Manhattan
14 Catorze
Scott estava desolado quando voltei para casa naquela noite. Derek tinha acabado de seguir para o aeroporto e eu tinha passado os últimos dias na sua casa. Talvez eu devesse prestar mais atenção no meu irmão.
– O que aconteceu? — pedi sentando ao seu lado no chão e acariciando seu cabelo cumprido que caía na testa.
– Kira está no quarto, dormindo. — ele murmurou com a voz embargada e os olhos vermelhos.
– Ela está bem? — era preocupante ver meu amigo desestabilizado emocionalmente.
– Sim, nós conversamos e eu prometi que a acompanharia no procedimento. — ele engoliu em seco.
– Você se sente mal por apoiá-la? — ele me encarou e fez que não.
– Só foi um gatilho para as coisas que meu pai fez comigo e com a minha mãe. — ele mordiscou o lábio inferior. — Ela ligou e eu não pude deixar de contar tudo, só escapou. — ele soluçou.
– Está tudo bem, Mel nunca o julgaria. — ele assentiu e recostou a cabeça no meu ombro.
– Ela me contou como foi decidir me ter, mesmo sem apoio de ninguém, sem dinheiro, sem ter para onde ir e uma faculdade incompleta. — eu conhecia aquela história, mesmo que Scott nunca tenha querido saber.
– Ela sempre foi uma mulher forte, meu bem. — tentei tranquilizá-lo.
– Ele foi tão ruim. Quando ele voltou e... como ela pôde aguentar tudo aquilo por mim? — ele engasgou em seus próprios soluços.
– Não é sua culpa Scott, sua mãe te ama. — ele puxou o ar com dificuldade e enxugou o rosto com a manga da camisa.
– Ele bateu nela, Stiles. Ele espancou minha mãe. — tinha raiva ali e tanta culpa que eu nem sabia como acalmá-lo.
– Isso não é culpa da sua mãe ou sua. Rafael é um estúpido, ele é o único culpado por agredir e abusar psicologicamente da Melissa. — era a mais pura verdade.
– Eu não posso mesmo ter uma criança, como eu poderia ser diferente dele? — ele abraçou os próprios joelhos enquanto chorava.
– Sinto muito por tudo isso, baby. Mas você não pode se culpar pelo que Rafael fez há mais de duas décadas. Sua mãe teve você jovem, ela não teve apoio da família e caiu em uma relação abusiva com um veterano da faculdade, filhinho de papai. Isso não é sua culpa. Não foi você quem surrou-a, não foi você que se jogou da escada e quebrou o próprio braço de propósito. — Scott assentiu e tentou controlar o choro. — Você é um dos caras mais doces que eu conheço e é incrível a ideia de que você seria pai, mais ainda por eu ter certeza de que a criação que Melissa te deu, o faria um pai maravilhoso. — ele comprimiu os lábios. — Pare de se culpar e vamos apoiar Kira e então cuidar de você. — ele concordou.
– Eu não sei onde levá-la. — Scott encolheu os ombros. — Ela está com poucas semanas e precisamos fazer logo, antes que a alta temporada de desfiles comecem e ela precise se afastar pela barriga. — sequei suas lágrimas com as mãos e beijei sua testa.
– Eu vou marcar uma consulta para ela e te aviso. — ele me abraçou.
– Obrigado por ficar comigo. — eu queria poder tirar a dor do meu irmão.
– Eu te amo, cara. — murmurei.
– Eu também.
*
Ir para a Espanha não era opcional. Eu tinha muitas coisas para fazer lá e ficar longe de Stiles tornava tudo mais incômodo e difícil. Eu voaria por dezesseis horas até meu destino e não queria nem um pouco continuar me sentindo daquela forma. Assistir seriados que Stiles insistia sempre para que eu visse, nos fazendo acompanhar juntos depois, foi uma das coisas que ocupou parte do meu tempo. Comer me embrulhava o estômago e música me fazia pensar em como eu o queria ali para caçoar de como eu era clássico e antiquado, para logo depois dizer o quanto isso era sexy e ele queria transar ao som de toda aquela playlist cafona.
Pousar foi a melhor coisa de toda a viagem e eu estava exausto por não ter conseguido dormir nem um pouco. Os poucos cochilos que tirei foram inquietos e repletos de sensações ruins. A primeira coisa que fiz ao entrar no meu quarto de hotel e preparar a banheira, foi ligar para Stiles. Eu precisava ouvir sua voz. Pelo meus cálculos, era de madrugada em Manhattan, mas eu tinha certeza que ele não ligaria.
– Hey, baby. — sua voz estava ativa demais para alguém que deveria estar dormindo, para começar a trabalhar em quatro horas.
– Problemas para dormir? — foi a primeira coisa que saiu da minha boca, mesmo que eu quisesse dizer que o amava e sentia tanto sua falta que deveria tê-lo sequestrado para vir comigo.
