho que consigo dizer isso porque tô destrinchando esse assunto com o Murilo e repensando umas ocasiões. Repensando como vocês, homens, interpretam as coisas de outra maneira... Mais... relativizadas.

— Desse jeito, eu fico até sem ter o que dizer, Mi. Foi tudo tão errado assim?

Faço um carinho no seu rosto novamente, titubeando sobre o que dizer. Não quero que tenha essa impressão e acho que nem se trata de impressão também. Apenas pontuo o que preciso pontuar.

— Não foi tudo tão errado ou tudo errado, Vini... Mas não foi exatamente um bom começo, sabe? O que mudou o cenário foi quando tu me contou a verdade. O alívio em mim foi tão imenso que foi, sei lá, difícil até pra eu entender que existia uma possibilidade pra nós. Demorou a cair a ficha. E pensando bem... Tenho que confessar uma coisa.

Sinto que ele segura o ar, tenso e alerta.

— Eu também cometi essa coisa errada... Eu te beijei sem você saber. Tu nem tava em condições ou numa situação pra processar isso.

Surpreso e chocado, muito chocado, ele se manifesta de pronto, com um vinco enorme à testa.

— Como assim? Quando isso? Como is...? E como eu não vi?

Abaixo um pouco a cabeça, porque foi num momento bem delicado mesmo. Concentro-me nas minhas próprias mãos enquanto descrevo para ele, que plana ao redor de mim desacreditado disso.

— Foi quando tu foi parar na minha casa, logo depois de ouvir o teu avô falar a verdade sobre o teu pai. Tu tava tão destroçado e eu... Eu mal aguentava te ver naquele estado. Eu quis te trazer de volta. Eu quis fazer tudo ficar bem. Eu quis... Você bem. E queria que um beijo pudesse tirar toda aquela dor. O que, em tese, eu já podia, né, porque foi bem depois que tu revelou que o tal namoro lá era falso. Que foi um mal-entendido. Mas tu não tava num momento para discutir alguma relação.

Vinícius me segura no queixo para levantar meu rosto a ele, pasmo com isso que agora revelo.

— Mas eu te queria, Lena. Ter te beijado naquele momento teria sido... tudo.

— É, só que eu teria sido só uma fuga, um das muitas fugas que foram cometidas naqueles dias. E eu não queria ser isso. Fora que um beijo meu não teria esse poder de consertar anos e anos de desavenças familiares.

Ainda descrente, a surpresa desse fato parece fazer o Vinícius voltar àqueles tempos, como se isso tivesse sido uma grande falta. Como se um beijo desses tivesse força de nos resolver em alguma coisa.

— Bom, teria ajudado e muito na minha recuperação.

Ao ver a expressão que faço, sem responder, ele vê que não é assim que me sinto.

— Tá, eu entendo o que tu tá me dizendo. Tipo, eu poderia ter feito mais besteiras, mergulhando assim, de cabeça, numa relação que... Tem razão, não era o momento. Desculpa.

— Eu que te beijo apagado e tu que pede desculpa?

— Peço porque eu comecei errado. Eu baguncei tua cabeça de um jeito que eu não queria. E por mais que aquele meu beijo tenha sido de “gavião”, rondando demais uma presa, o seu não foi assim. Não era mero interesse, nem era alguma marcação de território. Era você me querendo bem. Me dando espaço para eu ficar bem. Decisões que eu não tomei... na minha gana de conquistar você. Então desculpa, de verdade, por não ter considerado o teu lado. Desculpa por ter feito as coisas do modo errado. E por tudo isso ter um significado diferente pra você. Me desculpa?

Recosto minha testa na sua, abraçando seu rosto.

— Desculpo.

— Desculpa por que me ama?

— Também. Desculpo porque tu tá me entendendo e eu sei que isso não é um assunto fácil. Essa não é uma abertura fácil pra ninguém. Mas agora podemos mudar isso.

Uma ideia brilha na minha mente de repente e bem melhor do que aquela de uma noitada com os meninos. Repito, aliás, o conselho de minha mãe numa interpretação um tanto particular.

— Podemos fazer diferente agora.

