Notas iniciais
Espero que gostem da leitura.

Empregadinha.

Essa palavra se repetia em minha cabeça a medida que minha visão escurecia. Eu ouvia seus passos se aproximando cada vez mais e então veio o breu. O silêncio.

O sentimento era o mesmo de dormir quando se está com febre. Seu corpo clama por um descanso, mas não importa quanto tempo passe, as energias simplesmente não voltam. Não por completo.

Quando acordei pela primeira vez, pude sentir apenas a dor. Meu pescoço latejava e meu corpo queimava. Devo ter feito algum barulho, pois tão logo abri os olhos, ele se aproximou de mim. Me perdi no escuro novamente. Na segunda vez, descobri estar em movimento. Um carro. Na quinta, pude ver Arthur ao meu lado. Morto.

Perdi a conta.

É difícil ouvir ou prestar alguma atenção às coisas que acontecem ao seu redor enquanto você dorme. As vozes sempre começam distantes e aos poucos se aproximam. Uma luz pode ficar sobre o seu rosto por minutos antes que você a perceba, e então pode levar outros longos minutos até que ela te acorde.

Não sei em que parte da conversa passei a realmente ouvir, mas o pouco que me lembro era uma discussão entre duas pessoas.

— Ela está morta. — O primeiro homem disse.

— Todos eles estão mortos, Nicolas. — O segundo replicou.

— Tá, mas e se ela estiver morta? — O primeiro, o tal Nicolas, falou a ultima palavra de forma lenta.

— Então que pena. — Reconheci o sarcasmo na voz do segundo homem. Ele.

— Se ela sobreviver, a vida dela vai ser vai ser bem difícil. Por outro lado, se ela morrer, vamos ter mais trabalho e... — A fala dele foi cortada.

— Ela não vai morrer, Nicolas!

— Sim, mas nós nunca lidamos com... Olhe, ela está acordando.

A voz dele pareceu bem mais próxima que no início. Não, eu apenas estava ficando mais consciente. A iluminação começava a incomodar meus olhos mesmo antes de abri-los.

— Suas preces foram ouvidas, Nicolas. ­— Ele falou.

Meu corpo estava amolecido. Abrir os olhos foi como travar uma batalha, me sentar na cama, uma guerra. Uma guerra que não consegui vencer. Estava dopada.

Passei o que pareceu uma eternidade observando o teto acima de mim. Uma única lâmpada branca parecia iluminar todo o quarto. Havia infiltração e mofo no teto escurecido pela sujeira e pela falta de cuidado. Ainda assim, o único cheiro que eu sentia era lavanda.

Uma cadeira foi arrastada ao meu lado e precisei fazer um esforço descomunal unicamente para virar a cabeça. Haviam dois homens. O primeiro era o “rosto novo” do La Corona Della Regina. Seus lábios firmados em um sorriso de canto enquanto ele se levantava. Ainda sentado estava o tal Nicolas.

Engoli em seco quando o desconhecido se aproximou. Ele inclinou o corpo em minha direção e levou uma das mãos à minha testa. Sua pele era tão fria quanto um bloco de gelo. Estremeci com esse simples contato e, se ele percebeu, ignorou por completo. Seu amigo de olhos azuis, por outro lado, abafou uma risada.

— Definitivamente, ela não vai morrer. A febre baixou e o corpo dela está se estabilizando. — A voz de Nicolas era calma. Ele parecia aliviado com essa notícia.

“Por outro lado, se ela morrer, vamos ter mais trabalho.” É claro que ele estava aliviado.

Tentei abrir a boca para falar. Queria perguntar onde estava ou o que estava acontecendo. Queria até mesmo perguntar sobre Arthur. Nada saiu. Minha garganta estava seca como se não bebesse água há semanas.

É uma situação da qual eu esperava sentir medo ou pavor. Esperava estar me tremendo e esperava, acima de tudo, incapacidade, não sobre meu corpo, mas sobre minha mente. Entretanto as dúvidas vinham de forma paciente e não como uma avalanche. Estava cogitando cada ideia uma a uma. Graças a isso, permaneci calma mesmo ao perceber que mover meu corpo não seria uma tarefa simples.

— Vamos lá, você não tem nenhuma dúvida? — O rapaz de olhos azuis perguntou. Parecia impaciente.

— Não a incomode, Cícero. — Nicolas rebateu com a mesma tonalidade paciente. — É meio que minha culpa. Usei magia para acelerar a recuperação do corpo dela. Acho que não sobrou energia quase alguma para algo além de “continuar viva”. — Ele fez sinal de aspas com os dedos quando pronunciou as últimas palavras.

Cícero.

Não consegui entender o que disseram em seguida. Falavam sobre algum concelho e sobre vampiros. Falaram também sobre alguma papelada que precisavam preencher.

De minuto em minuto Nicolas voltava a por a mão sobre minha testa para verificar a febre. Sua pele continuava fria, sempre.

Não demorou para que eu voltasse a dormir.

Arthur estava lá. O Café Árabe em mãos e o sorriso calmo de volta ao rosto. Estávamos ambos de volta ao La Corona Della Regina, mas isso durou pouquíssimos minutos. Tão logo pagou pelo seu pedido rotineiro, Arthur mudou. Não era mais o rapaz que me cumprimentava todos os dias com olhares tímidos. Ele estava muito perto. A expressão dura e rígida. E então ele mudou novamente. O carro. O corpo ensanguentado ao meu lado. Os cabelos embebidos pelo líquido vermelho.

