Manhattan
10 Dez
Notas iniciais
Dormir não fez parte da minha rotina nenhum dia daquela semana. Eu me sentia mal pela forma como Stiles deixou minha casa e mais ainda por observá-lo tão triste quanto eu no seu dia a dia.
Naquela manhã específica, quando entrei no prédio e o vi chegando de braço dado com Lydia, a recepcionista do seu andar, senti meu estômago virar. Eu queria poder tocá-lo, mesmo que tão insignificantemente quanto ela estava fazendo, queria poder ouvi-lo comentar sobre seu dia e rir como eles, me divertir com ele.
Meu dia não podia piorar. Além de Stiles e eu não estarmos nem nos falando, Peter Hale estava na minha sala querendo muito conversar comigo. Bufei, nem dei bom dia para ninguém e entrei em minha sala enquanto ele começava seu tom cínico de sempre.
– Querido sobrinho, quanto tempo não nos falamos. — Peter tinha um dos meus pesos de papel nas mãos.
– O que você quer, Peter? — deixei minha pasta na mesa e abri o paletó.
– Quanta hostilidade! Pensei que fôssemos família, Derek. — ele sorriu e sentou no sofá. — Não vai nem me oferecer um de seus uísques caros? — revirei os olhos e pendurei meu paletó.
– São nove da manhã, Peter. Não estamos bebendo nada. — sentei na minha cadeira e o encarei. — O que você quer? — pedi pela última vez.
– Sua mãe tem reclamado da sua ausência em casa. Diz que você não atende seus telefonemas, ou sequer diz se está vivo. Parece que seu animalzinho de estimação não tem feito um bom trabalho em dizer para a mamãe que está tudo em ordem. — Peter se referiu ao meu assistente e eu bufei.
– Você não veio me alertar sobre a fúria de Talia. — fui ríspido e quanto antes ele fosse embora, melhor.
– Na verdade, estou aqui porque preciso da sua presença em um brunch que a Hale Records fará em comemoração as seis novas contas fechadas. — o encarei por mais alguns segundos antes de levantar.
– Não vou. Sei exatamente tudo o que acontece na Hale Records, não preciso me embrenhar em eventos ridículos que só fazem gastar nossos recursos.
– Você autorizou o evento. — Peter se defendeu.
– E é só isso que eu vou fazer. Não conte com a minha presença. Se contente com meu dinheiro. — caminhei até a porta. — Era só isso?
– Sempre tão cordial. — Peter levantou e fechou o próprio paletó. — Espero que seus modos sejam melhores com seu novo namoradinho. Sempre imaginei que você acabaria com um adolescente mimado. — abri a porta e prendi a respiração, mais uma de Peter e eu o socaria. — Foi bom te ver, sobrinho. — esperei ele sair e bati a porta.
– Merda. — rosnei e afrouxei a gravata, servi uma dose de rum e sentei no sofá. — Merda! — nada parecia dar certo.
*
Derek parecia irritado naquele dia, logo quando decidi que talvez devesse subir e conversar sobre nós. Evan tinha me dito que ele teria reunião até as dez da noite, o que era bem tarde até para os padrões Hale. Tentei seguir meu dia com calma e foco no trabalho, mesmo que a semana inteira tenha sido insuportável.
Lydia, Jackson e Danny estavam me levando para almoçar, era um dia atípico onde todos nós resolvemos socializar. Todo mundo sabia o quanto Lydia e Jackson brigavam desde o ensino médio, principalmente depois de ouvir a história em que ele tentou ficar com ela, enquanto ele mesmo se descobria sexualmente. Lydia tinha uma namorada na época que não gostou nada disso. Tudo desandou na relação deles depois disso.
Danny como sempre transformava o ambiente em diversão. Era agradável falar sobre o tempo, a moda, a nova obra que ele estava participando, o novo filme que Lydia queria assistir ou o tempo na academia que Jackson mal conseguia cumprir. Eu me senti apagado, desprovido de obrigação em falar e dividir minha dor, mesmo que em casa, Scott tenha me ouvido lamentar e meu pai tenha gastado muito mais do que algumas horas de seu plantão apenas para me ouvir chorar.
– Stiles, você está tão quieto hoje. Nem comentou nada sobre o último cliente insuportável que tivemos. — Jackson bebericou seu chá gelado enquanto me encarava.
– Não acho que sou uma boa companhia ultimamente. Você sabe, não ando muito animado.
– Derek e você não se acertaram ainda? Pensei que o paraíso já tinha voltado a funcionar. — Lydia murmurou enquanto mexia a própria salada.
