Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
193 Capítulo 88
Notas iniciais
Com as mãos juntas e firmes ao colo, fito o sinal vermelho infindável que basicamente me barra do meu destino: a reunião com Thiago. Quando finalmente abre, e o Murilo prossegue o caminho, que solto o ar que estava segurando.
Meu mano baixa um pouco mais do volume da rádio, que tocava sei lá o quê depois de eu ter trocado de estação umas vinte vezes, sem saber o que ouvir ou se ouvir, e tenta puxar assunto de novo. Dessa vez, sou educada de responder.
— Já tamo chegando.
— Eu sei. Eu só... Não entendo por que ele me pediu pra vir hoje e não antes, e vir cedo assim.
Para minha sorte, ou benção, não houve trovões no nosso lado da cidade durante a noite passada, assim deu para dormir mais sossegada, apesar de ter essa grande questão em mente.
— Isso que me bagunça a cabeça. Não acho que tenha a ver com as minhas faltas ou o atestado.
— Bom, hoje você vai descobrir do que se trata.
Chegar enfim ao estacionamento do fundo é ao mesmo tempo um alívio e uma bomba de ansiedade, de modo que me trinco mais de pura tensão. Sopro mais do ar quando o Murilo posiciona o carro bem próximo da entrada. Escolhi a portaria dos fundos para não ter que andar tanto pelos corredores e para poder encontrar com a Iara, que disse que me acompanharia nessa.
— Pronto, entregue.
Ouço o que meu irmão diz, porém, em paralelo, estou procurando, varrendo a área, pela ruiva. Cadê a Iara?Será que já entrou? Cato meu celular na perna para checar se teria mensagem dela. Pelo que olho rapidamente, tenho uns 12 minutos para recuperar o fôlego e bater na porta do Thiago às 8h30 em ponto.
— Lena?
— Oi. Só tô vendo se tem algo da I aqui... e não. Não tem.
— Quer que eu entre contigo?
O fato de ele oferecer isso e desligar o motor de repente é o que me faz apertar no botão para remover o cinto de segurança e ajustar logo a bolsa para sair.
— Não é preciso tanto.
Só que como tô nervosa, é claro que faço tudo de um jeito bem atrapalhado.
Para amenizar o clima, meu mano tenta outra abordagem, enquanto espia a portaria através de sua própria janela.
— Parando para pensar agora, eu nunca entrei aí. No máximo fiquei na porta lá da frente ou na daqui dos fundos.
Consigo ajeitar o cinto no lugar dele e abro a porta para descer.
— E não vai ser hoje... que tu vai visitar... Até porque tem que... ir pro centro... meterolo... meteoló...
Ô nome difícil nesse português nosso!
— Tu me entendeu.
Fecho a porta e dou a volta no carro, mas antes que possa caçar a Iara de novo por ali, vejo que o Murilo desce o vidro da janela dele.
— Esqueceu que eu tenho novos horários?
Dou um passo para me aproximar da porta dele, para que sossegue essas ideias.
— Justo porque tu mudou teus horários. Agora tem mais... responsabilidades.
Minha pausa se dá mais por ver uma moto entrar ao local e eu reconhecer a mochilinha lilás com marrom da Iara quando passa por nós. Apesar de estar aqui batendo boca com o Murilo, agradeço por ele ter vindo me deixar, pois eu não teria estômago de vir com minha amiga de moto. Ela ofereceu e eu fui delicada de dizer que o Murilo fazia questão. O que ele fazia mesmo.
— Pronto. A Iara chegou, já pode ir.
Murilo espia a moto que para mais à frente. Ao se certificar de que é mesmo a Iara, ele liga o carro.
— Me diz depois que horas tu vai sair, que eu venho te buscar.
— Tá bom, agora vai.
Só que ele não sai do lugar.
— Murilo, já pode ir.
— Tô esperando meu beijo, ué.
Levo à mão à testa, agoniada. Então passo aos cabelos, tentando recuperar meu juízo e não bater no Murilo. Afinal, ele me trouxe e tem estado tranquilo e gentil. Eu quero me manter tranquila e... e gentil. Eu não quero ser pega em briga esse ano, nem batendo em ninguém. Pelo menos não hoje.
Assim sendo, reúno toda minha paciência e canalizo a energia para não estraçalhar essa criatura que tenho por irmão e vou, me abaixo e dou um beijo estalado na bochecha dele, que sorri, ardiloso.
— Eu não disse que era o teu.
Se tive ansiedade, não tinha mais, pois a agitação que me tomava me sobe em forma de raiva borbulhante, pronta para rasgar ele em pedaços, a começar pelo seu sorriso sacana. Me resta grunhir e gritar a Iara para resolver logo isso e a gente poder entrar sem eu ter que enterrar um corpo antes.
— Vem logo, I, pra se resolver com esse daqui, senão eu não respondo por mim!
Ela, que terminava de trancar o compartimento do capacete, nos alcança em poucos passos.
— Que tem eu?
— Só beija essa criatura, tá, antes que eu meta um soco nele.
A coitada gira no calcanhar de mim, irada, pro Murilo, de sorriso angelical, sem entender nada. Mas, por fim, dá de ombros.
— Tá legal, então.
Murilo vira o rosto pra ela, apontando com o dedo onde deixar um beijo na bochecha e assim fecha o vidro e manobra o carro. Eu ainda fico uma pilha, parada, mesmo depois que o carro desaparece.
— Eu devo perguntar?
Inspiro um bom ar para me recobrar o espírito e abaixar o adrenalina.
— Melhor nem saber. Porque nem eu acho que sei explicar.
Com um passo, as portas de vidro escuro se abrem e a gente passa por elas. Mas travo novamente antes de seguir o caminho.
