Notas iniciais
Essa é minha primeira vez escrevendo uma história de tema sobrenatural, principalmente algo relacionado à vampirismo. Pesquisei bastante sobre o assunto, ainda assim, por se tratar de uma obra ficcional, me dou a liberdade artística de não basear os vampiros nem as outras criaturas em alguma mitologia em específico.

Eu ainda sentia meu corpo inebriado e cansado de todo o trabalho que tive no dia anterior. Meu perfume estava mais forte que de costume para cobrir o cheiro de antibiótico que eu sabia que estava exalando de mim, mas não havia muito que pudesse fazer.

O primeiro cliente entrou no café e abri meu mais cortês sorriso para ele. Arthur. Ele nunca se atrasava. Chegava sempre às 6:45, uma pontualidade tão perfeita que eu poderia usá-lo para arrumar o relógio, se preciso fosse.

— Bom dia, Alana. — Ele abriu um sorriso que mostrava os lábios alinhados de forma gentil. — O de sempre, sim?

— Para viagem?

Ele meneou a cabeça de forma positiva, com o corpo próximo ao balcão enquanto eu buscava seu Café Árabe. A rotina apenas se seguiu como em todas as manhãs: Trocamos olhares e senti sua mão deslizar sobre a minha quando pegou o copo. Um sorriso tímido e ele pagou a conta. Saiu não antes de sussurrar um Nos vemos mais tarde. E eu, por essa rotina, certamente o veria quando ele saísse do trabalho. Viria comprar outro café e desejaria uma boa noite antes de ir para casa.

— Bonito, mas meio acanhado, não?

Estava tão absorta em observar a silhueta do homem se afastar pelas calçadas que sequer percebi a senhora Regina, proprietária do lugar, se aproximar de mim. Virei-me para ela, surpresa, e recebi um olhar comparsa em troca.

— Se quer esse homem, vai ter que dar, você, o primeiro passo.

— O quê? Não é nada disso, dona Regina...

Ela não me deixou justificar ou explicar. Tão logo comecei a falar, ela mostrou um olhar desinteressado e se afastou. Estava resmungando sobre o atraso dos outros funcionários e o que deveria ser feito quanto a isso. Meu cansaço voltou à tona.

Dentre os clientes que frequentavam o La Corona Della Regina, uma boa parte era um tanto fixa. Pessoas que moravam na região ou cujo trabalho tinha o café como caminho — como imaginava ser o caso de Arthur —, e por isso acabavam sempre que podiam parando para tomar café da manhã por ali. Rostos novos não eram incomuns, entretanto.

Eu estava atendendo as mesas no período da tarde. Imaginei o que aconteceria caso Arthur saísse do trabalho mais cedo. Será que ele pararia em uma das mesas para comer algo, ou apenas compraria seu costumeiro café e seguiria para casa? Ele iria ao menos me cumprimentar, mesmo que eu não estivesse no balcão para atende-lo, ou será que me ignoraria? Quem sabe o comportamento dele não fosse “especial” comigo. Talvez ele não fosse “acanhado”, mas sim desinteressado. O toque de nossas mãos poderia ter sido, realmente, um acidente, e os sorrisos não mais que educação e simpatia.

Passei a esperar ver seus cabelos ondulados toda vez que a porta era aberta, mesmo que não o tivesse visto pela vitrine. Só percebi o quão ridícula eu estava sendo quando virei-me apressada e dei de cara com um homem desconhecido. Um rosto novo, certamente.

Minha decepção deve ter sido aparente, pois o vi abrir um sorriso de descaso, os olhos azuis brilhando divertidos ao me observar.

— O quê? Esperava outro alguém?

Ele permaneceu parado pelos próximos segundos. Me recompus o mais depressa que pude e sorri para o desconhecido. Estiquei o braço em direção a uma das mesas vazias que ficava no centro do lugar, mas ele fez que não com a cabeça e seguiu para uma que ficava em um dos cantos.

