Manchas no Natal
13 Capítulo 12
Notas iniciais

O sorriso ébrio do loiro começava a me incomodar.
Nay acabou dormindo debruçada sobre a bancada e, diante do estado no qual Roberto se encontrava, resolvi levá-la até o sofá. O rosto pequeno e travesso, adormecido, se assemelhava à inocência de uma criança. A peguei nos braços e a ajeitei em meu peito, cautelosamente andando até a sala.
Queria poder controlar o meu coração ao tê-la por perto. Temia que, no ritmo de seu bater, pudesse acordar a Nay.
Roberto me seguiu em silêncio.
— Vou abrir o sofá. — Comentou. O loiro passou rapidamente por mim e se ajoelhou, puxando uma das bandas do móvel para frente e aumentando sua largura.
— Desde o início... — Balbuciei, controlando meu tom para não acordar a Nay. — Por que não abriu desde o início? — Embora a voz fosse medida, a rispidez do meu timbre era nítida. O desgraçado sorriu, feliz.
— O que acha? — Se levantou, me encarando. — Queria ficar perto dela, se abrisse o sofá, certeza de que correria pro teu lado. — Os olhos cinzas passaram para ela, a qual respirava tranquilamente em meus braços.
Ergui a sobrancelha, descontente com aquela informação. No início, antes do dia longo que tivemos, jamais me sentiria confortável em deixá-lo olhar ela dormir, no entanto, com todos os meus medos despertos, Roberto não se fazia uma ameaça.
Sentir a vulnerabilidade dela me lembrava do quanto poderia lhe ferir se a envolvesse na minha vida. Não existia uma única parte que não estivesse manchada de sangue. Todas as pendências caíam sobre meu existir.
Ali, com ela em meus braços e o loiro na minha frente, cheguei a conclusão de que minha presença significava perigo. Não era pra estar aqui. Só pertencia a um único lugar e lá não precisava de máscaras sobre máscaras para sobreviver.
Para ser aceito.
Nay não me aceitaria.
Existia alguém no mundo, além dele, que me aceitaria?
Nem mesmo aquela que mais amei foi capaz de me entender.
Em toda essa brincadeira de natal, me senti um intruso. Se eu não existisse, a Nay estaria com o Roberto e longe de toda a minha merda.
Quando voltei a realidade, os olhos dele estavam cravados nos meus, o cinza neurótico e perfurante engolindo qualquer resquício que entregasse meus pensamentos obscuros.
— Tá olhando o que? — Perguntei, frustrado com a persistência dele.
— Você é resoluto, vou confiar que não tá pensando besteira. — O timbre do loiro se banhava em convicção, senti, naquele tom, que em algum momento de fraqueza havia revistado meu interior e chegado à brilhante conclusão.
Que porra eu tava fazendo?
Deixei me envolver demais com esses dois, mesmo sabendo que não poderia ficar.
Deitei o corpo adormecido da Nay no sofá e a ajeitei, vendo ela se remexer em desacordo, meu peito contestava, junto a sua expressão descontente, a ação de soltá-la. Entregava não apenas uma garota aos seus sonhos, mas um amor ao acaso.
Se soubesse que a amaria jamais teria permitido que se envolvesse na minha vida.
Roberto se deitou próximo a ela. A distância entre eles não me incomodava mais, apenas minha existência modorrenta que molestava minha consciência.
Sentei no canto do sofá, admirando ambos. Os fios castanhos cobrindo parte do rosto, a cabeça repousada calmamente e a boca comprimida em resultado da tenacidade de seus pesadelos. Um a um, conheci seus piores lados.
Nay estaria pronta pra conhecer o meu pior lado?
Fui desperto pelo som do filme. Comprimi os olhos desistentes, talvez nunca estivesse. Sumir seria melhor do que a rejeição. Saber que o Roberto estaria com ela me confortava, no entanto, também me preocupava.
Havia algo errado e eu não era capaz de definir.
Meu peito manchado contestava arduamente minha presença.
Encarei o Roberto mais uma vez e permaneci a admirá-lo. As horas passaram, deixando a ansiedade cada vez mais forte em mim.
— Roberto... — Murmurou Nay, se revirando. Me aproximei para lhe ajeitar novamente, entretanto, em um bom agouro, ela se reclinou na direção dele, seu pequeno braço passou por cima do loiro, relaxando ao encontrá-lo.
Era a deixa de partir.
Não fazia sentido permanecer.
Não tem mais nada a fazer.
Ele daria a ela um futuro mais límpido e seguro.
Isso dói.
Doí de maneiras inimagináveis.
Ali, deitados em seu estado de permissão constante, observei uma última vez. Queria poder admirar o sorriso raro dela ou ver a derrisão presente no dele.
Só me restava guardar no coração tudo aquilo que não testemunharei novamente, no ignóbil âmago que permiti amar novamente. Farei da minha covardia uma lição.
Retornar para a cova que eu mesmo cavei.
Abraçar a morte que semeei.
Como conseguiria encarar o pior lado da morte se havia testemunhado a melhor face da vida?
Se isso é amor, queria ter amado um pouco mais.
Se isso é culpa, queria não ter sido o feitor.
Se isso é medo, queria não ser covarde.
Mas se isso é esperança, por que se parece com o fim?
Me levantei com atenção, cauteloso com movimentos bruscos que pudessem despertar as duas pessoas que invadiram a minha vida sem pedir permissão, e agora estava na hora de chutá-las para fora.