— Ansiosa?
— Demais. Não sei exatamente o que esperar. Até porque... alguém aqui... não quis me entregar o jogo.
Ontem, quando tava ajudando a fadinha a trocar o refil de algumas coisas no banheiro, toquei no assunto da empresa antes de mencionar a questão com o Thiago. Daí que ela foi soltando umas informações.
- Ainda tô me acostumando com a ideia de que não vou ser mais gerente executiva.
Ela, que apertava o refil do sabonete líquido como quem ordenhava uma vaca, apertando a embalagem para fazer o substrato esguichar no pote, desligou-se um momento em divagações... até falar certa coisa, que a despertou para o mundo, um tanto sorridente:
- E agora sou assistente do gerente financeiro. Que é... Você não vai acreditar quem é.
- Como assim?
- Deixa pra lá. Agora me passa o outro.
Balançando a mão livre como quem queria dispersar o assunto, ou mesmo dizer que não era nada demais, ela virou para conferir se tinha saído todo o conteúdo da embalagem.
Passei o segundo refil do sabonete para ela, porém, muito atenta.
- Conta isso direito, I.
- Mudanças apenas. Tu vai saber pra breve.
- É por isso que o Thiago me pediu pra aparecer amanhã de manhã? Cedo?
Ela se concentrou em checar o rasgo que fez na outra embalagem, pra poder impulsionar a vaca de novo. Quer dizer, o sabonete de dentro.
- I!
Ainda focada no sabonete que escorria para o pote, ela não quis detalhar muito.
- Me fizeram jurar, Lena. Se eu contar, vão fazer trote comigo.
- Eu te ajudo a se esconder.
- Quem dera se fosse fácil assim... Mas tu aguenta, Lena. Eu tô me convencendo que isso tudo é algo bom, então tu também tem que me convencer. Porque não é fácil de repente descer de cargo assim. Mesmo que seja por um bom objetivo.
Fiquei na dúvida se ela disse isso só pra me desarmar, mas acontece que me desarmou mesmo. Falou em objetivo, parei. E por mais que minha amiga estivesse empolgada, era uma mudança e tanto, em inúmeros níveis e ali ela tava me pedindo apoio. Então dei apoio. E foi aí que a Iara me ofereceu a carona. Disse que tinha umas pendências últimas para fazer a transição de trabalho e disse que poderia me acompanhar de boas.
Agora, enlaçando seu braço no meu, Iara me empurra com seu ombro.
— Vai valer a pena, te juro.
— É bom mesmo. Porque eu não quero ter que trucidar alguém hoje. Hoje não.
Caminhamos pelo corredor dos fundos, nem tão lentas e nem tão apressadas, só ritmadas. Estar de volta agora é até estranho, pois, me ambientando de novo, o local parece diferente, apesar de não ter mudado nada. Até os vasos de plantas estão nos seus lugares. Minha percepção pode estar sendo alterada pela ansiedade, é isso.
Fico tão agitada que quase trombo em alguém no primeiro cruzamento de corredores. Dá tempo de eu colar na Iara e desviar, em pura adrenalina, adrenalina alta demais para minhas expectativas.
— Eita que desse jeito vocês me levam!
— Também não é pra tanto, Thiago.
Tô tão alucinada que demoro a processar que a Iara tá provocando meu chefe e ele tá rindo todo malandrão. De prancheta ao braço, Thiago nos cumprimenta.
— É muito bom ver vocês hoje. E especialmente você, Milena.
Fico tão tesa ao chão que não consigo entrar na dele, só ser educada e olhe lá.
— Bom dia, Thiago.
Alguém chama a Iara de longe e ela se despede da gente com um aceno. Antes de ir, ela me sussurra uma “respira, que vai ficar tudo bem” e me aperta de leve o braço. Assisto ela desaparecer no outro corredor enquanto Thiago se mostra atento a mim.
— Como tá o pé?
Olho para baixo, mais por costume do que outra coisa quando alguém pergunta. Como o tênis se revelou bem macio para essa última fase de recuperação, tô apostando nele desde então. Mas como vim de vestido, dá pra ver uma parte do item ortopédico.
Com um fôlego a mais, consigo responder a gentileza dele.
— Tá quase inteiro. Tô agora com a tornozeleira de transição. Só não dá pra andar tanto, ou pelo menos fazer pausas e deixar o pé pra cima quando me sentar.
Thiago faz uma cara de quem se deu conta de algo e fala algo baixinho.
— É, essa acho que vou ter que falar pro Hugo.
— Quem é Hugo?
Meu chefe desperta do próprio devaneio com ele mesmo estalando os dedos, só que apontando para mim, animado de um jeito que não é costumeiro dele.
— Vem comigo.
Ando lado a lado com ele pelo corredor, num ritmo bom e que dou conta, só que estranho ele ficar calado e estranho mais ainda quando passamos da sala dele. Por fim, Thiago me leva à saleta privada da sala de reuniões. Assim que passo pela porta, ele se dirige à mesa e me faz sentar à sua frente. Uns documentos já nos esperavam por ali.
— Então, Milena... Hora da sua avaliação.
— A-avaliação?
Abrindo a pasta ao lado, Thiago vai se explicando.
— Sim, não fizemos no final de dezembro, né? Por conta da situação do seu acidente.
Meu cérebro parece parar e só meio que repetir o centro da questão.
— O acidente.
— Isso. Você parece surpresa.
Me ajeito ao assento, para poder ficar de lado e apoiar a perna na outra cadeira.
— Eu não tinha ideia... de que seria minha avaliação. Até pensei nas minhas faltas, apesar de não fazer muito sentido.
— Bom, você tinha um atestado, então isso de faltas foi bem coberto. A Carol acabou me dando bastante assistência, o que foi um ponto decisivo.
