Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
194 Capítulo 89
Notas iniciais
— Não faz essa carinha que eu choro de novo, Milena.
Tombo ao sofá e abraço a minha almofada de Vilena. Já Djane, ela demora a se sentar, também toda chorosa da despedida. O rio de lágrimas naquela rodoviária foi de uma imensidão sem tamanho. Ninguém, dos que foram, saíram incólumes. Como era o ônibus da primeira hora, desses antes das 8h da manhã, só deu para ir Djane, Vini e a Iara, além de mim e do Murilo. O ônibus chegou no horário e o tchau final foi bem corrido, com o motorista buzinando e tudo. Vinícius teve que me puxar pra eu não entrar junto. Nesse nível mesmo.
— Mamãe me disse isso ontem, quando tiramos a passagem. E agora...
E agora o ninho está vazio sem a mamãe passarinho. Sem as asas divertidas dela, sem o abraço quentinho dela, sem os mimos bobos dela.
— Milena...
Fungo, passando a mão no rosto, para me recompor. Também não tava facilitando pra Djane, que foi muito gentil de vir ficar aqui comigo. Os outros precisaram seguir cada um para seus trabalhos.
— Desculpa. Tá... eu vou parar. Até porque... tenho que ir pro estágio mais tarde... e não quero c-chegar de cara inchada na empresa. E t-também... não quero falar pro Hugo que minha mãe foi embora, senão seremos dois desamparados no meio do expediente.
Djane me acarinha os cabelos, também toda sentida, porém, tentando dispersar esses sentimentos todos.
— Hugo é o seu chefe? Não era o Thiago?
— É o meu novo chefe. Teve mudanças na empresa e m-muitos... muitos foram realocados. Também tô num novo setor, agora de logística. Me indicaram para essa área.
Em seu toque maternal misturado ao fraternal, Djane passa o polegar por onde as lágrimas tinham feito seus caminhos.
— Se te indicaram, é porque confiam em ti.
Tomo um fôlego para poder conseguir conversar melhor.
— É, o Thiago me disse isso. Ainda mais porque esse Hugo é novato na cidade. Teve que se mudar agora, no começo do ano. Ontem ele quase chorou de saudades da família... Sabe quando o olho da pessoa brilha de repente, cheio de água? Ele segurou com todas as forças, Djane. E, pra senhora ver, o nome da filha dele é Helena. Maria Helena. Meu pobre coraçãozinho não aguenta um negócio desses.
Levo as mãos ao peito onde esse órgão bate de saudades. Assim, Djane me envolve, comprimindo-me a si.
— Ô, Milena... Aguenta, aguenta sim. Sei que aguenta porque a Helena também aguenta. Eu não sei como ela faz, mas ela faz, e eu admiro muito essa força em vocês. Além do mais, ela tá confiando no futuro de vocês, no teu e no Murilo. Então faça por ela também, tá?
Assinto, aceitando esse fato, mas com essa enorme dificuldade. Ainda mais por um dos últimos papos da noite passada ter sido sobre isso. Tava só eu e mamãe no meu quarto, antes de irmos dormir, e eu quis saber da história que ela havia mencionado mais cedo, sobre estar se articulando com papai para poder haver mais visitas. Só que ela me contou um tantão de coisas mais.
- Estava conversando isso com o Otávio nos últimos dias porque me veio aquela sensação de novo, de que deixamos vocês tempo demais... e tempo demais sozinhos. Tu e o Murilo tiveram que ser adultos desde muito jovenzinhos. Tipo as crianças de Dawnson’s Creek.
Eu tava tão sofrida ali que nem fiz piada sobre ela ter acertado o nome da série. Mas apontei um fato... que equivalia tanto a mim e ao Murilo quanto aos personagens.
— A senhora sabe que eles não eram crianças.
- Mas eram jovens demais para lidar com gente adulta demais. Você viu a Jen, se envolvendo com homens mais velhos e bebendo e se drogando por conta daqueles pais negligentes. E aquela menina Abby, que perseguia os outros para manter a adrenalina na vida, já que sua casa era mediana demais para seus padrões. E aquele pai infernal do Pacey, que renegava o menino de tudo que é jeito! Nossa, quantas vezes tu me viu es-fu-ma-çan-do de raiva por aquele maldito?
Tá, nessa hora eu ri um pouquinho, um riso dolorido, mas um válido de se encontrar ao meu rosto todo comprimido.
