Notas iniciais
Desculpem mesmo a demora! Vamos postar o mais breve! E esse foi nosso maior cap então compensamos a demora e esperamos muito que gostem e comentem! PLEASE! E BOA LEITURA!

Elisa Arpini — POV's

Eu nunca imaginei que veria o cemitério tão movimentado por pessoas que eu conhecia. Várias pessoas que via todos os dias estavam lá. Isso era mais conhecido como a popularidade de uma garota morta. Embora Júllya tivesse falecido, todos os seus admiradores e até mesmo quem talvez não gostasse dela, o que eram poucas pessoas, pois ela era a garota mais popular do colégio, estavam no funeral dela.

Entrei junto de Dylan. À princípio cogitei não ir. Não queria ver a garota que conhecia, tão bonita é tão jovem, dentro de um caixão. Apesar de que era muito bonito, um dos mais caros que eu já tinha visto. Um caixão de mármore branco e com desenhos que fazia com que parecesse mais um móvel de uma princesa do que uma sepultura.

Agarrei o braço de meu irmão mais velho e abaixei o olhar para minhas sapatilhas pretas. Não conseguia olhar para ela. Estava sentindo vontade de vomitar. Cada momento do dia anterior invadia minha mente completamente e eu não aguentava mais passar por aquilo de novo. Respirei fundo e levantei a cabeça para olhar ao redor. Em um dos cantos estavam duas pessoas que eu conhecia bem: Bianca, trajando um vestido de rendas preto e saltos agulha e Calissa, de tênis, jeans e uma blusa de moletom escura. As duas estavam abraçadas. Bi chorava silenciosamente no ombro da amiga, enquanto Lissa franzia a testa e encarava um ponto fixo no chão. Do outro lado, Jibby, Bryan e Keylan conversavam baixinho entre si e no momento em que Dylan os notou, soltou-se de mim e foi até eles.

— Vou ficar com os meninos, você vai ficar bem?

Assenti, depois fiquei algum tempo observando as pessoas, especialmente o bando de adolescentes que estudavam com a gente. Alguns cochichavam entre si. Outros se abraçavam. E ainda outros choravam em grupo ou sozinhos. Então, me deparei com a Sr. e a Sra. Bencatel, donos da famosa Bencatel Universal. Eles estavam recebendo os pêsames da maioria das pessoas e a mulher parecia ter chorado, porém agora estava mantendo a postura de uma dama que tinha. Não chorava e muito menos expressava emoção. Ela apenas abraçava as pessoas que vinham cumprimentá-la e prostrava-se ao lado do marido. Seu rosto parecia cansado e e um pouco inchado. Mesmo ela tentando esconder com muitas camadas de maquiagem ainda se podia ver as olheiras embaixo dos olhos.

O cemitério era cheio de flores negras. Havia uma plaquinha que indicava o nome das plantas como "Lírio de Calla Roxa". As flores quase pretas davam um tom mais lutuoso para o local. Como se estivéssem de eterno luto por todos enterrados ali. O céu estava parcialmente nublado, alternando hora com o sol e hora com a sombra. Uma brisa soprava de leve me fazendo arrepiar. Senti uma mão em meu ombro me tirando do transe. Olhei rapidamente para trás.

— Jessica.

Ela me abraçou.

— Você não vai entrar? — ela perguntou.

Eu ainda estava parada na porta do cemitério.

— Sim... Eu vou.

Ela sorriu para mim e me levou para dentro do cemitério segurando de leve em meu braço. Jess usava um vestido preto com uma sapatilha da mesma cor. Caminhamos lentamente em direção ao caixão. Quando coloquei meus olhos nela, senti um arrepio por todo o corpo. Júllya estava realmente linda. Seus cabelos estavam volumosos e ondulados. Bochechas e lábios rosados, como se ela ainda estivesse sádia. Ela usava um vestido de tecido crepe rosinha claro quase creme. Jú como sempre estava maravilhosa, mesmo na morte ela ainda era uma das garotas mais bonitas. Parecia mais uma flor que acabara de desabrochar.

Dei um passo para trás e mordi com força meu lábio inferior. Não queria chorar. Não queria demonstrar fraqueza. Simplesmente queria sorrir, queria que ela estivesse apenas em um sono profundo e que fosse acordar o mais breve, todavia a ficha havia caído e eu sabia que não iria acontecer. Estávamos todos ali por uma razão e essa era o enterro de uma jovem, que deixaria um vazio na vida de tantas pessoas e mudaria suas vidas para sempre.