Pisco, um tanto desnorteada. Decisivo em quê? Vão me dispensar?
Não consigo perguntar e não consigo abrir a boca, nem pra saber como ou porque a Carol do Jurídico me cobriu. Thiago, no entanto, segue folheando um conjunto de documentos que tem junto de si.
— O que ficou pendente mesmo, Milena, foi a sua avaliação de estagiária. E ainda bem que não fizemos no final de dezembro, porque agora você teria que...
Ele pausa de repente e me olha.
— Quer saber? Eu tô me antecipando. Vamos apenas começar, tá bom? Aí te atualizo da situação.
— Tá bom então.
~;~
— Então é basicamente isso que temos agora. Ou você fica com a Manu, ou segue comigo, em outro horário, ou com o Hugo. Eu acredito que você tem competência para todas essas áreas, então a decisão tá realmente na tua mão. Como tivemos todas essas mudanças, as coisas andam um tanto caóticas e por isso também a Iara me pediu pra segurar a onda, porque tivemos que alterar de um tudo nessa empresa, e não daria certo com você ainda em recuperação, tendo que andar de um lado pro outro. Mas não se preocupe, que aquela ruivinha deu conta. Aquela ali quando encasqueta com algo, sai de baixo!
Thiago metralha tanta informação de uma vez só que fico sem ter o que dizer, ou como interromper, mas acaba que minha reação é de fazer caras e bocas de surpresa, sem pronunciar algo e nem me pronunciar em nada. Nem mesmo para agradecer a atenção dele comigo.
— Acho que te assustei, né, Milena? Muita coisa para um retorno.
Solto o ar de um longo fôlego afirmando que sim.
— Desculpa. Como te disse, as coisas ainda estão sendo reviradas por aqui. Mas eu vou precisar da tua decisão pra logo. Não queria ter que te colocar nessa situação, só que também fico de mãos atadas, sabe? Preciso da tua decisão em até uma... duas... Duas horas. Pode ser?
Encaro o meu agora ex-chefe, ou possível chefe, e considero o que me diz. Considero tudo o que me disse. Que eu passei na avaliação e sigo como funcionária, em estágio de meio período. Isso, pelo menos, foi meu resultado até o final de dezembro, um pouco antes do recesso, e então o cenário mudou outra vez.
Porque, com a saída oficial do Sérgio, e também a transição da Iara, o quadro de executivos ficou desfalcado e precisou ser reorganizado. Thiago ganhou uma promoção de última hora, saindo do setor de Consultoria para a Gerência Financeira, e a Iara desceu de cargo, agora assistente de meio período dele.
Se eu quiser me manter trabalhando com ele, eu poderia ficar como meio período em outro horário, tendo eu que me articular com a Iara, para que uma fique no turno matutino e outra no vespertino, o que faria eu e ela nos desencontrarmos totalmente nos nossos horários e nos da faculdade. Isso não é (e nem dever ser) meu guia de decisão, mas levo em conta mesmo assim. E não daria certo, porque bagunçaria demais minhas programações, além das dela. E ela já me ajudou, já me favoreceu tanto, para no fim eu fazer um negócio desses. Não, nem pensar!
A outra opção seria eu me manter no setor de Consultoria com a Manuela, que antes era do setor Jurídico. Só que ela vai precisar de alguém em regime integral e isso dá conflito com a faculdade e a fase da monografia. Eu não teria como me comprometer com algo assim, ainda mais que a Manuela tem fama de sugar a alma de seus colaboradores. Toda vez que eu passava lá no Jurídico, eu via coisas que não desejava para ninguém – tá, talvez para algumas pessoas. Não à toa a Carol se voltou pro lado do Thiago quando precisei me ausentar. Foi quase um pedido de socorro.
Por isso também a recomendação dele, que se não é de ficar no time dele, é de eu seguir com o Hugo, um novato na Gerência de Logística. Thiago também prefere me repassar a esse tal de Hugo porque o cara vai precisar de um alguém que conhece a cultura da empresa e as conexões dos setores. Ele até lembrou do caso que eu fui atrás dos motoristas e colaboradores das entregas para discutir e resolver alguns conflitos.
Ou seja, eu sei como a banda toca e posso situar melhor esse Hugo, que vem da filial do interior. Fora que seria uma baita oportunidade para explorar mais um campo da empresa e algo que tenho certa afinidade. Eu não preciso me manter só em um lugar e não preciso me prender a ninguém. Melhor acordo que esse eu não terei, principalmente estando no último período da faculdade.
— Eu fico com o tal Hugo.
— Você pode pensar mais um pouco, se quiser.
— Não, o senhor mesmo listou os pontos importantes, como a questão da faculdade e a minha disponibilidade de meio período. É melhor eu ficar com os mesmos horários, ou o mesmo turno, e ficar com esse Hugo. É o que dá pra mim no momento.
Thiago batuca a papelada com sua caneta.
— Tem certeza?
— Isso é o senhor tentando me convencer a ficar no Financeiro?
Ele verifica algo numa folha abaixo da que está a sua frente.
— Queria, mas não. É que tenho mesmo que ter certezas, já que tem tanta coisa incerta sendo ajustada agora. Só tô dizendo que depois não vai poder trocar, tá? Então vou falar uma última vez: você tem até duas horas pra me falar.
— Eu tô te afirmando agora, Thiago. Confia.
Meu agora ex-chefe me entrevê e se ajusta à cadeira, sentando-se mais ereto e um pouco agitado.
— Não me fala isso, que eu confio. Tá tudo tão louco e extraordinário que nem eu acredito que tá dando tudo certo até agora. Nem acredito inclusive que aquela pimentinha tá na minha mão agora.