– Problemas com Scott. — ele admitiu baixinho. — Você já está no hotel? — ouvi o barulho das cobertas serem mexidas.
– Sim, dentro da banheira e morrendo de saudade. — eu queria tanto poder sentir o cheiro dele.
– Isso é bom. Eu estou na cama, acabei de terminar uma enorme pesquisa sobre as melhores clínicas de aborto de Nova Iorque. — ele suspirou cansado.
– Kira decidiu abortar? — perguntei tentando curtir os jatos que massageavam minhas costas.
– Sim e Scott está arrasado. Não que ele discorde do aborto, pelo contrário, acho que isso liberou velhos gatilhos nele. — eu entendia, depois que Stiles me contou a história de Scott, eu conseguia entender todo o jeito tímido e superprotetor.
– Laura fez um aborto uma vez. — soltei. — Ela usou uma clínica patenteada pelas Indústrias Hale. É uma clínica parceira no tratamento de pacientes de abuso sexual, da Hale Fundation. — expliquei. — Você pode ligar amanhã de manhã para o Evan e pedir para agendar um horário para Kira. Tenho certeza de que tudo ocorrerá bem. — Stiles soltou o ar com força.
– Obrigado, eu já não sabia mais o que fazer. — ele riu nervoso.
– Você poderia ter me pedido ajuda. — ri e ele bufou exasperado.
– Como eu saberia que você tinha conhecimento sobre clínicas de aborto? — ele pareceu irônico.
– Tudo bem. Você deveria descansar. — comentei sentindo minha própria exaustão.
– Você tomou seu clonazepam? — ele perguntou como se estivesse se aconchegando nas cobertas.
– Sim, mas eu não sei se consigo dormir. — admiti nervoso.
– Você deve tentar mesmo assim. — sua voz ficou embolada de sono.
– Tudo bem. Eu te amo, baby. — murmurei.
– Amo você, garotão. — ele suspirou.
Ouvir Stiles dormir era reconfortante. Eu queria poder passar a noite assim, mas a água começou a ficar fria e o clonazepam a fazer efeito demais. Desliguei o celular e saí, me secando e caindo na cama de qualquer jeito. Dormir não era uma opção, mas eu não tive escolha.
*
Acordei com o celular tocando, era minha mãe. Atendi sonolento sem entender muito do que ela dizia e parecia tão rápido que demorei inclusive para entender que tudo não passava de um sonho super-realista.
– O que você disse? — perguntei esfregando os olhos.
– Derek está na televisão. Parece que ele sofreu um acidente de carro. — de repente eu estava consciente demais.
– Porra! Como você sabe? — minha cabeça estava à mil.
– Está em todos os jornais e noticiários, basta ligar a televisão.
– Droga! — desliguei o telefone e tentei ligar para o celular de Derek enquanto ligava a TV.
“O magnata Derek Hale, sofreu um acidente essa manhã na saída de um prédio comercial espanhol. Sem muitos detalhes revelados a imprensa, sabemos que seu carro capotou e com o vazamento de óleo, entrou em combustão. Graças ao rápido trabalho dos bombeiros, o motorista e Derek foram retirados à tempo. Tudo indica que um furgão veio propositalmente em direção ao carro do senhor Hale, o que nos leva a pensar que tudo não passou de um atentado contra a vida do mais importante empresário e investidor de Nova Iorque. Será que foi coisa de um dos inimigos de Aaron Hale? Ou seria algo mais grave? Tudo o que temos sobre o outro motorista é que ele estava sem documentos e não sobreviveu ao acidente. O hospital não deu nenhuma informação sobre o estado de saúde de Derek Hale, mas todos nós esperamos que o importante magnata sobreviva a esse ataque.”
Meu coração estava na boca e eu só conseguia me sentir rasgado e destruído por dentro. Mil pedaços de mim se espalharam pela cama, ao mesmo tempo que todos os telefones da casa pareciam tocar incessantemente. Atendi meu celular e sem conseguir dizer uma palavra tentei assimilar o que a mulher espanhola dizia do outro lado da linha.
– Espere. — pedi e puxei o ar com força, logo a ligação parecia ter caído e meus soluços se tornaram mais alto, até que a voz de Derek soou frágil do outro lado da linha.
– Sti. — ele murmurou.
– Derek, você está vivo. — meu coração doía tanto.
– Está tudo bem, estou aqui. — ele tossiu dolorosamente.
– Por favor, diz que você vai ficar bem. — eu implorei chorando.
– Não chore, meu bem. — eu tentei me segurar. — Foi um atentado, mas eu estou bem. — ele tossiu novamente. — Eu tenho alguns ferimentos graves, preciso de um tempo no hospital, mas eu pedi transferência. Um helicóptero deve me levar para o Hospital Central de Manhattan até amanhã a noite. Você pode lidar com isso até lá? — eu não sabia se podia.
– Você promete que vai ficar bem? — era tudo ao que eu podia me agarrar.
– Prometo. O motorista, Stuart. Ele não... — a voz de Derek se perdeu.