— O próprio Dawson também teve muitas vezes que ser o adulto entre os pais se separando. A Joey, então, nem se fala. Precisava estudar, trabalhar, cuidar do sobrinho pequeno, cuidar da casa, da pousada da família e mal tinha espaço para ela mesma. A garota não tinha nem 18 anos e já fazia mais do que eu com dois filhos.
Isso é, os roteiristas pesaram bastante a mão nesse ponto de ficção.
Mamãe falava tudo isso enquanto andava pelo meu quarto, depois de pegar um pouco do meu creme hidratante, já que ela não queria ter que fuçar a mala pronta para achar o seu. Achei meio injusto porque minha cama não ficaria com seu cheirinho.
— Aquela outra menina, a Andie, ainda por cima tinha que dar conta da escola, da casa, de uma mãe doente, do abandono do pai e ser uma garota nota dez. É óbvio que uma hora ia tudo ruir. Mas o que falo é que todos estavam sendo cobrados como se fossem gente grande, como se soubessem o que faziam, quando não tinham nem como passar na prova da escola. E nem me digno a falar daquele professorzinho de merda que abusava dos alunos em sala de aula.
Dona Helena não é de falar palavras “feias”, mesmo uma tão branda como essa, porém, me impressionou mesmo foi ela ter feito essa leitura da série. Ela leu os personagens como mãe adulta, enquanto eu ainda lia como uma jovenzinha em desenvolvimento.
Sentando-se a minha frente, terminando de espalhar o creme nas mãos, ela continuou:
— O que eu tô dizendo, Milena, é que os responsáveis desses garotos todos... por vezes deixaram eles muito à deriva. Alguns foram negligentes, outros cruéis, outros tinham responsabilidades demais até para um adulto. Eu e seu pai talvez estejamos nessa última categoria. Não foi negligência nossa por querer, não foi para aliviar nossas responsabilidades de casa... Foi algo em busca do futuro de vocês.
E também por conta do tratamento da vovó, que, na época, não tinha aqui e foi preciso a gente se mudar para o antigo anterior dos nossos avós, que ficava próximo da cidade onde tinha o tratamento certo. Entendi que mamãe não queria colocar isso na conta junto, porque, no final das contas, todas as mudanças de casa que fizeram foi sempre para favorecer a gente, eu e o Murilo, de alguma maneira.
— E assim tiveram que ficar sozinhos, tendo que fazer escolhas e decisões difíceis, também sozinhos. Sem orientação. Faltava a gente aqui, filha.
Mamãe me tocou o pé nessa hora, visto que eu só tava cabisbaixa, quieta demais.
Mas me mantive inerte mesmo assim, só ouvindo tudo e às vezes olhando o seu jeito. Estava determinada outra vez de fazer algo por seus filhos. Seu afago também dizia isso.
— O que não significa que teria sido tudo diferente, porque mesmo a presença da família não garante nada. Mas penso que vocês não teriam ficado tanto tempo sem amparo ou mediação ou carinho. Não teriam se machucado como aconteceu. Não teriam que ter assumido a casa ou as relações de autoridade. Isso poderia ter dado muito errado, filha. E, de muitas maneiras, deu.
Eu deslizava o dedo pela colcha, me fazendo de distraída, embora muito atenta.
— Eu sei. Mas não foi culpa nossa e nem de vocês.
Ela então se levantou, para vir pro meu lado e me roubar para si. Deixei, claro.
- Ô, minha bebê linda... A gente resgatou as pontes agora e quero me manter fazendo isso. Então sim, eu vou voltar. Seu pai vai voltar. Talvez não juntos, vai ser um de cada vez... Vai ser conforme der realmente. Mas estamos comprometidos com isso. De verdade verdadeira.
Fiquei tão parada com essa memória que Djane se desvencilha de mim para me checar. Não era o abraço que eu queria no momento, mas é o que tenho neste instante e também sou grata por ele.
— Milena.
— Oi. Desculpa. Estava só... Só pensando em algo que ela me disse. Sobre o nosso futuro, o meu e o do Murilo. Eu sei que não tô lá muito realista ou muito facilitadora... Mas te agradeço, Djane. Obrigada por ficar aqui comigo. Sei que tem seus afazeres.
Fungo outra vez, passando a mão ao rosto para me recompor com mais firmeza. Mamãe não iria querer me ver assim, da mesma maneira que eu não gostaria que ela ficasse assim. Força, Milena, força!
Djane, por outro lado, joga-se ao encosto do sofá ao meu lado.
— Ainda tô de castigo, lembra? Ontem só fui no prédio porque a Glorinha realmente precisava de umas assinaturas minhas. Tô quase inteira de novo, mas quis passar o dia com a sua mãe. Imaginava que ela voltaria essa semana.
