Manhunters
7 Aqui vamos nós de novo
Notas iniciais
— De volta ao começo...
Depois de um início não tão desejado, Sara, enfim, resolveu comer algo antes de voltar para a delegacia. O turno estava quase chegando ao fim e a mulher estava cansada, não fisicamente, mas mentalmente. Por mais que desejasse evitá-lo o dia todo, ela teve de voltar à sala de Grissom para informa-lhe sobre o andamento do caso.
Vamos lá, Sara. Pensou, antes de tocar na maçaneta e abrir a porta.
Lá estava ele. Sentado em sua cadeira, analisando um livro em sua mesa com todo o cuidado em folhear as páginas. Nem se deu o trabalho de olhar para detetive que entrava na sala.
— Ah, até que enfim você apareceu. — disse a mulher, aproximando-se dele.
— Pois é... — respondeu, ainda sem olhá-la.
— Ei. — ela se aproximou dele, irritada com sua desatenção.
O sargento voltou-se a ela, quase que com desdém.
— Onde você estava? — Perguntou.
— Procurando a nossa arma do crime. Fui até a loja de armas brancas para saber se o vendedor conhecia melhor a nossa arma do crime.
Sara franziu a testa.
— O quê? Como assim? — Fez um gesto com a mão, inconformada. — Por que não me contou? Eu poderia estar ajudando você!
— Você estava ocupada. — Grissom analisou uma página do livro e virou-se para ela novamente.
— Ainda assim! Você tinha que ter me avisado, Grissom! Que droga! — aumentou a voz — Eu vim aqui só pra te falar como está o meu progresso!
Para a surpresa da detetive, Grissom fez apenas uma careta.
— E como está? Conseguiu achar alguma coisa naquele caso que ligasse ao assassino?
Ela quase rangeu os dentes.
— Não. Ao menos a viúva de Arthur vai saber por que o marido estava lá.
— Ainda acha que valeu a pena? — Ele perguntou quase que em deboche.
A morena cerrou os punhos, mais irritada ainda.
— Você tá fazendo isso de propósito, né? — Perguntou sarcasticamente.
— O quê? — O homem fechou o livro, dessa vez deu mais atenção a detetive.
— Agindo desse jeito para que eu fique estressada e desista. — apontou para ele.
— Eu não est-
— Ah não, não. — Sara riu e balançou a cabeça — Desde o momento em que cheguei aqui, ou melhor, desde o pouquíssimo tempo que passei com você, a única coisa que tem feito foi me criticar. Sei que está com raiva porque me colocaram para trabalhar com você. — Ela enfatizou a palavra — Mas, poxa, tem como você me aturar, ao menos?!
Suas palavras foram lançadas, e após isso um silêncio se firmou. Mas a detetive ainda não se dava por satisfeita.
— A gente poderia tentar fazer alguma coisa juntos, mesmo! Tem um assassino à solta por aí, e se continuarmos assim, ele vai fazer mais vítimas e concluir seu relógio macabro!
Os dois se encararam, mas dessa vez, Grissom não fez outra careta ou mostrou-se não se importar com aquela atitude. Pelo contrário, ficou sem o que dizer.
— Quer saber, — disse — não me arrependo de ter passado horas com o traseiro sentado naquela sala para descobrir aquilo. Eu vou... embora. — Estou cansada e ainda tenho de fazer meu relatório. — completou de forma convicta.
— Espera!
Sara estava na metade do caminho quando ouviu sua voz, e no mesmo instante parou.
— O que você quer agora? — perguntou nitidamente irritada.
Ele empurrou para frente com a mão direita a caixinha de isopor que estava na sua mesa.
— Torta. Pra você.
A morena lançou um olhar afiado. Ela balançou a cabeça, como se não estivesse acreditando.
— Trouxe uma torta pra mim? Por acaso acha que pode me comprar com isso?
— Não vai querer?
A detetive cerrou os punhos novamente. Queria gritar bem na frente dele, porém sabia que não valeria a pena. Só um pouco, mas não adiantaria muita coisa.
Um ficou observando o outro. De repente a morena se aproximou dele quase arrastando suas pernas. Parecia que ela estava prestes a ‘soltar os cachorros nele’. Em vez disso, deu um longo suspiro e pegou a caixa.
— Obrigada. — disse forçadamente voltando seu olhar ao homem.
— De nada. — ele respondeu, assentindo e sem tirar a atenção do rosto dela.
Sem esperar mais, a detetive guardou o pote na bolsa e retirou-se da sala.
O sargento voltou-se diretamente para a porta; baixou seu olhar, aparentando uma leve decepção. Nem ele sabia o real motivo, mas tinha certeza que aquela sensação não passaria tão cedo, principalmente com a presença de Sara. Mas de alguma forma, pela primeira vez, sentiu-se mal por ela.
— Ah, céus... — lamentou, erguendo a cabeça para o alto.
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De volta à sala de multimídia, Sara encontrou Daniel utilizando o computador, analisando minuciosamente os vídeos. Ao ouvir a porta se abrir, o técnico se virou e acenou para a nova colega.
— Ei, já está de volta?
— Já. A mulher não sabia de nada.
— Que mancada. — Daniel respondeu, observando sentado a detetive entrar na sala de cara emburrada — O que vai fazer agora?
Ela levou a mão à testa para pensar no que fazer a seguir.
— Eu poderia pedir aos peritos que reavaliassem as evidências e ver se encontrassem mais alguma coisa, só que... Seria gastar tempo demais. — Ela fechou os olhos e balançou a cabeça.
Ao menos numa pequena parte ela teve de admitir que Grissom estava certo. Tempo era precioso e não dava para usá-lo em questões que já se mostravam finalizadas.
— Então? — perguntou o técnico, dando de ombros.
Sara olhou para ele, mais convicta.
— Vou para a próxima vítima.
Sara olhou para o relógio em seu pulso: 15h30, 30 minutos para o turno acabar. Viu que não teria mais tempo de continuar o que desejava. Deveria ainda reportar ao capitão Brass e fazer um relatório sobre o primeiro dia de trabalho por pura ação obrigatória e burocrática. Então se despediu do novo colega e seguiu para a sala do capitão no mesmo andar.
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— Detetive Sidle. — comentou o capitão após vê-la entrar — Terminou seu turno, é? Como foi o primeiro dia aqui nessa loucura? — Perguntou sorridente, convidando-a a se sentar.
— Ah... bem diferente de São Francisco, — respondeu ao aceitar o convite — Mas é apaixonante quanto. Já estive aqui outras vezes e posso dizer que não será um problema me acostumar com o ritmo.
— Que bom, que bom. — O capitão assentiu — E Grissom? Como foi o primeiro dia junto dele?
— Bem... — ela ergueu a sobrancelha, um pouco nervosa para falar.
Não queria falar sobre a ocorrência de um “pequeno” choque de ideias. E pequeno quer dizer grande, um grande choque de ideias. Achou melhor omitir aquele fato para não pegar mal para os dois lados.
— Foi... produtivo. — concluiu rapidamente — Nós seguimos em busca da identidade do assassino e o tipo de arma que ele usa. Coloquei tudo isso no meu relatório. — Ela entregou-lhe uma pasta.
— Ótimo. Bom trabalho. Tem algo mais a dizer?
A morena virou seu olhar pensando se não havia se esquecido de nada. Deu-lhe os últimos detalhes menos importantes, e após uma pequena conversa, despediu-se formalmente do chefe. Oficialmente era o término de seu primeiro dia de trabalho.
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Já eram cinco e quarenta da tarde, mas pelo visto o sargento parecia não ter finalizado seu turno. Até era normal os oficiais estenderem suas horas para terminar um caso, só que o de Grissom era complexo, não um caso simples que levaria um dia para ser resolvido. Ele se enfurnou em sua sala desde quando Sara foi embora. Saiu pouquíssimas vezes e por pouco tempo. Passou as últimas duas horas analisando as diversas armas nos catálogos, livros que estavam à sua disposição e o registro de vendas da loja que visitou. Sua vista e seu pescoço doíam pelo cansaço, mas o homem estava longe de querer parar.
Alguém bateu à porta. Logo foi aberta e a pessoa entrou.
— Sabia que ainda te encontraria por aqui. — a mulher loira fechou a porta, sorrindo.
— Oi Cath. — Ele disse, após levar as mãos à testa.
— Você tem uma casa, sabia disso?
— Sabia, mas não dá para trabalhar direito lá. Se eu posso adiantar o trabalho de conhecer melhor o assassino aqui, perderia meu tempo voltando para casa.
— Você é impossível, Gil! — disse a mulher aproximando-se dele. Aproveitou também para ver o que ele estava lendo — E como vocês dois foram hoje? — Perguntou.
— Foi só o primeiro dia de trabalho, Catherine. Não posso tirar conclusões definitivas baseadas nisso. — Grissom fez um gesto com a mão.
— Ah, qual é. Alguma coisa nela deve ter chamado a sua atenção.
O sargento a encarou após franzir as sobrancelhas.
— Profissionalmente, garotão. — A mulher respondeu em deboche, puxando a cadeira para sentar.
— Oh... ela foi bem... eu acho. — respondeu um pouco desconcertado, olhando para os lados tentando encontrar uma resposta mais convincente — Não tive muito tempo de analisar seu desempenho hoje, quase não ficamos juntos. Ao menos fez o que tinha de fazer por conta própria.
Catherine assentiu.
— Eu aposto que ela pegou má impressão de você nesse primeiro dia.
— Estou aqui para fazer o meu trabalho, não para agradar as pessoas, Cath. Você me conhece. — Grissom ajeitou a gravata para ficar mais confortável — Se ela não quiser ficar aqui, que vá embora.
— É o que você mais quer, não é? Eu reparei como você ficou chateado pela chegada de Sara.
O sargento encarou a detetive à sua frente. Ele manteve a expressão séria de antes. Não respondeu.
— Viu só? Eu sabia, tava na cara. — Catherine deu de ombros e soltou as palavras sem reservas — Você tem medo de perdê-la.
Aquelas palavras incomodaram o sargento. Grissom deixou de estudar o livro e voltou-se para ela novamente, dessa vez lançou-lhe um olhar mais gélido e fechado que antes.
— Isso não é verdade. — retrucou Grissom, mas não muito convincente.
A detetive fez uma careta e logo se levantou, erguendo suas mãos como negação de culpa.
— Vai ter que encarar o presente, Gil! De uma forma ou de outra. — Ela assentiu para o sargento e lançou-lhe um sorriso caridoso. — Aquilo é passado, você sabe disso. Só... precisa seguir em frente. — Após isso, Catherine deixou a sala.
Segundos depois, Grissom cerrou os punhos que estavam apoiados à mesa e bateu nela de palmas abertas. Esfregou os dedos sob a testa e fechou seus olhos. As lembranças voltaram como fantasmas.
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