Notas iniciais
Capítulo saiu grandinho pelo nível de tensão que é a cena, que envolve mta coisa. Mas Milena sempre firme e forme dá seu jeito de tomar as rédeas da situação.
Virar o jogo sim ou com certeza?
Boa leitura.

O que estou fazendo mesmo? Quer dizer, que merda é essa? Tem como piorar? Não só piorou como meu desespero aumentou. Eu mesma não tinha mais noção de nada. Vinícius continuava a gritar da porta da rua, voz alterada, preocupada, alarmada... eu não tinha forças nem mais pra responder.

De testa encostada na porta, mãos firmes na maçaneta onde um segundo atrás passei a chave, tentava controlar minha respiração e crise. O ódio de mim por cair bem na frente de quem representava perigo me deixa cada vez mais vulnerável. Dessa crise que eu perco a noção do que estava fazendo, não que eu soubesse muito antes mesmo. Fico de costas para Filipe, que está em algum lugar da minha sala. Parada, não ouso nem virar pelo tremor que me corrói com o trovão que se segue.

– Ô garota, você... você está bem?

Era a voz fraca do Filipe, saída entre dentes, talvez dos golpes que tinha levado. Num átimo viro-me sem deixar o apoio da porta e por ela deslizo as costas até chegar ao chão, onde, com as mãos no rosto, deitada sobre minhas pernas dobradas pra cima, eu liberto o choro que crescia de mim.

– Eu não entendo, o que está acontecendo? Isso é um truque?

Essa última me grita sua proximidade a mim, agachado a ponto de me tocar no joelho, desnorteado quanto ao que via a sua frente. Eu. Eu destruída. Mais um trovão soou longe, não muito forte, mas por ele gemo baixo. O perigo de Filipe desorientado não representava mais nada pra mim, que se danasse, eu só queria minha paz. Mas ele insiste, toca no meu joelho novamente por eu não ter lhe dado resposta e o balança a fim de que eu reaja a ele.

– O que-e vo-cêê que-er-er? Por quê-ê nos ator-ormenta?

– O que você tem? Deus, o que você tem? Por que não está me afrontando?

Era ISSO que ele queria? Não podia ser um pouco mais egoísta que isso não? Eu morrendo e ele querendo que eu bata nele, é isso? Levanto a cabeça minimamente a ele, torturada, trêmula, para encontrá-lo tão perdido que parecia que tinha de fato deixado a arrogância e estava se importando comigo. Tipo, comigo? Que estado deplorável devo estar para ele responder assim...

Mais um trovão, agora começando a ficar violento, desce a Terra. Mais um gemido sai de mim, o choro se intensificando, fecho os olhos com força, a respiração daquele jeito, descontrolada. Ao longe ouço Vinícius gritar por mim, perguntar se estava bem, o que estava acontecendo, que eu abrisse a porta... Eu não tinha condições de responder ao menos, eu só queria me encolher no canto que estava.

– Isso é por causa dos... trovões?

Vergonha me ataca, ódio de mim, ódio de tudo que acontecia, de como as coisas estavam ocorrendo. Um leve assentir meu foi o máximo que consegui responder a ele. Quando consigo abrir os olhos novamente, mal podendo respirar, principalmente pelo nariz entupido, encontro Filipe de aspecto penoso. Pena? Eu não queria que tivesse pena de mim! Repudio o quanto precisar.

– Pensei que era eu que... tinha feito isso com você. Eu... eu... merda, eu não consigo dar um jeito nas coisas, eu só faço merda, eu machuco as pessoas. Cansei de... só queria que...

Era minha queda, era a dele também. A iminência de novos trovões me deixa quieta, encolhida, à espera. Ele, por outro lado, senta-se no chão onde está agachado, e imita minha posição. Tem uma fisionomia torturada, limpando o que ainda saía de seus machucados com a costa da mão, fico confusa só de olhar. Um embargo toma conta de sua fala, que mal não o deixa falar:

– Eu sou uma pessoa ruim. Não consigo fazer uma coisa direito... eu me esforço, parece que não, porque me deixo levar por um gênio que me muda, que tem sede de passar por cima das pessoas...sou uma bagunça. Eu queria meu filho, não importando o jeito, quero-o tanto que acabo por fazer besteiras.

Respirando pela boca, tento encontrar meu equilíbrio. Precisava ser forte para lidar com tudo ao mesmo tempo, iria arrancar forças não sei de onde, mas estava disposta a procurar com a trégua dos trovões. A dois passos de mim, Filipe no chão tem os olhos sem foco, falando o que o começo de choro lhe deixava falar. Ele estava se abrindo? Ele, Filipe, que sempre se mostra em pé de guerra comigo?

Por algumas vezes tentou falar, isso é fato, chamar minha atenção... e acabei por ignorar, fugir, bater. Ele também era um ser vulnerável, não era? Está se mostrando agora que sim. Quer dizer, pensei sobre isso algumas vezes. Ele também tinha uma barreira pra acobertar esse seu lado vulnerável, ferido. Desde a primeira vez que o encontrei, na porta do quarto de Vini no hospital, assim como na lanchonete e depois no gabinete do diretor, ele sempre demonstrou amor pelo filho. Só que não era saudável, pelo menos da forma que ele tentava para manter o filho perto de si, que era bater de frente com Djane e ter desenvolvido toda a rixa que perdura até hoje. É um tipo de amor que quer proteger, que é egoísta, que não sabe medir atitudes... ele amava, ama, errado.

Se eu tivesse ouvido o que tinha pra me dizer dias antes talvez não tivesse chegado a esse ponto em que nos encontramos. Talvez se o tivesse escutado, ele também me daria espaço para falar... eu nunca desejei sua queda, mas estava ali na minha frente. Céus!