Era uma mesa usada apenas quando o lugar estava cheio de mais para oferecer outro acento. Não que fosse um lugar ruim ou mal cuidado, veja bem, apenas ficava distante do balcão e, com isso, o atendimento poderia demorar um pouco mais, os próprios funcionários acabavam se esquecendo daquela mesa.

Segui o cliente a passos rápidos e virei-me para voltar ao espaço de espera, onde ficaria até que ele escolhesse o que pedir. Sequer dei um passo.

— Eu já decidi.

Sua voz soou rouca e baixa. Mas como o lugar estava praticamente vazio, pude ouvi-lo claramente.

Eu sempre odiei ter que substituir alguém e trabalhar servindo as mesas. A Sr.ª Regina havia cursado alguns períodos de psicologia, e tentava ao máximo encaixar no atendimento do café o pouco que havia aprendido nas aulas. Ela mesma treinava cada um dos funcionários, e se tratando de servir as mesas, as coisas ficavam mais complicadas.

Ajoelhei-me ao lado da mesa do cliente e apoiei o caderno de anotações e meu braço direito sobre a madeira escura como se fosse uma criança tentando escrever algo.

É desconfortável fazer um pedido quando você está sentado e a pessoa que vai lhe ouvir, postada em pé. Se abaixem perto das mesas para ficar com os olhos na mesma altura dos clientes, ou, pelo menos, fiquem um pouco mais baixo. Se sentirão mais confortáveis e podem até mesmo dar uma gorjeta maior. Ah, e sempre sorriam... Mas não muito! O façam de forma confortável.

Já estava acostumada com a surpresa dos clientes mais novos, e dessa vez não foi muito diferente. Ele pigarreou e abafou uma risada assim que me viu. Logo se inclinou confortavelmente sobre a cadeira, um sorriso sínico percorrendo seus lábios.

— O quê? — A voz dele deixava ainda mais clara a diversão estampada em seu rosto. — Apenas não esperava uma mulher ajoelhada à minha frente enquanto digo o que quero comer.

Senti meu rosto queimar, mas não por vergonha. Trabalhava nesse café há mais de um ano e, mesmo não gostando da forma que tinha de atender os clientes, ou do uniforme ser quase um vestido de empregada, nunca havia realmente sentido tanta raiva.

Era óbvio que os homens olhavam. Sempre foi claro que gostavam disso, mas nenhum deles nunca havia demonstrado tamanha diversão.

Definitivamente, raiva não era exatamente o que eu sentia. Estava puta, não apenas com aquele homem, nem com o fato de que ainda assim precisava sorrir e tratá-lo bem, mas pela certeza de que ele sabia disso e parecia estar disposto a se aproveitar o quanto pudesse.

— Um Expresso bem forte, sim, querida?

Anotei seu pedido em rabiscos e me levantei com um sorriso forçado no rosto.

— Deseja mais alguma coisa, senhor?

Cerrei os dentes ao ver seu olhar descer contemplativo ao uniforme antes de voltar ao meu rosto. O sorriso dele continuava ali, um completo filho de uma égua.

— Nada que se possa servir, meu bem. Apena o café.

Esse homem me fez acreditar na ideia de compensação. Quanto mais bonita uma pessoa, pior é a sua personalidade. Como se o interior e o exterior fossem opostos. E Deus... Por que destes a esse demônio, em vez de olhos, dois pedaços do céu?

— Eu não me incomodaria nem um pouco de ficar ajoelhada aos pés desse deus grego enquanto ele faz o pedido, e que ele demorasse o tempo que for preciso...

Olhei completamente incrédula para Camila assim que ouvi sua voz. O olhar da minha colega estava fixo em nosso cliente de olhos azuis, o devorando.

— Se você não tivesse se atrasado, estaria responsável pela mesa dele e eu, bem aí, no balcão que tanto amo.

Ela mostrou um sorriso fingido. Se divertia com o meu ódio por aquele cara, e com a felicidade dele em me provocar.