Passei a mão sobre o tule branco que cobria seu caixão inteiro. Imaginei o quanto seus olhos verdes cintilantes combinaria com as rosas brancas e cor de rosa que cobriam suas pernas, caso não estivessem fechados e apagados, sem vida. Jessica envolveu os braços ao redor dos meus ombros e a olhei de relance. Ela estava com os olhos marejados enquanto observava Júllya. Abracei-a pela cintura e deitei a cabeça em seus ombros. Finalmente, fechei os olhos com força e elas vieram: quentes e molhadas, minhas lágrimas. Eu e Jessica choramos abafado uma abraçando a outra e sem conseguirmos encarar o corpo de nossa amiga, que agora não era mais nada que um rosto bonito em uma caixa tão bonita quanto.

Foi naquele momento que todas nós quatro demos adeus a garota que foi uma das pessoas que nos tornou que somos e antes era uma de nossas melhores amigas, talvez, até mesmo a nossa líder.

Jessica Valadares — POV's

Um mês se passou e nós fingíamos viver nossa vida normalmente. Fingíamos. Porque não era verdade. Havíamos nos tornado o assunto principal de todo mundo. A morte de Júllya abalou a escola nos primeiros dias, mas a verdade é que aos poucos todos iam se esquecendo daquela figura. Para um completo exemplo podemos citar Dylan. Ele voltou a ser o de sempre. O egocêntrico e narcisista de sempre. Como se nada tivesse acontecido. Júllya morreria de novo se pudesse saber. Mas ela não pode.

Nós éramos obrigados a frequentar a psicóloga da escola pelo menos duas vezes por semana, em sessões separadas. Eu frequentava três. Acho que Letícia nunca havia tido tanto trabalho. Com certeza esse era o seu primeiro trabalho. Ela tinha se formado a apenas alguns meses. Era bem nova.

As vezes nos intervalos eu e Elisa não dizíamos uma palavra. Só víamos tudo a nossa volta e refletíamos. O assassino ainda não havia sido encontrado. Na verdade não sabíamos nem o motivo. Isso era torturante. Quem iria matar uma simples garota do ensino médio? Linda como ela? Eu simplesmente não entendia. Letícia aconselhava a não pensar nos porquês, mas ela não compreendia. Júllya estava morta e para ela isso era tudo que importava. Eu nem conseguia dormir. Não me sentia segura em mais lugar nenhum. As coisas estavam diferentes...

— Você acha que um calmante vai resolver?!

Isso aconteceu na minha quarta sessão quando ela me deu um calmante. O que ela queria? Que eu agradecesse?!

— Você precisa dormir Jessica- Ela falou calma e confiantemente.

O pior é que eu sabia que precisava. Mas eu não queria. Porque quando eu dormia eu sonhava com Júllya. Era deprimente.

— Você acha que o calmante vai me privar dos pesadelos horríveis!? — Eu gritava.

— Então qual vai ser a sua solução?! Não dormir mais? Eu aposto que você não vai conseguir nem mesmo um dia.

Ela tinha razão. O que eu estava fazendo? Ela só queria me ajudar.

— Me desculpa, olha eu... — comecei a chorar.

—Tudo bem, Jessica. São os remédios.

Eu me perguntava se as sessões dos outros também eram assim.

— Vocês tem se visto ultimamente?

Essa era uma pergunta interessante. Eu e Elisa ficávamos todas as aulas juntas inclusive nos intervalos enquanto Bi e Cal faziam a mesma coisa, mas sem nós. Agora parecíamos estranhas umas às outras. Também não falávamos com os meninos. Era como se fossemos um completo grupo de desconhecidos. Para ser sincera acho que nem Lis conversava mais com Dylan. Eu pude perceber algumas tentativas frustradas de Keylan ao tentar falar com Elisa e talvez Jibby ao tentar conversar com Calissa, mas nenhuma palavra havia sido trocada de verdade.

— Não. Quer dizer... Estamos nos vendo, mas não nos falando.

— Não falaram nada desde o funeral ainda?

— Não. A gente...Não consegue.

Os professores e alunos eram gentis conosco. Os professores pegavam mais leve e os alunos nos ajudavam. Mas a verdade é que nada podia suprir aquele vazio. Eu conheci Júllya apenas dois meses e estava arrasada. Não me sentia segura. Nem um pouco. Eu tinha que trancar a porta do quarto e a janela antes de dormir e minha mãe e minha vó intercalavam para ver quem iria dormir na cama comigo. Eu tinha sorte de ter as duas.

— E seu pai? Ele tem te ligado?

— Sim... Mas eu parei de atender as ligações dele desde sexta.

— Sério?! Já fazem quatro dias! — Não sei porquê ela se surpreendeu.

— É o que parece, né?!

— Mas, por quê...?

— Se ele quisesse ele viria me ver. Não preciso das ligaçõezinhas dele. Ele não quer perder tempo, então estou privando ele desse desgaste. Ele tem que cuidar da Shirley.