– Sinto muito, garotão. Eu sinto muito por tudo.
– Eu chego em breve, vou ligar quando estiver saindo e Evan vai informar que horas eu chego no hospital.
– Ok. Seja forte, Der. Eu preciso de você.
– Eu te amo, baby.
– Não mais que eu. — desligamos.
Scott acordou e eu estava transtornado na cozinha, eu ainda vestia apenas minha cueca e tinha bebido um monte de água. Eu não conseguia desligar os noticiários e ignorar as ligações da minha mãe. Quando ele entendeu o que tinha acontecido, vi Kira me abraçar e me obrigar a sentar no sofá, assim como meu melhor amigo e irmão me entregar o telefone dizendo que era meu pai.
– Stiles. — meu pai era firme ao telefone.
– Ele podia ter morrido. — murmurei olhando para o nada.
– Mas ele está bem. Scott disse que ele está sendo transferido, confere? — murmurei em concordância. — Você precisa se focar, continuar sua vida. Ele vai estar em breve por ai e o assédio da imprensa vai ser enorme e se foi um atentado, ele corre um enorme perigo Stiles, vocês correm perigo. — engoli em seco.
– Eu não posso pensar nisso agora, ele... eu... Derek poderia ter morrido. Eu não posso... — o choro estava ali de novo.
– Stiles, me escute. Sua mãe está preocupada e Scott é a única pessoa que tem acesso a você nesse momento. Eu quero estar ai e vou, mas não consigo chegar antes de hoje a noite.
– Você não precisa. — murmurei fungando.
– Mas eu vou. Por favor, não faça nada estúpido até lá. Eu te amo, garoto.
– Eu também. — tentei me recompor.
*
Eu tinha poucos flashes do acidente. A noite foi mal dormida e eu tinha tido uns quatro pesadelos antes de desistir dormir, quando levantei e vi que estava atrasado, simplesmente me arrumei, tomei um café e ordenei que o motorista me levasse para a reunião. Ainda não conhecia meus potenciais sócios em um hotel espanhol que cogitei construir, o que me deixava um pouco apreensivo. Pesquisar sobre eles seria importante, mas não era a primeira vez que isso acontecia.
No caminho recebi uma ligação de Angus, mas estava ruim e caiu. Evan tentou me ligar em seguida e enquanto eu o ouvia, senti o impacto da batida, meu corpo ser lançado para fora e o barulho da explosão. Eu queria me esforçar para entender o que tinha acontecido, mas apaguei e quando despertei, estava na ambulância recebendo cuidados e depois no quarto, depois de horas de cirurgia. Agora estou sendo preparado para uma transferência, enquanto tudo o que consigo pensar é no que realmente aconteceu e como eu queria ver Stiles.
Agora eu só queria ligar para ele de novo e dizer que tudo ficaria bem, que nenhuma das minhas lesões eram permanentes, que a minha mão quebrada não era um problema, que meu ombro deslocado não doía e que cada costela fraturada e o pulmão superficialmente perfurado e tomado por fumaça não me fazia tossir e doer a cada segundo. Eu queria abraçá-lo, senti-lo e tranquilizá-lo, porque era o que eu precisava, de apoio.
– Derek! Que bom que você ligou, eu estou tão preocupado. — ele suspirou aliviado ao ouvir minha respiração.
– Eu estou sendo transferido agora, devo chegar em algumas horas. Pode demorar, é uma viagem longa, mas eu chego de madrugada no hospital. Pedi para divulgarem para minha família que eu chego às 8 horas da manhã, mas Angus vai te levar até mim no horário certo. — puxei o ar com dificuldade, minhas costelas estavam me matando.
– Eu estarei lá. Você está bem? Alguma coisa que eu deva saber? — ele estava aflito.
– Só que eu preciso de você. — minha voz diminuiu muito. — Você comeu hoje? Resolveu a questão da Kira? — Stiles riu.
– Você não vai me falar nada até chegar, não é? — ele estava certo. — Eu marquei para depois de amanhã uma hora no hospital. Evan cuidou de tudo. Obrigado. — ele parecia exausto. — Por favor, me diga que não é tão ruim. — ele implorou.
– É ruim, mas eu não corro nenhum risco. Só quebrei algumas costelas, perfurei parcialmente o pulmão, tenho alguns cortes, o ombro deslocado e a mão quebrada. Vou ficar bem, prometo. — ele soluçou. — Não chore. — me cortava o coração vê-lo assim.
– Você podia ter morrido. — ele murmurou.
– Mas eu não morri. Stiles, preciso que seja forte por mim. Eu não tenho mais ninguém em quem eu confie o suficiente como faço com você. Por favor... — ele fungou e me interrompeu.
– Eu vou ficar bem, posso lidar com isso. Venha de uma vez e me deixe cuidar de você. Estarei o esperando no hospital.
– Eu te amo.
– Eu também, garotão. Eu também.
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