~;~

Ligo a luz do quarto de hóspedes de antemão e, ao passo que o espaço se ilumina, me apresento ao namorado com minha mais nova ideia geniosa.

— Por incrível que pareça, estamos no mesmo local e com meu irmão pela casa. E tô de vestido. Não é o mesmo vestido, mas estou de vestido. Entende o que eu quero dizer?

Meu Vini, no entanto, ainda vacila, incerto sobre o que estou propondo. No caso, editar nossas experiências “erradas”. Refazê-las do jeito que era pra ter acontecido.

— Tipo... encenar?

— De certa forma, sim. Repetir a cena, agora do jeito certo.

Vinícius me encara de forma curiosa, acho que tentado, só que, ao mesmo tempo, procurando os parafusos soltos que deixei pelo caminho quando o puxei do sofá de sua casa. Ele umedece os lábios, olhando o lugar e considerando a ideia.

— Se não lembra, eu tava deitada aqui assim...

Ouço sua risada baixa quando me vê sentando e então deitando.

— Do que eu me lembro, eu te carreguei pra cá.

Me ajustando à cama, até fecho os olhos.

— Essa parte podemos pular.

— Mas não era pra refazer do jeito certo?

Arrisco um olho aberto para conferir como ele está e... é, concedo isso.

— Tá bom.

Levanto, volto ao sofá e faço o teatro de sonolenta, tal qual estava da outra vez, mais pra lá do que pra realidade de cá. Vinícius me pega no colo e, como anteriormente, não esboço nenhuma reação, só esperando a próxima parte, ele me deitando cuidadoso na cama de hóspedes. Ele até ajeita a barra do meu vestido, aos risos baixos, porque também fez isso naquela ocasião.

Apesar de meu papel de adormecida, instigo seu próximo passo, sussurrando.

— Lembra... o que tu fez... a partir daqui?

— Como se fosse ontem.

Ouço sua respiração longa e receosa adentrando seu papel de príncipe. Quer dizer, de gavião... Gavião ansioso. Em segundos, sinto que me acarinha pelo rosto e, pelo movimento no colchão, o peso de seu corpo ali, ele se faz presente se aproximando cada vez mais. Em expectativa, acabo lançando outras perguntas, também sussurradas.

— O que tu sentia? O que passava pela tua cabeça?

Sua respiração quente é soprada na minha bochecha, pairando sobre mim.

— Eu te queria... muito. Tava alucinado... e elétrico demais. Desacreditado também. Tava tão perto e tão longe de ti ao mesmo tempo, sem saber o que fazer, como me aproximar... isso me deixava em fuso. Fora que tinha todo um alvoroço por dentro, o coração a mil, e eu doido pra te sentir. E pra sentir que era recíproco. Pra te beijar sem amarras.

A expectação que cresce em mim faz criar borboletas faiscantes de pura ansiedade pelo que ele me relata. Me senti assim também na outra vez, só que mais exacerbada em conflitos. Sem saber o que esperar e também esperar demais por um contato. Por voltar nesse ponto, encho o peito de ar numa inspiração e esvazio aos poucos para que ele veja seu efeito em mim. Me remexo um pouco e Vinícius também se ajusta, sem deixar de sair daquele sentimento. Não abro os olhos para que essa conexão, ou reconexão, se quebre.

— Mas eu me sentia impedido de mil maneiras. Ainda mais que toda hora aparecia um cara diferente na tua vida. E nunca era eu.

Aperto o lábio um no outro para evitar reagir a esse seu último adendo, porque isso era um traço que ele comentava mesmo. Que sempre aparecia alguém e ele achava que não tinha espaço. Era uma impressão constante.

Mas quando Vinícius roça o nariz no meu, acho que estamos saindo da cena, e por isso eu o movo, com certa graça até, realocando-o ao lugar certo. Outra vez, faço isso sem mesmo abrir os olhos. Até porque estava sendo uma experiência muito melhor só tendo os outros sentidos sendo aguçados por ele.

— Eu lembro que tu ficou com a testa no meu queixo, assim... cabisbaixo.

Na posição, ele também sussurra, explicando-se.

— Eu tava em conflito. Queria te contar sobre a Becca, te dizer a verdade, mas não sabia como revelar.

