Henrietta fechou o livro. Pôde ler apenas alguns poemas. Se levantou da margem da fonte, jogou seu cigarro gasto no chão e pisou nele para apagá-lo. 

No momento seguinte, sentiu algumas gotas delicadas de chuva tocando seu rosto. Isso não era bom. Já se imaginava com a maquiagem derretida, feito um cantor de black metal. Se apressou em buscar abrigo dentro do Casa Bonita e também em procurar por Clyde. O grande relógio sobre a entrada indicava que era hora de partir.

A gótica entrou em alerta ao chegar na parte de restaurante e constatar que seus companheiros, antes à mesa, estavam de pé conversando com o gerente do local. Além do gerente, dois enfermeiros conversavam com alguns de seus colegas de classe. Henrietta, de longe, ficou atenta àquela conversa.

— Não conseguimos entender — o gerente se defendia em desespero. — Não servimos nenhuma comida especial para degustação!

— Não foi o que Clyde disse — um rapaz de cabelos negros com touca peruana azul se pronunciou. Era Craig. — Quando os médicos conseguiram acordar o Clyde, ele disse que comeu um tal de "El Diablo", quem serviu foi um garçom vestido de mariachi que falava espanhol. Todos nós vimos.

— Eu ainda não entendo, não temos garçons vestidos de mariachis!

— Você continua dizendo que não entende... — um rapaz negro repreendeu. Token. — Nosso amigo está na merda e vocês não têm uma explicação sequer?

— Sinto muito, mas não sei o que dizer ou fazer por vocês. Aceitam refeições grátis como um pedido de desculpas?

— Não! Nunca mais como nada nesse lugar. Gah! — um garoto loiro de cabelos arrepiados tremia com uma xícara de café nas mãos. Tweek acabava de ter uma recaída.

— Você — o moreno de touca peruana chamou por um enfermeiro que analisava o prato onde antes estavam nachos e molho fervente. — Sabe pelo menos nos dizer o que aconteceu?

— Bem, antes dos socorristas levarem Clyde para a ambulância, vimos que ele estava com o rosto vermelho e inchado, febril e com queimaduras na língua e garganta. Estou dando uma olhada no prato em que ele comeu e posso ver que tem vestígios de molho de pimenta. Provavelmente, Clyde comeu um molho de pimenta muito forte e, pelo inchaço no rosto, pode ter tido também uma reação alérgica. Vamos levá-lo para a emergência e é possível que Clyde fique internado por um bom tempo. Se a internação durar mais que 3 semanas, podem abrir processos contra o Casa Bonita.

— Processos?! — o gerente se exaltava. — Nós não servimos nada com pimenta excessiva por aqui, não temos funcionários mariachis, não podem nos processar por alguém que se passou por funcionário ter envenenado um cliente!

— Espera aí — Kenny se manifestou — Clyde vai ficar internado por muito tempo? Isso significa que...

— Será que dá pra esquecer da aposta por um minuto, seu cuzão? — Craig reclamou.

— Foi mal. Só ia dizer que ele vai ter muito tempo antes de cumprir aquele trato. Que filho da mãe.

— Seja quem for o ser maldoso, sem coração e traiçoeiro que quis prejudicar o nosso amigo... — Token suspirou. — Eu não desejo estar perto desse alguém.

Foi o bastante. Henrietta saiu do Casa Bonita a passos firmes. No caminho, jogou o copo vazio de café e a rosa negra que ganhou em lugares distintos pelo chão. Clyde a decepcionou, de novo. Desta vez, ela até considerava que ele não tinha toda a culpa, mas a raiva de que Clyde não cumpriria a promessa de levá-la ao evento na hora correta falava infinitamente mais alto. Como iria embora agora que estava sem carona? Não trouxe nenhum meio de comunicação para ligar para casa e pedir que alguém a levasse. Certo, ela poderia pedir para usar o telefone do Casa Bonita e mandar (sim, mandar) sua mãe vir buscá-la mas, mesmo que venha, a gótica ainda chegaria extremamente atrasada para a reunião com seus amigos.

Henrietta tornou a se sentar na margem da fonte iluminada. Seus cabelos curtos pouco a pouco sendo tomados pelas gotas finas da chuva. Nem um guarda-chuva ela trouxe na bolsa por precaução. Este é o preço por ser “uma jovem rebelde que não precisa trazer nada além de livros e cigarros".

Olhou para baixo. Apoiou os cotovelos nos joelhos e descansou o rosto na palma das mãos. Não queria nem estar ali e foi decepcionada duplamente. Perderá o encontro em que deseja estar. Mal voltou para a cidade e está ganhando desafetos para sua lista. Será que dava para ficar pior?

