Manhattan's Girl Vol. 1
24 Os Mais Velhos Nem Sempre Dão Bons Conselhos
Alison bateu na porta do quarto 606 do Lenox Hill Hospital e ouviu uma voz leve dizer “entre”. Ela abriu a porta branca e entrou no quarto hospitalar.
Era segunda-feira. O Bale de Inverno estava chegando e já estava tudo pronto. Depois do terrível acontecimento do dia anterior, Stacy e Megan saíram da Comissão Organizadora, Nick não falava com ela e ela ignorava todas as ligações de Josh. Ela não tinha nada com o que ocupar a mente e fazia muito tempo que não visitava a avó.
O apartamento cheirava a Chanel Nº5 da avó e a remédio. O avô de Alison, Theodore Karlson, estava sentado no desconfortável e pequeno sofá branco com um exemplar de New York Times nas mãos. Ele sorriu cansado para a neta e passou a mão pelo cabelo grisalho.
- Oi, vovô. Como está? – Alison sentou-se ao lado dele colocando a bolsa Cèline laranja atrás de si.
- Estou bem, querida. – Ele olhou para a esposa na cama. – O Dr. Donnelley passou por aqui e a medicou com os remédios de memória e de pressão arterial. Agora ela está bem, dormindo.
Depois da conversa com a Dra. Evelyn Orwell, Alison ligou para Jack Donnelley e convenceu-o a vir de Los Angeles para cuidar da sua avó. Disse que pagaria o quanto fosse necessário para ele ajudá-la. E desde que chegou, Laura Karlson melhorara consideravelmente.
- Vovô, se quiser ir tomar um café ou ir em casa trocar de roupa, não tem problema. Eu fico com ela. – Alison fitou o rosto desgastado do avô.
O sr. Karlson fora realmente bonito quando mais jovem. Tinha grandes olhos castanhos e cabelos extremamente lisos, que agora estavam brancos e ralos. Era da altura de Alison e gorducho e vestia-se como se ainda vivesse na década de 50. Tinha uma rede de lojas de sapatos, que vendeu muito durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria e foi vendida por mais de 2,5 bilhões de dólares para um magnata indiano.
- Não precisa ficar aqui, Alie. – respondeu ele. – Fiquei aqui por dois dias, posso ficar por mais uma tarde.
- Exatamente, ficou por dois dias. Precisa de um descanso.
Ele olhou para Laura e assentiu.
- Obrigado, Alison. Não vou demorar.
O sr. Karlson pegou a boina verde-musgo, colocou-a sobre os cabelos brancos e saiu do quarto, batendo a porta o mais leve possível.
Alison foi para o lado da cama da avó e a observou. Não tinha aparelhos ligados à sra. Karlson e isso era reconfortante para Alison. Laura usava uma camisola de seda azul-turquesa e tinha os cabelos perfeitamente penteados como sempre. A maior parte dos fios era castanho, mas havia mechas brancas também. Alison sempre a achou uma mulher muito bonita. Tinha traços europeus finos e sempre soube usar sua elegância.
Por que tinha que estar doente? Parecia tão bem quando estava dormindo. Parecia estar apenas tirando uma soneca depois de eventos sociais ou um dia de compras, mas não. Não estava apenas dormindo. Ela estava doente, e Alison não sabia quanto tempo mais ela ainda teria até perder a memória ou a visão ou a coordenação motora. E se ela se esquecesse de Alison? O que ela diria? “Oi, vovó. Sou sua neta, Alison Bridgeman, mas você não se lembra de mim porque tem esclerose múltipla e não tem como curarmos você. Sinto muito.” Isso não é coisa que se diga.
Pegando na mão da avó, Alison a observou dormir serenamente. O peito subia e descia com ritmo e a respiração leve saia pelo nariz fino. Uma pequena lágrima brotou dos olhos de Alison e caiu no travesseiro branco, ao lado do rosto da avó. Ela precisava falar com alguém, mas quem? Nick não falava com ela, Stacy e Megan achavam que ela era a maior puta de Manhattan, Josh, bem, não dava para se abrir com ele. Haven já tinha problemas demais e ela não queria perturbá-la. A sra. Bridgeman passava o dia na loja ou no ateliê, e Richard, ela até se abriria com seu pai se ele pelo menos estivesse em Nova York. E agora a avó estava no hospital.
Mas que bela vida.
- Oi, vovó. – Alison sussurrou para Laura ainda dormindo. – Sabe, eu queria muito conversar com você. Queria alguns conselhos. E a você sabe melhor do que ninguém me dar isso.
Alison respirou fundo. Por que a avó não acordava? Queria seus conselhos. Ela fungou.