— Então conta. Imagina. Aliás, é aqui que a gente refaz isso... reencena.

Tremelico os olhos devagar e abraço meu papel, como se tivesse ali em susto de vê-lo tão perto, pegando-o naquele flagra. A respiração acelera no ponto da minha atuação. Até empurro-o de leve, bem desnorteada daquela aproximação dele, o que faz com que ele se afaste um pouco, mas levante a cabeça e me encare.

Vini? O que está...?

Ao passo que também me aparto dele, indo para trás na cama, ele é direto. E declara tudo tão sério de um jeito que não saberia dizer se ele era aquele ator ou se estava falando da maneira que sempre quis.

— Desculpe, eu fiquei perto demais. Mas é que não sei ficar longe de você, Lena. Porque gosto de você. Eu tô... apaixonado por você. Eu não tenho nada com a Becca e nem nunca tive. Foi um engano, um erro... do... Filipe.

Como assim, do que tu...?! Mas...?

— Ele entendeu errado... e eu não desmenti. Também errei nesse ponto e não quero mais isso nos afastando. Entende? Porque eu quero é você, Lena. Mas preciso saber se você me quer. Eu vejo que gosta de mim, mas eu preciso saber se você gosta de verdade.

Fico tão envolvida, de verdade verdadeira, que nem sei o que dizer, mesmo sabendo que isso fazia parte. Somente sento-me à cama, próximo ao espaldar dela, e Vinícius permanece apoiado ao meio, fitando-me.

— Você gosta de mim, Lena? Porque se não gostar... eu... errr... Eu me afasto. É isso que você quer?

— Não.

Não gosta de mim?

Quase saio do personagem por ele alcançar umas oitavas, perplexo.

— Não quero que se afaste.

Vinícius até solta o ar de repente, atordoado e sem jeito.

Por um segundo, eu... Caramba!

Ele sai do modo ator, mas sugo-o de volta para a cena. Me aproximo de onde está, focando bem onde ele está.

— Por que não me disse? Sobre a Becca?

O namorado abaixa um pouco a cabeça, encarando o colchão, mas às vezes me entrevendo.

— Porque eu sou um idiota. Achei que isso me manteria distante de minha mãe, achei que queria testar alguns limites... E achei que precisava ver se eu causava algum... ciúme. Se isso causava algo em você. Mas isso te afastou de mim.

Apesar de isso tudo ter ficado nas entrelinhas de nossa história, ele nunca disse, nunca com todas as letras. Fico eu verdadeiramente surpresa com essa abordagem.

— Nunca houve nada. Só eu me apaixonando por você.

Em um sorriso sincero, do meu coração sorrindo para ele, com o peito cheio e a respiração já mais intensa, lanço uma última pergunta.

— De verdade?

Embora hesitante, Vinícius assente, contido, porém aproxima o rosto e desliza sua mão pela minha face, firmando-se e testando esse território.

— Eu só quero você, Lena. Mas ainda quero ouvir... se gosta de mim.

Ponto pro namorado, que provoca no quesito certeiro!

Com os olhos brilhantes que imagino estar, dou-lhe a resposta que ele tanto quis ouvir de mim.

— Eu também gosto de você.

Seu rosto se ilumina. Mas antes que diga ou faça algo, aproximo-me ainda mais, de modo que quase encosto à sua mandíbula, de ladinho, e dou a sugestão final com um cochicho rápido.

Essa é a hora que tu me beija. Do jeito que tu queria.

Vinícius mal me deixa virar de volta e me toma os lábios com uma garra e ânsia imensa. É um beijo que começa com a gente apenas sentindo um ao outro, se tateando, mas que vai progredindo e ganhando força, se tornando um beijão mesmo, sedento, urgente, explorador, que correspondo na mesma medida. Puxo-o mais para mim e me delicio junto a ele nesse cume da encenação. Para atiçá-lo mais ainda, interrompo-o apenas para lhe segurar o rosto e dizer, direto aos seus olhos envolvidos:

— Eu também... te desejava... faz tempo.

