Manhattan
13 Treze
Notas iniciais
Derek dormia tranquilamente quando eu acordei, essa noite o remédio parecia ter funcionado bem e ele precisava mesmo descansar. A insônia vinha me atingindo tinham dias. A lembrança latende de Matt na minha cabeça e a forma como tudo parecia tenebroso demais sobre a infância de Derek não se encaixavam na minha mente. Eu tinha medo de empurrá-lo demais, porque ele não falava sobre isso com quem realmente poderia ajudar e eu nunca fui um exemplo de sanidade.
O relógio marcava quatro horas quando fui fazer café e ler um pouco no escritório. Muitas coisas na casa de Derek pareciam intocadas, seus escritório não era uma delas. Desde que comecei a frequentar seu apartamento, percebia o quanto ele utilizava a cozinha e o escritório. Mesmo seu quarto era um cômodo secundário em relação a esse dois. Os outros então, ele mal utilizava. A sala até que um pouco mais, já que ir para cama não era uma opção antes dele começar a tratar sua parassonia sexual atípica.
Quando meu celular despertou as nove, liguei para o meu pai. Era sábado e fora do comum, mas ele tinha plantão naquela noite e tinha me enviado uma mensagem se desculpando por não falar comigo no domingo. Eu precisava conversar. Quando ele atendeu, a voz animada e as risadas de Melissa ao fundo, me senti aquecido. Sentia falta da atmosfera daquela casa, de levantar e vê-los implicando e brincando um com o outro. Daquela felicidade sem interferência. Era uma nostalgia boa e dolorosa ao mesmo tempo.
– Oi pai, bom dia. — disse com a voz baixa, ainda em desuso naquela manhã.
– Stiles, tudo bem meu filho? — a preocupação tomou logo seu lugar naquele tom, me deixando ansioso, chateado por cortar a manhã feliz.
– Estou bem sim, cansado e com muito trabalho. — ri e ele me acompanhou.
– Nem me diga, eu e Mel estamos saindo para um piquenique mais tarde. Aproveitar meu dia de folga. — isso era bom.
– Isso é ótimo! Como ela está? — relaxei na poltrona e gostei de ver que tudo parecia funcionar bem em Beacon Hills.
– Bem, mandou um beijo e pediu para mandar Scott atendê-la. Ela vai ligar essa noite. — ele avisou.
– Vou falar com ele. O coitado tem trabalhado muito também. — pensei na gravidez de Kira e a confusão amorosa que Scott estava. Eu mal falava com meu amigo imerso aos meus próprios problemas.
– Então, você e Derek se acertaram? — minha barriga borbulhou em nervosismo, eu queria dizer que sim e poder contar em que termos as coisas estavam, mas não podia e logo Derek apareceu nu e descabelado no escritório, sorri ao vê-lo se espreguiçar.
– Sim, estamos bem. Ele está aqui mandando um “oi”. — disse vendo Derek franzir o cenho.
– Você precisa trazê-lo algum dia, Sti. Estou pensando em visitá-los nas férias, mas vai levar alguns meses ainda. Venha para um fim de semana, seu quarto ainda está aqui. — era um tom saudoso e eu podia sentir a mesma coisa quando lembrava que sim, meu cantinho sempre estaria lá no lar de meu pai.
– Vou falar com Derek, tenho certeza de que ele vai gostar da ideia, mas não prometo quando. Temos tanto trabalho e Derek tem uma infinidade de negócios, não vamos atrapalhá-lo. — pisquei para o homem na minha frente que se inclinou e beijou minha testa.
– Eu estou saindo com Mel agora, ela mandou um beijo para os dois. Te amo, garoto. Se cuide. — ele se despediu e isso apertou meu peito.
– Também te amo, pai. Mande um beijo para ela. Sinto sua falta. — desligamos.
Derek bocejou e esfregou os olhos, eu me levantei e o abracei, ele beijou o topo da minha cabeça e alisou minhas costas. Eu queria aquilo, um carinho silencioso de quem entendia a falta que eu sentia de casa. Precisava disso.
– Seu pai te ligou? — ele perguntou sabendo exatamente minha rotina com meu pai.
– Eu liguei. Estava com saudade. — admiti envergonhado, eu queria ser mais forte que isso, aceitar que tinha crescido e que minha realidade era passar cada vez menos tempo com meu pai.
– Fez bem em ligar. — ele sorriu e beijou novamente o topo da minha cabeça. — Você levantou tem muito tempo? — deitei minha cabeça em seu peito e inspirei seu cheiro, era tão bom.