E assim se encerrou aquela sessão.

Mas não foi só a minha vida que mudou. Os Arpini mudaram de residência. Agora eles moravam numa outra casa deles, uma linda e luxuosa, no centro. Talvez fosse insuportável demais morar lá. No local onde Júllya havia sido assassinada cruelmente e sem motivo aparente. Uma pena. Eles haviam crescido na antiga casa e iriam deixá-la com muitas lembranças. Mas era exatamente isso que queriam.

Afinal, quem mataria ela?! Porquê?! Por que matar Júllya Bencatel? Ela não era tão rica. Não tinha um namorado, nem ficante. Ela era muito linda, mas isso não é nenhum motivo para matar. E o mais importante: não andava com gente perigosa. Andava com a gente. Só com a gente. Por mais metida e ambiciosa que pudesse ser, ela era uma boa garota. Por trás de sua arrogância havia uma garotinha que tinha muito medo de não ter atenção. Talvez eu tivesse julgado mal a Júllya. Acho que ela não era quem destruía e sim quem era destruída. Afinal uma pessoa não se torna do jeito que é sem ter um motivo. É uma série de acontecimentos. E o motivo dela ser tão superficial é que provavelmente ela não havia tido esperiências mais profundas. Quando o pai dela ficou no hospital, a garota teve que ficar 4 anos com a vó rica que mora no exterior porque sua mãe acabou só tendo tempo para ele. Talvez ela sentisse falta da avó. Talvez fosse essa necessidade que ela tentava suprir todos os dias enquanto se deixava parecer uma garota decidida. A verdade é que nunca conhecemos a verdadeira Júllya Bencatel, só as partes que ela fingia ou as que sem perceber ela deixava a mostra, como sua paixonite aguda por Dylan. Dylan. Me pergunto se ele também finge ser quem não é.

Bryan Lins — POV's

Eu estava sentado nas escadas da escola com o meu caderno de músicas aberto no meu colo e uma inspiração invadindo a minha mente. Fazia bastante tempo que eu me encontrava com um enorme bloqueio criativo, o que normalmente não acontecia, porém nesse dia, quando os meninos foram treinar para a competição que nos classificaria para a liga regional e eu resolvi que iria mais tarde me juntar a eles, resolvi passar um tempo no pátio. E observei as pessoas. Do outro lado consegui enxergar uma garota rindo com, provavelmente, sua melhor amiga. Ela usava uma grande bolsa cor de rosa, ao invés de uma mochila, e parecia bastante animada. Naquela distante eu não conseguia ver o seu sorriso ou reconhecer quem era, especialmente porque ela estava de costas, contudo conseguia notar seus longos cabelos loiros voando com a brisa.

De alguma maneira, eu sempre fui encantado por loiras. Todas as garotas por quem já havia me interessado de alguma forma, haviam sido loiras, mas eu nem sequer sabia quem era aquela garota, apenas sabia que ela havia me dado a inspiração que estava procurando havia dias, então, comecei a criar uma melodia e sussurrar baixinho a medida que escrevia uma nova letra em meu caderno e observava de longe.

De repente, quando estava terminando de compor a segunda estrofe e levantei o olhar me deparei com alguém vindo em minha direção. Era um garoto ruivo, também do terceiro ano, entretanto não éramos muito próximos, uma vez que ele era mais ligado nos estudos do que nos esportes, diferentemente de meus amigos, e fazia parte do time de xadrez da escola.

—Hey, Bryan! — Ele se aproximou — A Letícia ta te chamando na sala dela, parece ser importante.

—Me chamando? Mas porque, Adhan? — Perguntei confuso, não conseguia imaginar o porquê de a piscicóloga da escola estar querendo alguma coisa comigo, especialmente se era terça-feira e eu não tinha hora marcada nesse dia, e sim nas quartas e sextas.

—Não faço ideia. Ela não me disse. Apenas mandou te chamar.

—Okay, valeu cara. Até mais — Me levantei e batemos nossas mãos em um cumprimento amigável, antes de eu me virar para ir.

—Falou — Adhan finalizou e subiu as escadas.

Abri minha mochila e guardei meu caderno de música e meu estojo, assim comecei a me dirigir até o outro lado da escola, onde ficava a sala da Dra. Letícia, mas antes me virei para encarar a menina loira uma útlima vez, e não havia ninguém. Ela e a sua amiga haviam desaparecido, sem deixar rastros.

Keylan Medina — POV's

Passei a bola para o Dylan quando estávamos próximos de fazer um gol, porém no momento em que ele se preparava para marcar o ponto escutamos um barulho fino e contínuo. Alguém havia aptado, mas quando olhamos em volta, não era o treinador quem estava entrando no ginásio.