Em resposta, a chuva se intensificou e o estrondo de um trovão cruzou a noite. Sempre, sempre dá pra piorar. Ao longe, Henrietta viu a ambulância que levava Clyde partindo para o hospital mais próximo. "Espero que morra, conformista."  desejou em seu âmago.

De repente, ela não sentia mais a chuva batendo em seu corpo. Uma grande sombra obscureceu sua visão. Sem compreender, levantou o rosto e viu que, à sua frente, um rapaz robusto vestindo terno usava um guarda-chuva para protegê-la.

— Oi. — o garoto chamou a sua atenção.

"Ah, não. Ele, não. Justamente ele, não". 

Eric Cartman. Aquele que considerava inconformista. Aquele que a fez sumir da cidade. Estava diante dela, usando um guarda-chuva para protegê-la. Consequentemente, estava parcialmente desprovido de algo para não se molhar. Ao menos, Henrietta não sentiu qualquer suor nas mãos na presença do outro. Tudo sob controle.

— ...Oi. — se sentiu ligeiramente nervosa. Não contava que ele viesse até ela algum dia, parecia um evento muito aleatório.

— Tá precisando de alguma ajuda? — Cartman exibiu um meio sorriso amigável. Notavelmente, um tanto debochado. — Parece meio enrolada.

— Não. — respondeu rapidamente, forçando alguma rispidez. Porém, perdeu a compostura em seguida. — Está... Está tudo bem. E-eu só — engasgou-se de vez. Tomou rápidas forças para falar palavras completas. — Por que diabos você está usando esse guarda-chuva em mim? Você tá se molhando todo aí.

— Não vejo problemas. — Cartman deu de ombros. Continuava a cobri-la com o guarda-chuva, protegendo-se muito pouco. Henrietta engoliu em seco com a proximidade. O garoto era maluco? — Por acaso você é...?

— Henrietta Biggle. — respondeu sem pensar. "Merda!" gritou em pensamento com uma vontade esmagadora de bater no próprio rosto. Isso não podia ser nervosismo: o frio devia está-la deixando sem raciocínio. Sim, era isso. Ela estava tremendo e seus dentes batiam. Só podia ser isso.

— A famosa Henrietta. — mostrou um sorriso mais bonito que o último. — Dispensou um metido a pegador, aceitou o convite de um metido que decidiu ficar educado e agora está aqui, sozinha na chuva à beira de uma fonte. Você é muito complexa. 

— Isso é um elogio? — franziu o cenho.

— Encare como quiser. — ocultou uma risada em suas palavras. A observou. — Com frio?

Henrietta sentia seus braços completamente arrepiados. Ele com certeza tinha notado. Algumas gotas do momento em que não esteve protegida da chuva ainda estavam sobre a pele nua, e a brisa gelada colidindo contra as gotas a congelava. A fã do macabro torceu os lábios negros, vendo-se obrigada a confessar.

— Um pouco. — declarou, passando as mãos pelos braços.

Henrietta apenas observou enquanto Cartman tirava o blazer de seu terno.

— Eric, não precisa. — advertiu secamente ao perceber o que o outro pretendia fazer.

— Sei. — cobriu-a com o casaco mesmo assim, apoiando-o sobre seus ombros. Sorriu sutilmente. — Pelo jeito, você sabe meu nome.

— Sei, sim. Afinal, quem não sabe o seu nome? — se ajustou mais ao casaco; infelizmente, se viu obrigada a aceitar. Teve de dar uma resposta rápida, chamou-o de Eric sem pensar.

O calor de Cartman ainda estava naquele blazer. Sentir o calor de outra pessoa, mesmo que indiretamente, provocava uma sensação boa; não se lembra de quando foi a última vez que teve essa oportunidade. Pena que não era calor o bastante, porque Henrietta acabara de espirrar.

— Cacete. — reclamou, encostando as costas da mão no nariz.

Cartman escondeu outro sorriso. O plano dele ia bem, bem demais. Tudo estava a seu favor. Ou isso, ou ele estava vendo tudo do jeito mais positivo possível para se aproveitar da situação. Iria incluir um simples espirro em seus planos. Finalmente, a próxima etapa.

— Vai acabar com uma hipotermia se continuar aqui. Quem combinou de levar você pra casa? — perguntou, fazendo-se de desentendido.

— Clyde Dá-na-van. — Henrietta fez um jogo de palavras, zombando no tom de voz. — Aquele babaca filho da... — teve outro espirro. — Puta me deu o cano. Aquele desajustado não aguenta nem comer uma pimentinha, como eu vou embora agora?

