Trabalhar com a direção de um hospital psiquiátrico não era uma tarefa fácil, principalmente quando se tratava do Hospital Psiquiátrico Nacional de Busan, o maior do segmento e respeitado em todo o país. Eram pilhas infindáveis de papéis e documentos a serem assinados diariamente, bem como ler e reler os relatórios que seus médicos e enfermeiros faziam de cada paciente interno no hospital, analisando o seu desenvolvimento e pontos de melhorias onde poderiam ter oportunidades de tratamento. Além disso, também era de sua responsabilidade administrar todo o estoque de medicamentos que usavam, bem como prezar pelos equipamentos de tratamento, principalmente quando se tratavam pacientes maníacos e que não conseguiam controlar os seus episódios mais intensos.

No entanto, não eram aquelas coisas que o estavam incomodando no momento. Tais tarefas já faziam parte de sua rotina e por mais que fossem muitas, já estava mais do que acostumado a atendê-las. Na verdade os seus problemas tinham nome e sobrenome: Kim Namjoon. Apenas em pensar no nome do rapaz sentia uma das veias de sua testa saltar por conta do estresse, o que o fazia massagear as têmporas enquanto procurava por paciência. Ao seu lado havia um relatório redigido por Seokjin na última semana sobre os avanços e entraves no tratamento do ex-rapper e que admitia que não havia lido ainda por total e completo desinteresse, além de estar querendo evitar todo e qualquer tipo de contato com Namjoon nos últimos dias.

Já sabia que seria um trabalho árduo desde o momento em que fora envolvido durante o julgamento do Kim, e justamente por isso havia designado Seokjin como seu médico responsável, afinal, sabia da competência do rapaz e tinha completa consciência de que o mesmo poderia dar conta de tratar alguém como Namjoon. Todavia desde o ex-rapper pusera os pés dentro daquele hospital, sentia como se estivesse em tensão constante, principalmente durante as noites em que passava em seu plantão no hospital. Havia sonhado com Namjoon diversas vezes, sonhos estes onde o Kim fazia questão de evidenciar que sabia exatamente o que estava fazendo com seus pacientes dentro daquele hospital. Não veria problemas se fossem apenas os sonhos, mas nos últimos dias tinha a impressão de estar sendo observado pelo mesmo, e até mesmo o viu em pé ao lado da porta de seu escritório.

Tais visões estavam acontecendo com muita frequência nos últimos dias, tanto que em um deles até mesmo o mandou para a área de isolamento. Sabia muito bem que não era uma pessoa santa e tinha conhecimento das coisas que fazia ali, principalmente com a sua menina preferida, Lalisa Manoban. Inicialmente não pensou que Namjoon realmente soubesse de alguma coisa, mas com o passar do tempo e com a frequência com que as visões aconteciam, precisou pôr a mão na consciência e considerar que, de alguma forma, ele sabia demais.

Porém tinha uma vantagem: Era o diretor de um respeitado hospital psiquiátrico e Kim Namjoon era apenas um condenado psiquiátrico fora de si. Em termos legais a justiça estaria ao seu lado, desta forma não teria nada a temer e, além disso, caso o ex-rapper tentasse alguma coisa contra a sua vida apenas provaria o quão insano o mesmo estaria, o que provavelmente apenas aumentaria ainda mais a sua pena.

Permitiu-se respirar levemente, relaxando o corpo sobre a cadeira giratória enquanto finalmente pegava com as duas mãos o relatório que Kim Seokjin havia redigido para ler. De todas as formas estava seguro, e poderia usar de quaisquer meios disponíveis naquele hospital para submeter Namjoon, e não hesitaria em usar nenhum deles.

— Está tão confortável que eu fico até com inveja.

Foi tirado de seus pensamentos pela voz grossa que conhecia muito bem e que o perturbava em demasia desde que pôs os pés dentro daquele hospital. O homem corpulento ergueu os olhos e, na sua frente estava ele em seu já tradicional uniforme branco que os pacientes geralmente usavam, os cabelos castanhos, outrora alinhados e bem definidos, agora baixos e um pouco compridos, jogados para o lado para que os olhos delineados e frios pudessem se encontrar com os do diretor. O homem engoliu em seco, fechando os olhos levemente.