– Sim, eram quatro. — eu ri e ele deslizou os dedos pela minha coluna.
– Insônia? Eu te incomodei? — ele ficou tenso de repente.
– Não, só muita coisa na cabeça. — sorri e biquei seus lábios. — Quer café? — ele assentiu.
– Temos um jantar com a sua mãe hoje. — ele comentou enquanto mordiscava um pedaço de pão.
– Tinha esquecido disso. Esqueci também de dizer que Meredith, irmã de Danny, esposo do Jackson, nos convidou para um show de rock alternativo. Eu não sei se você curte essas coisas, mas achei legal a ideia de sairmos juntos. Jackson e Danny vão também e ela deve levar Lydia, já que o noivo dela está viajando. — dei de ombros e comi um pouco de cereal.
– Se você quiser ir, tudo bem. Não é como se eu fosse fã de rock alternativo, mas eu gosto de shows. — ele se inclinou e limpou um pouco de leite que escorreu pelo canto da minha boca.
– Você é o melhor. — beijei a palma da sua mão e sorri.
– O que faremos hoje? — ele se levantou e levou sua louça para a pia. Era divertido ver Derek esfregar pratos completamente nu.
– Isso é muito difícil de responder quando meu namorado está nu. Ainda mais com essa bunda. — resmunguei levando minha louça para pia, ele pegou para lavar.
– Sempre podemos passar todo nosso tempo nus na cama. — ele me olhou com um sorriso safado.
– Você tem zero vergonha na cara. — belisquei sua bunda e ele jogou espuma na minha cara. — Hey! — joguei água nele que me agarrou e me beijou.
– Estou oficialmente dizendo que essa é a nossa diversão do dia. — ele se inclinou e colou sua testa na minha, agarrei seu rosto e biquei seus lábios.
– Vamos ver um filme então. — ele concordou e me beijou levemente.
– Escolha enquanto eu termino isso aqui. — ele se afastou e voltou para a louça, fui para a sala escolher algo para assistir.
– Onde está sua pornografia? — perguntei quando ele deitou vestindo um moletom e com pipoca nas mãos no sofá.
– Como assim? — ele me encarou remexer seus DVDs.
– Seus vídeos pornôs, aqueles em que pessoas fodem loucamente com cara de orgasmos falsos. — ele riu.
– Eu não tenho isso. — ele mordiscou um pouco de pipoca.
– Nem no seu notebook? — eu estava ficando assustado.
– Não. Nunca fui viciado em pornografia. — ele deu de ombros.
– Que triste, quanta inspiração um cara pode ter apenas com as garotas e caras que comeu durante a vida? — fiz beicinho e coloquei Os Vingadores para rodar.
– Por que estamos falando disso? — ele perguntou me deixando me aconchegar em seu abraço.
– Porque eu queria saber no que você pensava enquanto se tocava, se é que você fazia isso. — enchi minha boca de pipoca e senti Derek ficar tenso, o filme começou.
– Eu nunca encarei isso como diversão. — ele murmurou no meu ouvido. — Era algo fisiológico, sempre que eu tomava banho eu me masturbava e me sentia pior quando acabava. — coloquei a pipoca no tapete e me virei para ele.
– Eu não quis te trazer más lembranças. — me desculpei.
– Não é isso. — ele me aconchegou mais em seu abraço. — É só que sexo nunca foi realmente bom para mim. Meu corpo me incomodava no final da adolescência e quando Kate sumiu da minha vida, eu tinha todos aqueles hormônios me obrigando a me tocar. — engoli em seco ao vê-lo desviar o olhar por alguns segundos. — Eu tinha muita raiva dentro de mim e ninguém acreditava que eu tinha um problema. Mesmo Laura, quando eu contei, disse que eu estava sendo mimado e não sabendo lidar com a morto do nosso pai. — o abracei com força. — Eu só não tinha muito prazer em me tocar. — eu entendia.
– Sinto muito. — beijei seu queixo.
– Eu também. — ele beijou o topo da minha cabeça e prestamos atenção no filme.
*
Stiles dormiu na metade do filme, eu o terminei e acabei cochilando também. Acordei assustado, sentindo o aperto de Stiles contra o meu peito nu e os soluços desesperados. Ele estava tendo um sonho ruim e eu sentia sua aflição na pele. Sentei e o trouxe comigo, acordando-o com beijos e o embalando como uma criança. Ele piscou assustado, os cílios cheios de lágrimas e os lábios trêmulos. Era de partir o coração a forma como ele me olhou, a forma como seu rosto afundou na curva do meu pescoço e que ele tateou toda minha pele, buscando saber que tudo aquilo era real.