Tenho uma recaída com essa.
— Nem pude ficar com ela o dia todo.
Para me animar, Djane passa o braço por meu ombro para me puxar a si outra vez.
— Mas puderam ficar dias e dias e bem juntinhas. E até terminaram aquela série de vocês.
Em outro momento, acho que ficaria uma pouco encabulada por elas conversarem sobre mim. Agora é apenas um “é, elas conversam”. E viraram umas amigas lindas de se ver juntas. Imagino então o vago que deve ter ficado uma para a outra. Mamãe mesmo me disse uma vez que sentia falta de ser “a Helena”. De ser amiga e ter uma amiga. A geografia agora as separaram também.
E pelo jeito minha mãe já programava tanto essa viagem de volta que insistiu em maratonarmos a série no outro dia. Fazia parte do seu plano de partida.
— Na verdade, fomos até a segunda temporada e são seis.
Djane ri boba, como se eu tivesse contado uma piada. Mas até que parece.
— É que acontece muita coisa e a série acompanha vários personagens ao longo do desenvolvimento deles. Mesmo assim, deu pra ela aproveitar bastante da história.
— E da companhia.
Suspiro, confirmando que sim. Foram dias especiais.
— Quando eu terminar, vou passar os DVDs pra ela. Quem sabe se até antes de eu terminar, ela volte.
— Espero para breve que sim, querida.
A professora tomba sua cabeça na minha, saudosa. Mas aí vejo que é melhor eu me mexer ou não sairei daqui tão cedo – nem do sofá, nem desses sentimentos todos. Não é nem que esteja fugindo; pelo contrário, estou encarando-os e, de alguma maneira, levando-os comigo. Assim, me solto da sogrinha, também para lhe dar uma paz no coração.
— Obrigada mesmo, Djane.
Nessa hora, que solto a almofadinha ao colo e certo nome fica voltado para cima, a curiosidade dela fala mais alto.
— Vilena é uma marca?
Me sobressalto, levando a mão à boca com um “eita”.
— O teu presente. Esqueci do teu presente.
Quase pulo do sofá e Djane fica perdida por essa minha reação.
— Não precisa pressa, Milena.
Já do corredor, grito a ela:
— Não, é que eu tenho que te entregar! PERAÍ!
Retorno com dois pacotes semelhantes ao meu de ontem. Dou um deles à sogrinha, mantendo o outro em meus braços, de pé e de frente para ela.
— Abre. Não vai fazer sentido de primeira, mas confia, que a senhora vai gostar.
Com ares de expectativa e meio descrente, ela abre o embrulho com cautela. Ao ver a almofadinha de coração, tal qual a minha, sorri com o mimo. Mas então sua sobrancelha dita a confusão pelo nome bordado.
— Rejane?
Coloco o segundo pacote no sofá e pego a minha almofadinha de volta para demonstrar o que significava. Aponto conforme as letras.
— Vinícius e Milena.
Então aponto para a dela:
— Renato e Djane.
A professorinha é tomada por uma golfada de surpresa e maravilhamento ao compreender. Aceno então para o segundo presente.
— Esse outro é do Renato. O do Vini eu vou entregar depois.
Djane tá tão apaixonadinha que alisa a almofada e a linha do bordado, toda boba.
— E como é o do Murilo? Ele também ganhou, não ganhou?
— Sim. Tá como Muline, um amarelinho fofo. E o da Iara, Saviara, é lilás.
Djane leva a mão ao rosto, encantada pela invenção.
— Ô, meu Deus. Saviara!
— Vou levar hoje o dela. A gente acabou esquecendo de levar pra rodoviária.
A água volta aos meus olhos e eu seguro. Não para reprimir a sensação, nem para fingir nada. É que estou aceitando que mamãe está a caminho de casa e que fez muito enquanto esteve aqui. Se for para chorar, que seja sorrindo, lembrando das peripécias dela.
— De onde a Helena tirou todos esses nomes, hein?
Sento-me novamente ao sofá, chorosa e agora toda bobinha, sorrindo justamente dessas invenções todas.
— Ah, minha mãe e suas histórias. Tenho que te contar essa.
E acho que não há melhor jeito de processar sua ida sendo uma amiga para sua (também) amiga e me prender nas coisas boas que vivemos nas últimas semanas.
Tem que ser com carinho, né?