— Você é outra alucinação, vou apenas ignorar e logo você vai embora. – Disse para si mesmo, voltando os olhos para o relatório mais uma vez.

— Ah, eu sou mais real do que você imagina, senhor diretor. – Namjoon disse, dando passos lentos na direção da mesa do homem parrudo, o som ecoando pela sala silenciosa. – Mas você pode acreditar no que quiser, eu não me importo.

— Você é extremamente irritante, para uma alucinação. – O diretor comentou e então ouviu uma risada vinda de Namjoon. Naquele momento resolveu erguer os olhos, espantando-se pela proximidade repentina do ex-rapper. O Kim estava sentado em sua mesa, o rosto voltado para o seu e a centímetros de distância. O diretor conseguia sentir a respiração quente de Namjoon se chocar contra o seu rosto, os olhos penetrantes do outro focado em si.

— Eu pediria desculpas por isso, mas a verdade é que é essa a minha intenção. – Respondeu ainda com um sorriso no rosto, sequer piscando, o que fez o diretor engolir em seco.

— Você sabe que tudo o que você faz aqui o Namjoon lá de fora que sofre, não é? – O diretor fechou o relatório de Seokjin, e apenas naquele momento o Kim desviou o olhar, focando-os naqueles poucos papéis.

— Nós dois temos completa ciência disso, senhor diretor. E eu sei no que está pensando nesse momento. – Namjoon ergueu os olhos para o homem à sua frente mais uma vez. – Está pensando em como ficaria o meu rosto se me submetessem a uma terapia de choque... Sem anestesia. – Namjoon riu nasalmente pela expressão de espanto do homem à sua frente. – Você consegue ser mais sádico do que eu, diretor.

— Se você não sair daqui agora eu farei esses pensamentos de tornarem realidade! – O diretor respondeu, alterado, trincando levemente os dentes. Aquilo apenas fez o sorriso nos lábios de Namjoon aumentar de tamanho.

— Faça. Se é que tem coragem o suficiente para isso. – Namjoon se afastou, descendo da mesa e dando a volta na mesma, ficando ao lado do diretor novamente. – O que quer que você faça comigo não irá mudar o fato de eu saber dos seus podres, senhor diretor. E eu sei exatamente o que você está fazendo com a nossa pequena Lalisa.

Naquele momento o diretor levantou, batendo as duas mãos na mesa. Os olhos voltaram-se para Namjoon raivosos.

— O que diabos você quer?! – Esbravejou irritado, os olhos cintilando de raiva. Ao contrário do que seria esperado, Namjoon apenas abriu ainda mais o sorriso.

— Eu? Nada, estou aqui como um simples espectador, senhor diretor. – O sorriso ainda estava desenhando os lábios grossos. – Eu quero ver até onde você é capaz de ir para esconder os seus podres, e até quando você acha que pode se safar disso.

O diretor trincou os dentes e fechou os olhos, socando a mesa com força.

— Saia já da minha sala! – Praticamente gritou, e então abriu os olhos. Namjoon já não se encontrava mais ali. O diretor até mesmo arfava de nervoso, sentindo um filete de suor escorrer pelo canto do rosto enquanto olhava para a própria porta. – Esse maldito me paga...

Tendo dito isso, lançou-se para fora da sala acabando por atrair a atenção de alguns enfermeiros que passavam por ali, os passos rápidos levando-o para a área externa onde os demais pacientes estavam aproveitando os poucos momentos que tinham para tomar um banho de sol. Os olhos pretos correram o lugar, mais do que depressa encontrando quem estava procurando. Kim Namjoon estava sentado no gramado com um pequeno sorriso enquanto cantava um de seus mais famosos raps: Joke, rodeado por alguns pacientes que eram seus fãs.

Os olhos do diretor cintilaram de raiva e então, naquele momento, ele se virou, chamando alguns enfermeiros que passavam pelo lugar e que se aproximaram sem entender direito. O homem corpulento então respirou profundamente, em seguida voltando os olhos para Namjoon ao lado de fora.