Evitei olhar para trás, erguendo a cabeça com determinação. Meus ombros retesados recebiam a mochila que carregava as manchas de sangue da madrugada passada, enquanto meu corpo lidava com as marcas de minhas próprias escolhas, estas apertando minha garganta na malícia de me sufocar.
A cada passo sentia que me perdia em pensamentos desnecessários. Ansiava por cobri-los com sangue e afogá-los no meu caos.
Seria apaziguador retornar pro mundo ao qual pertencia. Deveria estar cego pelas cores ao invés de imerso no vermelho vivo.
O frio do inverno e a neve presente transcreviam a solidão e desespero da minha despedida: no verão, sumiria sem deixar rastros de existir, outrora retornando a sua estação pertencente. Não existia universo no qual isso daria certo. Ou existia?
O mundo precisaria acabar pra isso acontecer.
A casa dos Rissi ficava para trás. De brinde, junto as memórias da nossa noite, deixei meu coração hesitante.
Quando cruzei a garagem e cheguei no percurso do jardim, parei, respirei e resmunguei até encontrar a força controversa que me levou até o portão principal. Ao encostar na saída, senti o fogo dentro de mim queimar cada pedaço, o maldito inferno voltava a reinar enquanto a merda da esperança se transformava em cinzas. As malditas cinzas íris do Roberto.
— Tá trancado — O timbre esbanjava seu traço arguto e malicioso, seu lado capaz de prever minha insanidade. Me virei pra encarar o loiro, seus fios bagunçados e as roupas escuras contrastavam com a branquidade do natal. — Imaginei que faria alguma idiotice e analisei um pouco: que tipo de ação desesperada alguém inconsequente teria? — A neve caía aos poucos, acentuando o gélido ar de mais uma madrugada em que a vida nos levava um ao outro. — Poderia ter dito que estava partindo. Sei que tem assuntos pra resolver, mas não precisava ser assim.
— Não gosto de despedidas. Me dê. — Andei até ele, erguendo o braço na expectativa inútil de que me entregasse a chave. — Não é hora pros teus jogos infantis.
— No entanto, se faz um excelente momento pra ser covarde. — Roberto retirou a chave de um dos bolsos, voltando a guardá-la. — Não é decisão sua partir, é dela.
— Ela não sabe de nada.
— E vai deixá-la na sombra por quanto tempo? — Sua voz desafiava minha autonomia. Diversas vezes reconsiderei meus pensamentos, negando, por fim, sua dualidade. — Bem, eu não queria me submeter a isso, mas você não tá me ajudando a ter escolhas vantajosas.
Fitei-o, aguardando a continuação. O silêncio e a pouca luz que bruxuleava no jardim perderam seu ar soturno. Minha esperança se reacendia à força, crente de que outra luz diria que caminho correr.
— A Nay não quer outra pessoa. — Existia amargura na voz dele, a qual conflitava com o sorriso frouxo que demonstrou. — Quando a trouxe pra cá, percebi que mexia incansavelmente no celular, minha curiosidade logo me levou a descobrir o que escondia no ato de desbloquear, olhar e manter a apatia em sua face. — Roberto suspirou, tão profundo quanto o sentimento que carregava. — Esperou que você respondesse até o último segundo.
Arregalei os olhos, culpa e felicidade explodiam em mim em desordem.
— Tentei, de verdade, ser alguém pra ela, só que não dá, me doí assumir que é você. — Roberto assumiu e coçou a nuca, aceitando a suposta derrota a qual se entregou.
Por um minuto inteiro me perdi nos olhos dele. As palavras não foram suficientes para me contrariar, no entanto, seus olhos perderam o brilho de tal forma que refletiam a morbidez de sua falha.
— Então porque foi o teu nome que ela chamou enquanto dormia? — Contestei, cada pedaço de mim buscando encontrar seu rumo desesperadamente.
Roberto ergueu o olhar, além de alegria, testemunhei o desafio voltar em seu âmago. A intrínseca necessidade de ser arrogante, convicto e cheio de si retornando ao ego abalado.
— Tá me dizendo pra voltar e te deixar partir? — Perguntou, elevando o tom definitivo.
Hesitei, engolindo à seco. O frio não incomodava, não como a solitude das minhas decisões incoerentes.
— Sim.
— Não vai dar certo. — Por que ele parecia segurar a tristeza tanto quanto eu buscava camufla-lá?
— Sim, vai sim. — Não existia veracidade naquelas palavras, apenas dor. A dor de não pertencer.
— Não é o que eu quero. — Roberto redarguiu. Não poderia permitir que ele fizesse a porra da minha cabeça. Mesmo que quisesse, que estivesse pronto para implorar por uma alternativa, eu tinha assuntos pra resolver e temia envolvê-los na minha sujeira.
— Vê se cuida bem dela. — Disse antes de voltar até o portão principal, me preparando para escalá-lo. Quando cheguei no topo, olhei para ele uma última vez.
— Faz sentido sem você! Não gosto disso! — Ele gritou, tomando fôlego em seguida. — Ela vai atrás de você, Zion. — Roberto sorriu, a felicidade daquelas palavras tão genuínas quanto a sua intenção duvidosa. — E eu também. Vou vasculhar cada canto do inferno pra te encontrar.
Nós nunca fizemos sentido.
E eu mal podia esperar por destruir o mundo inteiro ao lado deles.
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