– Não quero conversar sobre isso. — fui seco, mas estava sendo igualmente sincero.
– Não precisamos. — Danny encarou meu chefe e minha colega de trabalho com um olhar severo. — Que tal tomarmos uns drinques hoje depois do expediente?
– Eu não sei. — não estava a fim.
– Eu topo. — Lydia se animou.
– Não sei não. Amanhã tenho que entregar duas contas e ressaca nunca cai bem com apresentação. — Jackson acabou com a animação de Danny.
– Vocês são todos chatos. — ele pediu a conta.
*
Eu estava descendo para almoçar, precisava de um ar e esbarrar com Stiles não ajudou em nada. Ele estava ali, esperando o elevador com um olhar triste e os lábios melados de saliva, sinal de que ele estava impaciente. Quando ele entrou no elevador, não percebeu que eu era o único ali, nem se deu conta de que no mesmo momento ordenei que o elevador voltasse para o meu andar e travasse.
– Mas que porra! — ele reclamou quando o desligamento repentino deu um tranco. — Derek? — ele me encarou surpreso. — Como eu não percebi que você estava aqui? — ele engoliu em seco e viu minha chave pendurada no painel de controle.
– Senhor Hale, está tudo bem? — a voz da segurança que deve ter sido acionada, surgiu no alto falante.
– Sim, preciso de alguns minutos. Liberem o outro elevador. — ordenei e desliguei a conexão de áudio.
– O que você está fazendo? — Stiles perguntou e antes mesmo de me dar conta, eu o estava imprensando contra a parede e atacando seus lábios.
Era um beijo selvagem, com gosto de mágoa, ressentimento, dor e saudade. Eu precisava de Stiles tanto quanto ele precisava de mim. Nós estávamos dependentes um do outro, mas o orgulho ferido e o medo de nos ferir, era maior que a vontade de ceder e tentar de novo. Ele tinha razão, precisávamos de um tempo, mas eu não tinha certeza se podia esperar tanto assim.
– Não. — ele me afastou indeciso e olhou para minha boca, buscando meu olhar em seguida e parecendo dolorido, como se sofresse de um medo absurdo.
– Tudo bem, eu sei. — ele piscou e olhou para longe, trouxe-o de volta. — Eu sei. Entendo que precisamos disso, desse tempo para pararmos de nos ferir inconscientemente. Está tudo bem. — reafirmei, querendo que ele entendesse que eu estaria ali sempre, não importa o quanto eu tivesse que esperar.
– Sinto muito. — ele soltou o ar com força, estressado com tudo aquilo.
– Não sinta. Estarei aqui, sempre estarei aqui. — liberei seu corpo e o senti me puxar para um novo beijo.
Tinha paixão e medo ali, mas também tinha amor, cumplicidade e carinho, tinha tudo o que ele precisava, o que eu necessitava. Era tudo o que tínhamos, nossos sentimentos. Liberei a chave do elevador e me deixei afastar ao ouvir o sinal de que tínhamos chegado ao térreo, ele deixou o elevador me encarando, meu coração se partiu. De novo.
*
Eu desisti de correr e ir ao Krav naquela noite. Todo o restante da minha tarde foi dedicado a pensar em como Derek tinha se entregado em um beijo, em como estivemos nos evitando por toda a semana. Não piorou, não reduziu, não acabou com o que sentíamos. Na verdade, me arrisco em dizer que melhorou e nos uniu em proporções absurdas. Minha maior dor naquela noite, era pensar em Derek sozinho em seu escritório e depois em seu apartamento. Pensar nele tendo problemas para dormir, seus pesadelos e dores, tudo o que tinha acontecido em uma semana enquanto eu tentava absorver uma paz que não fazia sentido para mim.
– Stiles! — encontrei com Meredith no mercado, era estranho esbarrar com alguém enquanto eu me sentia completamente introspectivo.
– Oi! Que estranho nos esbarrarmos. Você está meio longe de casa, não? — perguntei enquanto escolhia alguns morangos para levar para casa.
– Vou jantar na casa de uma amiga e vim escolher algum vinho para levar, como sempre vou me arrastando de última hora para as minhas obrigações. — ela riu e eu apenas concordei.
– Faz sentido, eu já estava indo para fila. — fechei meus morangos e coloquei na cesta.
– Eu cheguei agora, mas foi bom te encontrar! Consegui ingressos para uma banda alternativa maravilhosa, é meio grounge, mas você disse que não se importava.
– Claro! Me manda o nome amanhã por telefone e as informações e combinamos! — tentei me desvencilhar facilmente.