É tudo muito estranho... Eu também não dei chance a ele. Ele também não me deu muita margem... que eu podia fazer? De fato, eu não sabia o lado dele. Lembro-me bem do episódio que entrei no escritório e ouvi sua discussão com Djane, enquanto ela relatava, ele a cortava, dizia que a história era diferente. Que era, era, se considerar o ponto de vista dele... ele viveu coisas que ninguém soube relatar, nem ele mesmo.

Me sinto até um pouco tola por tê-lo afastado... ele só queria uma chance, como bem me disse na lanchonete na segunda, de contar o seu lado, para que eu pesasse todas as informações que tinha. Mas eu não quis... achei que não era comigo. Ele tentou, achou que eu era a chave de acesso a Vinícius. Como que eu ia saber se nada dele estava lhe favorecendo? Engulo o que sobrou do meu choro para responder a sua divagação:

– Não é uma pesssssoa ru-iim, só... fez escolhas ruins, coi-oi-sas ruins. Todos amamos, todos temos gana por a-algo, mas temos que ter controle e não exigir dos outros, mui-ito menos tomar.

Passo a mão nos olhos para tirar as lágrimas que borravam minha visão e percebo o quão trêmula ainda estou. Tento respirar fundo, mas o nariz entupido não me deixa, assim tenho que respirar apenas pela boca, também estremecida.

– Eu sou, sei que sou. Desprezei o único amor de verdade que tive por ser cego. Desprezei meu irmão por tentar nos aproximar... acabei com uma das poucas esperanças de que tinha de ter meu filho. Vocês ganharam.

Ele abaixa a cabeça nos joelhos juntos e chora baixinho. Se eu fosse outra pessoa poderia até ter batido nele, complemento do que Vinícius fizera, mas aposto que do estado que Filipe está, não ligaria muito pra essa dor se a outra já bem o consumia. Me joguem o que quiser também se eu me sentia mal de vê-lo e ouvi-lo desse jeito.

– Há... isso não é uma competição se bem consegue lembrar. Amor não é propriamente um jogo de vale tudo. Nesse caso então, não tem essa de quem ganha ou perde... se há alguém que perde é o próprio Vinícius.

– Por que-e quer me-e animar-ar se não gosta de mim-im? Como quer falar de-e esperan-an-ça se é você... que-e o tempo todo quis me tirar?

Sua voz sofre pelos engasgos do choro, entrecortada, sai abafada por seu rosto estar encostada nos joelhos. Uma coisa me sobe do estômago e não é a vitamina que tomei mais cedo. Não adiantava o quanto eu passava a mão nos rosto para não ver borrado, pois mais lágrimas vinham do estoque.

– Nunca a tirei, nem tentei... é verdade que o senhor... não é uma das minhas pessoas favoritas, errou muito nessa vida, mas existe sentimento nobre no senhor: amor. Amor doído talvez... mas amor. Pode parecer idiota, mas eu tenho esse costume de procurar coisas boas nas pessoas.

– Você acha que EU... EU posso ser uma boa pessoa? Agora sim você está sendo idiota, garota.

– Não era com essa idiota que você quis conversar? Pois pronto, fale agora.

Ele levanta um pouco a cabeça, meio incerto. Porém, derrotado, ele prefere desistir de vez:

– Deixa, eu já estou na pior mesmo.

– Fala. Se o senhor não falar por si mesmo, não haverá talvez oportunidade para que fale ou mesmo alguém que fale pelo senhor.

–...

Ele não responde. Vou ter que arrancar dele, é isso? Eu quero respostas! Esse não-dito é o que destrói a todos nós... Vinícius lá fora ainda tenta se comunicar comigo, só que eu estava muito perto da “verdade” para poder responder algo. Sei o quanto está preocupado comigo, mas eu tinha uma chance... tinha que saber lidar com ela.

– Então me diz por quê... por que nos seguia? Por que nos vigiava?

– Era... a única maneira de tê-lo perto mim... de vê-lo à distância.

– E por que foi atrás de mim?

– Porque as minhas ligações ele não atende mais. Pensei que se chegasse a você, chegaria a ele. E se te contasse a minha versão, você pudesse intervir por mim...

– O que aconteceu hoje?

Um sorrisinho quase esperançoso passou por seu semblante por um segundo, como se pudesse ter sido feliz, mas tão logo ele some enquanto relata o que tinha ocorrido. Eu me mantinha o máximo atenta a ele, cada movimento. Isso me fazia esquecer por uns segundos minha crise.

– Ele me ligou. Nem eu mesmo acreditei... disse para eu te deixar em paz. Percebi então que não era por mim que ele ligava. Mas com esse pouco, quis puxá-lo a mim. Marcamos um encontro no apartamento. Ele foi, mas ao chegar lá...

– MILENA? MILENA, PELO AMOR DE DEUS, ME RESPONDE! O QUE ESTÁ ACONTECENDO AÍ? ABRE A PORTA, POR FAVOR!

O trinco da porta da sala se remexe e quebra o que Filipe começava a contar. Pelo jeito Vinícius conseguiu pular o muro, mas se alguém não mexesse na chave, ele continuaria preso no terraço. Para que se acalme, reúno forças e grito de volta:

– ESTOU BEM.

– POR QUE NÃO ABRE A PORTA?

– EU... EU NÃO POSSO...

Começo a me levantar e praticamente fico falando com a porta. O grito de Vinicius também me tortura, porque eu não podia simplesmente abrir a porta e deixá-lo entrar se eu sabia que algo pior que o que fizera minutos antes ele poderia fazer. Chega de brigas, eu não aguentaria ver isso, tampouco poderia impedir com a força que Vinícius tem. Pareço louca? Me sinto como uma... mas era o que tinha que fazer. Me condenem depois. No desespero não se tem muito tempo pra pensar mesmo...