- Estou sem ninguém, vó. – continuou ela, triste. – Ninguém. Beijei o garoto que era namorado de uma amiga e Nick descobriu. Agora, meu namorado não quer me ver, a menina acha que eu sou a maior vadia e minha melhor amiga tem um problema gigantesco, não posso conversar com ela e ela está ocupada demais para me dar ouvidos. – Alison mordeu o lábio e apertou a mão da avó. – Só tenho a você, vovó. Só você.
Passando a mão nos cabelos sedosos da sra. Karlson, Alison chorou. Laura abriu lentamente os olhos azuis e piscou para a neta. Alison tentou sorrir, mas acabou fazendo uma careta.
- Alison? – Ela focalizou a neta. – Alison, é você?
- Oi, vovó. – Alison respondeu limpando as lágrimas com as costas das mãos. – Como a senhora está?
- Estou bem, querida, estou bem. – A sua voz era rouca e fina. – Agora, você não me parece nada bem. Por que choras, menina?
Alison sorriu. Adorava quando a avó falava daquele jeito. Era bom saber que mesmo doente, ela ainda tinha senso de humor.
- Só uns problemas com meus amigos. – Alison sorriu, mas seus olhos estavam tristes. – Nada demais.
- Se fosse um pequeno problema, a senhorita não estaria chorando. Diga-me o que e aflige.
A avó conhecia Alison bem demais para ela tentar esconder algo, assim como Haven.
- É o Nick, vó. Ele ficou sabendo que eu beijei Josh e ficou chateado, mas, primeiro: eu não estava com ele quando isso aconteceu. Segundo que foi Josh quem me agarrou. E Stacy, que era a namorada de Josh, e Megan acham que eu sou a maior piranha da cidade. E eu não posso conversar com Haven porque ela já tem problemas demais. E agora está tudo fo... – Alison olhou para a avó e esta ergueu uma sobrancelha. Não era uma boa ideia falar aquela palavra perto da avó. – tudo fora de ordem na minha vida.
A sra. Karlson pegou na mão da neta, deu umas batidinhas e sorriu levemente.
- Alie, sabe o que tem que fazer?
- Não, vovó. O que?
- Siga o seu coração.
Excuze-moi?
- Eu tento, mas não consigo. – Alison fechou os olhos e ajeitou a tiara de veludo preto na cabeça. – Nick não quer falar comigo e Stacy não quer ouvir falar de mim.
- Ainda não terminei. Siga seu coração, tome duas taças de martíni e pegue Nicholas de surpresa. – Laura sorria como se aquele fosse o plano mais arquitetado do mundo. – Não chore pelos erros dos outros. Se foi Josh quem a beijou então não tem nada com o que se sentir culpada. – Ela olhou pela janela que tinha visa para o Chrysler Building. – Além disso, qual homem não gosta de ser pego de surpresa pela namorada? E quanto a Stacy, deixe ela pensar o que quiser. O negocio é você ignorar o que os outros pensam de você, seja verdade ou não. E tenho certeza de que você é uma pessoa totalmente fiel e não uma “piranha”. Não se afete pelas coisas que os outros pensam de você. Acredite, aprendi isso da pior forma possível.
Havia muitas coisas que Alison não sabia sobre o passado da avó. Coisas ruins que ela fizera quando adolescente e coisas boas quando se tornou presidente de algumas ONGs e eventos beneficentes. Ela era como uma mistura doida de Audrey Hepburn com Elizabeth Taylor: Uma humanista, preocupada com a fome mundial, mas que se
casara umas três vezes antes de seu atual marido e que recebia joias e convites de jantares de homens bem-sucedidos de Nova York. Uma mistura louca, mas que dera certo. Era por isso que Alison a admirava.
Alison olhou para o quarto, tentando assimilar o que a avó havia dito. Talvez ela devesse mesmo escutar o que Laura falou e pegar Nick de surpresa e mandar Stacy e Megan se foder.
- Você está certa, vovó. – Alison murmurou sorrindo para a sra. Karlson. – Não importa o que os outros pensam, pouco me interessa. Isso só me fortalece.
- Essa é a minha neta fabulosa. – Laura falou sorrindo. – Aliás, você está incrível. Nunca perde a pose.
Alison riu.
- E é claro que eu estou certa, meu anjo. Quando já estive errada? – A vovó falou rindo junto.
- Vou fazer o que me disse. – Alison abraçou a avó. – Obrigada. Te amo.
Quando a soltou, Alison viu que a avó estava dormindo. Depois, abriu os olhos novamente e fitou a neta.
- Ah! Desculpe. Quem é você?
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