Manhunters
38 Uma bebida, uma conversa extraoficial e um almoço
Notas iniciais
Oito e dezessete da noite. Um pouco de descanso para ele. Chegara em casa há pouco tempo. Tomou um banho, vestiu uma calça preta, meias brancas e uma camisa de manga longa da cor verde; em seguida, ligou a TV para assistir a uma partida de baseball. Só que no decorrer do jogo alguém bateu à porta. O sargento fez uma careta e soltou um longo suspiro de cansaço e irritação. Achou estranho, pois raramente recebia visitas e raramente possuía visitas para receber. Grissom pegou uma das muletas e caminhou lentamente até a porta. Hank ficou no sofá, deitado.
— Já vou! — exclamou, preocupado que a pessoa fosse embora devido a lentidão em seus passos.
Quando abriu a porta o sargento ficou surpreso. Não esperava que fosse receber aquela visita.
— Catherine? — perguntou retoricamente ao franzir o cenho.
— Ei, Gil, tudo bem? — A mulher sorriu.
Grissom, que não deixava de reparar nas pessoas, viu que a detetive trajava roupas simples: calça jeans clara, sandálias de salto baixo, uma blusa de alça vermelha e uma jaqueta de couro. Seus cabelos estavam soltos.
O sargento lançou-lhe um olhar que, mesmo sem dizer alguma palavra, perguntava-lhe o motivo de sua inesperada visita. Ela já sabia, conhecia-o muito bem.
— Bem, eu vim aqui para saber como você está... e pra gente conversar um pouco, que tal? — Ela ergueu uma sacola de papel; estava bastante animada pelo sorriso que abriu — Amanhã é dia das bruxas e sabe como Vegas fica uma loucura nesse dia, né. Não dá tempo pra nada.
— Espero que a Lindsey não venha me pedir doces desta vez. Não comprei nada. — Deu de ombros — A propósito, como ela está? E sua mãe, está bem?
— Elas estão. — Assentiu.
— Bom. O que é isso? — O sargento apontou para a sacola.
— Tequila. — respondeu sem receios — Eu poderia trazer vinho, mas achei melhor essa garrafa aqui.
— Por acaso você não veio dirigindo, veio?
— Eu vou beber pouco, não se preocupe. — Cath fez um gesto com a mão direita.
Grissom lhe lançou outro olhar, dessa vez, desaprovador.
— Eu vim de táxi seu bobo! Agora, vamos, me deixe entrar. Estou congelando aqui.
Ele observou a situação de ambos. Esqueceu-se de deixá-la entrar.
— Ah... desculpe-me. — O sargento apontou para o interior da casa, e logo a mulher tomou seu caminho.
— E então, como está se sentindo? — Catherine perguntou, ao caminhar para a cozinha — Onde você guarda os copos?
— Ali na pia mesmo, pode pegar. — Ele falou em voz um pouco alta, vindo a retornar para o sofá — Ainda sinto um pouco de dores, mas estou melhor que antes. — respondeu, após desligar a TV e se acomodar no móvel. Pediu, então, para Hank deixar o sofá.
Não demorou muito, Catherine voltou para a sala com dois copos pequenos e a garrafa já aberta. Ela se acomodou no sofá e entregou um copo para ele, servindo-o.
— Sabe que eu não posso ficar exagerando na bebida, não é? — O sargento brincou, e depois tomou um gole pequeno.
— Um pouco de álcool de vez em quando não faz mal, Gil. — comentou ao servir a si mesma, no mesmo tom de brincadeira. Depois deixou a garrafa no chão e se virou de lado para observá-lo melhor.
Ele balançou a cabeça e sorriu de lado.
— Me conta como vocês dois estão e o que aconteceu nesses dias.
Grissom olhou para a amiga de lado e depois para seu copo. Balançou-o e tomou outro gole.
— Aconteceu tanta coisa em tão pouco tempo... — Ele balançou a cabeça; não sabia como lhe explicar.