~;~
Termino de trocar de roupa, algo mais formal para ir à empresa, e separo na cama alguns itens de maquiagem para o dia. Lembro inevitavelmente que ontem quem me ajudou na hora do aperreio pela reunião com Thiago foi minha mãe. Antes que as emoções me envolvessem de novo, ouço Djane falar mais alto, como que conversando com alguém, lá da sala. Mas, ao que tudo indica, é de algo bom, pois ouço distintamente ela dizer “sublime, sublime”.
Abro a porta do quarto e coloco apenas a cabeça para conferir do que se trata isso.
— Djane?
A professora, que estava de costas na sala, vira-se para mim no corredor.
— Milena, você não vai acreditar! Agora podemos comemorar! A operação acabou!
Solto um audível som de surpresa.
— Mentira?!
Djane faz uma pose engraçada, de se apoiar em uma perna e então levantar os braços aos céus, em agradecimento ao divino.
— Bom, pelo menos a parte da infiltração. A investigação segue fora de nossas portas.
Saio pelo corredor quase saltitando na sua direção.
— Que maravilha, Djane! Nossa, um alívio enorme! Imenso!
Abraço ela, que me aperta em si, empolgada.
— Bote imenso nisso, Milena.
Ao me soltar, solta ela também um grande fôlego.
— Olha, saiu um verdadeiro peso das nossas costas. Já não aguentava mais as confusões entre Max e Fabiano.
— Era sobre isso o papo naquele dia? Que Fabiano foi te ver na casa do seu Júlio?
— Sim, sim. Mas ali a gente não tinha a confirmação ainda. Fabiano tava pressionando o Max pra saber o que seria feito, afinal, eles já tinham avançado bastante e... É isso, era uma esperança enorme. Por isso eu queria ter ido na faculdade no sábado, pra ajudar a fazer pressão. Fabiano acabou tendo que dar conta sozinho.
— Nem consigo conceber que esse dia finalmente chegou. A operação A-CA-BOU!
Bato as mãos nas dela ao alto tão extasiada e eufórica que acabamos sorrindo como duas malucas. Duas malucas aliviadas.
Mas logo umas perguntas me cobrem os pensamentos.
— E como fica o Max? Quer dizer, ele não vai nem se despedir?
Djane me encara passada e engomada naquele seu brilho de ciúmes que bem conheço. Até coloca uma mão na cintura para enfatizar a hostilidade.
— Vai sentir falta daquele salafrário, é isso mesmo, Milena Lins Albuquerque?
Nada provocativa (só que não), brinco com ela, que ralha comigo.
— Faltou o Camargo.
— Milena!
Levanto as mãos ao ar em sinal de rendição.
— Eu tava falando por conta da Glorinha.
— Tá, finjo que acredito. Quanto à Glorinha, eles que se resolvam. Agora estão mais livres. Só imagino que seja difícil para ele explicar que não é um professor. Porque foi nisso que ela acreditou. Ou teve que acreditar, né, por todos esses meses.
— É, ele vai ter que decidir. Independente disso, torço por ela.
Djane suspira, pensativa.
— Eu também.
— E como fica em relação ao professor? Quer dizer, um de verdade.
O olho de Djane brilha e eu já fico toda receosa.
— Já temos uma substituta!
— Nem vem, Djane. Não me diz que vai assumir as turmas de novo. Eu mesma vou atrás do Fabiano se for isso.
Finjo que vou para meu quarto para pegar o celular, mas ela me rodeia para me parar.
— Não, Milena, eu não vou. E acho que até se eu tentasse, o Fabiano me internava de vez, porque seria bem desgastante mesmo. Eu me colocaria numa zona infernal de estresse e poderia ir parar no hospital de novo.
Largo um silvo baixo de alívio, porém, ainda tomada de anseios por ela.
— Ainda bem que a senhora sabe que haveria intervenções. Sabe na base da ameaça, mas sabe.
— É, eu sei. E percebi nesse último semestre, principalmente depois de ter sido sequestrada, que gosto mesmo desse trabalho. É algo diferente e ainda assim a minha área. E posso atuar como orientadora sem interferir na ordem do departamento.
Na arte da introdução de assuntos sensíveis, eu já tô treinada. Assim jogo pra ela que tô entendendo bem o caminho que ela tá me guiando.
— É a sua maneira de dizer que não vou atrapalhar?
Djane dá um sorrisinho discreto.
— Também. Mas de dizer que gosto disso, de verdade. Me abriu outras portas e outras janelas. Agora posso dar uma atenção diferenciada, tanto aos alunos, quanto aos docentes.
Desarmada fico e que bom que assim fico, porque isso agora tá bem nítido na cabeça dela.
— Isso é bom, Djane. Muito bom mesmo. Fico mega feliz que tenha se encontrado assim.
