Maldição Rom
6 Capítulo 6
Assim que ouviu o irmão sair de casa, Kanon se levantou e pegou seu celular.
Assim que tudo havia sido combinado entre Shaka e seu irmão ainda no escritório e esteve a sós por um breve, mas suficientemente longo momento com Shura. Havia questionado a conversa que havia tido com o loiro e antes que Saga retornasse, o espanhol o chamou para um almoço, para que conversassem mais em paz e com mais tempo.
“Espera, você está me dizendo que aquele Shaka é O Shaka? Seu sócio, Shaka Parekh?”
“Ele mesmo. Não sei se é sorte ou azar de vocês, porque Shaka tem um gênio do cão”
Kanon não sabia muito bem como reagir àquilo. Tudo bem que é menos problemático que a pessoa ofendida fosse um dos colaboradores, principalmente aqueles dois que ganhavam muito mais trabalhando para os gêmeos do que processando eles, mas ofensa era sempre negativa para a imagem de quem quer que fosse.
“Você acha que ele vai nos processar?”
“Não, não vai, até porque vocês são ótimos clientes e eu não deixaria isso acontecer.”
“Menos mal…” — o grego chegou a respirar mais aliviado — “Mas ainda assim ele quer que Saga pague…”
“Melhor esse preço que um processo, te garanto.” — Shura bebeu seu suco, enquanto refletia no que iria dizer. Apesar de ser muito amigo de Saga, sabia que esse possuía defeitos bem desagradáveis, e também sabia que poderia sim falar abertamente com Kanon, já que o vira inúmeras vezes tentando colocar um pouco de juízo na cabeça oca do irmão mais velho — “Vou ser bem direto aqui. Saga é bem preconceituoso. Pelo que ele mesmo relatou, foi racista ao extremo, e Shaka está certo em querer algum tipo de reparação.”
“Sim, entendo e concordo” — respondeu, tentando acompanhar a linha de raciocínio do moreno.
“E creio que Shaka vai fazer de tudo pra ensinar seu irmão a melhorar como pessoa. Só não posso garantir por sua integridade moral.”
O grego entendia o recado muito bem, e como já passava da hora do irmão voltar pro planeta Terra e começar a se portar com um pouco mais de bom senso, não se importou muito com as palavras do homem a sua frente. A bem da verdade, ele ansiava para que o tal loiro colocasse Saga nos eixos.
Buscou rápido em sua agenda por um número e fez a ligação, que foi respondida prontamente.
— Precisamos conversar, e é urgente.
—x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-
Parecia pouco tempo que havia ficado fora, mas foi o suficiente para que Shaka conseguisse arrumar sua casa novamente e tentar recuperar sua paz de espírito, ou ao menos tentar não surtar toda vez que descobria algo novo destruído pelo grego.
E foi justamente quando estava prestes a jogar todo entulho produzido pelo grego que Saga aparece e toca a campainha, aguardando ser recebido. E definitivamente aquilo estava irritando cada vez mais Shaka.
“Começo a me perguntar se essa ideia foi mesmo boa…”
Abriu a porta sem muito ânimo, já antevendo a chegada do outro. Nem mesmo pode abrir a boca, e foi recepcionado com uma imensa caixa de papelão contendo lixo.
— Ué… Mas… O que eu faço com isso?
— Joga no lixo — falou já virando as costas e se voltando pra dentro de casa.
— Mas eu vou sujar minhas roupas…
No mesmo instante Shaka parou, sendo possível ver claramente seus ombros retesados e ele se virar para Saga. Seu semblante certamente não era dos mais amigáveis.
— Você sabe o que é isso aqui? — apontou para a caixa nos braços do homem mais alto — são meus pertences. Aliás, eram meus pertences até você destruí-los. Então, de verdade, não acho que você esteja em posição de reclamar se eu apenas sujar suas roupas quando você destruiu boa parte das minhas coisas.
— Verdade, você está coberto de razão. Me diga o preço que eu te ressarço.
Shaka queria matar aquele cara. Em definitivo. Ali na caixa estavam restos de bens pessoais que possuíam algum apelo emocional. Não que Shaka fosse materialista, mas se apegava às coisas que tinha. Era uma maneira de dar valor a tudo que conquistava.
— Só. Joga. Isso. No. Lixo. — e entrou em casa, desaparecendo da vista do grego.
Quando retornou pra casa do indiano, percebeu que ele estava se arrumando pra sair.
— Aonde vamos?
— Você vai ficar aqui e dormir. Pode inclusive ir pro meio da rua e ser atropelado por um carro, que pra mim, nesse momento, não faz muita diferença. Já eu vou sair. Talvez ficar longe de você e repensar tudo isso me ajude um pouco a me acalmar. — terminou de jogar sua echarpe ao redor do pescoço e colocou um molho em cima da mesinha que ficava ao lado da porta — esta aqui é uma cópia da chave da casa. A partir de hoje você pode entrar e sair daqui a hora que quiser. — com a mão na maçaneta, nem mesmo se deu o trabalho de virar o rosto pra trás pra encarar o homem — e tente não destruir a casa enquanto eu não volto.
Saiu, batendo a porta atrás de si.
Ainda que o irmão o tivesse recomendado não pensar muito e menos ainda falar algo, se pôs a observar a casa do indiano. Podia ter muitos defeitos, mas certamente conhecer uma pessoa através da observação não era um deles.
Tudo o que Saga pode captar naquela casa era que pertencia a uma pessoa de posses, mas com um estilo simples de vida. Possivelmente um abnegado de grandes luxos, mantendo apenas o que aos olhos requintados de Saga, o mínimo para o conforto próprio ou mesmo para as funcionalidades.
Observou também que, apesar da casa ser aconchegante, definitivamente o lar de alguém, não havia fotos, retratos nem nada do tipo pelas paredes ou pelos poucos, mas estratégicos móveis dos cômodos. Aconchegante, mas era definitivamente a casa de alguém solitário.
“De quem será esta casa?”— ainda se questionava, sem realmente perceber o que de fato estava acontecendo ao seu redor.
Certamente aquele ali daria mais trabalho do que se pressuponha. Talvez o indiano estivesse lidando com um caso perdido.
~CONTINUA
Fale com o autor