Manhattan
11 Onze
Derek voltou no meio da noite. Eu tive tempo de colocar toda a casa em ordem e esperar que Scott me trouxesse roupas limpas para trabalhar. Eu podia sentir de longe o quanto meu namorado estava doente com toda aquela situação, principalmente quando seu corpo pressionou o meu contra a bancada da cozinha, quando suas mãos agarraram meu pescoço com a mesma força de quem queria me enforcar, mas tudo o que ele fez foi me beijar.
Duro, punitivo, desesperado. Em algum momento meu rosto estava molhado com as suas lágrimas e sua mão contra o meu pau. Eu queria, mesmo atordoado, falar sobre aquilo, sobre o sonho, sobre as dores que assombravam o passado dele. Eu sabia o quanto Derek estava se reprimindo, se ferindo em deixar que o sexo resolvesse mais uma vez nossos problemas. Eu podia sentir sua dor, mesmo que nada além de investidas insistentes existissem ali.
Eu não abri minha boca, nada além de beijar e aguentar o aperto nada sutil contra a pele, as unhas machucando minhas costas, seu próprio pau empurrando minha coxa. Ele estava desesperado por alguma coisa, por algum sinal de que estava tudo bem, de que eu não era o monstro de seus sonhos, de que não o deixaria por ele acreditar piamente que era sujo, que não merecia ser amado.
Quando minhas mãos foram guiadas para dentro da sua camisa, quando suas investidas frenéticas, sua respiração pesada se tornou mais calma, quando eu tive certeza de que ele tinha gozado, pensei que acabaria, que tudo ficaria bem e viraria diálogo, mas estava errado. Derek queria mais, queria provar para si mesmo que tudo aquilo era culpa dele e que ele merecia uma punição, de que ele merecia que eu estivesse com raiva.
Essa raiva não existia, mas o choro e o estremecimento, o nojo que ele expressava fisicamente enquanto guiava minhas mãos dentro de sua calça, apertando e pegando em sua bunda, arranhando a pele e tornando um movimento bruto, era extremamente visceral. Quando ele guiou meus dedos em torno de sua própria entrada, quando forçou em meio a pele sensível, quente e seca a penetração de um e grunhiu afundando o rosto em meu pescoço, se desfazendo em pranto, eu me afastei.
Agarrei-o em um aperto firme e nos vi sentado no chão da cozinha, seu corpo tremendo, a dor esvaindo em cada lágrima e eu mesmo querendo desmoronar. Seu olhar encontrou o meu depois de longos minutos, eu ainda murmurava coisas desconexas e acariciava seus cabelos, enquanto seu corpo cedia em peso e dor em meus braços. Seu olhar era de partir qualquer coração.
– Eu não consigo. — ele sibilou, a voz rouca e distorcida pelo choro. — Não posso falar sobre isso... — ele agarrou minha camisa. — não assim, não com você. — ele afundou o rosto em meu peito em soluços desesperados. — Sinto muito. Sinto muito. Sinto muito. — ele murmurava.
– Olhe para mim. — exigi com a voz baixa, mas séria. Ele obedeceu. — Eu te amo. — ele fez que não com a cabeça, como se doesse demais ouvir aquilo. — Você é meu garotão. Eu nunca vou deixá-lo. Eu não quero fazer isso. — o soluço cortou o silêncio que se instalou por alguns momentos.
– Sinto muito, eu não consigo fazer isso. É tão... dói. — ele engoliu em seco e se agarrou a minha cintura.
– Ouça, baby. Quando eu disse que queria saber, que estaria aqui para o que fosse, eu falei sério. Você não está me perdendo. Eu não estou exigindo nada de você. Tome seu próprio tempo, converse com Deaton. Vamos marcar uma consulta conjunta e fazer isso funcionar. — ele fungou e me encarou com os olhos tristes, brilhando em lágrimas.
– Eu sou fodido, Stiles. Você não vai querer isso depois que souber de tudo. Eu não posso contar. — ele mordeu o lábio inferior de nervoso.
– Eu não me importo. Eu te amo. — me inclinei e beijei sua testa.