— Começa do início. — A mulher apoiou o braço direito no encosto e bebeu um gole.
O sargento suspirou.
— Nós fomos até o parque para falar com os guardas. Nada de muito importante... todos eles mentiram na cara dura.
— Já era de se esperar. — Ela deu de ombros.
— Quando eu e Sara fomos até Baker falar com Lewis, tivemos que... parar num posto de gasolina. — Grissom bebeu um gole maior. Cath até apontou para a garrafa, perguntando se ele queria mais, só que ele recusou — Não sabíamos, mas estava acontecendo um assalto na loja de conveniência.
Sua amiga ergueu as sobrancelhas.
— Sara entrou na loja. — disse em voz baixa — Eu fui abastecer o carro e... de repente... ouvi um tiro lá de dentro.
— Ah, meu Deus... Aconteceu alguma coisa com ela?
— Não.
— Ainda bem.
— Na hora eu achei que sim. Então corri pra lá... só que aí... — Grissom bebeu um gole, a bebida em seu copo estava bem próxima do fim — um garoto apareceu de repente. Estava próximo da loja, apontando uma arma pra mim.
— E o que aconteceu?
— Eu apontei minha arma pra ele, e os policiais que estavam comigo, também. E então eu ouvi mais dois tiros de dentro da loja. Perdi o controle.
— Ah, Gil... — Cath lamentou, ao ver o semblante melancólico do amigo.
O homem segurou o copo com as das mãos e observou o objeto.
— Tentei correr para a loja... achando que Sara foi atingida, mas eu sabia que o garoto ia atirar. Então atirei, mas arma não disparou. Foi aí que eu... levei dois tiros.
A detetive se inclinou para pegar a garrafa e depois despejou mais tequila no copo de Grissom, que não demorou e bebeu mais um pouco.
— Se lembra do que aconteceu depois?
— Não... — Balançou a cabeça — Eu só pensava em chegar lá dentro e... quando levei os tiros, não me lembro de muita coisa depois. Sei que o garoto foi morto pelos policiais.
— Droga... — Cath balançou a cabeça — Você tava muito preocupado com ela, não é?
Ele apenas assentiu lentamente.
— Agora está mais convicto de que não queria trabalhar com alguém, não é?
Grissom olhou para ela.
— Se alguma coisa acontecesse com ela, Catherine... — Ele balançou a cabeça e mal conseguiu terminar a frase.
— Mas não aconteceu. — A mulher tentou confortá-lo.
O sargento largou um suspiro.
— É... não aconteceu. — Assentiu lentamente — Eu estava completamente avesso à presença de Sara. Mas agora... fico satisfeito ao saber que ela está aqui. — Ele se voltou para a frente, e alguns segundos de pausa, respondeu: — Aconteceu algo nesse meio tempo... enquanto eu estava desacordado.
— O que foi? — Cath tomou todo o conteúdo do copo e colocou mais tequila.
— Depois que eu levei os tiros, fui levado para o hospital, fiquei numa espécie de coma e... quando acordei, eu... acabei me lembrando que... conhecia a Sara há muito tempo.
A mulher fez uma careta.
— Como é que é?
— É verdade. Há oito anos... nós nos conhecemos numa Conferência em São Francisco. Conversamos... tomamos alguns cafés... até nos tornamos amigos. — riu brevemente.
Ela lhe lançou um sorriso malicioso.
— Amigos, é?
— Quase não ficamos juntos. Não deu tempo de fazer muita coisa. Assim que o evento da Conferência terminou, precisei voltar logo para cá. — O homem bebeu um gole generoso da bebida.
— Ah, é mesmo! — Ela fez uma careta. Ficou a observar o amigo, em silêncio, encarar o nada.
— Ela está fazendo um bom trabalho. — Grissom comentou em voz baixa — Um ótimo trabalho, na verdade.
Catherine sorriu.
— Se arrepende de alguma coisa em relação a isso?
— De muitas coisas, Cath.
— Como por exemplo? — A mulher o indagou.