– Tenho quatro ingressos, veja se Derek não quer ir. Vocês podem se reconciliar. — pronto, de novo eu me sentia mal.
– Vou falar com ele. — dei um beijo em sua bochecha e larguei minhas compras.
Eu pensei em ligar para Derek. Pensei mesmo. Não tive coragem por saber que eu poderia estar cometendo mais um erro em voltar assim, sem saber o quanto aquilo nos ajudaria ou se seria nossa destruição total. Me lamentei por mais uma noite e dormi agarrado a uma de suas camisas esquecidas em minha casa. Ele nem sequer se incomodou em devolver minhas coisas ou pegar as dele. Nós ainda ficaríamos juntos de novo. Ele sabia disso, estava me esperando.
*
Mais um dia sem conseguir render bem no trabalho. Lutar com Ennis foi perda de tempo, eu só consegui a lateral do meu corpo roxa e a boca inchada por um chute mal calculado. Me sentia dolorido e destruído, incrivelmente inclinado a beber até entrar em coma alcoólico, porque decidi esperar e respeitar Stiles, ao invés de implorar para ele voltar para mim novamente. Eu realmente compreendia que precisávamos de tempo, só doía demais conviver com isso. Era tudo minha culpa.
Acordei tremendo e suando frio. Eu deveria estar com febre e podia sentir a bile na garganta, mal deu tempo de chegar ao banheiro, vomitei toda a pia. Eu me sentia nojento e enjoado. Tudo em mim grudava e parecia cheirar como ela. Os olhares em cima do meu corpo se faziam presentes mesmo depois de desperto e o banho gelado não foi suficiente para me manter são. Eu estava com medo e sozinho, esse era o meu pior momento. Tentei dormir novamente
*
Eram mais de três quando atendi o telefone. A madrugada era reservada para ligações de bêbados e más notícias e isso apertou meu coração. Ouvir a respiração pesada do outro lado da linha, me fez afastar o celular e ver que era Derek. Isso fazia eu me sentir bem pior do que eu já estava.
– O que aconteceu? — minha voz saiu baixa e ressonada, por mais firme que eu quisesse ser.
– Desculpe ligar assim. — ele parecia vulnerável e abalado, poderia até dizer que estivesse chorando.
– Você está bem? — era uma pergunta estúpida.
– Não. Sinto muito, mas eu preciso de você. — ele fungou desesperado. — Eu sou um idiota, não deveria ter ligado. — minha garganta foi tomada por um nó de angústia.
– Derek! — ele já tinha desligado.
Eu estava em frente a sua porta menos de vinte minutos depois. Ele abriu vestindo uma de suas calças de moletom e sem camisa, era visível as olheiras, o suor e o tremor de seu corpo. Eu queria abraçá-lo, mas não sabia se o contato físico era a melhor coisa. Ele mordeu o lábio inferior e abaixou a cabeça, aqui me fazia sentir pior ainda. A vulnerabilidade de Derek era o que mais o fazia infeliz, sabia o quanto era difícil para ele se fazer necessitado de ajuda e atenção, eu não queria fazê-lo se sentir pior.
– Já tomou banho? — perguntei assim que ele me deixou entrar e fechei a porta atrás de mim. Ele fez que não com a cabeça. — Vamos lá, garotão. — entrelacei minha mão na dele e o guiei para o banheiro.
Sua casa estava uma bagunça, a cozinha tomada por copos e bebidas, sua sala desarrumada e seu quarto parecia que tinha sido atingido por uma catástrofe natural. O banheiro tinha sinais do seu enjoo, assim como algumas roupas sujas jogadas nos cantos. Sentei-o no tampo do vaso e caminhei até o box. Liguei o chuveiro e esperei até acertar a temperatura da água, o ajudei a se livrar do moletom e o guiei para a ducha.
– Isso vai te fazer sentir melhor. — vi seu corpo retrair ao toque da água morna e acariciei seu rosto. — Vai ficar tudo bem agora. — tentei tranquilizá-lo.
– Desculpe. — ele engoliu em seco e encostou a testa no vidro do box.
– Não por isso. — acariciei sua bochecha e tentei me afastar.
– Onde você vai? — ele parecia amedrontado demais.
– Pegar uma roupa limpa para você. — ele suspirou e mordiscou o lábio, querendo me impedir mas não necessariamente verbalizando.
– Fica. — ele murmurou. — Por favor. — suplicar não era típico de Derek.
– Quer que eu entre? — hesitei, isso poderia sim ser um gatilho ou demais para nossa relação. Ele assentiu.
