Maldição Rom
4 Capítulo 4
— Saga, presta atenção: se você pensar em falar algo, eu imploro que você não fale. Se pensar em fazer algo, também imploro que não faça nada. – Kanon definitivamente estava em um nível de paciência acima do normal naquele dia. Parecia até a mãe que dava instrução pro seu filho no primeiro dia de escola.
— Achei que você não acreditasse nessas “baboseiras”, como você mesmo diz. – estranhou Saga ao ver o irmão dando-lhe conselhos.
— E não acredito mesmo. No que eu acredito, hoje, é no nível de imbecilidade do meu gêmeo e o potencial dele destruir tudo o que construímos até agora. – se segurava o máximo, mas não conseguiu esconder a irritação que estava crescendo dentro de si, fazendo seu irmão mais velho se encolher, já prevendo a explosão.
— Tá, não está mais aqui quem falou... – suspirou desanimado — Tanta coisa pra fazer aqui, e lá vou eu bancar o mordomo de um cigano cego.
— E de quem é a culpa? – Kanon se desanimara visivelmente, pois não importava o que dissesse, o irmão insistia em utilizar aqueles termos chulos e ofensivos. Para alguém cuja própria cara era toda a propaganda de seu conglomerado, ele era bem imbecil, além de preconceituoso.
No início daquele dia, perto de umas nove da manhã, o gêmeo Daskalakis foi ao endereço indicado no papel, se surpreendendo com uma casa média, com design moderno e em um bom bairro grego.
“Será que aquele pobre homem é um servente e quer minha ajuda?”— ainda se questionou o grego, não imaginando por que estava naquele endereço.
Tocou a campainha, e ouviu uma voz de dentro ordenar “entre, estou na sala de estudos”. Não questionou e assim o fez, ficando na porta, aguardando qualquer outro convite ou recepção. Uns bons minutos se passaram quando enfim o grego pode identificar o jovem de longos cabelos escorridos se aproximar. Apesar de novamente estar usando os óculos, pode perceber de alguma forma a irritação no rosto.
— Não me ouviu dizer que estava mais a dentro? – falou irritado.
— Sim, mas não sabia onde era, esperei que alguém me recepcionasse. Não queria interromper seu trabalho. – respondeu, o que de certa forma até agradou Shaka, afinal, realmente estava ocupado e não poderia exigir do homem que fosse um entrão.
— O que eu preciso fazer? Seus mestres gostam de algo específico? Algum uniforme?
A bola dentro de Saga equivalia a umas tantas mil bolas foras, o que na mesma hora desagradou o homem que o recepcionava.
“Quer saber? Ele vai aprender da pior forma a me respeitar” pensou, se remoendo em todo rancor que o orgulho ferido pode juntar.
Seguiu dando as ordens do que precisaria ser feito ao longo do dia, horário por horário, inicialmente deixando o grego confuso. Como já previa que o abastado não seria capaz nem de limpar a própria bunda sozinho, havia escrito o cronograma do dia para que o empresário não se perdesse (tanto).
— Mas eu vou sujar minhas roupas assim... – resmungou, sem saber o que fazer.
— Tenho certeza de que roupa pra você não é problema. Da próxima, venha ou vestido adequadamente ou traga uma muda, já que desse tamanho todo, duvido que haja algo aqui que te sirva.
— Mas... – insistiu, com cara de perdido.
Shaka levantou o canto dos lábios, incomodado. Pensou bem, até que se lembrou que no início daquela manhã havia separado uma calça larga, estilo tailandesa que não havia vestido e provavelmente ainda estaria sobre o sofá da sala. Como se trata de uma calça leve, larga e de amarrar, provavelmente serviria no corpo maior.
— Naquele sofá em cima da almofada tem uma calça tailandesa que você pode vestir. É tudo o que eu tenho hoje pra te oferecer.
Saga resolveu não questionar muito, e aceitou, indo se trocar.
— Tem algo pra prender o cabelo?
— No banheiro tem alguns itens de cabelo. Você pode usar o que precisar. – falou se virando pra voltar de onde veio – Seja pontual. Ao meio dia o almoço precisa ser servido.
Poderia se dizer que era tudo muito fácil, afinal, além da casa ser decorada para ser o mais prática possível, ela ainda era do tamanho necessário para uma pessoa viver nela. Viver bem, e de maneira confortável, sem grandes luxos, mas com muito conforto.
Só que o grego já não sabia mais fazer o básico de uma faxina há décadas em sua vida. Na verdade, não entendia nada de nada. Hoje ele fazia exatamente aquilo que outros faziam para ele e por ele em seu luxuoso e requintado apartamento.
Quando o relógio bateu meio-dia em ponto, Shaka rumou para a sala de jantar, sem prestar muita atenção ao redor, confiando plenamente que o homem que por hora seria seu vassalo havia falhado miseravelmente em seus afazeres.
Qual não foi a surpresa dele ao ser recepcionado por uma mesa bem posta?
“Hm... Até que ele não parece ser um completo inútil” pensou.
Logo o grego puxou a cadeira para que ele se sentasse, aceitando de bom grado a cortesia. Imaginava que tudo aquilo fosse reflexo não apenas do medo desesperador de morrer da praga, mas de alguma forma Saga era atento às normas de etiqueta o suficiente a ponto de saber como uma mesa deveria ser posta.
— Espero que esteja do seu gosto. – falou de maneira suave.
— Obrigado – respondeu, já pegando os talheres para se servir. Levando uma porção à boca, surpreendeu-se com o sabor. – Nossa, está muito bom esse caril de vaca*. Não imaginava que você soubesse cozinhar.
— Bom... Eu não sei – respondeu, inseguro – Então resolvi pedir um delivery indiano.
— Claro... Tá, que seja. Depois do almoço volte aos seus afazeres.
A tarde aparentou ser suave e tranquila, só percebendo o andar das horas quando seus olhos já não estavam mais incomodados com a luminosidade, nem seu corpo reclamando do calor. Levantando-se, foi atrás do seu novo servo, achando estranho que nada de estranho tivesse acontecido.
Quando enfim chegou à sala, percebeu o caos no qual a sua casa se encontrava, e a cada cômodo que ia procurar pelo grego, mais seu coração se apertava com a bagunça que via. O rastro de destruição era perceptível, mas não denunciava a posição do culpado.
Estava à beira de um colapso quando enfim o grego apareceu, todo sujo.
— O que aconteceu com a minha casa? – perguntou, sua voz quase não saindo.
— Ei... – olhou incrédulo para o loiro mais baixo – você não era cego?
— NÃO, EU NÃO SOU CEGO! VOCÊ QUE É UM IDIOTA COMPLETO! – respirou fundo tentando recuperar a sua compostura – O que foi que aconteceu aqui?
— Eu só segui as suas ordens.
A vontade de Shaka era de sentar e chorar. O feitiço parecia ter se virado contra o feiticeiro.
~CONTINUA
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