— Não a ter chamado para trabalhar aqui em Vegas, por exemplo.
Grissom estranhou seu próprio comportamento. Em seus dias "normais" não seria capaz de se abrir daquele jeito, ainda mais com sua melhor amiga. Daria um jeito de mudar de assunto aos poucos ou cortaria a conversa de vez. Mas, de uma hora para outra, o fez. Talvez porque já estivesse sob efeito do álcool?
Não ter matado aquele desgraçado. Ele pensou, ao pressionar o copo levemente sobre suas mãos. Então inclinou a cabeça levemente para baixo.
— Por ter deixado ela... naquele andar...
— Ah, Grissom. Sabe que a culpa não foi sua.
— Não adianta, Catherine. Essa... essa culpa não vai me deixar. Por causa dos meus erros no passado, agora... tudo está caindo em cima de mim.
A detetive ficou em silêncio, sem saber o que dizer. Ela o conhecia há muito tempo, e desde que ele sofreu aqueles duros golpes sua personalidade mudou um pouco. Tentar argumentar com ele poderia não adiantar, então ficou em silêncio, triste pelo estado dele.
Ele virou o pescoço de lado, para o oposto dela.
— Eu vou ter que contar a verdade a ela, Catherine... sobre o que aconteceu nesses anos.
— Por quê? — Confusa, ela deu de ombros. Achou que o amigo não tinha a obrigação de contar algo tão pessoal à detetive.
O sargento se virou novamente par Catherine, dessa vez, sem uma resposta imediata.
— Porque... Ela é minha amiga. — respondeu com naturalidade. Foram as únicas palavras que saíram de sua boca.
— Achei que Sara estivesse com raiva de você e não quisesse ter mais nenhuma relação.
— Por que diz isso?
— Bem, acho que eu esperasse por oito anos e quando o visse, você me respondesse que não se lembrava de mim, também ficaria p da vida.
— É por isso que eu preciso falar com ela. Só que... ainda não me sinto à vontade e... nem sei quando vou.
— O que aconteceu com você foi algo bem delicado. Não se sinta mal por não estar à vontade em falar uma coisa como aquela, Gil. — Ela fez um gesto com o pescoço — Perdê-la daquela forma foi difícil. E depois veio aquilo com você... é complicado de se falar. Quando estiver pronto... apenas fale. Não a conheço direito, mas acho que ela vai entender.
— Espero que sim. — Ele expirou e depois tomou o restante da bebida em seu copo.
— Mais? — Ela sorriu.
— Não. Acho que já passei do ponto. — Brincou ao fazer uma careta por causa da bebida, depois se virou para a amiga — Obrigado, Catherine.
— Certo. Agora que você já me contou as suas fofocas, deixa eu te falar o que aconteceu nesses dias.
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Dia das Bruxas. Uma coincidência, já que haviam dois policiais à caçada de um bruxo ou feiticeiro. Um assassino que tinha o "poder" de não deixar rastros quando passava e que tinha o apelido de Zodíaco.
Finalmente, após dias de tormenta, Grissom acordou um pouco melhor. Agiu mais rápido já que se corpo doía menos. Ainda não estava 100% para sair com o Hank na caminhada matinal, então acariciou o cachorro e novamente lhe tentou explicar o motivo, torcendo para que o animal entendesse.
Grissom vestiu conjunto social preto, camisa branca e uma gravata vermelha com listras brancas diagonais. Sentiu-se contente por conseguir caminhar mais rápido; logo logo voltaria a dirigir o seu utilitário.
O sargento pegou o táxi chegou à delegacia pontualmente. Antes de tomar o acesso do elevador, Judy, uma das recepcionistas lhe chamou:
— Sargento Grissom?
— Olá, Judy. — Ele falou, virando o corpo para falar com ela.
— Tem um presente para o senhor do doutor Robbins. — Ela se abaixou e pegou o embrulho, que a propósito era grande. Uma caixa longa, retangular e fina.