Segurando minhas mãos no espaço entre nós, ela se distancia um pouco em pensamentos. De olhos ausentes, a professora divaga um tantinho sobre isso.
— Sabe, acho que até entendo o que o Bart tentou fazer naquela época. De maneira bem errada, claro.
— Como assim?
— Ele quis sair do ambiente da sala de aula e ter um posto de mais autoridade. Ou talvez só aumentar o salário. Só que ele não tem perfil para um cargo desses. Não para ordenar ou arcar com as responsabilidades da instituição. Nem mesmo saberia representá-la.
Desvencilho uma de minhas mãos dela para poder lhe cutucar suavemente.
— Não como você.
Internamente, me vem o momento anterior quando ela disse que “se me indicaram, é porque confiam em mim”. É, amigas dizem isso. Amigas levantam o melhor da gente. E a gente costuma ficar sem jeito, como Djane nesse minuto, tirando a si mesma do foco.
— É, Fabiano não sentia essa segurança nele.
E eu a coloco no centro de novo.
— Não como sente com você.
Djane nota o que tô fazendo e assume essa posição e esse elogio. Não aceita de pronto, nem sorri ou acena, como meu pai me aconselhou a fazer, porém, ela reconhece isso dentro de si e isso eu já levo pro coração de também admitir quando acontecer comigo. Porque vai acontecer alguma hora de novo.
— Vi mais disso no passar dos meses. Ainda mais para lidar com a operação. Não sei mesmo o que seria da nossa faculdade se aquele homem chegasse nesse posto... Uma zona completa, eu tenho certeza. Seria mais um para o Fabiano se engalfinhar.
Rimos, mas é um riso um tanto nervoso, porque o potencial disso era enorme. Nem eu consigo dimensionar a tragédia que seria. E olha que foram muitos desastres, brigas, confusões, discussões... Isso, no entanto, me leva a outra linha de pensamento, lembrando do que foi o último dia de aula.
— Djane, ainda tem uma coisa que eu quero entender.
A animosidade dela nem percebe.
— Diga lá.
— O que houve naquele último dia de aula? De verdade?
A professora esmorece um pouquinho, liberando o ar dos pulmões e me soltando, para abraçar o próprio corpo.
— Bom, foram tantas coisas, querida.
— É, mas a senhora sabe do que eu tô falando. Por que de repente tiveram que evacuar o prédio?
O incômodo fica evidente, pois Djane meio que perambula no espaço do corredor e tenta mudar de assunto.
— Você não tinha que terminar de se arrumar, Milena? Pra a gente ir almoçar?
Vez que o Murilo não vai poder vir e trazer o almoço, Djane disse que me levaria para sua casa para almoçarmos juntas, onde o Vinícius também nos encontraria, e eles tirariam na sorte quem me levaria para o estágio. Provavelmente ela, pois o horário é bem cedo. Se não, teria que ir direto pra empresa e me virar no refeitório de lá. Mas sem companhia não ficaria, pois a Iara já está por lá.
— Djane...
— Eu não sei o quanto eu posso dizer sobre isso, Milena.
— Não era pra revelar nem a operação e nem anunciar o fim dela, e ainda assim a senhora me disse.
— É, mas essa parte... Essa parte envolve muitas coisas delicadas. Muitos tópicos... sensíveis.
— Eu consigo compreender isso, afinal, estive lá. E a senhora bem sabe como essa operação colocou todo mundo a prova. Pessoas e relações.
Só de falar isso, sinto um aperto ao estômago. Porém, faço o exercício de respirar e restabelecer meu estado.
— Não poderíamos deixar isso... para outro momento?
Me demoro encarando suas costas retesadas. Se assim sente, o que eu posso dizer?
— Tudo bem, professora. Acho que posso me contentar com a boa de hoje. Vou só pegar minha necessaire e podemos sair.
Retorno ao quarto e libero o ar de forma longa por essa situação. Mas assim que entrevejo Djane se aproximando, tomo tento e apresso o passo para seguir com as demandas do dia. Essa investigação nem tem a ver comigo e ela não vai me tirar a paz hoje.
— Só estou separando o que vou levar.
Quando Djane me chama, pelo tom que chama, não quero que isso também seja outro peso pra ela.
— Milena...
— Eu sei, precisamos sair cedo se eu tenho que estar 13h no estágio. Acho que nem o Vinícius vai dar pra ver.
Mas a carga que Djane me traz é outra. Ela parece titubear e por fim dispersa o que tinha na ponta da língua para me falar.