– Shh... tudo bem, estou aqui. — continuei a embalá-lo até que ele melhorasse um poquinho.
– Sinto muito, eu te assustei. — ele puxou o ar com dificuldade.
– Nada disso, se acalme. Estou aqui para você. — limpei suas lágrimas e beijei novamente o topo de sua cabeça. — Vamos beber uma água. — levantei com ele, indo para a cozinha e lhe dando um copo d'água.
– Foi horrível. — ele voltou a chorar. — Me sinto tão sujo. — ele se encolheu contra o meu peito.
– Você não é sujo, não faça isso. — pedi alisando sua coluna. — Vamos para o banho, você precisa relaxar. — ele retraiu e me encarou.
– Preciso te pedir uma coisa. — ele olhou para o chão. — Eu sei que é difícil para você, mas eu preciso de terapia. Ela sempre funcionou para mim e Marin era uma doutora maravilhosa em Beacon Hills, mas aqui, tudo o que eu tenho é Deaton e seria bom se fôssemos juntos. Eu não quero te magoar, Der. Só que você é um gatilho para minhas lembranças ruins. Toda vez que eu penso como tudo isso está funcionando, Matt volta como um fantasmo. A culpa não é sua e sim da minha insegurança, mas eu não posso lidar com isso sozinho. — ele parou para respirar e eu sorri tocando seu rosto com carinho.
– Você não tem culpa de ter sonhado com Matt. Eu estou aqui e vou estar onde você precisar de mim. — Stiles me agarrou em um abraço desesperado enquanto chorava, era angustiante, mas eu compreendia sua dor. — Agora vamos relaxar no banho, vou te fazer uma massagem. — ele não discordou.
*
Derek besuntou minhas costas de óleo e apertou os nódulos tensos, era gostoso e relaxante, eu não tinha do que reclamar. Era bom me sentir amado, mesmo que a cada toque, eu também lembrasse de como Matt poderia estar ali, me machucando. Meu corpo nu, o rosto no edredom e a exposição começaram a me incomodar, de repente, eu queria virar, vestir meu corpo e correr para longe, mesmo que Derek nunca fosse capaz de me fazer mal conscientemente.
– Por que está ficando mais tenso? — ele perguntou correndo os músculos com mais firmeza, tentei relaxar.
– Deixa eu virar? — pedi e ele me deu espaço, era bem melhor podendo vê-lo, assimilar seu toque a sua imagem e espantar a sensação ruim. — Eu odeio me sentir preso e exposto, não é que você sempre me faça sentir assim quando vem para cima de mim ou me toca, mas eu estou instável. — admiti envergonhado e Derek começou a massagear meus ombros e pescoço, depois de sentar de forma que minha cabeça repousasse em suas coxas.
– Você não tem que se explicar. Tudo o que você quiser, todos os seus limites serão respeitados. — ele tinha um tom ameno e doce, eu gostava disso.
– Obrigado. — tentei relaxar ao máximo.
– Ainda acordado? — Derek perguntou depois de muito tempo.
– Sim, por quê? — o encarei sonolento.
– Seus pesadelos são sempre reais? — ele pediu um pouco tímido.
– Como assim? — eu continuei a aproveitar a massagem no meu peito.
– São sempre fiéis ao que aconteceu? — sua voz diminuiu quase virando um sussurro.
– Sim. — ele limpou as mãos com lenços umedecidos e começou a me fazer um cafuné desleixado e calmo. — Os seus não, né? — ele ponderou.
– As vezes sim. São coisas que aconteceram, mas eu nunca sou uma criança ou adolescente, estou sempre adulto. — ele deu de ombros e eu me ajeitei, o chamando para deitar ao meu lado, fazendo carinho em seu cabelo.
– Você já falou sobre seus pesadelos com alguém? — o senti se remexer desconfortável.
– Não. Ninguém nunca acreditou que isso aconteceu de fato. — meu coração doía cada vez mais ao saber que sua família tinha negado apoio a ele.
– Sinto muito. — murmurei inseguro, Derek também odiava ser vitimizado.
O silêncio se instaurou por vários minutos, até que Derek começou a traçar figuras aleatórias no meu quadril e a me observar, enquanto eu olhava para o teto e acarinhava sua nuca. Eu tinha algo guardado dentro de mim, uma dúvida que sempre me empertigou, mas o medo de estragar tudo me impedia de seguir em frente, tudo o que me faltava era coragem.