Derek me deixou abraçá-lo e não conseguiu evitar o choro que rasgou seu peito em soluços violentos. Eu choraria também se isso não fosse deixá-lo pior. Nesse momento, eu só queria matar quem o machucou desse jeito.
– Foi um pesadelo? — perguntei quando ele acalmou um pouco.
– Sim. — ele murmurou baixinho.
– O que te atormenta tanto neles? — comecei a ensaboar suas costas com carinho, mesmo que a cada toque ele parecesse querer correr.
– Eu não posso. — ele soltou o ar com força, frustrado.
– Tudo bem, está tudo bem. — o abracei bem forte.
Estávamos na cama, ele parecia mais calmo e eu consegui pelo menos dar um jeito no banheiro e preparar alguma coisa para ele comer. Um chá e alguns biscoitos foi mais do que suficiente para ele se acalmar.
– Eu vomitei meu clonazepam provavelmente. — ele comentou me deixando livre para sair da cama.
– Você quer que eu pegue outro? — perguntei ainda sentado ao seu lado.
– Seria o terceiro, não sei se é uma boa ideia. — sorri e nos cobri, meu corpo deitado próximo ao seu, acariciando seu braço, tentando evitar os roxos de um treino pesado de luta.
– Vamos descansar, tudo bem? — ele suspirou e me encarou.
– Não vamos ignorar isso. — o encarei atento. — Não finja que em noites como essa, não sou capaz de te machucar. Eu não vou conseguir lidar com você indo embora para sempre. — o tom desesperador me deixava sem chão.
– Eu não vou a lugar nenhum. Assim que você dormir, eu vou para o quarto de hóspedes. — prometi. — Me deixe fazê-lo dormir um pouco, você precisa. — ele relaxou.
– Obrigado. — ele murmurou antes de se emudecer.
Derek gritou meu nome pela manhã, era um tom sujo e duro. Corri para o quarto, para encontrá-lo gritando e se debatendo, tentando se libertar de um mal que, em seus sonhos, eu causava. Meu estômago revirou quando o ouvi mandar eu tirar meu pau de perto dele. Eu sabia exatamente com o que Derek estava sonhando.
Vomitar mais de uma vez com a ideia de ser o estuprador dos sonhos de seu namorado não era uma boa forma de começar o dia. De nenhuma forma tentar consolar seu namorado pelo mal imaginário que você mesmo causou, também não deveria ser. Mas eu não tenho sorte, por isso, essas coisas aconteciam na minha vida e me machucavam pouco a pouco, até que não houvesse mais sangue para derramarem de mim.
– A gente precisa conversar. — comentei enquanto ele terminava o próprio café, eu tinha ligado mais cedo para Jackson e pedido para tirar o dia, não tinha como trabalhar me sentindo tão mal.
– Estou ouvindo. — ele não me encarou, desde que tinha despertado e me visto por perto, não recebi nenhum olhar seu.
– Olhe para mim. — exigi, ele o fez e o sentimento em seus olhos era de pura dor. — Eu sei o que aconteceu com você, posso não saber os detalhes ou quem fez, mas eu sei que abusaram de você também. Eu passei por isso por anos, Derek. Pode não ser o mesmo abuso, mas entendo sua dor. — ele largou o café e apertou os punhos.
– Stiles. — seu tom rude não me assustava.
– Você surtou quando eu te toquei, surtou quando eu tomei o controle na limousine, você nem consegue esconder que está com raiva de mim por eu ter tomado o lugar do seu estuprador em um sonho. — ele levantou e deitou a louça cair no chão e quebrar.
– Chega! — ele gritou.
– Não! — gritei de volta. — Eu não aguento mais ver você sofrer por causa do seu passado! De esconder de mim coisas como se eu não pudesse entender! — ele avançou contra mim e me jogou na parede, seu antebraço imobilizando minha garganta. — Tudo bem, você pode me bater. Eu não ligo, Derek! Porra! Você pode fazer o que quiser comigo e eu não vou ligar! Eu vou ser estúpido e te perdoar! Porque eu te amo! — ele me soltou e se afastou.
– Eu... é melhor você ir. — ele pediu baixo, derrotado.
– Não. — ele me encarou confuso. — Não vou a lugar nenhum. Chega de fugir. Chega de mentiras e segredos. Você suplicou para eu não te machucar na merda de um sonho! Nós temos um problema, Derek! Precisamos resolver... — eu estava exausto.
– Eu preciso de ar. — ele me encarou uma última vez e saiu do apartamento batendo a porta.
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