– POR QUÊ? ELE ESTÁ FAZENDO ALGO COM VOCÊ? FILIPE, SE FIZER ALGO COM ELA, EU NUNCA TE PERDOAREI, TÁ ME OUVINDO? EU TE MATO SE FOR PRECISO, AQUI E AGORA.

A porta estremece pelas batidas insistentes de Vinícius. Olho por sobre o ombro e encontro Filipe se arrastando para a outra parede, a que estava ao seu lado, para melhor apoio acredito. Se Vinícius entrar... era bem provável que o matasse mesmo, principalmente estando Filipe tão entregue. Meu Deus, que faço eu?

– VINÍCIUS! N... NÃO ESTÁ ACONTECENDO NADA!

Tento apaziguar ao máximo. Em vão praticamente.

– ME DEIXA ENTRAR.

– NÃO DÁ!

E outro mais entrou na discussão:

– POLÍCIA! MÃOS AO ALTO! AFASTE-SE DA PORTA!

Cética eu me afasto da porta como se estivessem falando comigo também. O trinco da porta parou de se mexer no mesmo segundo. Não... ele não... NÃO acredito que eles chamaram a polícia! Atônita, ouço o que lá fora acontece, Vinícius me identifica como a namorada presa, confirma que estou em perigo, com o homem que invadiu a casa. Em choque me afasto cada vez mais da porta, passando pelo derrotado Filipe jogado no meu chão, ouvindo tudo, porém, ao mesmo tempo, parece que não consigo distinguir o que falam lá fora. Dentro de mim, esperava que alguém me dissesse que não era a polícia ali... Alguém me diga, por favor!

Um estrondo forte do portão da garagem me arranca um grito que consegui abafar com as mãos. Eles... conseguiram arrombar para entrar. A polícia. Ai meu Deus, é a polícia mesmo. Passos e passos de botas dão pra ouvir se espalharem pelo meu terraço. Me aproximo da nossa barreira novamente, chegando dessa vez à janela fechada, onde, das frestas que dava para o terraço vejo um pouco dos seus corpos. Um desespero maior se abate dentro de mim não sei por quê.

– MOCINHA? VOCÊ ESTÁ AÍ? PODE NOS RESPONDER? É A POLÍCIA.

– ESTOU AQUI, ESTOU BEM.

– ABRA A PORTA. VOCÊ VAI FICAR SEGURA.

Segura... não era essa segurança de que eu precisava. No entanto, era a polícia, o jeito era abrir. Desviro a chave e um policial armado entra, seguido de mais dois que vasculham o local. Eu estava num filme. Logo Vinícius aparece e me abraça forte, me pedindo por calma. Meu estado? Não dá mais pra descrever, não como tudo se passava mais. Cravei minhas mãos na camisa de Vinícius e chorei por todo esse tormento.

Meu medo não era de Filipe, nunca foi na verdade, a preocupação que sempre me tomou era de mais machucados. Vinícius me abraçou, assustado por toda a situação, me beija o rosto como se houvesse chance de ter me perdido ou algo assim. Fala palavras doces de que tudo ia ficar bem, que ele estava ali... sim, ele estava ali, mas nada ficaria bem, eu sentia.

Queria discutir isso, queria mostrá-lo que estava errado... porém, quando ia me desvencilhar dele para falar e enfrentá-lo, mais um trovão baixo se seguiu, trazendo dessa vez a chuva com ele. Gemi alto me entregando mais a Vinícius que, entendendo tudo errado, tenta cuidar de mim. A ação policial de remoção do “homem perigoso” continuava, eu que não me dignava a assistir.

Todos é que assistiam a minha crise e eu não podia falar nada. Nada!

Já tinha passado uma situação assim com Vinícius. Nada como essa vez, claro, sua voz não estava me acalmando, estava me enervando... como pode isso? Não sei, mas a raiva de toda a situação, misturada com vergonha, me deixa tão... Ahrg. Nem consigo pôr isso em palavras! Cadê que eu conseguia responder aos sussurros dele no pé do meu ouvido? Cadê a força para bater nele por cada palavra de proteção que proferia? Cadê... a porra do meu juízo?

De fim, um policial me chama a atenção. Ainda em dificuldade para respirar, puxando a camisa do meu namorado, o policial tenta interferir. O que eu mais queria era deixar todos eles aqui e ficar na minha cama, fugir de tudo e todos. Eles não deixariam, não deixam... pois o policial diz que tenho que ir à delegacia também.

Eu balanço a cabeça no ombro de Vinícius, dizendo que não, eu não quero ir. Meu namorado tenta me convencer que é o melhor para mim, eu estava segura, que não haveria o que temer... Ele não entende! Haveria alguém que me entenderia, se nem eu mesma consigo às vezes?

~;~


Da vez que eu fiquei no interior nos primeiros momentos do tratamento da minha avó, tinha uma vizinha que me irritava profundamente. Ela era A fofoqueira do bairro e, se quisesse qualquer informação, ela teria. Distorcida, claro. O que nunca esqueci dela foi uma expressão que sempre ela usava, uma que remetia a algo grave, de que tinha acontecido algo sério, ela usava uma expressão de um programa policial informativo que passava no final da tarde: “deu B.O.”.



A moça que está sentada na ponta do banquinho que o policial me fez sentar é um pouco parecida com essa vizinha, numa versão mais jovem. Quando bati o olho nela, parece que a vizinha estava lá me dizendo que tinha “dado B.O.”... e tinha, literalmente. Ou quase, por que eu não tinha a pretensão de dar queixa. Nem Vinícius nem meu irmão gostaram de saber disso... Mas eu também não gostei dessa deles de chamar a polícia, então estamos quites acho. Os dois a cada lado do meu corpo não saíram de perto de mim desde que saí do carro de polícia.


Chuva forte caiu quando os policiais insistiram em me levar à delegacia. Me chamem de louca, mas a primeira coisa que soltei ali foi perguntar se eu podia trocar de roupa. Por essa ninguém esperava, dava para ver na cara de dois policiais na minha frente. Eu estava tentando disfarçar minha raiva, acredito que minha crise e todo aquele público era o que mais apimentava esse sentimento. E, poxa, eu estava de shorts e camiseta como qualquer um fica dentro de casa, começava a fazer frio, estava chovendo e... eu sou uma pessoa decente. Meio sem jeito, o policial, oficial Ramos como se identificou, disse que fosse rápido. Se eu não tivesse tão ruim, canalizando minha raiva, eu poderia até ter rido, porque olha, o cara era muito parecido com o paramédico daquela série Third Watch. Sério. Nem dava para tirar uma foto com o cara – aí sim iriam me dar um atestado de louca. Nem preciso dizer que era um dos personagens por quem eu era apaixonada – ficava entre o paramédico Jimmy Doherty e o policial Ty Davis.

Se por um segundo de loucura eu ri, no outro eu estava no quarto, revoltada, trocando de roupa não acreditando que eu estava me preparando para ir à delegacia. DELEGACIA! Quando pronta, abri a porta do quarto e lá estava Vinícius à minha espera. O que ele tinha feito ainda me martelava a cabeça. Por isso não o olhei diretamente nos olhos... não gostava do sentimento ruim que sentia, não queria que isso ficasse em evidência. Balancei a cabeça em negação, mas foi uma tentativa vã de dissipar esse sentimento, eu ainda reprovava sua atitude.

– Mesmo sabendo que vou para a delegacia, ainda não acredito que você chamou a polícia.

– Eu liguei para Murilo e ele os avisou.

– Ainda assim.

– Você não entende, Milena, o que era a situação...

– Você também não entende, Vinícius.

Sofrido, ele chegou mais perto de mim e tentou me beijar. Quer dizer, ele me beijou. Mas esse foi o primeiro beijo que eu estava consciente e não quis retribuir. Ao perceber que não havia um mínimo movimento meu, ele tentou novamente, senti. Sem sucesso, ele abriu os olhos naquela pergunta muda do porquê, segurando meu rosto com ambas as mãos tão perto de si. Sem saber como responder, abaixei a cabeça e puxei suas mãos de mim. Eu tinha que ir à delegacia. Não era isso que eles queriam?

Ao chegar à sala e pegar a bolsa transversal que estava na mesa, me virei para seguir com os policiais, Vinícius no meu encalço, sempre me chamando. Eu não queria engatar mais uma discussão, não com todos aquelas pessoas dentro de minha casa. Tinha testemunhas demais e que já tinham visto mais do que deveriam... Chegando na calçada, a chuva já tinha dado uma baixa – era uma daquelas rápidas mesmo que sempre cai para atrapalhar tudo – e meu irmão apareceu correndo do seu carro que ficou longe pelo bloqueio dos da polícia que estavam rua e me abraça forte. Abracei de volta, claro. Mesmo fazendo besteira, ele era meu irmão.

Foi nos braços dele que eu vi o carro policial, com Filipe no banco de trás, ir primeiro, corpo que tremia e não era do frio que marcava a noite. A chuva dava uma amenizada, mesmo nos molhando um pouco, mas ela não lavava os nossos sentimentos. Era palpável o desespero do meu irmão. Presa a ele, eu tinha em pele a respiração entrecortada do mesmo, os espasmos de encontro a mim, o choro apertado que dava para ver que ele lutava em segurar. Eu pedia mentalmente que nenhum trovão mais soasse, estava desgastada por demais com tudo o que tinha acontecido. Se eu pudesse garantir só isso, tentaria não reclamar de mais nada.

– Ele te fez alguma coisa? Eles chegaram a tempo?

– Ele não fez nada. Não teria feito.

Falo abafada por seu corpo, ainda grudada nele. Eu não queria sair dali.

– Como você estava presa com ele e me diz isso? Pelo amor de Deus, Milena, ficou louca de vez? Por que ficou sozinha com ele? Eu fiquei maluco preso no trânsito... pensando no pior.

– Temos que ir, mocinha. Vocês têm que ir prestar esclarecimentos.

Nem para meu irmão eles queriam me dar tempo. Saí dos braços dele e, muito abatida, passei a mão no rosto para me acalmar mais. O nariz começava a desentupir, me dando uma chance de respirar melhor. Eu sabia que no momento que eu dissesse o que tinha em mente de fazer, todos iriam ficar bem desnorteados. Com a calma que aos poucos busquei, soltei de vez, meio baixo:

– Eu não vou prestar queixa.

– O QUÊ?

Os três, o Jimmy de Third Watch, Murilo e Vinícius disseram juntos. Caminhei para o carro policial que um outro me indicava, queria logo resolver isso... a vizinhança toda estava nas portas de suas casas observando, cochichando, eu dispensava toda essa atenção.

– Mas Milena...

Vinícius tentou, olhei para ele sobre o ombro quando cheguei à porta do carro, pronta para entrar. Mais perdido não sei se era possível ele ficar. Queria lhe dizer que estava tudo bem, porém o meu “tudo bem” ainda não se equivalia ao dele. Com tudo “avacalhado” do jeito que estava, não tendo mais como piorar mesmo, se tudo tinha chegado ao fundo do poço, agora era só tínhamos a subir... as coisas iam se resolver. Chegaria a um equilíbrio, eu tinha fé.

– Eu sei o que faço.

Não mais o rejeitei, como tinha feito na porta do meu quarto, magoada. Virei-me, ainda na fraca chuva, e levantei a mão para lhe buscar, queria-o perto de mim. Não demorou e ele me alcançou, me pegou pelas mãos e as beijou. Entramos no carro de polícia e meu irmão nos seguiria em seu carro.

O alarme da sirene avisou que tudo se sucederia na delegacia, pedindo passagem nas avenidas onde eu via aos borrões olhares curiosos. Onde eu fui parar!

Na verdade... eu fui parar no vão do pescoço do meu namorado nesse caminho todo, onde eu o tinha em mãos, respirava seu corpo e a calma começava a assentar. Disso eu não podia reclamar. Mas... como dizem, tudo que é bom uma hora acaba. Com resistência eu saí daquele carro.

Para entrar na delegacia, funguei, aceitei uns lenços de papel que a secretária me cedeu e me recompus. Ao meu lado estava meu irmão e meu namorado, cada um me segurando por uma mão. O Jimmy, quer dizer, o policial Ramos nos disse para sentar e aguardar o chamado do delegado.

Com a cabeça encostada na parede, procurei respirar melhor, botar as ideias no lugar ao som daqueles telefonemas incessantes da recepção, do barulho de conversas e umas brigas lá fora. Foi dessa que, por um segundo, retesei.

Só percebo que estava de olhos fechados por ter que abri-los em espanto. Uma pessoa normal poderia vir até a me dar um tapa na cara se eu disser que estava alarmada por Murilo descobrir meu relacionamento com Vinícius assim... na delegacia praticamente. Putz! Eu estava planejando tudo direitinho... esperando pelo melhor momento! Mas que saco... bem sei como as coisas nunca saem do jeito que planejamos, mas essa... essa passou foi longe!

De soslaio checo os dois do meu lado perdidos em seus próprios pensamentos. Tá, como é que eu começo a falar um negócio desses? Acho que acabo de arranjar a minha história para relatar no Natal sem que me recriminassem. E nem preciso começar na verdade, o policial faz essa graça por mim, quando o delegado chega, ele, responsável pelo caso, aponta a ocorrência:

– O que temos aqui?

– O irmão reportou uma denúncia de que a mocinha em questão estava em perigo, de que um homem havia invadido a casa e ele a mantinha presa na mesma. Quando chegamos ao local, estava o namorado tentando entrar na casa, já no terraço. Assim que entramos, fiz contato com ela e ela conseguiu abrir a porta. O homem está detido.

– Hum. Deixo-os na sala 3C que vou acompanhar o depoimento. Vou para lá num minuto. Prepare a papelada do relatório.

Uma vozinha na minha cabeça questiona esse relatório. Relatório pra quê? Eu não vou dar queixa... Como o policial não fala nada, levanto antes de o delegado sumir para esclarecer essa parte antes que todo um trabalho desnecessário seja feito:

– Mas eu não vou prestar queixa.

– O quê?

O delegado e o oficial se viram pra mim confusos. Murilo fala comigo com calma, como se eu tivesse à beira de um ataque, segura minha mão e tenta me convencer de que eles estão certos. E a minha razão, ninguém vai ouvir?

– Milena, calma. Não tem por que fazer isso, você está segura agora. Ele merece ser preso, não vai te machucar.

– Justamente. Ele não me machucou, gente. Vocês estão exagerando. Não era nem pra ter chamado a polícia...

– Eu tive que chamar, oras. Sabe o que é estar dirigindo num engarrafamento e alguém te liga pra contar que a pessoa que você mais ama está trancafiada com aquele ser que estava a perseguindo? Você não sabe como eu me senti impotente... Porra, minha irmã, caramba!

É, eu não tinha pensado bem por esse lado. Engulo em seco por tê-lo feito passar por isso, não era minha intenção. Abraço-o por sentir o efeito de minha loucura o atingir assim, ele que não é de chorar, tinha os olhos vermelhos. Também não aguento, as lágrimas borram tudo de novo. Como que eu não vi isso antes? Ele me aperta nos braços. Realmente achou que ia me perder...

– Desculpa, maninho... desculpa. Eu não pensei na hora, eu só fiz... quando vi estava com Filipe na sala.

– Não me dá mais esses sustos não. Não sei o que teria sido de mim se tivesse te encontrado machucada...

Fico tão pequena nos seus braços. Porém, ser pequena não me qualifica como indefesa. Sempre fui tratada como aquela que merece ser protegida e sempre me cansei disso, por isso por muito tento provar do que sou capaz. Se eu ceder agora, por quanto mais vou ter que ceder? Não, eu comecei, eu vou terminar isso.

– Te entendo, maninho. Mas era o que tinha que fazer. Por isso não vou dar queixa. Vocês não sabem ou viram o que eu vi. Acabou tudo.

Desvencilho-me dele, marcado pelas linhas na testa de quem não está entendendo mais nada. O delegado já tinha saído sem eu perceber, só o oficial estava próximo a nós, nos esperando. Eu sabia o que tinha que fazer – ou pensava que sabia:

– Posso fazer meu depoimento... sozinha?

Policial Ramos estranha, mas assente. Mostra o caminho.

– Valeu, Jimmy. Quer dizer, oficial Ramos.

Tá, essa ninguém viu ou ouviu. Espero. Estamos indo para um corredor quando a mulher da recepção o para falando de uns arquivos que ele estava atrás. Fico esperando, de braços cruzados, pensando no que eles iriam perguntar, repassando tudo o que tinha acontecido para saber relatar direitinho. Ao passar os olhos na recepção, onde Vinícius estava sentado falando no celular, vejo meu irmão também numa ligação andando devagar pelo espaço. Pra quem ele está ligando? Volto uns três passos e o oficial Ramos me chama. Antes de ir, consigo ouvir o que Murilo começa a dizer:

– Alô? Pai? Er... eu tenho que te falar uma coisa. A mamãe tá aí? Certo. Vocês estão sentados?

EU NÃO ACREDITO QUE ELE IA ASSUSTAR NOSSOS PAIS.


~;~



– Você é corajosa, garota.



– Eu tento.