—Meninos, desculpa interromper o jogo, mas a Léticia está chamando o Dylan, Jibby e Keylan na sala dela.

Era Adhan. O ruivo e inteligente da nossa classe. Nos entreolhamos. Dylan suspirou. Ele quase fizera o gol da vitória e agora teria que esperar até ter outra chance. Nós dois saímos do treino e caminhamos em direção a saída, para podermos encontrar com a piscicológa da escola.

—O que será que ela está querendo com a gente? — Jibby perguntou quando nos alcançou.

—Não imagino o que. Vocês tem sessão marcada para hoje? — Questionei curioso, uma vez que não tinha, as minhas eram as segundas e quartas.

—Eu parei de ir — Dylan falava isso de um jeito muito natural. Ficamos um pouco chocados — Não fui nas duas últimas sessões.

—Talvez seja por isso que ela queira falar com você — Sugeriu Jibby enquanto subiamos as escadas so ginásio para o pátio.

—Mas eu, pelo menos, não faltei em nenhuma das sessões e ela também quer falar comigo — Comentei provando que a tese do loiro estava certamente errada.

— É, se fosse por isso ela não chamaria vocês também.

Dylan concordou comigo e apressamos o passo, caminhando o resto do trajeto em silêncio e tentando imaginar qual seria o motivo para que a Dra. Letícia teria chamado todos nós.

Quando alcançamos o final do pátio e entramos no corredor onde ficavam as salas da diretoria, da coordenadora e da piscicóloga do colégio, notamos outro garoto moreno atravessando a passagem dividida em três portas de madeira fechadas. Era Bryan. Ele se virou quando sentiu nossa presença e franziu o cenho.

—O que fazem aqui?

—Vamos ver a Letícia — Respondi.

—Vocês também? — Ele perguntou confuso.

—O que será que ela quer com todos nós? — Dylan fez uma careta e olhou para o chão. Provavelmente pensava na resposta.

Jibby deu de ombros, girou a maçaneta e empurrou a porta. Todos olhamos para dentro da sala de espera e nos deparamos com quatro pessoas esperando para serem atendidas, e essas eram as quatro garotas que haviam passado pelo fim de semana mais estranho de todas as nossas vidas. Arregalei os olhos. Todas olharam para nós. E olhamos de volta. Porque estávamos todos aqui?

—Porque estão aqui? — Calissa quebrou o gelo.

— Eu acho que faço uma ideia... — Jessica cruzou os braços, aborrecida.

— Claro! Tinha que ser — Dylan entrou e se sentou na em uma das cadeiras.

—E-eu não quero passar por isso de novo — Bianca gaguejou um pouco e negou com a cabeça, então, começou a se levantar para ir embora, mas Calissa segurou em seu pulso parando-a.

—Espera, vamos ver o que ela tem a nos dizer.

Naquele momento, a porta do consultório da Dra. Letícia se escancarou e uma mulher em seus 26 anos, cabelos castanhos e volumosos e olhos azuis cativantes apareceu em meio ao portal e nos encarou de volta. Ela abriu os lábios em um largo sorriso ao notar que todos nós oito estávamos lá.

Dra. Letícia Soares — POV's

— Que bom que todos já estão aqui! Agora podemos entrar.

Fiz um gesto para que todos entrássemos. Em minha sala havia uma roda com nove cadeiras. Para enconrajá-los sentei primeiro e apontei com a cabeça para que os adolescentes se sentassem junto de mim. Eles se entreolharam um pouco encabulados e, logo, todos estavamos sentados em um círculo. Sendo Calissa a minha esquerda, Bianca ao lado dela, seguida por Elisa, Jessica, Bryan, Keylan, Dylan e Jibby, por fim. Bryan estendeu a mão e fechou a porta branca.

— Muito bem, eu quis fazer essa reunião para esclarecer tudo entre vocês porque eu sei que não estão se vendo, ou se falando. Muitos de vocês ainda têm pesadelos e todos carregam um pequeno trauma disso tudo. Vamos começar por algo simples... Quem ainda sente falta da Júllya?

Todos se entreolharam por um pequeno tempo e aos poucos foram levantando suas mãos, primeiramente Bianca, Calissa e Elisa, depois Jessica, Keylan, Jibby e Bryan. Dylan fora o último. Mas no fim, todos levantaram. Todos sentiam a falta dela.

—Certo! Muito bem — Me remexi na cadeira e fiquei mais animada — Quem ainda está tendo ou teve nem que só um pouquinho de dificuldade em se readaptar depois da morte dela?

Primeiro Jessica levantou a mão, depois as outras garotas e por fim os garotos.

— Sim, isso vai ser meio difícil. Por isso quero mostrar que vocês podem ajudar uns aos outros. Agora, alguns de vocês ainda tem pesadelos. Alguém que ainda os têm, gostaria de levantar a mão?