Apesar de sua respiração entrecortada, assisto como quase perde o fôlego. Mas arrebato-o de volta, toda malandra, puxando-o sobre mim, que deitava à cama. Sentir o encontro de nossos sorrisos acaba me fazendo rir de verdade e quando caio ao colchão, estou gargalhando com ele ainda “sentido” com minha declaração.

— Viu só? Eu disse que tu iria gostar dessa ideia, namorado.

— Tu quase me quebrou no meio da coisa toda, isso sim.

Gargalho e gargalho com gosto. Me apoio nos cotovelos e pauso apenas pra provocar.

— Uma perguntinha apenas: valeu a pena?

— Uma pergunta faço eu: como foi esse tal beijo que tu me deu, hein? Preciso dos detalhes para fazer bem o meu papel.

Antes que eu possa me atrever a responder, uma batida soa na porta – que, aliás, só estava fechada e não trancada. Um perigo só!

— Ô casal, eu não sei o que tá rolando, e nem quero saber, mas tá na hora de ir. Três minutos, Lena. Tô indo pro carro.

O muxoxo, ele é real e inevitável. Mas dou um selinho de finale no bobo do namorado que petrificou com o aviso.

— Acho que esse fica pra próxima. Até porque foi na minha casa e acho que tu quer ser bem fiel no teu papel.

Calço minha sandalinha e ele se mexe para me conter. Inclusive levanta comigo.

— Tá cedo pra ir, amor. Fica. Eu te deixo em casa.

— Não vai ficar me enrolando não, né? Porque amanhã eu tenho trabalho.

Falo já andando para o corredor e ele me segue.

— A Lia te teve quase o dia todo e...

— E eu vim buscar o beijo que tu prometeu. Ainda cedi uns a mais.

Paro bem no meio da sala e Vinícius quase tromba em mim, bem apelão.

— É, mas ainda quero conversar umas coisas contigo.

— Sei. Conheço essas conversas.

Antes de alcançar a varanda de sua casa, ele me chama atenção num argumento.

— Não quero decidir sobre o meu aniversário pelo telefone.

Me volto para ele, desconfiada, verificando se falava a verdade. Sua cara forçada de inocência me faz titubear. Mas se ele se compromete em me deixar em casa e sabe que sou uma garota responsável, resolvo essa de última hora.

— Me dá só um minuto, pra eu despachar a criatura.

Com um sorriso vitorioso, ele não me espera, ele vai comigo até a porta. Murilo ia reclamar, mas faço um sinal que combinamos com a galera, de puxar a ponta da orelha, para sinalizar que se tratava de algo relacionado ao aniversário e só assim ele parte. Djane volta conosco para a sala, mas logo se despede com cansaço. Vinícius aproveita essa saída para me deixar em seu quarto, prometendo me trazer uma gelatina da geladeira.

Sozinha, aproveito pra ver a charada que rolava com o povo.

Os Oliveiras

21h07 Sávio Tavares

Envolve certa banda preferida de certo alguém

Apareceu em Smallville

21h08 Dani Ela

QUAL BANDA?

21h08 Iara Muniz

One Republic!

21h09 Dani Ela

LENAAAAAAAAAA

21h011 Sávio Tavares

Episódio 7x13, bem nos minutos de entrada

Quando o Vinícius retorna ao quarto, eu tô de cara com essa informação.

— Te deixo um segundo e tu já tá atrás de outro, né?

— Tu sempre fala desse outro e eu nunca sei quem é.

— Porque são sempre muitas opções. Murilo, Diogo, Bruno, o cara da loja, Fabiano, Luciano, o professor Paulo... Viu só, eu lembro de todos eles. Todos os primeiros.

Ele não citou um desses primeiros e eu agradeço mentalmente. Na sua cama, apenas abro a embalagem da gelatina, divertida.

— E no quarto de quem que eu tô? Quem é que tá me subornando com gelatina?

Vinícius passa por detrás de mim e se ajusta ao colchão, para poder me abraçar.

— O teu excelentíssimo namorado. Que quer toda a atenção pra ele.

— E já não tem? Até o One Republic tá no chinelo nesse segundo.

