Já haviam se passado três dias desde que o incidente com o cigano havia ocorrido, e Kanon tratou de acelerar o processo pra encontrar o tal homem, e com muito custo os gêmeos e Shura conseguiram determinar qual seria a participação do amigo naquela empreitada. Havia com muito custo, em todos os sentidos da palavra, conseguido recuperar todas as mídias contendo qualquer gravação e impedido que qualquer meio de comunicação veiculasse aquelas imagens.

Nesse meio tempo, Saga havia por “acidente” quebrado um espelho, derrubado todos os cristais da casa deles, colocou fogo na cozinha, atropelou um cachorro e quase teve um processo contra si, tendo que custear o veterinário, além de ter perdido duas negociações importantes. Kanon dizia que era porque ele era um bastardo idiota, mas o grego tinha absoluta certeza de que era pela praga do cigano.

Enfim Kanon havia conseguido localizar o tal cigano, e de imediato Saga convocou Shura para estar ao seu lado quando ele confirmou sua presença no escritório dos gêmeos.

— Sério que eu tenho que estar aqui? – o espanhol não estava se sentindo muito confortável com aquela história, e não queria se indispor com um irmão por conta de uma intolerância do amigo grego.

— Olha, ter não tem, eu só sei que quero acabar logo com isso. Hoje Saga quase quebrou meu braço e por pouco eu não quebro a cara dele. – o grego já estava mais do que aborrecido com as atitudes do seu irmão.

A porta mal se abriu e um homem alto com roupas casuais entrou no local. Usava um óculos de sol grande o suficiente para seu tipo de rosto, mas lhe dava todo o ar de cego que certamente ele não intencionava ter. Naquele dia, o sol estava – pra variar – rachando e sua fotofobia estava dando o ar da graça.

— Espero que tenha um bom motivo para ter me intimado a vir aqui – Shaka se direcionou a Kanon, no auge do seu mau humor.

— Realmente fui eu que te chamei aqui, mas eu não tenho nada a ver com isso – por detrás dos óculos, tudo o que pode ser visto foi um arquear de sobrancelhas, a testa se levantando discretamente. No mesmo instante, Kanon se levantou e esmurrou a porta do banheiro, chamando pelo irmão, que logo saiu com a cara mais pálida possível.

Sentando-se à mesa, começou a falar.

— Bom, fui eu que te solicitei aqui – apesar de tentar manter sua postura, sua voz deixava claro o quanto estava amedrontado – no outro dia eu causei um pouco de desconforto e gostaria de me redimir. – abriu a gaveta e tirou um talão de cheques – pode pedir o que quiser, senhor cigano, mas peço, por favor, pra retirar a maldição.

Shura e Kanon não estavam acreditando no que o desmiolado entre eles estava fazendo. O primeiro só virou a cara, escondendo-a em uma das mãos, o segundo olhou pro teto em total desistência. Sem contar que a boca do loiro que estava em pé se abriu, e seu ar enfurecido só aumentou.

— Você ainda não entendeu que eu não quero, nem preciso do seu dinheiro?

— Senhor, ciga...

— SHAKA! – gritou, seu rosto ficando vermelho – Para de me chamar de “senhor cigano”, eu tenho um nome: Shaka!

— Senhor Shaka, por favor, reconsidere... – o grego quase chorava, não sabia o que fazer, mas sabia que havia piorado o problema. Usualmente era ótimo nesse tipo de coisas, mas em se tratando de sua elevada superstição, não conseguia encarar seus medos e agir com o mínimo de bom senso. Óbvio que atribuía isso à maldição do cigano loiro.

Kanon tinha ganas de sair da sala, tanto que havia se levantado pelo menos umas quatro vezes e ido até a porta, mas voltava, já que ele precisava ser responsável, antes que o irmão conseguisse destruir o império que construíram com aquela boca grande.

Shura não queria estar ali desde o começo, mas sentiu que deveria tomar a voz e conversar com o recém-chegado.

— Me permite? – perguntou pra Saga, que não conseguia nem falar nada.

— Por favor, Shura! – suplicou Kanon.

“Shaka, você pode me dizer que merda é essa?”

“Por que você fala como se a culpa fosse minha? Esse idiota me humilhou, me tratando como se eu fosse inferior, um pedinte só por ser um rom, Shura!”

“Mas eu já te falei várias vezes o quanto o Saga é retardado. Eu sei que você se irrita fácil também, mas não entendo tudo isso”

“Porque não foi você o humilhado” – respondeu virando a cara.

“Você sabe que ele tem certeza absoluta que um rom, e ainda por cima cego, o praguejou até o fim de sua vida. CARA! Ele é meu cliente. Aliás, NOSSO cliente. Inclusive, deixe-me frisar aqui: nosso MELHOR cliente e você está nessa, de punir o cara? Quer falir?”

Shaka cruzou os braços fazendo birra igual criança, tirando um pouco da até grande paciência do amigo e sócio.

“Não posso deixar as coisas ficarem assim”

“Cara, enfia esse seu orgulho imbecil no cu e pensa só um pouco, tá? Dá um jeito nisso, e agora. Inventa algo aí, transforma ele em seu escravo, sei lá, ele acredita mesmo nessas idiotices de maldição.”

Os gêmeos nada entenderam do que foi dito, já que os dois se sentiram muito mais confortáveis em conversar em romani. Puderam ouvir vez ou outra o nome de Saga, o que lhe causava calafrios na espinha só de ter pescado na conversa.

Estranharam quando repentinamente o silêncio se fez, o espanhol encarando o rapaz loiro que ainda estava de pé próximo à porta. Com um suspiro forte e longo, Shaka se decidiu.

— Muito bem, eu tiro a maldição – não acreditava mesmo que estava pensando naquilo, mas enfim, queria algo que humilhasse o grego – mas com uma condição.

O grego quase comemorou, quando ouviu que não sairia de graça. Dessa vez se segurou para não irritar ainda mais o loiro de longos cabelos lisos.

— Pelo tempo que eu julgar necessário, você vai me servir.

~CONTINUA

Notas finais
Romani = língua cigana do grupo rom Rom = a forma não pejorativa de falar cigano em outras línguas. Em português o termo cigano ainda é utilizado. O plural é roma.