— Eu vou precisar de uma camisa de força e que preparem a sala de eletroconvulsoterapia. E em seguida preciso que levem o paciente Kim Namjoon devidamente imobilizado para a mesma.

Os enfermeiros se entreolharam por alguns momentos, estranhando aquele pedido tão repentino do diretor.

— Há alguma indicação especial para o uso da sala, senhor? – Um deles perguntou, o cenho franzido.

— Lendo os relatórios do doutor Kim Seokjin eu consegui identificar uma oportunidade no tratamento do senhor Kim Namjoon. – Explicou, o que era obviamente mentira. – A terapia de choque pode ajudar em seus transtornos.

— Mas... Não identificamos nenhum tipo de comportamento psicótico nele desde que entrou no hospital, diretor. – O outro enfermeiro comentou, voltando os olhos para Namjoon ao lado de fora, que continuava a cantar para os seus fãs.

— Escutem, eu tenho total convicção de que esse tratamento será o mais eficaz possível. Mas para garantir isso eu mesmo quero conduzir a terapia. – Disse, voltando os olhos para os dois enfermeiros novamente, a expressão mais amigável dessa vez. – Mark, Jinyoung, eu vou precisar da ajuda de vocês nesse momento.

Os dois rapazes se entreolharam e com um suspiro pesado resolveram obedecer. Mark moveu-se rapidamente a procura de uma camisa de força enquanto Jinyoung continuou a fazer companhia para o diretor.

— O Seokjin já está sabendo dessa decisão? – Perguntou e o diretor meneou a cabeça negativamente.

— Não tive a oportunidade de compartilhar com ele ainda, mas não se preocupe. – Levou uma das mãos ao ombro do enfermeiro ao seu lado, apertando levemente. – Eu mesmo irei contar a ele sobre a decisão, até porque teremos que medir os resultados depois.

— Certo senhor. Eu irei preparar a sala do ECT então, e o Mark o ajuda a levar o senhor Kim até lá. – Jinyoung sorriu levemente antes de sair, desfilando em seu uniforme branco de enfermeiro até ser perdido de vista. Apenas naquele momento o diretor finalmente suspirou minimamente aliviado, voltando os olhos pretos para Namjoon, que já havia parado de cantar e agora estava deitado sobre o gramado com os olhos fechados. O diretor se irritava pela expressão calma e tranquila do rapaz, o que às vezes o fazia se questionas sobre as alucinações de Namjoon que via em sua sala.

Foi tirado de seus pensamentos quando Mark voltou com a camisa de força em mãos, e então os dois se aproximaram do Kim deitado no chão. Alguns pacientes acabaram se afastando na medida em que percebiam a camisa de força nas mãos do Tuan, e tal movimentação fez Namjoon abrir os olhos de repente, voltando os castanhos para Mark e o diretor, que agora estavam parados à sua frente.

Em um movimento simples Namjoon levantou, agora sentado sobre o gramado enquanto fitava os dois com certa curiosidade. Tentava esconder o sorriso irritante que queria brotar em seus lábios, pois sabia exatamente quais eram as intenções do diretor ali. Voltou os olhos delineados, então, para o enfermeiro ao lado do diretor, acabando por sorrir ao perceber como o rapaz estava tenso.

— Não precisa ficar tão nervoso, rapaz. Eu não mordo. – Comentou finalmente, levantando-se.

— Kim Namjoon, não ofereça resistência ou seremos obrigados a usar da força para detê-lo. – O diretor comentou, recebendo o olhar curioso do Kim para si.

— Não se preocupe senhor diretor. Resistir é a última das minhas intenções, o senhor sabe bem.

Os dois trocaram olhares pesados, o diretor com o seu olhar já irritado enquanto Namjoon continuava com o olhar desafiador e, até mesmo, um tanto debochado, o que apenas fazia mais raiva no homem corpulento, que voltou-se para Mark logo em seguida.

— Pode imobilizá-lo, por segurança.