— Thiago!
Ralho, com dó da Iara e do que ele vai aprontar com ela. Mas então meu ex-chefe suaviza e move a caneta entre seus dedos, demonstrando que vem aí uma confissão:
— Na verdade, ela é a chefe disfarçada de funcionária de meio período, né? Pra você ver, eu confio mais nas decisões dela do que nas minhas. Vai ser minha consultora master pessoal. Um privilégio e tanto.
Eu ouvi e vou contar, mas não digo isso a ele.
— De fato, aquela ruivinha sabe de muita coisa. Mas agora registra aí, que vou ficar com o Hugo. Anda, que eu tô aqui facilitando a tua vida.
Thiago me aponta com a caneta.
— Olha que eu registro, Milena, não me tente.
Já eu, enterneço, porque agora é uma despedida. Sinto-me no dever de agradecer toda a paciência que ele teve comigo e por toda a sua confiança em mim. Foi algo que fez muita diferença no meu trabalho.
— Muito obrigada mesmo, Thiago. O senhor foi um chefe incrível e sei que vai se dar muito bem no novo cargo. Já vi tua competência de perto e fico realmente agradecida de ter me recebido na área das consultorias e de agora me orientar para um novo setor.
Com um jeitão lamentoso, ele fecha a pasta de couro.
— Então é isso, né, ganhei uma chefe disfarçada e perdi minha melhor estagiária.
— É isso. É assim que a gente vai pra frente nessa vida, perdendo e ganhando.
Meio sem jeito, Thiago cobre a pasta com os braços e não larga a caneta, que dança entre seus dedos.
— Vou sentir tua falta.
— Vai nada!
Ele assente dessa vez, deixando transparecer essa verdade.
— Eu vou.
Deixo as formalidades, já que ele também as coloca de canto.
— Mas tu ainda vai me ver na empresa, ainda vamos dividir um pacotinho de cookies. E agora vai poder manter o ar-condicionado no gelado. A Iara não fica um picolé como eu.
— Nah, já tô tão acostumado a usar numa temperatura amena que...
Ele reabre a pasta de couro.
— Tá bom, tô acertando os documentos da tua transição. Até a pausa do almoço vai estar tudo no RH, te prometo.
— Eu posso levar, se for o caso.
Thiago espalma a mão para me barrar dessa “incumbência”.
— Deixa eu me despedir direito, Milena. Fala ao menos que vai sentir minha falta.
Um pouco afetada, também deixo transparecer isso, tanto na minha voz quanto no meu porte na cadeira, e ele ralha comigo do mesmo jeito.
— Eu já tô sentindo, Thiago.
— Agora sim. Eita que quase tive que arrancar de ti!
— Não te conheci assim, não.
Ele dá de ombros, marcando alguma coisa na papelada.
— É, a Iara me amoleceu o coração.
Mas eu penso um pouco sobre isso. E declaro sobre isso.
— Acho que não se trata de amolecer corações... É amadurecimento.
Rindo, meu ex-chefe levanta a caneta só para apontar pra mim, como que para me dar crédito pelo que disse, e retorna no que escreve.
— Vou falar essa pra minha namorada.
— Tá de namorada? Olha só! Te pegou na melhor fase, hein!
Bato palminha e tudo, animada com essa novidade. Mas Thiago não tira os olhos dos documentos e resmunga mesmo assim.
— Não se agradeço ou se reclamo por essa. Minha irmã também disse algo parecido.
— Então não sou só eu que tá vendo que o senhor tá mais envolvido com as pessoas e que isso é bom. Elas se dão bem?
Ele meneia a cabeça, outra vez sem deixar de focar nos papeis que faz anotações e marcações. Mas na última pergunta, levanta a cabeça num átimo:
— Às vezes bem demais. Às vezes minha própria irmã me rouba a namorada. Tem um último conselho pra mim?
Bem teatral, levo as mãos aos cantos da boca e então dou um tchauzinho, em demonstração do que falo:
— Sorria e acene.
— Ou seja, tô perdido.
— Pelo contrário, eu acho. Contanto que não faça merda. E se fizer, peça desculpas.
Para sinalizar nessa, ele bate a ponta da caneta com a tampa na própria cabeça e logo depois vira o documento pra mim.
— Lição aprendida. Na marra, mas foi... Pode assinar aqui.
Recebo o papel e a caneta e me mantenho falatória. Acho que porque também quero aproveitar meus últimos momentos com ele.
— Veio preparado, né?
— Pra tudo que é cenário. Só não se tu saísse da empresa. Mas tu não faria isso, então considerei esse ponto também. O Filipe diz que esse meu olhar foi determinante pra ele me chamar pra gerência do financeiro.
Termino de assinar e já solto um galanteio.
— Olha só, elogiado pelo chefão.
— Não é? Minha ficha ainda não caiu.
Thiago se recosta na cadeira e até gira um pouquinho, no que dá pelo espaço.
— Mas uma hora vai cair. Quando chegar a hora, espero que sinta orgulho disso.
Ele me encara e parece que isso não vai demorar a acontecer. Com um sorrisinho mais satisfeito, logo está de pé e eu me aprumo com minhas coisas para me levantar também.
— Valeu, Milena. Vou sentir mesmo a tua falta. E agora... Vou te levar pra conhecer o Hugo. Deixei ele lá no pátio, perto do depósito. Espero que ele ainda esteja por lá. Falando nisso, é bem provável que tu tenha que ficar por aquelas bandas.
Thiago se refere ao prédio anexo ao nosso; basta atravessar a rua. Se for pela entrada dos fundos, corta mais caminho até. No entanto, fica mais distante dele. Talvez por isso esteja mais triste por nossa despedida, pois, estando do lado de lá, não vamos nos ver tanto. Se bem que agora não sei qual é a nova sala dele, só sei que por onde ele se encaminha quando vai para a porta, vejo que será a rota dos fundos.