Grissom sorriu ao ouvir de quem era o presente. O doutor Albert Robbins era o legista-chefe da perícia de Las Vegas. Um grande amigo de longa data e um exímio profissional. Sempre o ajudou o sargento em casos que envolviam uma análise minuciosa no campo da medicina.
— Obrigado, Judy. — respondeu, pegando o pacote e o colocando debaixo do braço esquerdo — Bom trabalho pra você.
— Obrigada, igualmente.
Curioso com o conteúdo do presente, Grissom não perdeu tempo e tratou de se dirigir à sua sala. Pode admitir a si mesmo que se sentia melhor, tanto fisicamente quanto psicologicamente, ainda que encarasse alguns problemas no dia anterior. Chegou até a dar bom dia para alguns que lhe cumprimentaram.
O sargento chegou à sua sala, deixou o pacote na mesa e se sentou em sua cadeira. Um pouco ansioso, abriu o pacote sem muitas dificuldades.
— Pelo visto as notícias se espalham bem rápido, não é, Al? — Ele sorriu ao ver o conteúdo. Retirou-o e o ergueu para cima: uma bengala tradicional de madeira, pintada com uma tinta envernizada da cor vermelha.
Embaixo dela, um pequeno bilhete escrito à mão. Ao percebê-lo, Grissom tirou-o e leu:
"Faça bom uso, meu amigo. Melhore logo."
— Obrigado, Al. — disse em voz baixa, enquanto segurava a bengala com a mão esquerda. Animado para "estreá-la", Grissom se levantou e usou a bengala para se apoiar. O tamanho foi feito sob medida, ficou perfeito. Logo, o sargento deu seus primeiros passos com o presente novo; ficou satisfeito.
Alguém bateu à porta e ela foi aberta em seguida. Era Sara, que entrou na sala e logo deu de cara com o parceiro. Ela vestia uma camisa de manga preta com decote pequeno, calça jeans e sobretudo marrom. Usava um cordão com um pingente redondo da cor preta. Para completar, botas pretas e uma bolsa preta, diferente da costumeira.
— Ei... — disse, surpresa com ele — Bom dia. Nada mal. — Ela apontou e sorriu para ele, que ainda se apoiava à bengala.
— Bom dia, Sara. — Acenou — É... foi um presente do meu amigo, doutor Robbins. Ele é o legista-chefe da perícia. — concluiu, enquanto observava o aparelho.
— Consegue andar sem problemas com ela?
— Acho que sim. — Sorriu de lado.
— Que bom. — Ela assentiu.
O sargento a encarou por alguns segundos e depois se aproximou dela. Tocou gentilmente em seu braço direito.
— Sobre o que aconteceu, ontem... — Ele balbuciou, preocupado se a mulher ainda sentia raiva dele.
Ah, não.
Sara engoliu em seco. Temia fervorosamente que Grissom falasse algo sobre o "peculiar" comentário dito por ela. Sua desculpa automática seria o álcool; quase sempre adiantava. Mas ela observou com cuidado o semblante dele e notou que não se referia àquele breve momento. Estava mais para o pedido de desculpas. Grissom queria se certificar e ter plena certeza que estava tudo bem entre eles.
— Está tudo bem, Grissom. — Respondeu sorrindo, surpresa até ao ver aquela atitude.
— Bom... ótimo. — Assentiu satisfeito.
— Tem alguma sugestão do que podemos fazer hoje? — Sara apontou para ele a fim de trocar de assunto.
O sargento olhou para o lado rapidamente e depois foi para o lado da mesa, para encará-la.
— Acho que poderíamos ir à penitenciária falar com os nossos guardas acerca de Lewis.
A detetive fez uma careta, impressionada com a ideia.
— Boa ideia. Quando souberem que Lewis tem a chance de se safar, pode ser que eles digam mais alguma coisa. Mas você ainda acha que eles têm algo a mais a dizer?
— Espero que sim. Temos que tirar o máximo possível deles, ou vamos perder uma boa pista sobre o caso.