— Tudo bem, senhor. Namjoon... – Chamou, recebendo os olhos delineados para si. O Tuan ergueu a camisa de força. – Pode colaborar comigo?

O ex-rapper suavizou o olhar quando o mesmo se encontrou com Mark, até mesmo sorrindo agradável. Por mais que não tivesse interesse em interagir com muitas pessoas naquele hospital, precisava admitir que Mark Tuan era uma pessoa fora da curva que havia encontrado ali dentro, dono de uma personalidade maravilhosa e um coração tão cheio de bondade que isso até mesmo irradiava para além do seu corpo. Em outras palavras, Namjoon gostava de Mark.

Com isso em mente, o Kim apenas ergueu os braços, desta forma facilitando o trabalho de Mark, que vestiu o ex-rapper com a camisa de força sem nenhum problema, até mesmo estranhando um pouco o comportamento tão passivo de Namjoon, afinal, não era algo com que estava acostumado a lidar. Os outros pacientes normalmente lutavam bastante para não serem imobilizados daquela forma.

Não demorou muito para fechar a camisa de força, dando leves tapas sobre os ombros de Namjoon quando terminou. Afastou-se do rapaz com um sorriso tímido nos lábios e o ex-rapper retribuiu, baixando o olhar levemente antes de voltar os castanhos para o diretor mais uma vez, que o fitava ainda irritado. Sem dizer nada mais, Namjoon começou a caminhar, o diretor segurando-lhe pelas amarras da camisa de força enquanto Mark seguia os outros dois mais atrás, perdido nos próprios pensamentos a cerca dos reais motivos que levaram o diretor a tomar aquela decisão tão repentina.

Logo já haviam deixado o jardim, o trio caminhando pelo corredor em passos razoavelmente rápidos, passando pelo local onde ficavam os quartos até chegarem em um lance de escadas, onde desceram poucos degraus até que chegaram em mais um corredor longo, com uma sala mais ao fundo e uma porta com mais um lance de escadas que levavam às áreas de isolamento na parte inferior do hospital. Caminharam mais rapidamente por aquele corredor e Namjoon ergueu o olhar por breves momentos, fitando as lâmpadas brancas que iluminavam o ambiente de paredes verdes, sentindo o nariz arder com o cheiro forte de hospital.

Quando finalmente chegaram na sala encontraram Jinyoung terminando de ligar alguns aparelhos. Dava para se ouvir o som da máquina gerando energia elétrica e os olhos de Namjoon então caíram sobre as duas placas de metal em formato circular, provavelmente as que seriam usadas para o tratamento de choque. Todo o aparato parecia ser bem antigo, talvez ainda do começo do século XX, mas parecia funcionar tudo bem.

— Quero que me ajudem a prendê-lo à maca. – O diretor pediu, apontando para a maca que estava bem ao lado do enorme aparelho. Os dois enfermeiros se entreolharam, porém não comentaram nada sobre, apenas obedecendo às ordens de seu superior.

Mark guiou Namjoon para a maca enquanto Jinyoung desafivelava as amarras que o prenderiam ali, em seguida ajudando o Tuan a deitar o ex-rapper sobre a superfície quase macia daquela maca. Como sempre o Kim não apresentou resistência alguma, apenas deixando-se ser imobilizado enquanto sorria com os comentários do diretor pedindo para que apertassem bem, o que o fez resmungar vez ou outra por conta do aperto excessivo que faziam principalmente em seus calcanhares e cabeça.

Quando terminaram, a única parte do corpo que Namjoon conseguia mexer eram os olhos, que estavam fixos no teto na medida em que suspirava pesadamente, porém com dificuldade por conta das amarras na altura de seu peito.

— Diretor... Isso é realmente necessário? – Mark finalmente perguntou, olhando para Namjoon de relance, o cenho franzido em preocupação.

— Vocês nunca aplicaram esse tipo de terapia antes em um paciente, não é mesmo? – O diretor perguntou, sorrindo levemente pela expressão de dúvida dos dois enfermeiros. – Sim, é necessário. Por mais que seja aplicada a anestesia no paciente é bom mantermos a imobilização no caso de movimentos involuntários, por exemplo.