Ele, por outro lado, me chamava sempre que seu café acabava, e então fazia outro pedido. Parecia disposto a passar o dia inteiro no La Corona Della Regina, e como ainda estava pagando, isso não seria bem um problema. Eu estava encarregada por aquela mesa — por ter sido a primeira a atendê-lo —, logo, era a única a ir obedientemente sempre que ele erguia a mão.

Já passava das cinco horas e o céu começava a escurecer quando ele me chamou pela última vez nesse dia. Pediu mais um Expresso, dessa vez para viagem, e voltou o olhar perdido ao exterior do lugar. Fitava cada pessoa que passava pela vitrine como se estivesse esperando alguém. Sua voz havia ficado mais e mais impaciente com o passar das horas.

Eu estava ajoelhada em sua mesa, fazendo a conta de todos os cafés e biscoitos que ele havia pedido naquela tarde quando a porta voltou a se abrir e pelo canto do olho pude ver Arthur entrar no lugar.

Ele caminhou até o balcão, mas logo ficou paralisado ao ver Camila sorrindo e perguntando o que ele iria querer. Não houve resposta. Moveu o rosto de forma apressada por todo o café, buscou de mesa em mesa até que seus olhos finalmente se pousassem em mim.

Arthur estava pálido. Os olhos pareciam avermelhados e mesmo de longe pude vê-lo cerrar os punhos antes de sair sem seu Café Árabe. Mil pensamentos e ideias percorreram a minha mente com esse pequeno detalhe. Será que estava me procurando? Mesmo se fosse isso, por que parecia com raiva?

Voltei a olhar o caderno onde eu anotava os preços de cada pedido que levei àquela mesa e só então lembrei o quão perfeitos eram os horários de Arthur. Chegava cedo de mais para ver outro cliente, ou tarde de mais para ainda ter alguém nas mesas. Chegava assim que abríamos, e depois, minutos antes de fecharmos. Será que ele nunca havia visto uma de nossas funcionárias ajoelhadas ao atender um pedido?

Foi com essa dúvida em mente que entreguei a conta ao cliente. Seus olhos azuis queimavam e eu simplesmente não consegui sorrir ou forçar simpatia enquanto ele pagava e finalmente ia embora. Nenhum “volte sempre” foi dito enquanto ele passava pela porta e desaparecia pelas ruas já escuras.

A noite estava especialmente fria e abafada. O tipo que faz uma pessoa derreter caso use um casaco, ou congelar, caso não use. Eu estava na segunda opção, mas não por escolha. Não carregava nada além de meu celular e algumas notas escondidas na capinha de proteção do próprio aparelho.

Deslizei as mãos pelos meus braços em uma tentativa inconsciente de me aquecer enquanto dava passos lentos pela rua escura. Eu sei o quão perigoso isso é, e o quão sensato seria andar mais rápido, mas eu sempre conheci aquela vizinhança e nunca, nos mais de cinco anos em que morava ali, havia acontecido algo.

Minha mente logo voltou à tarde que tive no trabalho. Voltou diretamente aos olhos azuis que se divertiam a me ver andar de um lado ou outro, como uma barata tonta. Pela primeira vez, me vi torcendo para que um cliente nunca mais voltasse.

Só voltei ao presente quando um casaco pesado foi colocado sobre meus ombros.

— É perigoso, sabe?

A voz de Arthur estava calma, como sempre. Seus passos silenciosos se encaixavam nos meus, o que o fez caminhar ao meu lado de forma natural, como se conhecêssemos o ritmo um do outro. Eu não sabia que estava tão perdida assim em meus próprios pensamentos.

— Você mora por aqui?

O sorriso do rosto dele se desfez assim que ouviu minha pergunta, mas ele disfarçadamente desviou o olhar e continuou caminhando ao meu lado.

— Eu pretendia te chamar pra sair, hoje. Sabe... Perguntar que horas o seu turno acabava e, se poderíamos nos ver depois, mas pensei que estaria ocupada.

— E por que pensou isso?

Um silêncio se instalou por alguns segundos. Eu conseguia ouvir apenas o som de nossos passos antes que Arthur voltasse a sorrir. Um sorriso genuíno, dessa vez. Não era como o que via no café, não era algo tímido ou simplesmente educado, mas um sorriso que me permitia ver pequenas covinhas se formando em suas bochechas.