— Certo. — Ela concordou.
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Centro de Detenção do Condado de Clark, Las Vegas, NV, 09h02min.
Seguindo numa viatura policial junto de dois oficiais, Grissom e Sara chegaram no Centro em pouco tempo. Após o sargento ligar para o promotor Carver, que respondeu ir ao lugar em meia-hora, os policiais tomaram seu caminho. Grissom pediu a solicitação à administração para falar com os guardas extraoficialmente e sem a presença de seus respectivos advogados. Qualquer informação ali obtida não valeria de nada no júri, então seria perda de tempo optar por uma abordagem oficial.
Eram nove e quarenta da manhã quando Bartholomew chegou ao centro. A partir da presença do jurídico, os procedimentos foram feitos com rapidez. Numa sala aberta, situava-se uma grande mesa retangular de metal com diversas cadeiras (também de metal) rodeando-a. Ao fundo da sala ficava o acesso no qual os detentos passavam.
A conversa durou uns quarenta minutos. Os três detentos ficaram surpresos e logo se expressaram aos policiais sobre a ausência de Lewis como um detento, já que para eles, era tão culpado quanto os próprios. Houve um princípio de discussão no começo que logo foi abafado pelo promotor.
Grissom e Sara tentaram arranjar alguma informação a mais dos guardas acerca de Lewis num encontro "extraoficial". Mas não obtiveram resultados satisfatórios, apenas o quase óbvio. Porém, uma teoria foi aberta com base nas últimas informações obtidas: Lewis mandou que os homens patrulhassem o local próximo da trilha de onde Vanessa foi morta. Caso a vítima conseguisse fugir do assassino, provavelmente os guardas seriam responsáveis em alcançá-la e "levá-la" de volta a Zodíaco para que ele terminasse o trabalho. Para o "bem" deles, isso não aconteceu. O melhor palpite seria que Lewis era o maior responsável pela morte dela, abaixo de Zodíaco, é claro. Se confirmado que ele indicou o caminho para ela tomar, a pena dele seria maior. Ainda assim, sem provas, era apenas uma teoria.
Poucas palavras foram trocadas entre os seis. Após isso, a "reunião" extraoficial que nem deveria ter acontecido, terminou. Eram onze e vinte da manhã; os policiais e o promotor retornaram à delegacia. Contaram ao capitão Brass as "novidades" sobre a visita aos guardas. Ninguém estava contente, principalmente o capitão, que esperava algo mais relevante. Praticamente, Grissom e Sara não tinham nada contra o ex supervisor e guarda Franklin Lewis. O julgamento viria em breve e a situação era preocupante.
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Uma pausa para o almoço. Como sempre, o destino era o famigerado Rose's. O sargento e a detetive foram para lá com uma carona dada por cortesia do promotor Carver, que não ficou, alegando que precisava ir a outro lugar.
Ao ver que o sargento chegara no estabelecimento, Jin tratou logo de chamar Rose, que estava na cozinha, ajudando Lenny com a comida.
— Ei, olá a vocês dois! Não resistiram ficar muito tempo longe daqui, não é? — A mulher falou, ao sair do balcão e se dirigir aos dois.
— Bom dia, Rose. — respondeu Grissom.
— Oi, Rose, tudo bem? — Sara acenou.
— Claro que sim! Vendo vocês dois aqui me deixou mais contente! — Rose lançou-lhes um caloroso sorriso — A mesa de vocês está reservada. Eu não deixo ninguém ficar ali por muito tempo. — Apontou para o local "preferido" de Grissom — Se eles demoram muito eu acabo os expulsando.
— Brincadeira dela, não acredite nisso. — O sargento olhou para a parceira. A detetive apenas riu.
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Não demorou muito para que o pedido dos dois fosse atendido. Sara escolheu um risoto de cogumelos — o que deixou a dona do restaurante surpresa pelo raro pedido —, e Grissom, um tradicional Mac n' Cheese, macarrão com queijo. Para beber, água mesmo.