— Bom, eu posso levar você.

Desconfiada, Henrietta estreitou os olhos para ele.

— Tá falando sério?

— Por que não falaria? — ofereceu uma mão. — Já tô indo embora mesmo, por que não te deixar em casa no caminho?

— Não sei, não. — tremia um pouco mais só de pensar em entrar no carro de mais alguém. E esse alguém era logo ele.

— Tá com medo de quê? — desafiou, disfarçando as palavras com um tom amigável.

— Eu não estou com medo. — outro espirro. — Merda.

— Então, vamos. — ainda oferecia a mão. — Eu não mordo.

"É só não aceitar"  Henrietta pensava. "Basta dizer: Não, obrigada. Eu posso me virar."

— Ok. Vamos. — e segurou na mão de Cartman, que delicadamente, porém com firmeza, a ajudou a se erguer. 

"Não acredito que estou fazendo isso. Não acredito." Henrietta quis esconder o rosto, arrancar os próprios olhos. Devia estar desesperada demais para se sujeitar a isso; queria chegar ao evento a tempo.

Se esteve desconfortável com Cartman de pé à sua frente, pode-se imaginar como ela se sentia com ele estando ao seu lado, tão perto, sob o mesmo guarda-chuva, invadindo seu espaço pessoal. A proximidade os forçava a respirar o mesmo ar e seus braços se tocavam enquanto caminhavam até o carro estacionado.

Henrietta esqueceu parcialmente do frio assim que segurara a mão quente de Cartman para se levantar. Segurava bem firme o terno dele em torno de si. Chovia intensamente, seus dentes batiam, mas Henrietta sentia algo que lembrava calor. Algo de dentro para fora. Uma sensação estranha, mas positiva. Se tudo isso era graças a Cartman, tinha que admitir que era agradável tê-lo por perto. Uma amizade entre eles seria legal. Amizade, e nada mais.

Cartman se afastou para abrir a porta do carona de seu carro. Fez um gesto de mão para convidar Henrietta, que ele deixou tomar posse do guarda-chuva, a entrar. Henrietta entrou no veículo, mas não sem antes fazer uma breve análise nele. Não entendia muito de carros, mas sabia o que era um carro maneiro quando via. Era bonito, aparentemente caro, e vermelho. Vermelho pode não ser colocado entre suas cores favoritas, mas parecia superior ao carro de Clyde, cuja cor preta é soberana entre góticos.

A acompanhando, Cartman entrou pelo lado da direção. Após fechar a porta, se virou para os bancos de trás e deles recolheu duas toalhas limpas. Em seguida, entregou uma à Henrietta. Apesar de tê-la aceitado, a gótica não entendeu o motivo da oferta, até ver Cartman usando a sua própria para secar o cabelo e o rosto. Repetiu o ato, passando a toalha primeiro pelos braços ainda úmidos e depois cuidadosamente pela face. Ao passar pelo nariz, aspirou o aroma do tecido. Um cheiro... Interessante.

Foi então que ela passeou os olhos pelo espaço. Tudo muito bem arrumado. E muito cheiroso, por sinal. Eric devia ser um rapaz ordeiro. Poderia explicar por que carregava toalhas no carro. 

Discretamente, Cartman observava a mão de Henrietta secar cuidadosamente suas pernas cobertas pela meia-calça. Precisava admitir: Kenny esteve certo quando falou das vantagens de uma gordinha. Henrietta era espetacular.

— Tenho um compromisso com meus amigos no cemitério da cidade. Pode me deixar lá?

— Tudo bem por mim. — não fez questão alguma de perguntar o porquê de ela ter um encontro entre amigos num cemitério. Ela era complexa... E gótica.

Minutos depois, estavam a caminho. Para ajudar na visibilidade da estrada em meio à chuva, os limpadores de para-brisa estavam ativos. 

— Diz aí. — Cartman iniciou uma conversa. — Você parecia meio desconfiada quando me aproximei.

— Não estava. — respondeu, simplesmente.

— Então, estava com medo.

— Não estava com medo.

— Se não estava, por que hesitou quando me ofereci a te levar pra casa?

— Não hesitei.

"Essa conversa não vai me levar a lugar algum."  concluiu. Respirou fundo, tirou sua atenção da estrada e olhou diretamente para Henrietta, aproveitando o espaço de tempo dado pela luz vermelha do semáforo.

Henrietta demonstrava uma impaciência genuína em seu semblante, com os braços cruzados e um bico enorme nos lábios. Na perspectiva do antissemita, vê-la irritada parecia simplesmente cômico.

— O que foi? — Cartman perguntou, contendo seu humor.

— