Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
53 Capítulo 24
Notas iniciais
Foi tudo um sonho. É o quero acreditar quando abro um olho e vejo a luz do sol se jogar no meu quarto pelas frestas da minha janela. Mas nem o Ryan me deixa, meu celular que me acordara, continua tocando incessantemente. Sinto meu irmão se mexer na cama, sono pesado de uma noite difícil. Quando consegui chegar a minha cama depois de todos sermos liberados na delegacia, só fiz um esforço de tomar banho para trocar de roupa, pois eu queria conforto e algo quentinho para a noite fria que estava. Meu irmão não deixou. Insistiu que eu tomasse uma sopa que ele tinha comprado... então tomei, escovei os dentes e me joguei na cama. Parece que tudo doía, estava muito cansada.
Olho para meu celular vibrando na cômoda ao lado direito da cama e tento unir forças para alcançá-lo. Só que antes que eu consiga isso, o Ryan se cala. E eu o agradeço mentalmente. Quem quer que seja, vai ligar depois... espero que mil anos depois e me deixe voltar a dormir.
Aconchego-me ao travesseiro, entrego-me ao lençol nessa manhã ainda friazinha. Deixo que meu corpo mantenha o estado de relaxamento, buscando o sono que o celular parecera ter me roubado. Ele não volta a tocar, tampouco meu sono volta a me levar. Assim, abro os olhos novamente, incomodada com a claridade presente no ambiente e fico observando o sono sossegado do meu irmão... que ronca baixinho e nesses primeiros minutos acordada já me faz rir.
Ele disse ontem que não iria me largar e não me largou. Se fosse possível entrar no banheiro comigo, ele o teria feito se eu não impedisse. Nem quero pensar nessa possibilidade... É uma imagem desagradável demais. Só teve uma hora que ele me deixou, que foi na hora dele fazer seu depoimento, aí foi inevitável. Mas me deixou com Vini, e neste ele confiava. Confia.
Cumprindo ainda seu papel, mesmo depois de eu deitar, ele deslizou para meu quarto. Murilo, não o Vini. Eu estava tão cansada que era bem capaz de me afogar na sopa, então não estava muito coerente para falar qualquer coisa ao meu namorado. Isso eu sei que ele notou. Eu só disse uma coisa para ele antes de ir definitivamente para meu quarto... espero que ele não tenha me ouvido, porque, como eu disse, não estava muito lógica pra ser levada a sér... ai não, acho que disse a ele para ver o conteúdo do CD! Ok, essa é uma boa hora para a cena que tenho na cabeça ser um sonho:
– Eu queria entender o que tinha em mente quando fez aquela loucura.
– Isso que é o negócio... porque eu não pensei muito mesmo não. Tem coisas que a gente só vai lá e faz, não dá tempo pra pensar.
– Não sei se consigo te imaginar sendo levada por isso... quer dizer, você às vezes parece pensar em cada detalhe.
– Bom, olha aquele CD que te entreguei e depois me diz isso.
Bom, se ele viu, já era. Eu ia contar para ele um dia mesmo... eu acho. Só pensei que não seria tão cedo assim. Ele sabe, de qualquer forma, que não pode comentar sobre esse vídeo... e se realmente o viu, entende agora o porquê. Ter Murilo do meu lado tão inconsciente me leva a comparar a cena do vídeo com o dia anterior. Como quando eu peguei o tal objeto do hospital, sem muito que pensar, eu tive a ideia e fiz... rir foi lucro; dessa vez, no entanto, eu tive prejuízo.
Tá, eu tive só um mínimo lucro, mas esse Murilo não quis muito me creditar. E tampouco agradeceu. Quando eu estava a um passo da inconsciência, o quarto escuro, eis que a porta se abriu e uma pouca claridade branca de celular se mexeu adentrando o local. De primeira logo o identifiquei – claro, Vinícius não se arriscaria tanto; e se arriscasse, eu o chutaria do quarto por tentar. Mentira, só ia dar um jeito de ele voltar ao quarto dele normal antes que meu irmão nos pegasse e eu estava cansada demais para uma nova briga – mas Murilo logo se entregou. Parece que bateu o pé na outra cômoda ao lado da minha cama, no da esquerda. Praguejou baixinho. Foi um barulho estranho, por isso levantei minimamente a cabeça do travesseiro e perguntei:
– O que foi isso?
– Putz... Sua cômoda me lembrando de que existe dedo mindinho no meu pé.
– Que gentil da parte dela.
Evitei rir. O cansaço ia me levando aos poucos para o outro lado.
– É. Hã... eu... eu posso dormir aqui?
Estranhei ele ter hesitado. Mesmo quando ele está com problemas, ele se mete na minha cama sem nem falar, muitas vezes só faço o encontrar.
– Me admira você perguntar. Você costuma se jogar primeiro, depois pergunta.
– Assim você me faz parecer que sou sem modos.
Ele se senta na ponta da cama, de costas para mim, do lado esquerdo que sempre deixo vago, tentando enrolar algo que ele tem dificuldade em falar. O que poderia ser, eu tentava imaginar.
– Deve ser porque na maioria das vezes você é.
– Agora você me faz parecer pior.
– Eu sei. É estranho gostar de fazer isso...
Ele deixa o celular na cômoda e se aconchega mais na cama, também cansado. Quando ele me puxa pela minha mão, penso que no final das contas ele queria carinho, como na outra noite, porém ele abraçou meu braço perto do rosto. Logo eu pude ouvir uns fungados baixos e sua respiração pesada batendo na minha mão. Ele estava chorando.
Com a outra mão, fiz carinho por sua face, seus cabelos. Queria tirar aquela tormenta dele, que também me deixava na vontade de chorar. Eu não queria mais isso, eu só queria descansar... mas a aflição não parecia deixar seu peito.
– O que foi agora? Por que está assim?
– Porque eu... e-eu quase te perdi hoje. De novo.
– Own, maninho... não aconteceu nada, eu tô inteira.
– Mas e se... se ele tivesse fei-eito alguma coi-oisa?
– Eu teria me defendido, oras, como sempre fiz. Nem que eu fosse tacar o jarro da mamãe na cabeça dele, eu o teria feito e você sabe bem disso.
– Não brinca com isso, Mi, eu fiquei louco... Transtornado quando soube.
– Então o que você quer que eu diga? Que eu ia ficar a mercê dele, esperando um golpe? Não, eu ia lutar se preciso... mas sabia que não precisaria.
– Como você poderia saber? Ele...
– Porque eu sei o que vejo. Filipe não era bem o problema que vocês tinham em mente... tudo isso não passou de um mal-entendido.
– Mal-entendido? Ele te persegue, te vigia, te ataca... e você me diz mal-entendido?
Pra reclamar ele deteve controle da voz. Infelizmente estávamos no escuro, então ele não podia ver o revirar de olhos que dei. Tive que sugerir isso pela voz também.
– Sim. Olha como você está vendo as coisas... não foram bem assim que se sucederam.
– Tá, e ele queria te vender algodão doce né? Ou te levar para conhecer o Papai Noel? Como você acha que eu me sinto se não pude estar lá por você?
– Calma, maninho, calma. Estou bem aqui, do seu lado, inteira. Não dá pra dizer que “sobrevivi para contar história”, se não havia de fato perigo para se sobreviver, mas eu sei que ainda há muito para se contar e que dessa vez eu vi muito mais do que eu estava enxergando antes.
– Como assim? Que papo é esse? Claro que havia perigo, deixa de tentar amenizar as coisas, Milena!
– Deixa você de complicar as coisas, Murilo. Sabe o que foi aquilo? Um ato de desespero... o caso maior é da relação de Filipe com Vinícius e você sabe. Eu não ia deixar os dois se matando na minha frente.
– Ah tá, aí você se oferece para sacrifício, né?
– Poxa, claro que não... sei que o que fiz foi errado, então dá pra parar de ficar jogando na cara? Vocês estão esquecendo o porquê de tudo isso por me colocar a frente de algo que nem realmente aconteceu.
– Mas achamos que estava em perigo, oras! Você queria que fizéssemos o quê?
– Qualquer coisa, menos chamar a polícia!
– Mi, não vamos começar de novo... eu... eu ainda estou abalado com tudo isso. Me deixa só ficar aqui e não falemos mais sobre isso agora. Eu quero crer e te ter aqui, saber que tudo acabou bem.
– Eu sei que não importa o que eu disser, você não vai me ouvir quanto a isso... deixemos pra lá mesmo.
Beijo-lhe a testa, as mãos, para acalentar sua fragilidade. Também me doía, assim como me doía o fato de ele não me ouvir e querer entender as entrelinhas do que tinha acontecido. De qualquer forma, eu também estava tentando ver o lado dele... Quer dizer, eu o entendo, tanto que já assumi meu surto nada criativo e pedi desculpas pela besteira que fiz... talvez esperar isso dele me tomasse um tempo mais.
Um bip soou de seu celular que iluminou o quarto escuro. Como ele não se mexeu, eu passei por cima dele para alcançá-lo. No visor estava uma mensagem que dizia ser de Aline, mas sendo eu bem educada, não abri, só entreguei a ele.
– Por que que ela tá mandando mensagem a essa hora? E pra você?
Ele olha a mensagem sem me mostrar e recoloca o aparelho na cômoda.
– Ela estava comigo no carro na hora que Vinícius ligou... ela também se apavorou. Tive que a deixar no meio do caminho para poder correr para casa. Quando chegamos ainda agora, vi que tinha mensagem dela, perguntando como tudo estava. Disse também que poderia me dar uma licença nessa sexta, que eu não precisaria me preocupar. Respondi que tínhamos acabado de chegar da delegacia, que você estava salva e agradeci pela licença... eu precisava disso. Agora ela só confirmou que vai falar com o R.H. pela manhã.
Quando digo que ele não consegue ler as entrelinhas das situações, ele não acredita, pois mais uma estava ali piscando para ele, e ele nem tchum pra perceber. Aline estava preocupada com ele, estava se importando com ele, estava dando atenção... Tudo que ele queria e armou para conseguir horas antes quando me levou para o centro de meteorologia! Não disse que as coisas tinham que ser vistas e não ditas, não disse? Bom, ela viu parte da situação e percebeu que ele não era um cara tão ruim assim, não foi? Murilo não queria aceitar.
– Eu preferiria que você não tivesse que passar por isso para ela ver um outro lado de mim.
Ele resmungou chateado. No entanto, eu sabia que de fim eu estava conseguindo dobrá-lo de novo... era melhor deixar para lá toda a loucura, tivemos muito para um dia só. Chega de coisa ruim.
– Mas se eu tive que passar, pelo menos algo de bom dá pra tirar disso, não?
– Não. Você não vai deixar isso parecer uma boa coisa, porque não é.
– Claro que não é uma coisa boa, é só que... isso foi apenas um lucro. Isso da Aline, digo. Eu sei que você tá comemorando mentalmente agora, não está? Eu tô sentindo sua mente maquinar...
Passei um dedo na sua testa brincando, eu tinha no meu íntimo a certeza de que ele havia gostado dessa postura de Aline para com ele, isso ele não consegue me enganar, mesmo estando no escuro não dando pra ver sua expressão. Mais calmo, fungou, se remexeu no colchão e, daquele seu jeito, me respondeu emburrado.
– Num tô não.
– Tá sim.
– Num tô não...
– Vamos dormir, eu não quero ficar a noite toda dizendo que sim.
– Só dizer que não.
– Mas que tá, tá sim.
Se não fosse pelo escuro do quarto eu podia apostar que ele estava rindo. Dormiu rápido acho, comigo fazendo carinho. Ou eu dormi primeiro e não vi mais nada. Só sei que dormi e quando o Ryan me acordou, pra mim não tinha passado a noite, parece que eu tinha dormido uma hora ou duas, apesar de me sentir descansada.
De qualquer forma, não consigo mais dormir. Antes que o Ryan volte a cantar o Good Life dele, eu me sento na cama e pego o celular. Pelo visor, são 8h30 da manhã e o número é da casa dos meus pais... poderia ser qualquer um deles, preocupado ainda comigo. Na noite passada eu falei com eles ainda na delegacia e expliquei parcialmente a situação, só para acalmá-los. Me levanto logo e dou uma passada no banheiro.
Ao chegar na cozinha, pensando na coragem que tinha para fazer o café da manhã, eis que dona Bia se materializa lá, preparando tudo à mesa. Desconfiada de estar sonhando, me pergunto se hoje é sexta mesmo... porque às sextas-feiras é a folga dela.
– Dona Bia, o que está fazendo aqui? Hoje não é dia de a senhora trabalhar.
– Ô menina Milena, eu queria ver se estava tudo bem... eu soube sobre a invasão.
Lamentosa, respondo à senhora que se aproxima de mim e parece tranquilizar-se ao ver-me melhor. Dona Bia trabalha há tão pouco tempo conosco e já se afeiçoou. Mas ninguém nunca me disse por que tanto me chamam de “menina”. Não sou criança e minha estatura é mediana, nem alta, nem baixa. Posso classificar isso como uma forma carinhosa de tratamento? Para todo caso, ficaria mais feliz se adotassem outra expressão afetuosa... apesar de não ter ideias de quais pudessem ser.
– Ah, os vizinhos comentaram, né?
– Não, apareceu no jornal local antes da novela das sete. Fiquei tão preocupada quando vi a reportagem.
– REPORTAGEM? JORNAL LOCAL? Eu num acredito!
~;~
Parece que estava vivendo o dia do pós-ataque de cachorro na casa da Natália, em que todos me perguntavam o que tinha acontecido, se eu estava bem, comentavam do horror da violência nos dias de hoje. Quando sentei numa cadeira antes da aula de Marketing, lembrei de Bruno ter falado uma vez que daria um abraço naquele que não perguntasse mais nada... Eu estava fazendo o mesmo que ele, mentalmente.
Principalmente sabendo que tinha saído no jornal televisivo – duas vezes – e uma no impresso – uma que eu sei, porque vi dona Bia com o bendito na mão. Pelo que ela me disse, os repórteres chegaram logo depois que eu saí para a delegacia, eles mal pegaram a real confusão... a matéria praticamente se resumiu em relatos dos vizinhos, num sensacionalismo carregado do clássico moderno “como esta sociedade se apresenta” e “não há mais segurança dentro de casa”.
Quanto ao impresso, parece que a polícia tinha cedido mais informações para abrir a manhã do novo dia. Mas não cheguei a ler ou assistir, pra mim era demais.
Nesses dias que a gente reza para ninguém assistir ou ler jornal é que parece que todos assistem ou leem. Tantos me abordaram quando cheguei só na portaria da faculdade, nem sabia mais o que responder, pois se meu irmão sabendo de tudo que acontece da confusão sobre a família de Vinícius não quis me dar ouvidos, imagine explicar para todo mundo o que tinha acontecido. O jeito foi contornar, não falar exatamente do incidente, agradecer a cada um por ter perguntado, embromar uma coisa e ali...
Eu mandei logo a real quando falei com Flávia – ela me ligou desesperada quando viu a notícia pela manhã. Aproveitei e relatei tudo de uma vez, precisava desabafar com alguém, melhor ainda o fato dela não estar diretamente metida na história. Como fiquei trancada um tempo no quarto, foi fácil deixar tudo rolar. Como meu namorado e meu irmão tiveram folga do dia todo – sim, os dois conseguiram folga juntos – toda hora Murilo ficava me avaliando, me rondando, perguntando se estava bem mesmo.
Cheguei a ser malvada com ele, uma hora eu estava terminando a atividade para a aula de hoje quando ele me abordou... eu soltei os cachorros nele por tanto perguntar. Ele tava me estressando com tudo isso, não consegui evitar, fiquei emburrada mesmo e me tranquei no quarto.
Quem foi lá apaziguar? O lindo do meu namorado. Um toque dele e eu... emburrada? Quem disse que estava emburrada? Na verdade, eu fiquei constrangida, porque ele tocou no assunto do vídeo.
– Eu vi o que tinha no CD... o vídeo, mas eu não entendi bem. Quer dizer, o que tem demais nele para todo o suspense que o envolve?
– É uma longa história.
– Eu tenho tempo.
Ele deu de ombros.
– É, mas eu não quero que “outra pessoa” saiba.
– Hum.
E nessa hora que o empata do Murilo surgiu, ditando regras. Sim, REGRAS.
A professora de Marketing, Amália, tenta puxar os alunos para a discussão dos pontos trabalhados na atividade, quanto ao atendimento de instituições a seu público e como conciliar de forma que haja um ganho para ambas as partes, ideias que movimentam o mercado e estratégias ideológicas que o marketing perpassa... Mas quando o babado é bom, a gente sempre dá um jeito de enrolar professor e conversar num cantinho. Digo, apesar de a sala estar disposta num círculo para discussão, cá e lá ocorrem umas conversas paralelas e a maioria delas pode se creditar a mim e Flávia.
– REGRAS? Como assim, regras, Mi?
Sabe aquele grito sussurrado que chama a atenção dos colegas próximos de você e te deixa desculpando-se pela interrupção? – é estranho falar em “grito sussurrado” eu sei, pois parece um daqueles paradoxos sem solução, mas se pensar bem, eles acontecem muito quando se pasma por algo e não dá pra falar isso alto. Flávia nos denuncia soltando um desse. Tenho que esperar uns 15 minutos, fazer as pessoas nos esquecerem para que eu poder falar o caso para Flávia que aconteceu depois da ligação dela mais cedo. Volume mínimo, claro.
– Pois é, como agora assumimos um relacionamento e estamos vivendo sob o mesmo teto, Murilo disse que ele era o homem da casa e nós devíamos seguir as novas “gerências de relacionamento”.
Uma disfarçada, um rabisco no caderno, um assentir para Marcinha que defende as ideias disseminadas nas propagandas a fim de idealizar situações para vender produto, serviço ou ideia de algo. Uma conferida também na professora pra ver se dá pra continuar a falar pra minha amiga, grudada na minha carteira.
– Vinícius, que está a mercê de nós, vivendo temporariamente na nossa casa, teve que concordar... e eu, até que queria bater de frente, mas estava numa coragem para debater que preferi logo ouvir o que esse menino tinha a dizer. Acredite, eu quis rir quando ele citou regras.
– Bom, acho que não esperaria menos do seu irmão.
De fim, não podemos ficar sozinhos em casa, não podemos ficar um no quarto do outro, o namoro tem que ser controlado e não ficar se esgueirando pelos cantos, nem ficar deitados juntos no sofá. Isso e tantas outras coisas mais que eu tive que rir um sorriso meio nervoso para não demonstrar meu embaraço tendo meu irmão explicando os detalhes. Vinícius só balançou a cabeça e ora e outra quando Murilo falava as coisas, ele fazia umas caras e bocas engraçadas, uns bicos, carinhas tristes, e retomava à postura quando meu irmão olhava. Isso ele fazia conosco no sofá, sentado na mesa da sala nos ditando as normas da casa. É pouco?
– Senhorita Milena, algo válido para adicionar ao que o colega explanava agora há pouco? Algo que tanto conversa com senhorita Flávia?
– Na verdade sim, professora. Flávia estava falando do ponto de agressividade do mercado quando impõe a compra do seu produto... e eu estava aqui respondendo que vi uma propaganda que retrata mais ou menos essa ideia de agressividade, mas que encontra no humor a sátira quanto a essa ideologia. A propaganda era de queijo se não me engano, de uma marca Panda, não sei de que nacionalidade é, só procurar no youtube “say no to Panda”. A ideia passada é de que ninguém pode dizer “não” ao “Panda” quando oferecido, pois se caso o fizer, um panda aparece e te ameaça ou te maltrata. Por mim falando parece uma coisa absurda e exagerada, porém, se todos forem verificar a propaganda de fato, dá pra perceber que foi um risco atentar por esse lado de coagir o público e, com esse toque do humor, eles conseguiram conquistar destaque.
Professora Amália me joga aquele olhar duvidoso, desconfiada durante toda minha exposição sobre o fato de realmente estar conversando sobre isso com Flávia, isso dá para sentir. Porém, se você tem algo com que enrolar, amiga, vai fundo que é lá que a coisa toma forma. Conseguir isso não é tão difícil, tampouco simples demais, tem, pois, que deter um pouco de voz de discurso para tomar a atenção e abafar aquilo que o outro atentou a puxar a orelha.
Pelo menos quanto a isso eu sei sobreviver bem, tendo diariamente treinos com Murilo, distraindo-o do que ele realmente perguntou, levando-o para outros papos bem discretamente... Amália desconfia, claro, por uns 10 segundos, mas se engoliu ou não, ela não demonstra bem, apenas segue com a discussão. E elogia ainda o ponto mercadológico que joguei.
– É uma ótima colocação, meninas, contrapõe-se ao que o colega discursava quanto à passividade um tanto clichê do mercado nas propagandas, que uma hora busca pelo diferencial, aquilo que espanta e que quer se manter na boca das pessoas como aquela história de “fale bem ou mal de mim, mas fale”. Só porque o mercado quer que as pessoas consumam, eles não vão se submeter totalmente aos anseios de seu público, ele vai querer mostrar os anseios dele também, nem que precise mostrar isso de forma nua. É, de fato, uma estratégia perigosa. O efeito daquela propaganda dos “pôneis malditos” foi semelhante... deu o que falar, apesar de não necessariamente se impor, se considerarmos a versão que foi difundida nas televisões. A versão estendida que rodou na internet trabalhou com a imposição, a agressividade e o medo de forma cômica e ameaçadora. Como todos podem ver, ter muitos desejos a atender é ter jogo de cintura para...
– De onde mesmo tu tirou essa história toda mesmo?
Flávia sussurra pra mim o mais discreta possível enquanto a professora aproveita para fazer umas anotações no quadro e mexe no seu notebook para procurar no youtube o vídeo que citei, assim como o que ela mencionara segundos atrás. Gui também se surpreende com “nossa” resposta, era ele quem estava na vez de falar. Para ele só dou de ombros, triunfante, e para Flávia, meio dispersa, eu continuo a falar:
– Tem costume que é difícil largar, assim como por muitas vezes é bem útil.
– Eu sei que não vale a pena perguntar, mas só pra constar... você se refere ao Murilo também?
Flávia cobre o riso com as mãos sabendo bem a resposta.
– Amiga, às vezes acho você sensitiva. Mas hoje esse encargo é meu.
– O que quer dizer?
Ela acha que eu não percebi. Desde a hora que topei com ela no corredor antes de entrar na sala vi algo diferente, só não quis abordar logo de cara. Não era bem avoada, ela estava... como se tivesse pensando longe e não vendo para onde ia. Se eu não a tivesse chamado, quem sabe ela não teria entrado na sala seguinte?
– Ok, qual é o nome dele?
– C-o-omo assim? Nome de quem?
Leve riso nervoso. Tá entregue.
– Desse aí que tá te deixando dispersa. Conheço?
– Quem disse que é alguém?
– Você, gaguejou ainda pouco.
– Ah. Num é ninguém não.
– Sei. Começa assim.
– E você sabe por experiência própria, né?
Tão difícil lidar com troca de papéis, sempre tem algo que recai sobre você.
Ô injustiça.
~;~
Injustiça mesmo. Apesar de não eu sofrer de curiosidade, Flávia se utilizou do mistério para me deixar voando. Quando finalmente começou o intervalo – pois parecia que o horário nunca acabava – tentei arrancar mais umas informações, no entanto, logo Dani, Bruno e Gui se juntaram a nossa mesa e dali não saiu muita coisa útil. Minha amiga se sentiu um pouco de fora por não poder ir à festa de Natália – seria inconveniente levar mais de um acompanhante a uma festa que, formalmente, eu não fui convidada. Se a coisa complicar, como ser barrada na porta, fico ou como acompanhante de Bruno também ou grito pelo guri irmão da aniversariante. Aproveitei a oportunidade para descobrir o nome do garoto, Roger, para saber o que gritar. – assim a convidei para ficar na minha casa hoje. Da última vez que fiquei na casa de Flávia, meu irmão quis fazer “escândalo” e, contando com os últimos acontecimentos, melhor eu ficar em casa e dar segurança aos “dois homens de minha vida”.
Ai Senhor, não acredito que os qualifiquei dessa forma... que isso nunca, nunca, chegue aos ouvidos dos dois.
Gui pediu para não fazermos invejinha, pois parece que sua mãe iria arrastá-lo para uma social daquelas chatas e não tinha como escapar, tampouco levar uma companhia para amenizar o caso.
– É, meu amigo, se ferrou.
– Po, Mi, aí tu já faz de propósito, né?
– Claro, sempre que puder.
Felizmente dia de sexta-feira são apenas 3 horários de aula, assim, quando voltamos do intervalo, praticamente contamos os minutos para acabar. Praticamente fechamos a disciplina, só falta virem os resultados e as boas novas – espera-se que sejam boas novas – o que dá aquela sensação de alívio, do mesmo modo que uma ansiedade de fim de ano bate. Fica cada vez mais evidente. E Flávia estava um pouco incerta de aceitar meu convite.
– Vamos?
Na entrada da faculdade, eu fazia carinha pidona pra relutante da minha amiga, batia os cílios e esperava por uma resposta. Uma resposta satisfatória. O frio do dia tinha amenizado mais, apesar de ter um vento refrescante.
– Outro dia eu vou.
– Não, vamos hoje.
– Eu... eu não quero ficar de vela.
– Nem tem como ficar... Murilo você sabe como é e é ele mesmo que vem nos buscar. O que quer que seja que você não está de boa para conversar, você sabe que não vou insistir... sabendo que tem alguém aí sim.
– Ai, Mi, tem hora que você inventa umas coisas que...
– Eu, né? Sei. Além do mais, eu quero ficar com minha amiga, não aguento mais essa história com aqueles dois debaixo do mesmo teto... Eu preciso me distrair e você também.
– Isso porque um deles é seu namorado, né? Imagina se num fosse...
– Quer que eu apele e te leve para um pagode? Olha que eu vô, daria tempo de chamar a galera.
– Não, não, eu vou, eu vou.
– Sabia que você ia escolher a resposta certa. Meu irmão deve estar chegando... espero que não demore. Queria ver o William hoje.
– E quem é William, senhorita Milena Lins Albuquerque Camargo?
Falar o nome completo ou é zanga ou é sacanagem. Para esse caso em particular, é a segunda opção mesmo.
– Oras, o protagonista lindo da novela, dona Flávia Ventura Maia... eu não assisto novelas, mas de vez em quando é bom dar uma checada para ver como ele anda...
Notas finais
Mas me diz se não bateu uma peninha dele hoje... Só não tenha pena demais, porque a cabeça dele não funciona bem quando damos carinho demais *falo mesmo*
Só sei que a temporada tá pra acabar e algo muito suspeito está para acontecer...
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