No decorrer das primeiras "garfadas", Sara percebeu a melancolia contida no semblante do sargento, que por várias vezes, mexia no prato com o garfo, dando várias voltas. Ele também olhava para a janela com frequência, como se estivesse perdido num lugar distante ou em lugar nenhum.
— Está tudo bem? — Ela perguntou, antes que desse uma garfada em seu almoço.
O homem, que olhava para a rua no momento da pergunta, se voltou a ela com rapidez.
— Não vou mentir pra você. Estou preocupado com o caso. A possibilidade que Lewis tem de fugir das nossas mãos me deixa tenso. — Ele suspirou e depois olhou para o prato — Faltam dez dias para Zodíaco fazer outra vítima e a decisão do juiz será amanhã. Se Lewis ficar livre, a gente pode perder a maior oportunidade de se aproximar do assassino. — Então comeu um pouco, mas com desgosto.
— É isso que Zodíaco quer, que a gente desanime.
Grissom olhou para ela. Ainda que fosse um discurso motivador, não estava muito a fim de ouvir aquelas palavras.
— Você deu muito de si para conseguir isso. Não posso deixar que esse trabalho seja em vão.
— Nós conseguimos. — A detetive tomou um pequeno gole do vinho — Esse trabalho não será feito em vão. Eu sei que é chato, mas... se a gente não conseguir algo nesse caso, conseguiremos nos outros. Nós olhamos tanto para o presente que deixamos de pensar no futuro. — Ela sorriu de lado — Era o que Cassandra dizia pra mim.
— Cassandra? — Ele ergueu uma sobrancelha.
— Ah, desculpe, não falei pra você. — Ela fez um gesto com a mão — Cassandra foi uma grande amiga minha, uma... agente do FBI. — falou ao olhar lentamente para baixo — Quando eu era adolescente eu a conheci num momento muito delicado. Acabamos nos "esbarrando" e aí... viramos grandes amigas.
Houve uma pausa. Grissom deixou a comida de lado para se concentrar na parceira, que abria sorrisos todas as vezes em que citava a amiga.
— Você me perguntou o motivo da minha escolha de entrar para o FBI. Muito disso se deve a ela. Ou melhor... eu devo a ela. — terminou em voz baixa.
Ele poderia ter aprofundado mais a questão acerca desse motivo, mas achou melhor deixar para outra hora.
— Sei que você vai conseguir, Sara. — Com um semblante neutro, ele falou diretamente para ela.
— Obrigada... Quero fazer isso porque tenho um objetivo pessoal, sabe. Ajudar pessoas, gente que precisa e que não tem apoio.
Grissom tomou um gole da bebida e comeu um pouco.
— Entendo. O que você ia me perguntar quando estávamos no carro?
— Hã?
— Eu te fiz essa pergunta e você disse que tanto eu quanto você não estava preparado para responder.
— Ah, sim. — Ela ergueu as sobrancelhas, ao se lembrar — A minha pergunta era... o porquê de você me tratar, na época, como um boneco de porcelana que tinha chance de cair e quebrar.
O sargento estremeceu com aquela pergunta. Sara perguntou a ele como se fosse qualquer questão burocrática acerca do trabalho ou outros assuntos. Mas aquilo foi pessoal, mais precisamente no momento em que ele ainda não se lembrava dela. Teve de admitir que ela estava certa; ele não estava preparado para respondê-la dias atrás.
— Eu... — Grissom olhou para o prato e depois para ela, que continuava a observá-lo.
Sara temia que o parceiro evitasse novamente responder uma pergunta tão pessoal como aquela. Mas ainda assim, tentou.
— É porque eu tinha medo de perder você. — Ele fez uma pausa, e terminou em voz baixa — E ainda tenho medo. — Depois disso, voltou a comer.
A mulher ficou boquiaberta. Um choque, e não sabia se era pela primeira resposta ou pela segunda. Ela odiava o modo que Grissom conseguia desconcertá-la.