— Acho que não vai dar mesmo pra vê-lo. O bom é que sobra mais pra mim.
~;~
Os Oliveiras
16h45 M. Lins
Trago boas novas: as aulas só começam dia 21 de janeiro, o que significa que NINGUÉM vai precisar matar aula pra ir no níver do Vini.
16h46 B.
\o/ \o/ \o/
Tu já sabe o que vai fazer pro cara?
16h46 M. Lins
Esse departamento agora é da DONA IARA
Sou mera espectadora
16h51 Iara Muniz
Tive a ideia no show da virada!
Com o papo do tio Lio sobre fazer noites de karaokê na pizzaria, pensei em fazer um especial nesse sentido pro meu irmãozinho
No caso, a gente cantar só as músicas que ele gosta
16h53 M. Lins
A gente QUEM
16h55 Iara Muniz
TU MESMO
Se eu coloco papai num palco, eu te coloco tbm
16h56 M. Lins
Vcs estão vendo isso, né?
ESTÃO REGISTRANDO ISSO, NÉ?
16h56 Iara Muniz
Até o Sávio vai *olhos brilhando*
16h58 M. Lins
Preciso de CONFIRMAÇÃO sobre isso
17h01 Sávio T.
O.O
17h01 M. Lins
RISOS e GRITOS apenas
17h02 Iara Muniz
E sim, me incluo nessa
17h03 M. Lins
Posso pensar no caso
Mas gostaria MTO de te ver num palco
17h04 Iara Muniz
Eu me saio mto bem nas apresentações da empresa, viu?
17h04 M. Lins
Mas o palco... lá o negócio é diferente
17h07 Iara Muniz
Hj em dia eu tenho as melhores motivações do mundo
Qnd penso onde estive, onde estou e principalmente com quem estou, faço até circo
17h10 B.
Aí mata nós de vez!
17h10 Dani Ela
JÁ QUERO A LISTA DE MÚSICAS
Me passem logo *lá vai a espevitada*
17h12 M. Lins
Precisamos definitivamente nos encontrar
17h14 Dani Ela
Tem o dia da matrícula
17h15 M. Lins
Antes da matrícula!
— Ah, Milena!
Sou despertada do papo paralelo com a voz do chefão que vem na minha direção. Vez que Hugo tava no celular, mais à frente no corredor, eu fiquei para trás numa mesinha de café e aproveitava essa pausa.
— Senhor?
Acho interessante que agora consigo ligar e desligar o modo formalidades com Filipe com mais facilidade, de maneira que, na empresa, isso fica no automático mesmo, sem enganos mais.
O chefão não apenas chega ao meu lado, como estaciona na mesinha para pegar um pouco de café e umas bolachinhas. Inevitavelmente lembro da Iara falando sobre otimizar gastos e que ela seria a pessoa a tirar esses biscoitinhos de água e sal de circulação, mas quem mantém eles é o Filipe, porque ele viu isso em algum lugar que visitou e tem sido parte da cultura da empresa desde então. Aliás, ele faz questão de deixar uns biscoitos diferenciados na principal sala de reunião.
Esse é um ponto de conflito entre os dois e, pensando bem, acho que eu seria do time da Iara. É preferível que cada pessoa leve seu lanche, até porque cada pessoa tem um gosto diferente, além de necessidades diferentes, e não dá pra atender isso. Eu mesma tenho colocado umas frutas na bolsa e isso é até um lembrete para eu comer minha pera. Vitaminas, né, eu preciso manter minhas vitaminas para ter forças de seguir em frente.
— Não pude mesmo ir na rodoviária hoje.
— Sem problemas, foi em um horário bem pragmático e também fora de rota. Só, por favor, não pergunte como estou, porque se eu abrir a torneira aqui, vou alagar todo o anexo com as minhas lágrimas. Aí o Hugo vai acrescentar as dele. Não vai sobrar um de pé aqui.
Filipe ri um riso discreto e solidário. Entende a minha direta sobre mudar de assunto. Só que aí ele também pega um bem triste. Não exatamente triste, mas envolve essa parte emocional.
— Como tem sido a adaptação dele?
— É a primeira semana, então as coisas estão um pouco confusas. Melhor perguntar de novo daqui a um mês.
Falo brincando, apesar de séria também. Filipe sopra seu café, concentrado no líquido quente no copinho.
— Eu tava precisando muito do Hugo aqui... e faz muito tempo. Mas entendo que a família dele foi mais importante. Ainda mais sendo ele tão dedicado.