Vinícius faz uma cara engraçada de quem perdeu o fio da meada e eu mostro o final da conversa sobre a participação da banda em Smallville. Aliás, preciso desse episódio pra ontem!

Mas o namorado diz que vai atrás? Não. Pelo contrário, me firma aos braços pra não sair dali tão cedo.

— Agora sim as coisas estão andando nos trilhos.

— Tendo eu minha gelatina, tem a minha atenção.

— E a nossa cena 2?

— Não estamos na minha casa.

— Ah, mas a gente pode pular essa parte.

Respondo de boca cheia sim, o mimo se desfazendo à boca e eu balançando a cabeça, porque na cena anterior ele não quis me deixar pular partes.

— Hum-hum, negativo. E não foi isso que combinamos.

— É que tô curioso... E eu curti a primeira experiência.

Afora a gelatina, ele quer me convencer com um carinho ao meu pescoço, roçando seu nariz, que faz trilha de cócegas gostosas e bem convidativas, porém, Vinícius não está se atentando a certo detalhe sobre essa cena em especial. De qualquer maneira, deito-me sobre ele, de costas, aceitando de bom grado seu calor e a firmeza de sua prisão em mim.

— É que acho que não vou conseguir reproduzir, não agora. Porque, se tu não lembra, o contexto envolve uma situação bem delicada e um tanto dolorida. Precisa de uma carga emocional que não encaixa no agora. Não dá com chantagem ou suborno. É para um outro dia mesmo.

— Hum... Tá bom. Então podemos falar do meu aniversário. A Becca vai esse ano?

Presa a ele, retruco na mesma onda.

— Tu quer mesmo ver a Becca no teu aniversário, é isso? A tua namorada fake?

— Só checando.

— Só querendo que seja um velório, isso sim.

— Tá, o que eu quero saber de verdade.... é da minha surpresa de níver.

Essa última sentença ele lança ao meu ouvidinho numa sussurrada engraçada.

A qual me divirto em driblar:

— Outra coisa que tu não lembra é que eu jurei nunca mais dar uma festa surpresa. Tá esquecendo as coisas fácil-fácil, hein, namorado.

— E se tu tiver falando isso só pra me enganar?

Poderia eu dizer “vai ter que confiar em mim”, porém, não seria efetivo de fato. Tenho mesmo que ser atriz, porque a minha diretora de produção, a senhorita Iara Pimentinha, vai me encher o ano todinho se eu não for convincente o suficiente.

Então vamos de drama e drama com gosto. Me descolo dele com um suspiro frustrado e mordo o lábio, de olhar baixo, adentrando na carga pilantra-emocional que preciso. Me viro para ele, segurando um dos braços que me envolve.

— Eu realmente não queria estragar tuas expectativas, Vini, mas... esse começo de ano... Foi muita coisa pra mim. Tu, aliás, viu como foi. Daí não vai ter festona assim, tá? Não queria ser uma namorada ruim por não te dar uma festa, mas é o que aparentemente vou ser. Ou vou precisar ser.

— Ô, amor, não fala assim. Nunca que tu seria uma namorada ruim por isso.

Faço uma carinha de dar dó e me mantenho cabisbaixa pra não focar nele, se não vou começar a rir e estragar todo o disfarce e plano.

— Desculpa mesmo, Vini.

— Ei, não...

Deixo que me envolva e me abrace, até porque fica mais fácil se eu não olhar diretamente para ele. É meio que uma idiotice, porém me sinto mal de ter que usar esse argumento para enganá-lo, mesmo que por poucos dias e por conta de uma surpresa.

Mas, se bem lembro, ele também fez essa pegadinha comigo quando o Murilo voltou de viagem. Veio com um papo sobre o Armando ter se mudado e que ele iria passar uns documentos do meu irmão pra ele... enfim, o que vai, volta!

— Eu não tava com expectativas, tá? Na verdade, eu tava com um plano na cabeça, mas se tu tivesse algo em mente, eu só não queria estragar o teu.

Me desvencilho dele, com calma pra não causar nenhum alarde ou provocar alguma desconfiança sua.

— Como assim?

— Bom, eu chequei primeiro a previsão. Vai ter um pouco de chuva e talvez tenha umas trovoadas, mas nada muito intenso e também muito provável que pro final da noite.