Eu consegui fazê-lo dormir, mas não consegui paz para mim mesmo. Talvez fosse o momento certo para uma consulta com Deaton, talvez eu devesse só ligar para o meu pai ou para Scott. A verdade, é que eu não fazia ideia do que fazer com aquilo. Derek era um gatilho para mim mesmo, ele me fazia lembrar de como eu me sentia sujo e violado nas mãos de Matt, ao mesmo tempo que me lembrava o adolescente perdido que procurava no sexo, sentir qualquer coisa que não fosse nojo de mim mesmo. Derek me fazia pensar se o que temos não é apenas uma forma de escapar desse padrão, se ele não fazia o mesmo, se ele não está tão absorto em traumas e dores que mal enxerga o amor das pessoas ao redor. Derek me fazia chorar muito mais do que na infância, me fazia sofrer com as dores deles, reabrir minhas feridas e mesmo assim eu o queria. Mesmo assim, Derek é o homem com quem queria dormir e acordar todos os dias, pelo resto da minha vida.
*
Stiles já tinha ido embora quando acordei no dia seguinte. Ele tinha deixado uma mensagem de voz na minha secretária eletrônica, mas eu tinha medo de ouvi-la. Levantei e fui para o banho. Meu rosto inchado de tanto chorar, denunciava o quanto eu me sentia um lixo. Minha casa, antes toda bagunçada, estava incrivelmente organizada. Dando um nó na gravata antes de ir para o trabalho, eu pude relembrar cada ocorrido das últimas vinte e quatro horas e a vergonha era grande. Talvez Stiles nunca mais quisesse me ver. Resolvi ouvir sua mensagem.
“Hey, garotão! Bom dia. Você deve estar se perguntando o que aconteceu para eu ir embora sem avisar. Eu tive pena de acordá-lo, você parecia exausto. Hoje vou apresentar uma conta importante e Jackson precisa de mim. Mais tarde, Scott e eu vamos tomar algumas bebidas lá em casa, Isaac também vai, você deveria aparecer se quiser. Espero que tenha descansado. Amo você.”
Era um alívio saber que ele não tinha partido, mas ainda me sentia mal por jogar todos os meus problemas e inseguranças em Stiles. Meu estômago embrulhava com a possibilidade de machucá-lo ou de fazê-lo sofrer. O pior disso tudo, é saber que provavelmente, eu o feriria.
*
Peter por algum motivo me esperava no saguão do prédio quando desci para almoçar. Lydia andava faltando e eu tinha que comer sozinho hoje. Quando o vi, pensei em dispensá-lo, mas um sexto sentido idiota me fez ouvi-lo e acompanhá-lo para um café.
– Então você quer que eu vá a um brunch na mansão Hale? — repeti enquanto mastigava parte do meu cachorro quente.
– Sim. Derek não vai por ter compromissos, mas seria bom para a carreira de Scott e tenho certeza que você vai se divertir. — hesitei, sabia que a relação de Derek com a família não era boa, principalmente com Peter.
– Vou falar com Scott. — por mais estúpido que Peter fosse, seria realmente bom para a carreira dele.
– Vou esperá-los lá, Stiles. É bom poder conversar com você e saber que Derek não amargurou seu doce coração. — arqueei as sobrancelhas e o encarei.
– Não estamos falando de Derek, principalmente se for criticá-lo. Na verdade, acho que já deu a minha hora. — joguei a lata de refrigerante vazia no lixo e caminhei de volta para o trabalho, Peter era ridículo.
Encontrei Derek conversando com Malia no saguão. Ela estava segurando suas mãos e eles pareciam rir de alguma coisa. Passei direto e irritado, não era obrigado a ver nenhuma interação daqueles dois. Minha semana estava um inferno.
– Hey, Stiles! — ele parou o elevador antes que as portas fechassem. — Eu posso explicar. — ele tinha um olhar preocupado, inseguro.
– Está tudo bem, Der. — sorri e apertei meu andar e ele inseriu a chave dele na cobertura. — Malia é sua amiga, eu entendi. — o encarei com sinceridade, por mais que não gostasse dela, não interferiria.