— E cuide bem dele, tá? Vi a avaliação do cara e vi que ele é muito gente boa. Era o coordenador de logística lá na outra filial. A promoção dele pareceu repentina, mas o Filipe me disse que já visava ele faz um tempo.
— Caramba, cotado assim?
— Bem cotado assim. Acho que a transferência dele demorou mais por conta da família, já que teriam que se mudar... Preparada para conhecer o novo chefe?
As portas automáticas do fundo se abrem e arrisco uma coisa:
— Posso fazer um último pedido?
— Diga lá.
Verifico que não tem ninguém por perto, não além de um segurança de canto e outro na guarita no estacionamento, e lanço:
— Não fala que eu sou a nora do Filipe, tá? Nem que sou amiga da filha do chefão. Deixa ele descobrir sobre a Iara depois. Esse ano eu quero ficar livre de confusão.
Já na calçada, observando se daria para atravessar a rua, Thiago não vê problema nisso.
— Acho uma boa resolução. E pode deixar, dessas partes pessoais eu não conto não. Deixa no mistério.
~;~
O Hugo... ele é engraçado. Meio desesperado? Não sei dizer. É só o primeiro dia dele e ele tá uma pilha de nervos, todo embanado em um lugar novo, numa cidade nova, num cargo novo. Dá vontade de abraçar o cara e dizer que tá tudo bem. Mesmo.
Bom, já estive em situação parecida. Antes de saber as boas novas, fui a doida ansiosa toda dura que mal conseguia dizer um A. E também já fui novata anos atrás, quando vim para essa cidade para o ensino médio e depois quando fui ingressar na faculdade.
Na antiga mesinha do café, do prédio principal, pego um pouco de água e sento para digitar uma mensagem pro Murilo:
Era minha avaliação e EU PASSEI! E agora fui transferida para outro setor.
Antes que envie à criatura, certa pessoinha chega à minha frente quase saltitante.
— E aí, qual foi o veredito?
Com o copo de água levantado, faço meu teatro de desdém, desviando o olhar.
— Não sei, pergunta pro Thiago. Ontem tu não quis ajudar meu pobre coração, então hoje não tenho muito o que fazer por ti.
Iara coloca as mãos na cintura, descrente.
— Oxi, logo eu que limpei tua barra.
Eu puxo um de seus braços pra ela desfazer a pose. Também seguro a mão dela, mais branda e toda amorzinho de gratidão.
— Eu sei. E te amo e te agradeço por isso. Valeu mesmo, I. Ele me disse que tu segurou as pontas pra mim. Até porque as coisas estavam incertas e... Valeu, I.
Eu me derretendo toda, reconhecendo seu feito e gratificando ela, e o que essa pestinha faz? Se solta de mim pra poder montar em mim! Iara me segura firme nos braços como se fosse pular em cima de mim. Com sua expressão insana, eu não duvidaria.
— Tá, me agradece depois, o veredito primeiro. Com quem você vai ficar?
Reclamo? Não, entrego logo, pois vai que ela tenta contra minha segurança?
— Com o novato, o Hugo.
Iara dá um pulinho nada discreto, animada. Por um momento pensei que ficaria triste, porque significa que não vou ficar no núcleo de trabalho deles, porém, acho que ela sabe que significa que vamos entrar e sair juntas, algo inédito.
— O Thi me disse que ele é muito bacana. Ele chegou sexta passada, mas eu ainda não cruzei de fato com o cara. Como ele é?
— No físico ou na personalidade?
Beberico minha água e pego o celular no bolso, por ter sentido uma vibração de notificação. Lembro que não apertei o botão de enviar a mensagem com as novidades pro Murilo, nem comuniquei sobre o horário que vou sair.
— Os dois.
Penso um pouco sobre o faria identificá-lo de longe.
— Ele é alto e tem uma barba cheia. Quanto ao jeito dele, é bem gentil, conversador e parece organizado. Não dá pra dizer muito, até porque ele tá mega confuso com os corredores daqui e tô passando os macetes que fiz quando cheguei pra estagiar. Todo um tour.
Iara checa a área, toda curiosa.
— Cadê ele agora?
Abro a tela do celular no automático, sem dar tanta conta de quem passa ao redor, menos ainda do meu novo chefe.
— Deixei ele no banheiro, mas indiquei a sala de... Não!
— O que foi?
Encaro a tela do celular e a foto que nela está. À Iara, tento formular o que vejo.
— Minha mãe tá na faculdade.
— Como assim?
Iara vem pro meu lado para conferir.
— Minha mãe tá na sala de Djane. Olha isso!
— Caramba! A tia Helena foi lá primeiro do que eu!
Volto na conversa, onde mamãe anuncia que vai ficar com Djane até o meio-dia e vai levar ela pra almoçar na nossa casa. Tenho eu que avisar que não vou poder ir, mas não consigo deixar de olhar para a foto das duas. Ainda bem que a sogrinha levou minha mãe para passear.
— Tu vai pra casa nesse horário também?
— Nem. Vou estrear o refeitório hoje. O Hugo me pediu pra ficar o dia todo, pra poder localizá-lo melhor.
Iara faz uma carinha sapeca, interessada.
— Então o refeitório... é o novo point?
— Tu também vai ficar?
Ela bate as mãos na cintura, fingindo chateação, mas nem consegue tanto assim porque também não consegue ficar longe daqui.
— Quando é que não fico, né? Mas sim, tem sido muitas transições e transferências pra acompanhar, a minha incluso, daí quero deixar as coisas bem encaminhadas. Ah, tu ficou com que turno?