– Pergunte. — ele exigiu me olhando por um momento, eu sorri como uma criança travessa pega no flagra e me inclinei para beijá-lo na boca.
– Você já pensou ou tentou algo sobre isso? — eu esperava que ele entendesse, mas Derek apenas franziu o cenho em confusão.
– O que está perguntando? — ele ponderou por um momento e alisou meu estômago.
– Já se tocou ou quis sentir isso de novo? O prazer? — ele me encarou e entrelaçou seus dedos nos meus.
– Eu sempre me sinto sujo ao pensar sobre isso. Ela fez parecer tão ruim, mesmo que meu corpo achasse bom. Eu não sei o quanto de sexo anal estou inclinado a experimentar de novo. — ele foi cauteloso com as palavras, mas não fugiu. Isso era bom.
– Se um dia você quiser, sempre pode me pedir. Eu nunca vou achar isso errado ou sujo. Quero adorar seu corpo, tanto quanto, você adora o meu. Com todo amor e carinho de sempre. — Derek sorriu triste e eu sabia que era pelo desejo que queimava dentro dele, mesmo que sua mente o torturasse com lembranças ruins.
– Se um dia eu quiser isso de novo, do jeito certo, não tem outra pessoa que eu confiaria mais do que você. — ele me beijou lenta e profundamente.
*
Claudia era elegante, assim como Finstock. Tínhamos negócios em comum, o que tornava o assunto bem menos preso as inúmeras curiosidades da mãe de Stiles para com nosso relacionamento. Eu amava Stiles demais para deixá-lo sofrer sozinho nas mãos da mãe superprotetora, reclamando do celular que ela não poderia rastrear ou do transporte e segurança que a mesma não tinha mais acesso. Stiles estava feliz por eu ter oferecido todos os meus recursos no lugar e ter assumido responsabilidade dizendo que seu novo número, eu quem dera. Era mentira é claro, por mais preocupante que fosse ter meu namorado por ai, levando em conta da visibilidade que um Hale tinha e que o próprio Finstock possuía, não queria de forma alguma transformá-lo em uma marionete minha.
– Então vocês pretendem viajar juntos para a Espanha? — suspirei, ninguém deveria contar sobre a minha viagem para Stiles, ninguém além de mim.
– Não que eu saiba, nós vamos? — ele se virou para mim confuso.
– Eu tenho alguns negócios por lá na próxima semana, estava esperando uma confirmação hoje a tarde, mas nem verifiquei. — olhei chateado para Stiles, que apenas pegou minha mão e sorriu.
– Mãe, se é uma viagem de trabalho pessoal de Derek, você não tem que se meter. — ele fez uma carranca.
– Claro que tenho, você é meu filho e namorado de Derek, tudo o que tiver a ver com vocês me diz respeito. — revirei os olhos e me levantei.
– Preciso de um minuto, com licença. — saí em direção ao banheiro me perguntando como Stiles aguentou Claudia. Era óbvio que ela não percebeu quando tudo ocorria debaixo de seu nariz, era óbvio que ela só se preocupava em não estar errada ao invés de se dar conta de que magoava o próprio filho.
– Der? — Stiles entrou no banheiro e me viu lavar o rosto. — Tudo bem? — ele estava inseguro. — Desculpe pela minha mãe, ela extrapola. — ele estava envergonhado por ela.
– Está tudo bem, eu só não estou acostumado. — sequei o rosto e o vi se aproximar.
– Podemos ir embora, tenho certeza que Finstock dá conta da fera. — ele sugeriu.
– Vamos comer e aguentar, é sua mãe. Eu não quero que vocês fiquem distantes por minha causa. — era sincero o meu apelo.
– Você vai me levar para a Espanha? — ele mordiscou o lábio inferior.
– Se você quiser ir. Eu vou passar todo o tempo em reunião, mas você pode visitar o país e ter Angus ao seu dispor. — ofereci.
– Você ia me chamar? — ele perguntou depois de um momento.
– Não. É uma daquelas viagens insuportáveis em que eu fico estressado e com nenhum tipo de bom humor. Não quero estragar uma semana sua e sei que você nunca largaria o trabalho para me acompanhar como um acessório. — ele sorriu e bicou meus lábios em um beijo.
– Faça sua viagem e um dia, vamos rodar por ai. Conhecer novos lugares juntos. Eu realmente não vou faltar no trabalho e não quero estressá-lo mais. — sorri e beijei sua testa.
– Melhor voltarmos. — a noite seria longa.
Fale com o autor