A dupla de enfermeiros piscou levemente, parecendo concordar com aquela explicação e que era completamente aceitável.

— Irei preparar a anestesia então. – Jinyoung comentou, já se preparando para sair da sala quando foi interrompido pelo diretor.

— Não precisa! Eu já estou com tudo preparado aqui no meu jaleco. – Ele disse rapidamente, sorrindo aberto. – Já podem sair, eu consigo conduzir daqui sem problemas.

— Certo... Se precisar de alguma coisa o senhor sabe onde nos encontrar. – Mark comentou, porém antes de sair com Jinyoung deu uma última olhada em Namjoon, que tinha aberto um grande sorriso em seus lábios volumosos.

O diretor manteve-se atrás de Namjoon até que ouviu a porta ser fechada, e então se aproximou da mesma, trancando-a apenas para se certificar de que não seria interrompido, porém voltou os olhos para trás quando ouviu uma risada gutural vindo de Kim Namjoon, que estava com um sorriso radiante nos lábios.

— Você é um ótimo ator, diretor.

— Você faz ideia do que irá acontecer aqui, Kim? – O diretor se aproximou do ex-rapper, a cabeça erguida com um ar de superioridade enquanto caminhava em passos lentos até a máquina, que já gerava energia o suficiente para começar a trabalhar com Namjoon.

— Ah, sim, eu tenho completa consciência disso. – Fechou os olhos levemente, ainda com o sorriso insistente nos lábios. – A grande questão aqui é: Você está pronto para arcar com as consequências?

Namjoon voltou a abrir os olhos, um semblante sério agora era estampado em seu rosto. O diretor perdeu a postura por alguns momentos com a pergunta do outro, tossindo para coçar a garganta e disfarçar o desconforto que sentiu no momento.

— Por acaso você... Estava, de alguma forma, na minha sala hoje, Kim Namjoon? – Ele perguntou, ouvindo a risada gutural como resposta mais uma vez. – Isso não é engraçado.

— Para mim sim, é um grande espetáculo de comédia em que eu sou o único expectador. – Namjoon respondeu ainda em tom de zombaria. – Você acha que sairia ileso depois das coisas que fez com a Lalisa? Que homem inocente, senhor diretor... – Fechou os olhos. – Eu também sei que ela não foi a única. O senhor deve se lembrar da Jisoo... É uma pena que não tive o prazer de conhecê-la, mas fico feliz por ela ter saído daqui antes que fosse tarde demais.

— Como... Como você...

— Como eu sei disso tudo? – Namjoon completou a pergunta do outro, piscando demoradamente. – Ah, diretor... Algumas pessoas possuem habilidades únicas. Habilidades que você sequer faz ideia de que possam existir.

Namjoon o olhou de relance, os olhos fixos em um diretor completamente incrédulo diante daquelas declarações. Sim, lembrava-se perfeitamente de Kim Jisoo, uma bela jovem de quatorze anos com graves tendências suicidas que havia chegado ao hospital psiquiátrico há poucos anos atrás. A primeira paixão do diretor, que lembrava-se perfeitamente de como a menina corria pelos jardins de um lado para o outro, e de como ficou adorável enquanto chorava nos dias em que decidia tomá-la para si.

Uma visão de um desses momentos veio à tona diante dos olhos do diretor, como uma cena de filme antigo. Havia terminado de tomar Jisoo para si e estava ajeitando o próprio uniforme enquanto a menina chorava baixinho na cama, provavelmente de dor por conta da diferença de tamanho entre os dois. O diretor sorria em sua lembrança, e quando voltou os olhos para frente contemplou o semblante frio de Kim Namjoon para si.

Mais do que depressa o diretor voltou para a realidade soltando um grito assustado, levando as duas mãos à cabeça. Em seguida voltou os olhos para um Namjoon que ria sozinho, e então o homem corpulento franziu o cenho, raivoso.

— Saia da minha mente, seu bastardo! – O homem esbravejou, apenas recebendo a risada do Kim como resposta. – Miserável... Você me paga por isso!