Jimmy ia começar a colher meu depoimento, tinha uns papéis à sua frente. O delegado estava do lado já, só monitorando e acompanhando. O escrivão estava no ponto. Penso em ser sucinta ou falar pausadamente para não dar trabalho ao cara. Porque escrever nunca chega à velocidade da fala, uma hora ele pode se perder, mesmo sendo um profissional. Ao olhar ao redor da sala 3C, constituída por duas mesas, uma do escrivão e outra da investigação, umas cadeiras e um pequeno bebedouro, me sinto num mundo paralelo.

Tantas vezes assisti filme, séries... mas parar numa sala dessas, por mil loucuras que eu fizesse, isso eu nunca poderia imaginar. Mas posso dizer que me senti um pouco frustrada por não ter o espelho. Digo, parece aquelas vezes que você não quer quebrar um braço ou perna e quando acontece algo do tipo, sem na verdade quebrar, os médicos só passam uma faixa no local. Poxa, a graça é justamente o gesso! Se bem que se me colocassem numa sala com espelho seria se o caso fosse sério... então olhando por esse lado, até que agradeço.

– Então senhorita Milena, vamos começar. Quando e como tudo começou?

Só relatar, só isso, dizer o que você sabe. Meu coração fica nervoso, minhas mãos se esfregam pouco molhadas de suor em receio. A sala parecia muito pequena de repente. Procuro respirar fundo para afastar tudo isso. A luz fraca parece me incomodar também.

– Ao ouvir um carro chegar na porta, fui ver quem era. Vinícius desceu do carro com uma expressão estranha, então um carro entrou na rua. Filipe desceu e eles tiveram uma discussão, algo que parecia ser como uma continuação. Parece que eles tinham se encontrado ou marcado de se encontrar, não sei bem essa parte... No meio dessa briga, uma hora Filipe tentou me ofender e Vinícius partiu pra cima dele. Tive que me meter no meio deles, angustiada, sem saber o que fazer. Por um momento eles se separaram, mas não demorou muito e Vinícius bateu no pai e...

– Espera. O homem em questão é o pai do seu namorado?

– É.

Respondo, acanhada.

– E qual era o motivo da briga, você sabe dizer?

– Saber eu até acho que sei, mas é uma história tão longa que é mais fácil o senhor passar para outra pergunta.

Sugiro assim, na cara-de-pau mesmo, com as palavras mais gentis que encontrei. Abaixo a cabeça, olhando para minhas mãos no colo. Que ele não me entenda mal, eu tento fazer a conversa parecer natural, mas é a polícia que está me perguntando... Ah tio, se o senhor soubesse da história completa...

– Por que não quer falar? Foi coagida por esse homem que atende por Filipe? Ele te ameaçou?

– Nam. Nem eu tenho medo dele. Sempre que ele fala uma coisa, eu acabo é debochando dele. Eu sei que ele não seria capaz de me machucar. Da vez passada, eu que meio que... bati nele.

– Meio que bateu nele? Então isso já vem acontecendo faz um tempo?

O delegado se mantém de pé perto da mesa só ouvindo. O oficial Ramos que fica sentado, a minha frente, anotando o quer que seja, não dá pra olhar ou espiar. Ele me olha estranho às vezes – deve me tachar de louca – então penso ser melhor ficar na minha só respondendo suas perguntas. Ele me acha louca o suficiente.

– Não muito. Foi segunda-feira. Ele queria conversar comigo, só que ele não soube expressar isso muito bem... ele me seguiu. Eu achei que era um assaltante, aí bati nele... O curativo que ele traz no nariz foi da porrada que dei.

– Como sabe que ele te seguiu?

– Ele me disse. Disse também que tinha uma vigia na minha faculdade... achei que era blefe, sabe, mas descobri ontem que era verdade...

– E você insiste em não prestar queixa depois de tudo isso?

Ele olha a folha de anotações dele cheia de rabiscos e sua sobrancelha se ergue enfaticamente. É, o caso não é tão simples. E é ele que lida com os malucos dessa sociedade, eu devia parecer muito da normal, isso sim.

– Eu sei, parece coisa de maluco. Mas eu posso explicar.

– Pode falar. Essa eu quero ouvir.

É a primeira vez que o delegado fala. O tom dele não parece muito profissional, tenho que destacar, apesar de ele parecer sério. O que será que ele quis dizer com isso? Bom, ele é delegado e eu tenho que responder, né? Será que eles gravam essas conversas? Melhor deixar isso de lado, nem começar a procurar câmeras, já tive bastante confusão pelo último vídeo.

– Então... quando meio que o arrastei pra dentro de casa, confesso que não estava bem das ideias, pois eu poderia ter feito o contrário, mas não o fiz... ou pensei. Num dava tempo.

– Espera. Fomos informados que o homem invadiu a casa e a mantinha presa.

– É, isso prova que ouvir de um e de outro compromete a história original, porque Vinícius avisou meu irmão, e este que chamou a polícia. Na confusão tampouco somos muito coerentes, como estou falando, o que acho que para vocês, policiais, é um trabalho mais difícil de investigar... ponto de vista é algo muito relativo para lidar.

– Volte ao ponto principal, senhorita.

Oficial Ramos aponta a caneta para mim e depois para o papel de suas anotações. Certo, ser sucinta. Se eu começar a divagar demais vai parecer que eu tô enrolando e sobra mais trabalho para o escrivão.

– Pois sim. Meu intuito era de separá-los de vez. Eu não ia bater neles, né? Queria era parar a briga... Sem muitas ideias, quando consegui afastá-los, empurrei Filipe para minha casa e deixei Vinícius plantado na calçada. Eu sei, eu sei, não foi muito genial. Ouvi quando ligou para meu irmão, disse que ia pular o muro, então eu não tinha muito tempo para falar com Filipe.

– E se esse Filipe fosse violento com você? Considerou isso?

– Não exatamente, mas... poxa, eu estava na minha casa, sabia onde estavam os utensílios como... facas e gafos, tesouras, sem falar dos vasos e copos. Na merda a gente pode até não pensar muito bem, mas... opa, desculpa, falei “merda”.