Eu sabia bem quem ainda tinha pesadelos. Olhei todos um por um bem rapidamente em sentido anti-horário. Jessica remexeu na cadeira e olhou para o chão. Bianca respirou fundo e começou a apertar as mãos uma na outra, insegura. Todavia tomou a frente e levantou a mão direita um pouco trêmula.

—E-eu... Eu ainda tenho pesadelos... E está sendo bem difícil. Eu os tenho toda hora. Não aguento mais dormir... E-eu vejo o corpo dela na... — Bianca suspirou — Naquela garagem o tempo todo.

Um silêncio percorreu toda a sala. Um clima um pouco mais tenso no ar. Resolvi falar alguma coisa.

— E isso é perfeita e completamente aceitável Bianca. Todos vocês passaram por um trauma muito grande e se encomodam ainda mais por não terem encontrado o assassino. Alguém mais quer falar sobre os pesadelos?

Um silêncio sepulcral atingiu a sala.

— Certo... não precisam se acanhar. Vocês vão falar um pouco sobre o que passaram naquela noite, em relação as outras pessoas. Começando com você Jibby.

—Como assim?!

—Diga algo bom de alguém lá, sobre sua experiência...

—Hum, algo de bom... — Jibby levantou o olhar e encarou Calissa a nossa esquerda. Eu sabia que ele a admirava — Acho que a melhor parte foi quando estávamos na floresta, eu, Calissa, Bryan e Bianca. Estávamos tentando encontrar uma saída e a Lissa — A garota levantou a sobrancelha impressionada e um pouco desconfortável por ele falar dela e chamá-la pelo apelido — Disse que se subissemos em uma das maiores árvores saberíamos a direção da estrada. Eu aprendi muito mais sobre ela naquela noite, mais do que eu imaginava. Sabe, normalmente a gente pode pensar que ela é uma garota superficial por ser amiga de alguém como a Júllya e a Bianca, porém na verdade é uma garota de atitude e com um espirito aventureiro. Calissa tem um senso de direção incrível e não se importa com usar sapatos de saltos, ela parecia muito mais a vontade com seus tênis... Sei lá... Acho que foi bom aprender mais sobre ela e ter a real certeza de que Lissa é bem mais do que apenas uma garota bonita.

Quando Jibby terminou de falar todos estavam encarando-o e prestando total atenção nos elogios que ele depositava sobre Calissa. A loira pareceu um pouco chocada com tudo aquilo, mas apenas desviou o assunto murmurando um "obrigada, eu acho".

— Nossa! Isso era bem mais do que eu esperava mas foi muito bom, Jibby, obrigada — Se até agora os outros não haviam percebido que ele tinha um affair por ela, agora, definitivamente eles sabiam — Isso serviu para mostrar que aquela noite não foi tão ruim e houveram algumas coisas boas e também serviu para que vocês se conhecessem melhor.

Eu encarei Calissa.

— Bem, já que Jibby foi tão generoso te descrevendo Calissa, por que você não fala sobre sua experiência naquela noite?

A garota arregalou os olhos e riu bem sem graça. Ela estava ficando vermelha quando começou a falar.

—Hum, certo. Naquela noite, eu acho que duas coisas me impressionaram, ou melhor duas pessoas. Acho que acabei conhecendo melhor duas pessoas que estavam lá. Primeiro — A loira se virou para a esquerda e encarou Jessica — A Jess — A morena de cabelos curtos, se surpreendeu quando seu nome foi mencionado e sorriu — Eu não era tão próxima dela, uma vez que ela era a novata na cidade e no grupo, mas depois que ocorreu o apagão e eu me voluntariei para ir buscá-la no banheiro, acho que nos aproximamos, porque ficamos conversando por um bom tempo apenas nós duas e quando... — A garota deu uma pausa e suspirou — Quando a confusão com a Júllya começou, e a minha máscara de garota forte cedeu e comecei a chorar, foi a Jess quem se aproximou e me abraçou. Eu me senti muito melhor naquela hora e a considerei realmente uma boa amiga.

— Que bonito Jess! Eu não sabia dessa aproximação de vocês. Fiquei bem feliz com isso!

Jess sorriu, já vermelha e abaixou a cabeça e disse um "obrigada" baixinho.

—Bem, e a segunda pessoa foi — Calissa olhou de relance, ainda um pouco envergonhada, para Jibby — Jibby. Eu não o havia notado muito até aquele dia, mas depois que começamos a correr. Não sei o porquê. Talvez estivessemos com os pensamentos conectados naquela hora, mas saímos correndo na mesma direção: para trás da casa, o bosque. E acabamos trombando um com o outro. Foi quando percebemos que estavamos correndo para o mesmo lugar e, o que mais chamou a minha atenção sobre ele, foi o quanto ele foi corojaso para me proteger, duas vezes — Todos desviaram os olhos de Calissa para Jibby, e Bryan a interrompeu:

—Cara, eu não sabia o quanto você se importava com ela!