Isso me pesa no coração um tantinho, assim, disfarço a torneira que quer estourar pegando de fato a pera na bolsa transversal. Vez que tenho andado bastante de um lado para o outro, mostrando os setores e os ambientes pro Hugo, levo a minha bolsa junto para qualquer necessidade. O bom é que já deu minha hora e assim posso lanchar de boa. Filipe levanta o copo dele em brinde quando me vê tirando o plástico-filme que cobre a fruta. Ele sempre me oferece uma na sua casa.
No corredor, Hugo solta uma risada que nos chama a atenção e, por instinto, ambos nos viramos para conferir a quebra da monotonia do espaço. Voltando-se novamente a mim, Filipe recomeça, meio disperso:
— Fiz o que pude para ajudar ele na transição. Isso em termos burocráticos e até de moradia. Fiz pesquisa de apartamentos e bairros, para que mostrar que era algo firme aqui. Para que pudesse trazer a família pra cá.
Levo a mão à boca por efeito de estar comendo e falando ao mesmo tempo, assim como pela surpresa disso que me conta.
— Caramba!
— Digamos que eu confio muito no trabalho dele. Ele não é um mero funcionário pra mim.
— É, não é comum chefões terem essa iniciativa. Qualquer iniciativa, na verdade.
Filipe observa Hugo sobre o ombro e, de copo próximo ao rosto, revela:
— Só para aqueles que realmente importam e valem a pena, né?
— Com certeza.
Não à toa meu novo chefinho tenha um tamanho apreço e admiração por Filipe. Essa informação que o chefão me entrega dá até mais sentido ao que o Hugo me disse mais cedo, em um papo que tivemos quando vimos Filipe passar ao longe. Ele tava com outros executivos e nem nos viu, mas o chefinho ficou ali, com a emoção no peito de novo.
Nessa hora, eu já tinha comentado – foi inevitável! – sobre a despedida de minha mãe e ele me contou uma coisa sobre a filha, também Helena. Foi a garota que fez ele vir para a capital. Foi bem bonito o que ela disse, de uma maturidade que acho que nem eu alcancei.
- Daí a Lena disse que havia chegado a hora de deixar ela ser crescida e a gente seguir atrás dos nossos sonhos. No caso, eu aqui como gerente executivo, e a Daiane com a loja dela expandida. E aqui estou.
Já que ele tava me dando um suporte, também dei esse apoio a ele.
- Vamos deixá-las orgulhosas.
- Vamos, vamos sim.
Mas a conversa sobre o Filipe, apesar de mais voltada para o aspecto profissional, foi em um tom mais de respeito e de simpatia.
— O senhor Filipe é uma lenda mesmo. As coisas que esse homem faz são realmente impressionantes.
Dali, jurava eu que era por como o chefão articulava a empresa, não por como tratava seus funcionários.
— Você costuma vê-lo por aqui?
Hugo perguntava na verdade sobre o prédio anexo, onde agora sitiamos.
— Eu não andava muito por essas bandas, mas meu local de trabalho costumava ser perto da sala de reuniões, então eu acabava vendo-o com certa frequência. Ele, inclusive, já me pegou estudando pra prova – algo que, juro, não vou fazer com o senhor. Ou tentarei não fazer.
Meu novo chefinho riu da minha piadinha, mas a sintonia tem sido tanta em apenas dois dias que sinto que vamos dar muito certo. Assim espero.
- Como ele reagiu – ou reagia – ao te ver estudando pra prova?
- Torcia por mim. De alguma maneira, sempre me incentivou.
- Então é isso que vou fazer se acontecer.
Isso selou algo bom entre nós e, agora passado o susto da mudança, sinto que vai ser um algo interessante nesse ano. Uma nova área para crescer no trabalho com a grande sorte de ter encontrado um chefe gentil, maneiro e companheiro. Não que o Thiago não fosse, mas a gente demorou a ter uma sincronia. Mas isso pode ser sido também porque, na época, o traste do Hermani era meu parceiro de atividades.
Eu sei que só estamos no começo, mas sinto uma verdadeira ponta de esperança.
Filipe me traz de volta ao comentar outro fato que contrabalanceia sua relação com os funcionários:
— Quando penso que o Sérgio subiu de cargo aqui, e como subiu nos últimos anos... Não é nem que eu botava fé nele, mas sabia que ele fazia o trabalho dele e nisso confiava. Só não sabia como ele era com os outros colaboradores. Porque se eu soubesse...
O chefão amassa o copo descartável de café e joga na lixeirinha ao lado, preservando-se de falar qualquer besteira que lhe toma a cabeça.