— É-é isso? — perguntou meio confusa, rebuscando as palavras.
— É. — Assentiu, ao se dirigir a ela.
— Por isso você agiu daquele jeito no posto de gasolina?
Quando a ouviu, ele tratou de virar o rosto para a janela, um pouco desconcertado.
— Sim. Eu fiquei desesperado quando ouvi aqueles tiros. — A voz dele se mostrava melancólica.
Ela franziu as sobrancelhas, ainda não se dava por satisfeitas.
— Por que estava com medo, se até aquele momento você não... se lembrava de mim?
Aquela pergunta tocou-lhe como uma espada afiada. Aos poucos a morena o jogava para um beco se saída. Demorou um tempo para que o sargento abrisse a boca e respondesse à pergunta quase abandonada da detetive.
— Porque — hesitou — eu... eu perdi alguém, Sara. Perdi uma parceira.
A voz dele era igual a voz que ouviu na delegacia. A mesma tristeza e dor de antes estavam de volta.
Ah, Grissom...
— Eu... não sabia.
— Depois disso... a minha vida se tornou um inferno. — Por pouco a voz dele não falhou por completo — Tudo começou a dar errado.
Ela olhou para o lado esquerdo. As palavras se embolaram em sua garganta e quase não as conseguiu pronunciar.
— Sinto muito por isso.
Sara ficou desmanchada, completamente. Aquela pequena resposta explicava dias e dias de dúvidas e emoções negativas. Grissom perdeu sua parceira. Era uma resposta óbvia, até, mas que nunca passaria pela mente dela. A dor para o sargento foi tão grande que o medo daquilo acontecer novamente quase o fez perder a própria vida.
— Não sinta. — Grissom respondeu quase secamente.
Ela deslizou as mãos na mesa e fechou seus punhos. Olhava para eles na tentativa de falar alguma coisa que não deixasse o clima ainda mais pesado.
— Qual... era o nome dela? — Sara perguntou com um pouco de receio, vindo a se arrepender depois. Só que a dúvida a consumia.
Ele piscou por várias vezes, estava claramente desconfortável com aquela situação.
— Holly Gribbs. Ela se foi tempos depois que nos conhecemos... — disse, ao olhar para a janela e engolir em seco.
Foi por isso que você me esqueceu...? Pensou ao olhar para baixo. Engoliu em seco. Não conseguiu emitir as palavras, ficou desconfortável demais em falar.
Um gélido silêncio tomou conta deles. A detetive era quem sentiu mais o peso. O almoço terminou da pior forma possível.
O celular de Grissom tocou. Ele pegou o aparelho no bolso da calça e atendeu a ligação. Passados alguns segundos, seu rosto, que estava sério, fechou-se mais ainda.
— Estamos a caminho. — respondeu melancolicamente. Em seguida encerrou a ligação e se dirigiu a ela — Corregedoria.
— Isso é sobre-
— É, sobre o episódio no posto. — O homem falou, completando-a. Na verdade, interrompeu-a.
— Ok, já... terminei por aqui. — Ela disse em voz baixa e sem se estender. Notoriamente nenhum dos dois queria voltar àquela conversa. Sara queria, mas não no momento.
Os dois trocaram poucas palavras ao término do almoço até o retorno à delegacia. A detetive, talvez, estivesse arrependida em ter tocado naquele assunto. Só que a vontade de saber toda aquela verdade a corroía intensamente e então, uma pergunta levou à outra... e terminaram daquele jeito.
Uma leve sensação de arrependimento perdurou na mente de Sara. Talvez aquele não fosse o momento apropriado para lhe perguntar. Mas a dúvida a corroía de tal forma que a assombrava terrivelmente. Sara tocou justamente numa profunda ferida que Grissom carregava e que parecia não ter cicatrizado. Sentir-se-ia receosa em tocar no assunto mais uma vez quando tivesse a oportunidade.
O assunto não sairia da sua mente tão cedo, da mesma forma que aquela conversa não terminaria tão brevemente.
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