Todos riram baixinho. A tensão que de início imperava o nosso círculo foi baixando aos poucos.

—E olha quem fala, você até tirou a sua jaqueta para cobrir a Bianca e impedir que ela pegasse chuva quando fomos atrás da Júllya! — Jibby retrucou.

Todos riram mais alto dessa vez.

— Dessa eu não sabia — Jessica estava bem menos contraída.

Quando as risadas pararam Calissa continuou:

—Bom, a primeira vez foi quanto escutamos passos de alguém atrás de nós, as folhas os entregaram, mas não tinha como sabermos que eram o Bryan e a Bianca. Jibby achou que era quem assassinou a Júllya, então, ele me puxou para trás de uma árvore e ficou de tocaia para impedir que nos descobrissem. E a segunda vez foi quando eu subi na árvore para encontrar o caminho da estrada, ele não me disse, mas tenho certeza de que subiu atrás de mim e segurou os galhos de forma que ele fosse uma espécie de grade para que eu não caísse de tão alto... Bem, acho que devo te agradecer por me proteger naquela noite, Jibby. E eu acabei por descobrir um pouco sobre você, é um garoto protetor e bem corajoso, embora não pareça perceber.

Quando Calissa terminou, ela estava olhando nos olhos de Jibby e parecia realmente sincera. O garoto ruborizou-se e sorriu levemente sem graça com a situação. Aquela sessão estava dando mais certo do que eu previa e eu estava bem otimista a respeito.

— Isso! Era disso que eu estava falando. Vocês cuidaram uns dos outros. Mostraram suas qualidades. Cada um. Vocês se uniram. E é isso que eu quero. Quero que se vejam de uma forma diferente, como amigos. Porque naquela noite, foi isso que vocês foram. Eu sei que vocês torciam para o bem estar uns dos outros.

Eu juntei minha mão em forma de triângulo.

— Por que não você, Elisa?!

—Eu? — Elisa perguntou incrédula — Ah... Ta bom. Bem, acho que... Duas pessoas também chamaram mais a minha atenção naquela noite — Acenei com a cabeça — Primeiro, o meu irmão Dylan. Ele normalmente é bastante fechado quando se trata de família. Ele é bastante na dele, com seus amigos e suas coisas e não conversa muito comigo ou se interessa pelo que eu faço, mas naquela noite ele se mostrou bastante protetor. Acho que ele queria que todos saíssemos daquela situação vivos e ele foi um líder. Eu o admirei por isso — Ela comentava enquanto encarava o irmão mais velho — E a segunda pessoa foi o Keylan. Acho que não são muitos de vocês que saibam, mas ele e meu irmão sempre foram melhores amigos desde a infância e eu também participava dessa união quando era criança — A morena com os cabelos em um rabo de cavalo alto, intercalava o olhar entre mim e o loiro — Acho que sempre estivemos juntos e depois que crescemos acabamos por nos separarmos, porém senti que a nossa união ainda existia quando fomos, os três, verificar a caixa de força, ou quando estávamos no carro tentando fugir. Eu me sentei ao lado dele no banco de trás e cochichamos sobre a situação desesperadora. Ele me ajudou naquele momento e também quando eu estava chorando desesperada pela morte da Júllya, ele me abraçou e me consolou. Realmente me senti melhor por causa dele e, talvez por isso, me senti segura quando fui sorteada para ir com ele chamar por ajuda. Ao menos, senti que se estivesse com medo ou algo desse errado ele me protegeria.

— Entendo. Que bom, Elisa.

Eu me lembrei que tínhamos tempo marcado e olhei o relógio. Estava quase na hora.

— Que coisa, o tempo... Sabe, eu realmente quero fazer mais reuniões como essas. Vocês gostaram?

Alguns balançaram a cabeça e outras disseram que sim.

— Certo, acho que ainda temos alguns minutos. Eu queria que levasse mais tempo, foi tudo tão rápido... Bem, não pensem que a Júllya é o elo que liga vocês porque eu pude perceber que tem muita mais coisa. Quero que vocês perguntem para os outros como estão e se cumprimentem quando se encontrarem, quero que confiem uns nos outros. Acho que vocês deveriam sair para se divertir juntos qualquer dia. Vocês tem uma... uma... Química. Acho que é tudo por hoje. Obrigada.