Encaro ele sem entender bem aonde quer chegar.

— É que eu pensei no show da virada... que a gente perdeu. Não seria a mesma coisa, claro. O fato é que eu liguei pra pizzaria e descobri que eles vão começar a fazer noites de karaokê. Com a banda. Na quarta-feira, inclusive. Que é dia de rodízio de pizza.

O tanto que eu fico de boca levemente aberta é tentando articular o que me diz e como posso desfazer. Porque Djane quis porque quis o papel dela de sequestradora. O nosso plano começava com ele indo para a casa do avô e então Djane sequestrar o próprio filho e rodar com ele por um tempo e aí ir nos encontrar na pizzaria. Tentaram me fazer me apropriar da fobia de trovão num teatro que não aprovei e agora, além de eu ter que usar, Djane vai me matar por tirar essa “vingança do bem” dela.

Mas é o jeito, ou ele descobre tudo. E claro, instigo-o com o que Vinícius próprio diz pra ver até onde ele vai com esse tal plano.

— Tá me dizendo que tu vai subir no karaokê?

O namorado ri palhaço por minha insinuação.

— Subir, subir, não. Mas posso ser plateia das pessoas.

Antes de acrescentar um adendo, ele me dá um selinho de leve.

— E podemos ter o nosso momento da virada, que perdemos. O que acha?

— Mas, Vini, é o teu aniversário... Não quero que se prenda a algo que...

Ele me interrompe, com um carinho ao meu rosto.

— Como tu acaba de dizer, amor, é o meu aniversário. Eu decido as coisas nesse dia, né? Os outros 364 são totalmente seus.

Não resisto a esse seu gracejo, rio mais leve.

— Eu reservei um espaço lá, mas fiquei de confirmar amanhã. Quis verificar com você primeiro.

— Bom, se é o que você quer no seu dia, é o que vamos fazer. Mas tu que liga pro teu avô pra avisar que não vai ser na casa dele, porque eu não quero esse velhinho me atazanando as ideias por furar com ele de novo!

— Ligo e ligo hoje até!

— E já que vai ser num espaço menos reservado, tu vai convidar... outras pessoitas?

— Meus amigos.

Me faço de cínica.

Seus amigos?

— E nossos amigos. Agora tenho mais de uma mão de amigos.

Insinuo a cacofonia e ele ri, mais gracioso.

— Um mamão?

— Vai ser bom, Lena. Vai ser... diferente.

— Vamos fazer ser diferente.


FIM DA SÉTIMA TEMPORADA

(POISÉ, ESTÁVAMOS TODOS NA SÉTIMA TEMPORADA SEM SABER!)

(E A OITAVA – E ÚLTIMA TEMPORADA, JURO – JÁ ESTÁ ABERTA AQUI)

Mas voltem porque TAMBÉM QUE VOU POSTAR OS EXTRAS!

Notas finais
ESTAMOS DE RETA FINAL - faz mais de 3 anos, eu sei - e ao reavaliar a história nos últimos meses, vi que essa sexta temporada se estendeu demais, bem além dos meus planos, a ponto de que dá pra separar em SEXTA e SÉTIMA temporada! Aconteceu a mesma coisa quando eu comecei a escrever essa saga. Só vim separar em temporadas depois de muito tempo e quando a história chegou aqui no Nyah/Fiction, ela já veio separadinha e organizada. Mas conforme ela foi sendo escrita, as coisas precisaram ser reorganizadas de novo, então eu ainda vou AJUSTAR os números de capítulos e terminar de arrumar a casa dessas criaturas. ENQUANTO ISSO, VOCÊS VÃO PODER DESFRUTAR DE NOVOS CAPÍTULOS NA NOVA PÁGINA E NESSA AQUI! Porque aqui vou postar CENAS EXTRAS EXCLUSIVAS que eu só guardava comigo. Agradeçam também ao casal DanBru, que foi por conta deles que tive a ideia de postar essas cenas. EDIT 2025: JÁ TÁ TUDO ARRUMADO! VEM MUITO POR AÍ E APROVEEEEEEEEEEEITEM!