— Mas não tinha muito como saber, tinha? É algo que a gente descobre meio que pelo andar da carruagem, não é? Se a roda é boa ou não.
Filipe assente, embora desgostoso do que é essa memória.
— De fato. Mas que eu queria ter dado nas fuças dele, eu queria.
— Se tivesse dado, eu ia querer que tivesse reservado uma pra mim também. Fora que as canelas dele eram muito chutáveis, não eram?
Filipe gargalha e alto, o que chama a atenção de algumas pessoas ao redor, o Hugo junto, que se vira para nós dois, como se fôssemos as criaturas mais improváveis de estar conversando no momento e ao mesmo tempo interessantes de ver. Acho que fico até encabulada. Não era para atrair tantos olhares assim logo de cara, não na primeira semana de retorno, nem para entregar nossa relação do lado de cá. Mesmo assim, mantenho a postura, porque não devo me envergonhar com essas coisas. Não gostaria que fosse um segredo tão secreto, mas se assim mantenho, alguma razão tenho. Além disso, se me perguntarem, tenho total liberdade – e criativa! – para soltar qualquer pérola.
— Aproveitando o ensejo, Milena, vi o presente da Iara. O travesseirinho.
Mal entrei na empresa, já no limite da hora, topei com a fadinha, entreguei na maior cara de pau os dois embrulhos a ela, passando dos meus braços aos seus, e andando, seguindo pelo corredor, disse que eram os presentes da minha mãe e que um era dela e o outro do Sávio. Não deu tempo de ver a cara dela.
Imaginava eu que Filipe falaria da reação da filha, mas ele toma outro rumo nessa conversa, algo que me faz segurar o riso.
— Não imaginava que eles tinham um nome assim.
— E não tinham até umas semanas atrás, quando eu e mamãe inventamos.
O chefão pega uns dois biscoitos e quebra-os antes de colocar à boca.
— De brincadeira, até perguntei onde tava o meu... Mas eu tô fora desse mercado faz muito tempo.
— Não seja por isso, mando fazer um solo pro senhor de boas. Quando é mesmo o seu aniversário?
Filipe bate as migalhas de sua camisa com um semblante que eu gosto de fazer para barrar as peripécias dos outros. O clássico “nem inventa!”.
— Deixe como está que está bom. Tô feliz com o que eu tenho no momento.
Com isso, ele encerra nosso encontrinho num tom levemente provocativo, ao qual eu respondo muito faceira e formal também:
— Tenho que ir. Até outra hora, senhorita Milena.
— Até mais, senhor Muniz.
Após essa saída, Hugo enfim se aproxima, meio curioso, meio desconfiado.
— Sobre o que vocês tanto falavam?
Apenas alimento o mistério, também porque é gostoso isso.
— Acredite ou não, papo de cafezinho. Papos para acompanhar com biscoito e cafezinho.
Hugo então confere as horas no relógio de pulso – sim, ele é dessas pessoas que segue com o relógio analógico, apesar de bem adepto ao smartphone.
— Você já tem que ir, né?
— Sim, mas estava esperando o senhor... Tenho que mostrar onde ficaram os resumos.
Quando acho que finalmente seguiríamos para sua nova sala, uma das coordenadoras do RH surge para checar algo com ele e Hugo me sinaliza que vai ser só mais um minutinho. Sem muita opção, pego o celular para ver por onde a Iara andava, para podermos sair juntas. Mas então... vejo outras notificações e confiro certa conversa primeiro. Até porque não entendo bulhufas da última mensagem, com o Sávio falando que “o dogão ganhou”.
17h15 Dani Ela
Por mim, pode ser hj
Dá pra vcs hj?
17h17 B.
Saio daqui a pouco, 18h
Pra mim de boas
17h18 Sávio T.
Tbm posso hj a noite
Onde seria?
17h18 Dani Ela
NA CASA DO BRUNO
17h19 B.
Tudo bem por mim
Só vou ter que comprar uns lanches no caminho
Alguém quer um dogão hoje?
17h20 Dani Ela
Cadê a Milena e a Iara
17h20 Iara Muniz
TÔ AQUI
Topo
17h22 B.
Dogão ou hamburguer?
17h30 Dani Ela
MILENA, QUEDE TU
Respostas, eu preciso de respostas
Se bem que podemos sequestrar se for preciso
Dogão
17h32 Iara Muniz
Ela vai cmg, certeza
Dogão
17h33 Sávio T.
Pelo jeito o dogão ganhou
Nada como abraçar minhas criaturinhas num dia de tantas e tantas emoções.
17h36 M. Lins
BORA
Eu vou com a Iara
Dogão
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