Calissa Abreu — POV's

Terminada a sessão, todos saímos da sala da Dra. Letícia e nos dirigimos pelo corredor até o pátio, do lado de fora. Caminhamos os oito juntos enquanto nos entreolhavamos. Porém ninguém era capaz de proferir nenhuma palavra. Acredito que todos estávamos pensando no que havíamos falado com a pscicóloga.

No momento em que nos aproximamos da entrada da escola que levava até o ginásio Bianca resolveu se pronunciar e tomou a frente. Recebendo a atenção de todos nós.

—Hum, pessoal, como a Letícia disse acho que deveríamos conversar... Não sei, talvez sairmos juntos. Acho que temos bastante coisa para falar — A garota começou a brincar com a cordinha do capuz cor de rosa de sua blusa de frio enquanto falava — E eu tô com bastante vontade de tomar um milkshake.

—Eu não tomo sorvete desde que eu me mudei para cá. Seria legal — Jess se animou.

—Eu topo, parece uma excelente ideia — Elisa sorriu.

—Ah, bem, acho que deixa para próxima... — Keylan olhou para o relógio em seu braço — Temos treino de Rugby, sabe, o treinador ta bastante rígido esse ano. Ele almeja que ganhemos a regional.

—Verdade. Precisamos treinar... E já perdemos bastante tempo na reunião com a Letícia — Concordou Jibby.

Dylan e Bryan assentiram com a cabeça e eu dei de ombros e sorri com pena.

—Bem, tomara que possam da próxima vez. Certo, meninas?

— Vai ter que voltar para cá se ainda quiser carona para casa, Elisa — Disse Dylan enquanto andava para trás e piscou para a irmã.

Os meninos se dirigiram ao ginásio e nós prosseguimos até sairmos da escola. O centro não era tão longe, apenas teríamos que subir um longo morro e seguirmos reto por uma grande avenida, repleta de lojas e lanchonetes, onde a sorveteria mais famosa da cidade ficava: a Planeta Helado. Começamos a subir enquanto conversávamos.

—Acho que o que a Letícia fez foi muito bom, digo, serviu para nos reaproximar. Acho que acabamos nos separando um pouco depois disso... Eu quase não via mais vocês — Comentou Elisa segurando nas alças da mochila verde com estampa de abacaxis — Apenas conversava com a Jessie nos intervalos e no celular.

—Tem razão. Ela foi bem esperta. E acho que precisávamos mesmo de um empurrãozinho — Brinquei e dei um leve empurrão em Bianca para que ela ficasse mais perto de Jessica e nós quatro rimos.

—E aquela coisa de pensarmos o lado postivo daquela noite... Eu acho que ajudou, quer dizer, eu só pensava no quanto havia sido horrível e aquilo não saía da minha cabeça, eu pensava que tinha sido o pior dia da minha vida — Bi mencionou e apressamos o passo — Mas também acho que foi bom que o tempo se esgotou, porque eu não queria passar a vergonha que vocês passaram — Agora ela se referia exclusivamente a mim e Elisa. E tinha completa razão.

— Pois é, eu também me sentia bem mal. Foi bem engraçado ver o Jibby te elogiar tanto Lissa, acho que ele gosta de você — Jessica comentou sobre algo que eu vinha tentando evitar.

Estava claro que aquele garoto sentia algo por mim. Ele foi explicíto quanto aquilo, mas eu não queria entrar naquele assunto quanto mais pensar no que havia acontecido. Quer dizer, ele é um cara realmente legal, porém eu não estava preparada para que um garoto gostasse de mim, muito menos que praticamente dissesse isso na frente de todo mundo.

—Ah, eu não sei. Ele nem me conhece direito.

Resolvi apelar para o óbvio. Ao menos, ele nem sequer havia falado comigo mais do que duas frases durante toda a nossa vida até aquele dia e agora parecia que me admirava. Como isso era possível? Se ele ao menos me conhecesse eu até entenderia.

— Mas ele deixou isso bem óbvio! — Jess riu bem alto — Também teve aquele negócio de o Bryan cuidar tanto assim de você Bi, qual são as chances de isso acontecer?!

Bianca revirou os olhos e balançou a cabeça enquanto encarava a avenida, que acabávamos de alcançar e tentava desviar o assunto. Ela claramente não queria falar sobre isso. Eu conhecia bem a minha amiga para saber que ela estava incomodada.

—Nada a ver, Jess. Ele foi apenas gentil. Além do mais ele faria isso para qualquer pessoa, em uma situação como aquela.

Esperamos que o sinal ficasse vermelho e os carros parassem para podermos atravessar na faixa e passarmos para o outro lado da avenida. Assim, caminhamos em linha reta e aos poucos algumas lojas foram surgindo, a maioria de calçados e roupas, e certas lanchonetes também. Ficamos um tempo em silêncio, mas logo, Elisa começou a falar:

—Aposto que a Júllya saberia o que falar em uma hora como essas. Ela nunca ficava sem assunto.