O diretor se voltou para a máquina de eletrochoque, aumentando a voltagem que a mesma produzia antes de pegar as duas placas de metal pelos cabos emborrachados.

— Eu colocaria alguma coisa na sua boca, para evitar que morda a língua. – O diretor encostou o metal um no outro bem rapidamente, fazendo um som estalado ecoar pelo local. – Mas eu espero que morda, morda ao ponto de arrancá-la.

— Boa sorte, Cho Bong Cha. – Namjoon comentou, e o diretor recuou levemente. – É esse o seu nome, não é, diretor Cho?

O homem trincou os dentes com raiva, aproximando-se de Namjoon por trás.

— Sem anestesia, como lhe disse.

E finalmente encostou os círculos de ferro, um de cada lado da testa de Namjoon, que revirou os olhos e começou a ter convulsões violentas imediatamente. Por mais que estivesse preso, sentia o corpo se mover inconscientemente, ao mesmo tempo em que uma dor lancinante percorria todo o corpo e, principalmente, a cabeça, como se seu cérebro estivesse fritando lentamente. Trincou os dentes por impulso e por pouco não prendeu a língua entre eles, os olhos arregalados, a expressão de profunda dor que era atentamente observada por um Bong Cha sorridente. Em outras palavras, estava completamente satisfeito e até mesmo se divertindo com a dor que estava proporcionando a Kim Namjoon, que até mesmo deixava a saliva espumante escorrer pelo canto dos lábios na medida em que procurava por espaço para respirar.

Após certo tempo o diretor finalmente afastou os círculos de metal, e então o corpo de Namjoon relaxou mais do que depressa, um grunhido sôfrego escapando de seus lábios. Os olhos rolavam em suas órbitas e abriu a boca para puxar o ar de volta para os seus pulmões. Ao fundo conseguia ouvir a risada do diretor, que parecia satisfeito com o resultado que conseguiu. Poderia continuar com aquilo por mais tempo, porém não podia simplesmente comprometer os tecidos neurais de Namjoon.

— Parece que as suas habilidades não servem de nada agora, não é, Kim Namjoon? – O diretor disse em tom de deboche, rindo em seguida. – Tão patético! Aonde foi parar toda aquela marra?!

Namjoon ainda puxava o ar com força, os olhos fechados em um aperto muito forte. Conseguia ouvir tudo o que o diretor dizia, porém era como se a voz do mesmo estivesse distante, como se estivesse ouvindo repetidos ecos. Estava com uma sensação horrível no corpo e com uma ânsia de vômito que aumentava ainda mais por conta do cheiro de hospital. Porém, mesmo com dificuldade conseguiu soltar com a voz arrastada um:

— Vá ‘pro inferno...

Bong Cha riu mais uma vez, encostando o ferro um no outro mais uma vez, o som do choque se fazendo presente novamente.

— Você ainda não entendeu? Quem está no inferno é você, Namjoon. – A voz do diretor soou séria na medida em que ele aproximava mais uma vez os círculos de metal. – Será que consigo amansar nosso psicopata se eu lesionar a sua área pré-frontal*? – Sorriu ainda mais quando Namjoon o olhou de relance, aparentemente assustado com aquele comentário.

— Seu filho da p-

Foi interrompido pelas convulsões que voltaram a acontecer quando o diretor voltou a aproximar os círculos de ferro que conduziam aquela carga elétrica, e mais uma vez Namjoon sentiu aquela dor quase insuportável praticamente partir-lhe ao meio, assim como sentiu a cabeça esquentar mais uma vez. Os olhos estavam revirados, Namjoon queria mover a cabeça para tentar se libertar, mas não conseguia pela mesma estar presa pelas amarras na maca. O diretor estava se demorando mais daquela vez e a única coisa que Namjoon conseguia pensar naquele momento era na dor miserável que sentia. Voltou a salivar, lágrimas inconscientes escorriam pelo canto dos olhos e o rosto já estava ficando vermelho.