Coloco uma mão na boca e no mesmo instante olho para o escrivão digitando tudo. Esse cara é ligeiro, viu! Ainda bem que ele ganha por isso...

– Sem problemas. Continue.

– Mas eu... estava em vantagem. Se fosse necessário para minha defesa, eu ia apelar para qualquer coisa, o que me tivesse ao alcance da mão. Como eu falei de segunda, eu tinha poucos recursos, mas eu pensei em cada um quando senti que ia ser “assaltada”. Eu pensei na falta da minha sombrinha, na falta do salto da minha sandália, e considerei meu caderno. De fim, usei o clássico... o punho. Depois dessa, saímos para conversar.

Vou enumerando cada detalhe puxando pelos dedos da mão, dando ênfase dos meus planos de defesa. Sou louca, confesso, mas eu pelo menos considero minhas chances de defesa. Só que é tudo tão ligeiro que o detalhe do pós-assalto sai e eu pude, por um segundo depois de dito, prever a cara que o oficial fez:

– Você ainda saiu com ele?

Mais uma vez estava ali aquela sobrancelha acusadora, sobressaltada. Meu irmão desse jeito poderia trabalhar de policial, porque ele tem no estoque de expressões uma dessas... de geralmente quando faço besteira, e até quando não é besteira. É uma sobrancelha muito julgadora e eu não gosto dela. Sempre é seguida de uma expressão facial assustada. Eu já disse que tem hora que não penso muito, mas também não precisam me acabar assim.

– Eu tinha que saber o que ele queria, tio... quer dizer, seu policial.

– E o que ele queria?

– Bom, pra resumir, existe uma rixa entre os pais do Vinícius. Eu sinceramente gosto muito da mãe dele, porém, quanto a seu pai, não sou muito fã. Mas eu sei, vejo, sinto que eles o amam, por todos os erros que cometeram no passado. Digo em relações sociais, não necessariamente criminosas. Filipe queria que eu ouvisse sua versão da história, pois faz tempo que eles... brigam pelo amor do filho. Estou dizendo, é um longa história... nem eu sei toda. O fato é que, Filipe estando separado do filho tentou de tudo para se manter próximo, por isso que ele nos seguiu.

– E você acredita nisso?

– Sinceramente? Acredito. Tenho em mim o que acho verdade, sei discernir as coisas. Eu sei o que vejo. Por isso pra mim não vale a pena deixá-lo preso. Se for o caso de pena comunitária até vai, mas isso não.

– Você percebe que falando assim parece que está defendendo o acusado, não?

– Só porque parece não quer dizer que seja. Meu irmão também me fala essas coisas às vezes quando discutimos. Eu só sou fiel à história, porque, se pensar bem, se eu quisesse distorcer eu o teria feito e o trabalho todo ficaria para vocês. Acho que já estou sendo prestativa o bastante de falar pausadamente para o escrivão não ter problemas.

Eu tento facilitar o trabalho deles e eles me sacaneiam. Pode isso, sociedade?

Nem preciso dizer que depois dessa, os três riram. Discretamente, claro. O escrivão é o que mais me deixa confusa... ele parece aqueles guardas ingleses que as pessoas fazem de tudo para eles rirem e eles não podem. Mas será que o ele descreveu isso? Acho bom eu pedir uma cópia... só pra todo caso.

– Você parece se importar muito com os outros.

– Isso virou problema também? Quer dizer, não dá pra exigir algo bom do mundo se você mesmo não faz.

– O que aconteceu enquanto você ficou com Filipe na casa?

– Só conversamos. Ele me contou parte das coisas que eu queria saber, que eu já falei aqui. O senhor pode até não acreditar, nem meu namorado ou mesmo meu irmão, mas... ele quis cuidar de mim.

– Como assim?

Esse policial Ramos é muito desacreditado. Se bem que se for conferir o cotidiano dele e por tudo que ele tem que passar, eu devia dar um crédito a ele. Outra razão que eu acho que não deveria ter chamado a polícia... eles têm trabalho pior pra lidar. Mas para explicar eu tenho que contar tudinho, mesmo. E falar de minha fobia nunca é agradável pra mim. Assim fico cabisbaixa novamente, olhando para minhas chinelas... que bem precisam de uma lavagem depois de ter pisado na lama quando cheguei à delegacia. Claro que isso eu não ia comentar com os policiais.

– Tá, essa parte eu odeio... E-eu tenho uma...errr ... fobia, de trovões. E bem na hora que nos tranquei, começou os trovões e... minha crise. Ele tentou me ajudar. Foi aí que ele começou a me confessar as coisas.

Ramos me olha, assim, bem diretamente. Quando isso vai acabar mesmo? Eu quero ir pra casa. Essa luz me incomoda. Tudo me incomoda... Foi só eu pensar isso que ele arrumou os papéis e me deu uma boa notícia:

– Por hora acho que basta. Vamos colher o depoimento de seu namorado e irmão.

– Filipe vai ficar preso?

– Só se fizerem alguma queixa pertinente a ele. Quanto às queixas sobre a briga e os golpes que ele levou parece que ele também não vai acusar o filho.

Saio aliviada de lá. Na porta encontro Vini. Ele é o próximo. Parece que ainda vou demorar por aqui.


~;~



De volta à recepção, meu irmão me abriga nele. Céus, a gente devia pensar melhor no que se faz no momento de desespero. Sofro só por imaginá-lo dentro de um carro, sem saber o que fazer, pra onde correr, com quem falar... Só teve uma vez que chegamos a ficar separados numa briga feia que tivemos. Foi tão épica que para voltarmos a ser irmão e irmã de novo, a coisa toda durou meses. Quem vê pensa que fomos assim agarrados o tempo todo, como uma vez Djane comentou comigo, mas só eu e ele sabemos como o nosso passado foi duro. Ter o que temos hoje foi batalha, de ambos lados. Às vezes acho que é por isso que ele é tão protetor. Nunca realmente perguntei isso a ele, não quero levantar ou pensar de novo naquela época, foram muitas conturbações. Mas superamos, isso é o importante.