Quando ela mencionou o nome da Júllya todas nos entreolhamos. Foi uma sensação estranha. Acho que ela não fez por mal, provavelmente nem estava pensando direito no que ia dizer e o seu comentário não era ruim, na verdade ela estava sendo sincera, porém não sabiamos como reagir ou o que responder, por isso continuamos a andar sem dizer mais nada até que finalmente chegassemos na sorveteria.

Entramos no salão e caminhamos até a gigante tabela onde fora colocado o menu de todos os sorvetes, açais e milkshakes que haviam no local. Não estava muito cheio. Apenas uma senhora com uma criança estavam sentadas em uma das mesas com quatro lugares. Além disso os funcionários estavam limpando, talvez, fosse dia de faxina, porque uma mulher estava passando pano no chão e um homem recolhendo os papeis pequenos colados em uma das paredes. Aquela sorveteria era bastante popular na nossa idade, provavelmente por causa daquilo. Havia uma parede que era usada como um mural de recados e todos os clientes podiam escrever bilhetes em papeizinhos coloridos e colar com fita adesiva na parede. Era bastante divertido e fazia o lugar parecer aconchegante e familiar.

—O que vão pedir? — Bianca perguntou enquanto se dirigia até o balcão.

—Ahn... Acho que vou querer um açai de 400g com leite ninho e morango — Pedi para a moça que estava com uma caderneta para anotar nossos pedidos.

—Eu quero um milkshake de manga — Disse Bianca.

—E eu quero um milkshake de musse de morango com Laka — Completou Elisa.

—Para mim um milkshake de frutas vermelhas — Finalizou Jessica.

Assim que a mulher terminou de anotar, ela entregou para um homem atráves de uma janelinha atrás do balcão e nós quatro nos dirigimos até uma das mesas para nos sentarmos e esperarmos para que nossos sorvetes fossem servidos.

Quando passamos pela parede de recados o moço estava terminando de retirar todos os papeizinhos coloridos e os jogando em um enorme saco de lixo preto, contudo sem querer ele deixou com que um papel vermelho em forma de coração passou flutuando perto de mim e caiu no chão, próximo aos meus pés. Me abaixei para apanhá-lo e me virei para entregá-lo ao homem.

—Com licença, você deixou...

Antes que eu pudesse terminar a frase algo roubou minha atenção e me deparei com o que estava escrito: "Será o seu fim Júllya Bencatel". Abri a boca a medida que relia aquela frase várias vezes. As meninas já estavam sentadas quando perceberam que eu havia ficado para trás.

—Calissa? Ta tudo bem? — Bianca perguntou para mim e me virei atordoada.

—Meninas, olhem isso... — Caminhei até a mesa, onde elas haviam se sentado, sendo Elisa e Jessica de um lado e Bianca do outro, e joguei o papel sobre a mesa.

As três se inclinaram para lerem e assim que o fizeram se voltaram para mim com os olhos arregalados. Ficamos um tempo nos encarando e tentando entender aqquela menssagem, quando Elisa se pronunciou:

—Onde estava isso?

—Na parede.

—Mas quando foi isso?

—Não sei, Lisa... Espera — Apanhei o papelzinho e me virei — Moço, sabe de quando foi esse bilhete?

O homem parouo que estava fazendo e se virou para mim. Ele olhou para o papel em forma de coração na minha mão e negou com a cabeça. Senti um enorme peso em meus ombros. Será realmente que alguém odiaria tanto a Júllya a ponto de matá-la? Isso tinha a ver com o assassinato?

—Todos esses bilhetes foram do mês passado. Nós limpamos a parede todos os meses.

—Ah, obrigada... — Me voltei e caminhei lentamente até as meninas enquanto minha cabeça se enchia de dúvidas — Ele disse que são do mês passado. Pode ser qualquer dia.

Joguei o papel dentro da minha mochila vermelha e encarei as minhas a mesa. Elas me encararam de volta. Todas estávamos tentando entender o que aquele bilhete significava. Tentávamos entender se tinhamos alguma pista a respeito do assassino da nossa melhor amiga. Por um momento pensamos que estávamos superando isso. Que éramos capaz de seguir em frente, mas agora tudo estava diferente. Sabíamos que não podiamos continuar sem resolver uma coisa, e a mais importante de todas: Precisávamos descobrir quem fora o assassino de Júllya Bencatel.

Notas finais
Postamos logo e espero muito que tenham gostado! Qual casais já shippam? Qual personagem mais gostaram? Alguma crítica construtiva? COMENTEM E FAVORITEM NÃO SEJAM APENAS LEITORES FANTASMAS PLEASE! AMO VOCÊS! XOXO