– Sério? — ele franziu o cenho e eu ri.
– Sim, garotão. — me inclinei e dei um selinho nele. — Vem para o meu apartamento mais tarde? — ele sorriu.
– Posso ficar para dormir? — ele mordiscou o lábio inferior.
– Claro que sim. — dei mais um selinho nele e saí ao chegarmos.
*
Ir ao Deaton depois do expediente foi definitivamente uma boa ideia. Mesmo que eu não acreditasse em terapia ou que ele realmente poderia me fazer esquecer toda a merda que aconteceu na minha vida, eu precisava falar sobre o que aconteceu, sobre Stiles ainda assim ficar, sobre como é difícil quando ele resolve me contrariar e me segurar até todo o meu desespero ir embora.
– Existe um problema e eu tenho certeza que duas pessoas abusadas como Stiles e você não devam usar o sexo como paliativo para tudo. — Deaton foi enfático.
– Eu nunca disse que fui abusado. — engoli o nó que se formou na minha garganta.
– Você não precisa, tudo sobre você indica abuso constante na infância e/ou adolescência. Parece ruim, mas eu sei. Você precisa falar sobre isso, antes que Stiles não consiga mais apenas ser compreensivo.
– Você não está ajudando, doutor.
– Não aguentar a verdade, não é necessariamente minha culpa, Derek. — bufei irritado.
– Não consigo falar sobre essa merda. Ele só vai correr e se esconder quando souber. — apertei os cantos dos olhos e tentei me acalmar, minha cabeça latejava.
– Se você não abusou de ninguém, não vejo como Stiles poderia correr.
– Olha, eu realmente achei que seria bom vir aqui. — levantei.
– Você pode correr, Derek. Conheço Stiles o suficiente para saber que em algum momento ele vai pressionar tanto que você vai falar e isso sim pode quebrar vocês dois. — saí sem respondê-lo.
*
Derek não parecia muito feliz quando chegou, mas ele se deixou levar pela leveza de ter Isaac ali e Scott, mesmo um pouco afastado de mim, ainda era meu melhor amigo. Precisamos um do outro e é isso que importa.
– Está tudo bem? — perguntei quando fomos para cama naquela noite.
– Não sei. — ele sorriu e tirou a camisa.
– Algo que eu possa ajudar? — beijei sua nuca.
– Fui ao Deaton antes de vir para cá. — ele me puxou para sentar em seu colo. — Ele me pressionou para falar sobre toda essa merda e eu... não consigo. — sorri e alisei seu rosto, a barba macia contra minha pele.
– Você quer falar sobre isso? — era uma pergunta simples, mas importava.
– Sim. Eu não quero te machucar, nem te perder. Só que se eu não falar o que aconteceu, vou acabar nos machucando. — assenti e colei minha testa na dele.
– Você pode me contar qualquer coisa, Der. — o encorajei.
– Você não vai querer me tocar assim depois que souber de tudo. — ele insistiu.
– Tem razão, eu vou querer te dar muito mais carinho. Nossa, quando eu contei a você o que tinha acontecido comigo, eu tinha medo de você ter pena de mim, medo de que fosse me mandar embora. Você me aceitou, me amou e ficou comigo. Não espere nada diferente de mim, estarei aqui quando acabar. — ele assentiu.
– Eu te amo. — ele colou seus lábios nos meus. — Muito. — sorri e o beijei novamente.
Derek passou boa parte da noite deslizando seus dedos pelas minhas costas e dizendo o quanto me amava, traçando contornos imaginários, beijando cada curva minha, enquanto eu apenas conseguia retribuir com todo o amor que eu tinha e esperar pacientemente pelo seu desabafo.
*
Eu não sabia por onde começar, estava tarde e Stiles parecia sonolento, relaxado. Não queria perder isso, mas eu mal conseguia me imaginar tocando meu namorado sabendo o quão imundo ele me encararia depois. Ele se arrependeria de ter se envolvido comigo.