— Vespertino. Quero manter meus horários e agora também tem a Crist...
— Cris?!
Iara soa perdida com esse nome e eu me dou conta que isso segue em secreto. Mas talvez não passe de hoje. Só não agora porque nossa bolha vai ser estourada em poucos minutos – ou segundos – e prefiro atentar seu juízo com outra informação.
— Depois te conto essa. Tenho outra coisa pra falar, que tu não vai acreditar. O Hugo... Ele tem uma filha de vinte anos que se chama... Helena. Maria Helena, na verdade. E ele chama ela de Lena, Leninha, Mariazinha e Marilena. Meu Deus, o universo me encomendou mesmo esse homem!
Iara, no entanto, fica pensativa, não risonha.
— Eu lembro de uma Marilena na minha antiga escola. Se ela tem vinte anos agora, então era de umas duas ou três séries abaixo...?
— Como assim, na escola? Que escola?
Bebo minha água e Iara se senta na cadeira ao lado, só que virada pra mim.
— O Hugo era da minha cidade. Ele veio da filial onde eu comecei. E comecei quase na área de logística. Fiquei na administração geral, mas prestava muito favor por lá. Não cheguei foi a conhecer esse Hugo, porque, né, muita gente. Mas lembro de uma Marilena, sabe, na escola. O que não é garantia de ser a mesma pessoa.
— Ah. Ele me mostrou uma foto. Ele é esse tipo de pai, sabe? Que guarda fotos na carteira e conta histórias? Tipo o meu e o teu, só que nada acanhado de falar as coisas... Se bem que papai não é lá muito discreto, né. Enfim, ela é bem loirinha. Não tão alta, nem tão baixa.
— Hmmmm... acho que ela era loira mesmo. Mas me conta que papo é esse que meu pai anda com foto na carteira e conta história minha?
Quase engasgo no último gole.
— Tu não sabia?
— Não? Quando foi isso? Como foi isso? Que foto minha ele tem?
Um cara muito parecido com meu novo chefe, mas que sei que não é meu novo chefe por conta da cor da gravata, passa do outro lado do corredor e eu levanto sem mais nem menos dessa saia justa. Dou no pé sem nem olhar pra trás, no máximo de velocidade que consigo.
— Olha lá o Hugo, é melhor eu ir!
— Volta aqui, Milena!
De costas e quase virando no corredor, só levanto o punho fechado com o dedão pra cima, pra sinalizar que vem aí. Porque não acho que o Filipe esconda esse tipo de coisa. Só que ali, de supetão, foi como ser pega por outro segredo, e de outra pessoa. Como se fosse me testar, sabe? Mas o que escondo da Iara? Nada. Então sim, vale contar isso e num momento de descontração maior, de preferência.
— No almoço, conto no almoço. Juro!
~;~
Há semanas que o que eu mais queria era a minha perna e o meu pé de volta, tudo nos trinques. Também a possibilidade de andar normalmente e não precisar de apoios ou de algum material ortopédico. Tomar banho sozinha então, era um sonho imenso e intenso. Mas uma coisa que eu definitivamente não queria – e sigo não querendo – é deixar minha mãe ir embora. Mesmo eu sabendo que dona Helena veio só para cuidar de mim e que, eu estando bem agora, não havia mais razão para ela ficar aqui.
Mais uma transição que está mais do que em sua reta final.
Hoje mesmo foi estranho ter que voltar para a empresa e deixar minha mãe em casa. Mas eu tava tão atarantada com a reunião com Thiago que por um tempo isso até que me fugiu da mente. Nem a maquiagem eu completei direito, só de nervosa. Mamãe que me ajudou com alguns pincéis.
Para minha sorte, ou dela, Djane a levou para passeios e foi assim que foram parar na minha faculdade. Porque Djane precisava conferir algumas coisas com a Glorinha e aproveitou para mostrar o prédio, algo inaudito para dona Helena, que ficou maravilhada demais. E curtiu a reforma da escada, agora não mais assassina. Enquanto eu fazia um tour com Hugo na empresa, Djane fazia um tour com minha mãe.
No jantar, disse ela que conheceu até uns cantos escusos, onde já fui pega “aprontando”. Pura zoeira de Djane! Por isso também entreguei a sogrinha – falei onde vi ela se pegando com o professor Renato, onde eles tascaram o maior beijão que parou a faculdade, e onde ela costuma encontrá-lo, já que ele mudou de prédio.
Eu também sei revelar coisas, Djane! E eu falo com propriedade!
Estava um climinha tão gostoso de histórias, também misturadas com as minhas da empresa, as novidades, as mudanças, que eu não queria acabar a noite. Menos ainda ter que atender minha mãe em relação a sua partida.
Quando aperto o botão de confirmação para comprar a passagem de volta para a casa dela, a minha antiga casa, meus olhos se enchem todos e comprimo a boca. Ao meu lado, ela sente minha hesitação quanto a imprimir o documento.
— Não fica assim, filha.
Quando me alisa os cabelos, isso me faz não conseguir segurar a emoção e uma lágrima desce. Me acostumei com mamãe dentro de casa, toda falatória, e agora tinha que me despedir dela. Teria só mais uma noite com ela. Havia chegado esse momento e eu tava resistente de vivê-lo. Teria que terminar sua mala, ir para rodoviária e entregar minha preciosa mãezinha ao motorista do ônibus, que a levaria de volta para casa, para onde mora de verdade, onde meu pai, meus avós e seu trabalho precisavam dela. Esperam por ela. E eu só queria que ela ficasse. Não sei como, só que ficasse. De alguma maneira, ficasse.
— Ô, minha bebê, assim eu choro também.