Naquele momento a imagem de Seokjin lhe veio à mente, e então ficou pensando o que havia acontecido com o rapaz, visto que não o havia lhe procurado até o momento. Porém, em meio aos seus altos grunhidos de dor e às risadas do diretor, Namjoon conseguiu ouvir, mesmo que ao longe, o som de algo de chocando contra uma superfície de madeira. Não deu muita importância até que de repente um clarão se fez presente naquela sala e o diretor afastou os círculos de ferro da sua cabeça. Namjoon sentiu o corpo relaxar quase que de imediato, porém começou a resmungar coisas sem nexo enquanto puxava o ar com certa dificuldade. Tanto que apenas se deu conta de que havia mais alguém naquela sala quando ouviu o diretor exclamar:

— Seokjin?!

O psiquiatra estava arfando, os olhos arregalados se alternando entre o diretor e Namjoon completamente alterado na maca, e até mesmo os sentiu marejados ao contemplar o estado em que seu paciente estava, incluindo as marcas de queimadura ao lado de sua testa.

Teve dificuldades em acreditar no que estava acontecendo. Procurou por Namjoon quando chegou para o seu plantão no hospital e se preocupou por não encontrá-lo, logo em seguida sendo abordado por Mark, que lhe explicou toda a situação. Ainda assim não conseguiu acreditar que o diretor pudesse realmente estar fazendo aquele tipo de coisa, principalmente por ter total e completo conhecimento sobre a opinião de Seokjin sobre aquele tipo de tratamento. Apenas se deu conta da seriedade do que Mark Tuan lhe dissera quando chegou àquele corredor e ouviu os grunhidos dolorosos que Namjoon soltava, além do fato da porta estar trancada, precisando arrombá-la. Além disso, Jin apenas sentiu a raiva crescer ainda mais em seu peito ao perceber que Namjoon sequer estava anestesiado, e então voltou os olhos enfurecidos para o homem corpulento que estava desligando a máquina de eletrochoque, empurrando-o logo em seguida contra a parede.

— Você tem merda na cabeça ou o que?! O que está pensando?! – Seokjin disse finalmente, esbravejando raiva, o que pegou o diretor completamente desprevenido. Era a primeira vez que via Seokjin naquele nível de raiva.

— Ele precisava de tratamentos mais efetivos, por isso o trouxe aqui! – Disse em uma tentativa de se defender.

— Você sabe muito bem o que eu penso sobre a ECT e mesmo assim se achou no direito de pegar um de meus pacientes e usar isso sem o meu consentimento?! No que estava pensando, Bong Cha?! – Seokjin estava praticamente gritando, as mãos fechadas em punho, tremendo por conta da raiva, até mesmo se esquecendo da sua posição com relação ao diretor e o chamando pelo nome. – Como você ousa sequer pensar em fazer uma atrocidade dessas com um paciente meu?!

— Eu sou o diretor desse hospital! Tenho o total direito de intervir no que for melhor para os pacientes aqui! – O homem corpulento franziu o cenho, irritado pela ousadia de Jin, que apenas trincou os dentes.

— Foda-se o seu cargo! Eu não quero saber de você se envolvendo com os meus pacientes, ou eu não respondo por mim! – Disse, empurrando o homem contra a parede mais uma vez antes de se afastar, correndo em socorro de Namjoon que estava completamente alterado.

Ignorou completamente quando o diretor saiu daquela sala em passos lentos, e então começou a desafivelar as amarras que prendiam Namjoon à maca, ajudando-o a se sentar para então o desamarrar da camisa de força. Estava tentando segurar a vontade de chorar de nervoso naquele momento, nunca tinha visto Namjoon naquele estado antes e aquilo o preocupava. O ex-rapper não estava conseguindo ficar sentado sozinho, o corpo estava mole e não conseguia focar os olhos em um ponto específico.

Mordeu o lábio inferior, em seguida voltando os olhos rasgados para a máquina, fechando os olhos logo em seguida ao ver o nível da voltagem que o diretor estava usando em Namjoon. Aquilo não o tranquilizou nem um pouco, muito pelo contrário, temia que aquela imprudência pudesse ter causado danos irreparáveis à cabeça de Namjoon.