Falando em proteção... acho bom abordá-lo quanto a minha história com Vinícius. Ele merece essa consideração de mim. Mas antes melhor eu saber se Djane está a par do caso.


– Djane já soube? Falou com ela?

– Na verdade não... Vinícius estava aqui e eu não quis que ele ficasse chateado. Tivemos estresse o bastante hoje. Ele ligou para o avô dele, que está a caminho.

– Hum. Seu Júlio deve ter ligado para ela. Pra todo caso, eu vou ligar. Agora que me sobrou tempo para chamá-la.

– Você acha uma boa ideia?

– E quem ligou para nossos pais foi você. Devem estar malucos essa hora.

– Milena, às vezes eu queria viver nesse seu mundo despreocupado...

– Assim como eu queria às vezes ver através do seu mundo, porque você faz cada coisa, viu, que se for contabilizar...

– Eu? Foi você que se trancafiou com um psicopata!

– Quer mesmo disputar quem é o pior na história? Esqueceu que eu sei dos seus históricos de fazer merda?

– Você sempre dá um jeito de contornar. Típico.

– Você que sempre dá um jeito de eu parecer pior. “Típico” digo eu.

É desse dinamismo que eu gosto. Temi por um segundo ter perdido, mas sorrio levemente por saber que isso eu não perdi e talvez não perdesse nunca. Amo meu irmão, mesmo ele sendo esse tratante comigo. É porque ele se importa, demais. Por isso que, depois que consigo falar com Djane, já a caminho da delegacia, eu acho bom me abrir com ele. Quanto ao caso do Vinícius, digo. No mesmo banquinho de outrora, eu alcanço suas mãos para mostrar que era importante.

– Hã... Murilo...

– O que? Precisa de alguma coisa?

Ele coça os olhos, meio distraído como se eu o tivesse pegado num momento bem pensativo. Murilo, pensando? Dia estranho.

– Não, é que... quanto ao que os policiais se referiram, ao meu relacionamento com Vinícius... eu...eu...

– Eu sei.

– Sabe? Sabe o quê?

– Que vocês estão namorando.

– Mas...? O quê? Como? Você não vai fazer nada?

Murilo brinca com meus dedos nos seus.

– Eu sei que ele realmente gosta de você. Nem precisa me dizer em palavras, eu vejo nos gestos dele, nas atitudes, no modo como sempre está por perto... eu confio nele. Ele provou ser digno de você.

Se eu disser que fico mais aterrorizada com ele falando assim, calmo, do que com ele gritando comigo, dá pra acreditar? Quer dizer... ele sempre me aterrorizou com isso, pegou no meu pé, no pé dos meus amigos e conhecidos, forçou a barra... e agora, tá assim? CADÊ MEU IRMÃO e o que fizeram com ele? Foram os aliens! Espera... estou acordada, não estou?

– Tá, não me olha assim. Só fico chateado por você não ter me dito antes. No outro dia ele tinha me falado sobre a Becca... bom, aí vocês tinham o caminho livre. Na verdade aporrinhei vocês no almoço para ver se vocês falavam alguma coisa... mas você sempre tenta esconder as coisas de mim. Me faz sentir um péssimo irmão...

Ele abaixa a cabeça e se centra em nossas mãos unidas. Faz carinho e aquela carinha linda que tanto amo. Ai que aperto no coração... Me sinto culpada.

– Own. Agora você me faz sentir uma péssima irmã.

– Eu sei, por isso eu usei esse tom e essa carinha de cachorro sem dono. Ai, Milena!

É, bater nele é mais que hábito. Talvez uma forma carinhosa até. Meio violento, mas por trás dele sei que entende o quero dizer no tapa que dou no seu braço. Sei que ele aguenta. Ele passa a mão no braço, mas o paro para lhe abraçar. Nunca pensei que seria fácil assim... Murilo comportado é algo a se desconfiar, porém, nesse caso em particular, acho que não devo questioná-lo muito.

– Safado. Te amo.

– Eu sei. Mas gosto de ouvir isso... Que me ama, não que sou safado.

Uma hora antes eu estava bufando de raiva, agora ele tá arrancando sorrisos de mim. Num banquinho de delegacia. Como as coisas às vezes parecem mudar rápido.

– Só me diz uma coisa... você gosta dele?

Deito a cabeça no seu ombro ainda abraçada a ele, sinto sua hesitação. Um meio que desconforto me toma, me deixa constrangida, o assunto sempre foi um campo perigoso entre nós. Algo me diz que eu devo seguir com o plano... ser sincera. Pelo menos dessa vez.

– Gosto.

– Quando eu perguntei da vez passada, você já gostava dele?

– Você disse que ia ser apenar uma coisa... Mas sim, gostava.

– Se bem me lembro, te perguntei e você disse não.

Começou a palhaçada. Sei porque ele ri no meu cabelo, fazendo um cafuné. Amo muito tudo isso. Dá pra acreditar? Eu quero guardar cada segundo desse comigo.

– Eu tava zangada naquele dia...

– Pedi que você fosse sincera.

– E eu fui... “sinceramente mentirosa”.

– Isso existe?

– Existe agora.

– Vou tentar me lembrar disso.

– E eu vou ligar para nossos pais.

Notas finais
Esse capítulo foi tão recheado que nem sei o que comentar. Mas e vcs, o que me dizem?

P.S.: Jimmy, da série Third Watch: http://3.bp.blogspot.com/_MrLDvq0GCFE/TRlie74I7JI/AAAAAAAAAd8/2emlgk7p5Tc/s320/EddieThirdWatch.jpg