Acordei ao ser sacudida por mãos frias como gelo. Um pesadelo.

— Alana.

Minha respiração estava pesada e levei instintivamente a mão ao peito, na esperança de sentir o coração acelerado para quem sabe, tentar me acalmar com minhas próprias batidas. Não encontrei a pulsação. Tentei pressionar o punho fechado sobre o tecido fino da minha camisa. Nada.

— É estranho, não é?

A voz de Nicolas me fez virar apressada e encarar sua expressão compreensiva. Em outra situação eu ficaria envergonhada de ter esquecido sua presença.

— Quando você acorda e descobre que não está mais... — Ele fez uma pausa. Parecia procurar a palavra certa. — Viva.

Seus dedos brincavam com uma garrafa plástica e ele logo baixou os olhos para o objeto.

Meu corpo ainda estava cansado, mas não precisei realmente de algum esforço para me sentar na cama. Não uma sensação muito incomum, era o mesmo estado físico que eu alcançava na época em que trabalhava em dois empregos. Cansaço extremo.

— Você pode me explicar o que está acontecendo?

Minha pergunta fez com que ele mantivesse as mãos quietas por alguns segundos, mas não ergueu o olhar em minha direção. A cabeça continuava baixa enquanto parecia pensar no que falar, ou quem sabe, se deveria mesmo falar. Não demorou muito para que ele me entregasse a garrafa.

— Beba isso enquanto explico. Você precisa se alimentar.

Eu não consegui recusar. Deveria, e sei disso, mas não foi possível. Meu corpo se moveu antes que eu pensasse e aceitou o objeto. Girei a garrafa em minhas mãos, mas o plástico era escuro de mais para que pudesse ver o que havia dentro. Quando finalmente a levei a boca, senti algo doce, e então amargo. Havia uma pequena pitada salgada também, mas quase imperceptível. Não era ruim. Deus, não era nem um pouco ruim. Era provavelmente uma das melhores coisas que eu já havia bebido.

— Então... — Ele ainda me observava. Parecia querer um confirmação de eu realmente estar bebendo o conteúdo antes de começar a falar. Mas por um breve segundo, sua entonação pareceu decepcionada. — Você se lembra do que aconteceu com Arthur?

Baixei a garrafa ao meu colo.

— Você quer dizer no beco?

Ele fez que sim.

— Ele está morto, Alana. Foi preciso. Se Cicero não tivesse intervindo, você não estaria aqui para contar sua história. Olha, você não precisa acreditar nas minhas palavras, mas...

— A polícia já sabe?

Nicolas desviou o olhar do meu rosto assim que ouviu minha pergunta. Entrelaçou os dedos das próprias mãos e respirou fundo. Ele não queria ter aquela conversa. Ele não queria ter de explicar o que estava acontecendo.

— Isso não é o tipo de coisa que a polícia possa resolver.

— Isso é um não.

Ele meneou a cabeça de forma positiva, mesmo sabendo que aquela não havia sido uma pergunta. Logo fez sinal para a garrafa. Voltei a beber.

— Vou tentar colocar isso em uma ordem cronológica para que fique mais fácil.

Há muito, muito tempo atrás, estou falando de antes das grandes civilizações, o homem era predado por muitas criaturas. E acredite, não me refiro à leões ou seja lá o que você imaginou com isso. Estou falando de monstros. Monstros como vampiros, lobisomens, basiliscos, e muitos outros. A humanidade em si iria acabar antes mesmo de começar, e foi aí que veio a necessidade de uma intervenção.

Algumas criaturas que não concordavam com essa carnificina guiaram os humanos. Os ensinaram a viver em comunidade. Os ensinaram que juntos seriam mais fortes. Quando os homens passaram a finalmente viver em sociedade, essas criaturas que os protegiam dos monstros decidiram que era hora de partir, mas antes, faltava uma coisa que os humanos precisavam.

Eles escolheram os melhores guerreiros e os mais sábios eruditos, e então deram a eles parte de seu poder. Nesse momentos eles deram ao homem a independência.

As pessoas aqui são descendentes desses guerreiros escolhidos, Arthur era descendente de um desses monstros.

— Uau! Essa foi... Uma ótima história. — Eu já havia acabado de beber todo o conteúdo da garrafa e a colocado na escrivaninha ao lado da cama.

— Não é só uma história, Alana. — Ele finalmente ergueu a cabeça para me olhar. Não consegui ler sua expressão. — Arthur não era humano.

— Então você está dizendo que ele era...

— Um vampiro. — Ele confirmou.

Respirei fundo.

— Arthur era um homem que me atacou em um beco. Talvez por ciúmes. Isso acontece mais do que deveria, mas acontece. Ele deveria ser reportado à polícia e não...

— Você quer ver ele? — Nicolas perguntou, ignorando completamente minhas palavras. — Eu posso levar você até ele agora e provar o que eu estou falando. Isso é, se você estiver forte o suficiente para andar.

Estranhamente, eu estava. O cansaço havia desaparecido em alguma parte de sua história e me sentia energizada o suficiente para correr uma maratona se preciso fosse. Nicolas pareceu ver isso no meu olhar, pois logo levantou-se e estendeu a mão.

— Então vamos, Alana. Vou te levar até ele.

Notas finais
Esse capítulo foi menor que o anterior e sinto muito por isso, mas não acho que o enredo me permitiria estendê-lo. Planejo postar o próximo capítulo antes do dia 25.