— Ei, Nam. – Disse com a voz baixa, vendo o outro resmungar. Jin levou uma das mãos o rosto do ex-rapper, erguendo-o para si. – Nam, olha para mim, por favor...

Namjoon piscou demoradamente, como se estivesse tentando obedecer à Jin, mas sempre que abria os olhos não conseguia focá-los no médico. Seokjin não conseguiu segurar as lágrimas que queriam escorrer de seus olhos, estava preocupado com o estado de Namjoon e em como ele ficaria depois disso.

Por mais que tivessem tido um passado que Seokjin tentava a todo custo esquecer, e por mais que Namjoon estivesse agora com toda uma carga sobrenatural que simplesmente não conseguia entender ou aceitar muito bem, era um fato que ainda nutria sentimentos fortes por aquele homem, independente de tudo o que ele tivesse feito. Jin sempre viu um homem forte e determinado em Namjoon, um homem inabalável, e simplesmente esmagava o seu coração vê-lo em um estado tão deplorável como aquele.

E então, em um movimento impensado, Seokjin se aproximou mais de Namjoon, puxando-o para o seu colo e, dessa forma, abraçando-o, escondendo o rosto na curva de seu pescoço enquanto o ouvia resmungar coisas sem nexo. O médico deixava as lágrimas caírem ali, ao mesmo tempo em que mordia o lábio inferior em preocupação.

— Nam... Por que você não fez nada para mudar isso? – Perguntou em um sussurro, erguendo o rosto levemente apenas para fitar o de Namjoon, acariciando-o com uma das mãos. O mais novo estava agora com os olhos fechados, porém com uma expressão dolorosa na face. Ficou observando o ex-rapper separar os lábios levemente, como se quisesse falar algo, e então Seokjin se aproximou dele para que ele não falasse muito alto.

— Ainda... Não... – Disse em um sussurro, e Jin mordeu o lábio inferior levemente.

— Nam... Eu posso ajudar você e todo mundo aqui... Eu posso fazer uma denúncia anônima e entregar Bong Cha. Só me deixa ajudar você, por favor... – Pediu quase que em um fio de voz, voltando a abraçar Namjoon com delicadeza.

Com dificuldades Namjoon ergueu os braços lentamente, trêmulos, abraçando Seokjin em um gesto fraco, porém com sentimentos sinceros e que fez o médico erguer a cabeça mais uma vez, fungando baixinho. Namjoon estava com os olhos abertos finalmente, olhando para o psiquiatra com ternura.

— Jin... – Chamou baixinho.

— O que, Namjoon? – Acariciou os cabelos castanhos dele. – Pode falar...

— As coisas... Vão mudar... Logo... – Disse em um fio de voz, tentando esboçar um sorriso, falhando miseravelmente. – Amor... – Chamou e Seokjin se aproximou ainda mais. – Não confie... Na justiça tradicional...

O médico franziu o cenho, porém arregalou os olhos quando sentiu o abraço fraco se afrouxar ainda mais. Ambos os braços de Namjoon caíram ao lado de seu corpo e o ex-rapper fechou os olhos, perdendo a consciência nos braços de Seokjin.

— Namjoon... Namjoon acorda! – Jin chamou, balançando-o algumas vezes, sentindo um nó na garganta por conta do nervoso. – Namjoon! Kim Namjoon! Acorda!

Porém não houve resposta. Seokjin apenas sentia um grande aperto no peito na medida em que a ideia de ter perdido Namjoon se passava em sua cabeça. Rapidamente levou dois dedos ao pescoço do ex-rapper para sentir a sua pulsação, suspirando em completo alívio ao constatar que o rapaz ainda estava vivo.

Moveu-se como pôde, deitando Namjoon na maca para que ficasse o mais confortável possível, e então saiu da sala para chamar algum enfermeiro com uma cadeira de rodas. Kim Namjoon precisava urgentemente de cuidados médicos.

Notas finais
*Área pré-frontal: Área do cérebro responsável pelo comportamento e personalidade. Comentários?