– Quando meu pai morreu, minha mãe tinha muitas preocupações. Laura tinha ido estudar em um internato, enquanto Cora ainda era apenas um bebê. Eu senti muito a falta dele, nós éramos muito ligados e Cora passou a ver como não era fácil e reproduzir alguns comportamentos agressivos que eu tinha. Minha mãe ficou preocupada e estava em depressão. Peter contratou uma psicóloga conhecida da família e ela tinha uma assistente. Eu odiava fazer terapia e odiava o fato de que ela achava que toda minha raiva era culpa minha. — fiz uma pausa, não sabia o quanto contaria mais.
– Tudo bem, você pode me dizer.
– Victória estava focada em ajudar minha mãe e Kate ficou como minha responsável. Ela disse que eu estava estressado e me incentivou a me masturbar. — engoli em seco, minha mão suava frio e agarrava a de Stiles. — Ela me tocava e me fazia ver revistas. Dizia que se eu fosse um bom garoto, poderia ter uma mulher como ela um dia. — o nó na minha garganta me impediu de respirar. — Ela era bonita e eu tinha doze anos, não sabia nada sobre sexo. Era bom quando ela me tocava e eu sempre gozava, mas no fundo me incomodava, não parecia certo. — eu o encarei envergonhado. — Sinto muito. — murmurei.
– Não é sua culpa. Ela é a única quem deve se sentir mal, você era só uma criança, Der. — ele sentou na minha frente e agarrou minhas mãos com firmeza.
– Eu queria parar, mas ela dizia que fazia parte do tratamento e que era sigiloso. Eu não podia contar a ninguém, mas ela começou a... — eu travei.
– Tudo bem, eu não vou julgar. — ele me tranquilizou.
– Ela começou a me fazer sentir diferente. Ela passou a enfiar seus dedos em mim, a perseguir meu orgasmo através da próstata. Era humilhante como ela me fazia gozar sem eu querer, me elogiava mesmo que fosse tudo tão sujo. — ele acariciou meu rosto e eu retraí ao toque.
– Sinto muito que ela tenha feito isso com você, meu bem. — senti meu peito queimar de dor.
– O pior era que eu gostava, no início era bom, a sensação de ter alguém me tocando, meu corpo correspondia e eu ficava confuso... era desconfortável as vezes, principalmente quando ela... — eu não ia conseguir.
– O que ela fez, garotão? — respirei fundo e me afastei, meu joelhos contra o peito e o olhar distante não tornava mais fácil.
– Ela usava uma cinta pau para me estuprar. Não era bom, eu odiava. Ela fez isso por um ano inteiro e eu contei para o Peter e para minha mãe. Eles achavam que era mentira, Peter sempre achou que eu inventei.
– Eles não acreditaram em você? — Stiles parecia irritado.
– Eles me levaram a um pediatra, ele disse que eu estava inventando. — encarei Stiles e ele parecia abalado.
– Porra... sua mãe não acreditou em você? — ele esfregou o próprio rosto.
– Eu sinto muito. Juro que aconteceu, eu... — senti os braços de Stiles em volta de mim.
– Eu acredito em você. Não faça isso, não se culpe. — era bom não me sentir rejeitado. — Está tudo bem agora, eu não vou sair de perto de você.
*
A verdade era pior do que eu pensava. Derek tinha um motivo para ter raiva das mulheres, tinha motivo para odiar terapia, tinha todos os motivos do mundo para querer distância da própria família. Sabendo o que aconteceu, eu não podia fazer menos do que odiar uma mãe que não acredita em seu filho, em um tio que zomba de uma criança abusada.
– Você está acordado? — ele perguntou ainda de costas para mim.
– Sim. — o abracei e o deixei virar de frente para o meu corpo.
– Me sinto tão... vazio. — ele sussurrou olhando nos meus olhos.
– Você é lindo mesmo vazio. — sorri e ele riu.
– Nós estamos bem? — ele correu o indicador pela minha bochecha.
– Mais do que isso, nós vamos superar tudo juntos. Eu não vou te deixar. — murmurei com firmeza.
– Eu te amo. — ele me puxou para se aconchegar em meu peito.
– Eu também, garotão. — beijei sua cabeça e o acariciei até dormirmos.
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