Num movimento rápido, transfiro o notebook do meu colo para a mesinha de centro e, como um bebê, me jogo em seus braços e me derramo sobre ela no sofá. Choro abertamente e manifesto esses sentimentos todos com liberdade. Hoje sinto que posso demonstrar qualquer emoção sem qualquer problema. No caso, que é doloroso se despedir, mas, ainda assim, tudo bem ela ver, tudo bem ela participar.
Só não tá tudo bem ela ir embora.
Por mais que fosse uma boa coisa notar que minhas barreiras diminuíram mais um tantinho, não queria dizer que fosse lá um sentimento bom deixá-la ir. Queria que vivesse aqui, que meus pais e avós vivessem aqui. Poderiam algum dia? Quero-os mais perto. Quero mostrar mais de mim a eles também.
Ser sincera é realmente um caminho sem volta – e ainda bem.
— Eu vou ligar sempre, filhota.
— E eu v-vou te contar tudo, d-de verdade.
— Ô, minha menina linda. E meu menino lindo.
Nem vi ou ouvi o Murilo se aproximar, só sinto que mamãe abre espaço pra criatura no seu abraço e aí a colônia pós-banho dele tomar conta do espaço quentinho e seguro que estava prestes a se romper de novo. Acho que só pediu a mim para tirar a passagem para não ver o sorriso imenso e leve de plumas do seu filhote se desmanchar à mesa. Como ele chegou esfomeado, primeiro jantou com a gente, se demorou nas histórias e só então foi pro banho.
Beijando o rosto de cada um, mamãe explica a situação:
— Acabamos de comprar a passagem de volta.
— Ah, não, mãe. Não vai!
— Eu volto, meus bebês.
Sei o quanto tô sendo injusta e dificultando isso pra ela, mas não vejo como não jogar uma clássica chantagem emocional.
— Não quero que a senhora volte, quero que fique. Queremos que fique.
— Eu também quero isso, meus amores. Mas até para eu ficar, eu tenho que retornar lá e resolver a vida lá.
Choramingo, num tamanho bico:
— E se demorar muito?
— Eu visito. Eu venho. Eu já tô me programando com o pai de vocês pra fazer isso.
Murilo também reivindica:
— De verdade... verdadeira?
— De verdade verdadeira. Pode perguntar pro pai de vocês.
— Vou sentir sua falta, mãe. Muita.
Sustento isso acrescentando:
— Sim, mãe, do tamanho do universo.
Mamãe, sem muito pra onde ir com a gente desse jeito, funga e tenta algo. Tenta nos contornar do jeitinho dela. É claro que com chantagem emocional.
— Vocês vão me esquecer em dois minutos... dois minutos, eu aposto, com os agitos que tem aqui. Tenho certeza. É só a Aline ou o Vinícius aparecerem na porta.
Retruco, passando a mão no rosto:
— Pelo contrário, a gente vai dizer “queria que mamãe tivesse aqui pra ver isso”.
Ela nos aperta ao seu corpo e mantém um carinho de afago.
— Ain, meus filhotes. Também me dói partir, mas preciso ir. Preciso mesmo. Não tenho mais como me estender por aqui, não dá. Vocês mesmos já voltaram para o serviço. Além do mais, vocês são amados aqui, muito, muito, muito amados. É a minha segurança.
Vez que nada dizemos, mamãe preenche esse espaço com confiança também:
— Estão em muitas boas mãos e vocês sabem se cuidar... Sabem cuidar um do outro.
Num rompante, solto a primeira ideia maluca que me passa pela cabeça.
— E se... e se eu quebrar a cabeça do Murilo, a senhora f-fica?
Meu mano se lamuria – no direito dele – do outro lado do abraço de mamãe.
— Por que tem que ser a minha cabeça?
Fungo com justificativas.
— Só um sacrifício... para um bem maior.
Não custava tentar, né? Mas a nossa matriarca agora foca no que faz e no que diz. Com um carinho aos nossos braços, ela com os seus por cima de nossos ombros, coloca ordem e coloca um acordo aberto:
— Ninguém vai quebrar a cabeça de ninguém. Nenhuma parte. E eu volto, tá? De preferência, sem a necessidade de alguém estar precisando de cuidados. Assim vamos poder nos curtir mais. Podemos ficar acordados assim?
Meus olhos se enchem de novo, mas entendo que ela precise dessa firmeza. Que fique firme para a gente ser firme. Assim, mesmo comprimindo o rosto novamente, balanço a cabeça, aceitando a proposta.
— T-tá... tá bom.
Ela dá uma batidinha no meu ombro.
— Agora coloca minha passagem pra imprimir.
Faço uma cara de penosa e ela segue resoluta, então me movo para pegar o notebook de novo e dar o comando para conectar com a impressora. Mamãe também instrui meu mano, para que se levante e ligue a máquina, além de colocar folha de papel. Como ele se distancia na mesa de estudos, do outro lado da sala, tenho um outro lampejo sobre uma coisinha. Não é um novo acesso de loucura, é um acesso de lucidez até. Aproveito esse momento que o Murilo está fora do radar pra trazer um assunto à tona:
— Mãe, sobre... o carro... Vocês já financiaram?
Ela passa a mão pelo meu rosto, tirando a franja e outras mechas e umas lagriminhas.
— Ainda não. Estamos pensando em juntar o dinheiro todo e então comprar.
— Quando vocês... fecharem a... a quantia... poderia me avisar? Quero ter a decisão sobre a compra.
Sem entender muito a intenção disso, ela só assente.
— Tudo bem. Então quer dizer que você aceitou o carro, não é?
