Maldição Rom
5 Capítulo 5
— Saga, me explica exatamente o que aconteceu aqui? – de branco, o rapaz até então cego (segundo as vozes da mente do grego) estava bem vermelho.
— Já disse: segui as suas ordens – respondeu, o peito que estava nu, assim como seus braços e bochechas estavam todos cobertos de algo que parecia fuligem.
— Eu me lembro de ter pedido pra arrumar a casa e cozinhar, não destruí-la!
— E você acha que eu sei fazer isso? Esqueceu que eu sou servido, e não o contrário?
Shaka respirou fundo tentando se acalmar, mas era perceptível o quanto tremia. Certamente de raiva.
— O objetivo era você criar consciência, e não destruir a casa! Olha o trabalho que vai dar arrumar isso – gemeu só de pensar.
— Mas você não pode reclamar, eu só aceitei pra poder me livrar daquela maldição. Eu nunca fiz nada na vida, não sei fazer essas coisas não.
A paciência de Shaka, que já havia explodido há muito tempo, resolveu fingir trabalhar e conseguiu segurar – muito mal e porcamente – um pouco do ímpeto trucidador do jovem cigano.
— Saga, vai pra casa, pega uma muda de roupa que sirva pra você trabalhar aqui, e volte. E SEM CONTESTAR! – frisou bem o tom, sem gritar, mas transparecendo toda sua indignação, usando de todo seu autoritarismo para ser atendido prontamente.
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— Ué, ele já te dispensou? – mal havia entrado pelo apartamento, sua fotocópia o seguiu pelos corredores, indo até seu quarto, de onde tirava algumas peças do armário e também se despia, questionando. Entretanto, Kanon mal aguentou olhar pro irmão quando este se virou pra começar a falar, rindo escandalosamente, restando ao gêmeo recém chegado rolar os olhos e aguardar que o outro tivesse alguma compostura.
— Não, ele não me dispensou, só pediu para que eu levasse uma muda de roupas para não sujar as minhas.
— Até porque, pela tua cara, tudo o que vai conseguir fazer é sujar mesmo, e não limpar — e seguia tendo crises convulsivas, só parando pra tentar falar, o que ocorria com considerável dificuldade. — Afinal o que houve?
— Ele pediu pra eu arrumar a casa dele e fazer o almoço.
— E você deu conta do almoço?
— Esse eu comprei naquele restaurante indiano — Saga já estava se irritando, porque bastava justificar suas ações que Kanon se desmanchava de tanto rir — Dá pra parar um pouco?
— NÃO! HAUHAUHAUHUAHUAHUA
— Ora, seu… — se virou indo pro banho. Não ficaria ali servindo de deboche pro irmão.
Pelo menos um bom banho em seu espaçoso e confortável banheiro o ajudava a relaxar. Sempre foi assim, praticamente uma terapia. Só não havia colocado uma banheira maior ali porque o condomínio barrou seu projeto, mas enfim. Aquela ducha de jato múltiplo lhe fazia um bem tão grande que lavava todos os problemas e tensões do dia. Se permitia demorar no banho, por ser um dos seus maiores momentos de prazer.
Já findado o banho, pegou uma toalha felpuda e tirou o excesso de água para terminar de se secar adequadamente no quarto. Ao chegar lá, sua surpresa em ver seu irmão terminando de separar algumas mudas de roupa. O desgraçado ainda ria, mas ao menos tinha feito algo de útil por ele. Como sempre fazia.
— Separei aqui algumas das suas roupas mais batidas e que se estragarem não serão um grande prejuízo para você. — terminou de colocar algumas cuecas junto sobre a cama e se virou pro irmão — Não que fosse te causar algum prejuízo financeiro, mas sei como você se importa em manter suas roupas no melhor estado possível.
— Obrigado — respondeu se jogando sobre a cama, observando o trabalho de Kanon e pensando em como havia parado naquela cilada. Era fato que se sentia enganado por aquele cigano loiro. Tinha quase certeza de que ele não era nem mesmo cigano. — Sabia que aquele cara não é cego?
— Sim, sabia. — respondeu tão rápido e sem dúvidas que fez o irmão mais velho olhar chocado para si — Eu fico me perguntando de onde você tirou que ele era cego. Ao menos se tudo isso terminar mal, não será tão pavoroso porque já não existe mais a possibilidade dele ser além de tudo, cego.
— Você não o viu na rua como eu vi — respondeu ofendido — ele não abria os olhos! E inclusive ele foi no escritório utilizando aqueles óculos escuros imensos.
— Saga… Eu me assusto em como você pode ser um gênio dos negócios e ser tão imbecil ao mesmo tempo. — olhou cansado pra Saga e suspirou — E aí eu lembro que você é só um bastardo egocêntrico mesmo, e é incapaz de olhar qualquer coisa que esteja além do seu nariz.
— Ei, eu não sou egoísta!
— Sua sorte, porque se fosse egocêntrico e egoísta, certamente você seria um bandido. — Kanon se levantou e se sentou ao lado do irmão. — Olha, Saga, de verdade, aproveite esse tempo pra aprender a ser gente de verdade. Ainda bem que você cometeu essa gafe com esse cara, porque se fosse com uma daquelas pessoas que você faz caridade, certamente que a gente estaria em maus lençóis.
— Mais? Ele me amaldiçoou! Como algo poderia ser pior que isso, Kanon?
Toda vez que seu gêmeo começava com aquela ladainha de superstição ele perdia a pouca paciência que tinha.
— Faz o seguinte: apenas segue o que eu já falei pra você fazer. Se pensar em falar, por favor fique quieto. Se pensar em fazer algo, não faça. E adicionando, aproveita pra aprender a ser gente e largar essas besteiras de maldição. Suas roupas estão aqui, até a próxima. — e saiu batendo pé e porta.
Ele, Saga, ficou um pouco desanimado com o andamento daquela conversa, mas também não ficou surpreso. Ele e o irmão tinham uma boa relação, mas toda vez que entravam nas suas crendices e seus medos do sobrenatural, Kanon reagia daquela forma. Podia até ser bobeira, mas não conseguia se livrar daqueles sentimentos de que alguém pode sim querer destruí-lo de alguma maneira. E se pra isso fossem necessários esforços, não os mediria.
Voltaria ainda aquela noite pra casa do indiano.
CONTINUA
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