— Sim, por quê? Por que eu pensei isso?

Eu não o respondi. Ele também não parecia esperar que eu dissesse algo. Apenas continuei ali, caminhando a passos lentos e sem olhar para o caminho, mantendo meus olhos unicamente no rapaz ao meu lado. Ele não tinha aquelas “características únicas” que se espera quando você diz que tal pessoa é bonita. Seus olhos eram de um castanho comum, ainda assim, extremamente cativantes.

Arthur parecia confortável com toda a atenção que eu não conseguia simplesmente não dar à ele. Era como se o mundo perdesse a forma enquanto dávamos as mãos e ele me guiava para longe da rua, seguindo um caminho desconhecido mesmo para mim.

A iluminação estava se tornando cada vez mais precária até o ponto de não existir. O chão de concreto lamacento e imundo fazia com que o som de sujeira sendo pisoteada surgisse a cada passo que dava, logo não tive como dar a volta.

Ele estava parado a minha frente, impedindo a única saída do beco. Os olhos antes cativantes e vivos agora se mostravam completamente frios e sem emoção alguma, mas ainda havia um sorriso pairando seus lábios. Um sorriso sínico. Eu não sabia que Arthur era capaz de fazer uma expressão como essa.

— Onde nós...

— E isso importa? — Sua voz gentil estava dura como gelo. — Ah, Alana, Alana. Minha pequena Alana... O que eu faço com você?

A cada passo que ele dava em minha direção eu imitava me movendo para trás, me afastando o máximo que podia. Não conseguia parar de olhar para o homem à minha frente, talvez fosse pelo pavor que começava a surgir por entre minhas entranhas, ou talvez fosse a surpresa.

— Arthur, você está me assustando.

Minhas costas tocaram a parede do beco fechado e sem saída. Engoli em seco e respirei fundo, como se isso pudesse, de alguma forma, acalmar meus pensamentos.

Ele não se preocupou em falar mais nada, nem mesmo uma justificativa. Eu ainda tinha esperanças de ouvir uma risada e um “eu estava brincando”, mas já sabia que isso não iria acontecer.

Arthur continuou a se aproximar e logo pude sentir seu corpo há centímetros de distância do meu, a mão se movendo pesada pelo meu pescoço, como se analisasse cada centímetro da minha pele.

Eu estava paralisada. Um grito estava entalado na minha garganta e meu corpo simplesmente se recusava a me obedecer. Eu não sabia mais o que pensar. O desespero havia tomado conta de mim como nunca antes.

Meu rosto estava molhado. Lágrimas. Isso era frustrante em um nível incapaz de descrever.

Arthur inclinou-se até que sua cabeça estivesse a lado da minha. Senti algo perfurar meu pescoço. Facas? Acho improvável, estava quente de mais para ser alguma lâmina. Talvez estivesse me mordendo, mas era afiado de mais para ser os dentes de alguém.

Levei apenas alguns segundos tentando — ainda — entender o que estava acontecendo. Minhas pernas se tremeram quando senti a dor aguda na pele bem abaixo da linha do meu maxilar. Teria caído ao chão se os braços de Arthur não tivessem envoltos à minha cintura para me dar apoio. Minha respiração estava pesada e tudo que passava pela minha mente era a ideia de que eu estava morrendo.

Ouvi o som de algo estourando e o aperto ao meu redor se tornou cada vez mais fraco até que eu finalmente caí com o corpo de Arthur sobre o meu. Seus cabelos castanhos estavam embebidos em sangue e logo percebi que a situação do meu vestido não era muito diferente.

Três passos foi tudo que ele precisou tomar antes que eu visse seus olhos azuis me fitando novamente. O sorriso sarcástico havia sumido e uma expressão séria estava em seu rosto. Os cabelos negros continuavam desarrumados e caídos de forma irregular em sua face.

— Sentiu minha falta, empregadinha?

Notas finais
Bem, espero que tenham gostado.