Não, não aceitei. O meu plano é deixar o dinheiro guardado para qualquer emergência. Ou para uma necessidade maior. Não tem por que ter dois carros em casa. Mas por enquanto é só um plano e não quero que seja um segredo. Será uma surpresa.
Mais autocentrada, consigo me manifestar quanto a isso no que dá:
— Vamos dizer que esse ano eu vou me organizar para fazer as aulas de direção.
Isso não é mentira, eu vou mesmo me preparar para tirar a habilitação. Poderia dirigir o carro do Murilo. Ou outro qualquer, se me deixarem roubar o volante por um instante. Um carro no futuro bem futuro também não descarto. Mas quero muito poder contribuir para a compra com meu suado dinheirinho.
Mamãe me segura as mãos, delicada.
— E não precisa de pressa, meu bem. Você já tem muita coisa para dar conta nesse semestre. Além da faculdade e do trabalho, tem a monografia e tem o seu tratamento. O carro e a habilitação podem ficar no modo espera, sem problema. Sua saúde primeiro.
Passo os dedos ao rosto, também lembrando de outro ponto que preciso que fique claro e acertado. Nem que eu tenha que ameaçar de fazer coisas.
— Eu vou me articular, ver como dá pra fazer... Mas não quero saber de ninguém passando a perna em mim e me aparecer com um carro aqui na porta, mãe. Não vou perdoar. Eu tô pedindo de verdade. Sem zoeira.
Dona Helena cruza os indicadores à boca, dando beijinhos ao próprios dedos para sinalizar que topa sem problemas. Emenda também outros gestos, como se meu requerimento estivesse na palma de sua mão e com a outra ela faz como quem assina embaixo e carimba ao final.
— Juro juradinho. Seu pedido está registrado, selado e aprovado. Ninguém pode passar por cima de mim nessa. Ai de quem tentar!
Quando Murilo retorna com a passagem impressa, seguro a avalanche de choro com a mão ao rosto, quase suplicando para que ela não vá.
— Ai, meus amorzinhos, não façam essas carinhas, que a mamãe aqui não aguenta. Eu também sofro. Fico numa situação difícil mesmo.
— D-desculpa, mãe.
Torno a me encaixar em seu corpo e ser recebida com mimos. Não ligo se meu corpo treme em soluços.
— Não precisa se desculpar, Milena. É só que dói aqui no coração também. Mas tudo bem, isso é algo bom, eu acho. Significa que esses dias foram maravilhosos e a gente não quer dar fim neles, por mais que tenhamos de fazer isso.
Tomo um longo fôlego para processar essa informação e confirmar que sim. Isso parece acalmar mais meus nervos e dar uma trégua ao meu corpo, que suspira com alguma aceitação. Nem reclamo mais quando ela me beija a testa.
— Além do mais, temos mais uma noite. E para fechar essa estadia com meus dois amores maiores, tenho uma coisinha pra vocês. Apenas um mimo. Pra vocês e pra outras pessoinhas que tocaram meu coração. Fiquem aqui que eu vou buscar.
Com certo custo, mamãe se levanta e se apruma para ir no quarto de hóspedes. Junto do Murilo, fico à espera desse tal mimo que nos prometeu. Em menos de um minuto, ela retorna à sala com dois grandes pacotes de presente. Pisco, encarando-a, bestificada.
— É sério que a senhora quer enganar a gente com presentes?
Mamãe afasta um pouco o pacote de mim.
— Não diz isso, Milena, que eu até fico sentida. É um presente ao presente maior que vocês me deram nas últimas semanas. Vocês abriram o coração e me deixaram entrar. Me deixaram ficar. Então quero que algo fique aqui com vocês. Abram.
Recebo o meu e, com cuidado, puxo um pouco do embrulho, mas o Murilo puxa o dele todo de uma vez. Quando vejo, também arranco tudo e fico boquiaberta em descobrir o que é. São almofadas pequenas em formato de coração. A minha é azul claro e a do Murilo é amarelinha. Mas não apenas isso, pois estão personalizadas. Na do Murilo, ao centro, está bordado Muline. Na minha, está bordado Vilena. Não acredito que ela lembrou, não acredito que ela mandou customizar.
— Meu Deus, mãaaaae! Comassim? Onde foi isso? Quando foi isso?
— Pedi pra dona Bia um pouco antes da virada de ano uma referência de alguma costureira ou artesã... Porque quando saí com Muline naquela vez, lembro de ter visto uma lojinha assim, mas não lembrava o nome. E não é que ela conhecia uma pessoa? Quase que ficava para vocês buscarem no ateliê. Achei que não daria tempo de entregar.
Murilo ainda tá encarando as letrinhas do seu, perdidinho.
— O que é Muline?
— Como assim tu não sabe o nome do teu ship, Murilo?
O cabeça oca vagueia os olhos e o pensamento.
— O chip... do meu celular?
— Nome de casal, filho. Murilo e Aline, Muline. Vinícius e Milena, Vilena. E tem Saviara e Rejane.
- AI MEU DEUS, TEM REJANE!
Sim, eu grito e grito com gosto, o que mamãe adora, pois isso expulsou com estilo nossas tristezas.
— Mandei fazer para todos e já tá tudo embrulhadinho. Para o casal, em pares, as cores são iguais. A da Iara e do Sávio, por exemplo, é lilás. A de Djane e Renato, verde-água. Esses acho que vocês vão ter que entregar por mim. Não sei se aguento me despedir de todo mundo amanhã de manhã. Podem cumprir essa missão? Pela mãezinha agente especial de vocês?
Risonho e choroso, Murilo é quem responde essa:
— Pela nossa mãe linda e chantagista, sim. Pode deixar com a gente.
— Tu quer que eu te arranque as orelhas de novo, não quer?
Eu amo essas criaturinhas caóticas.
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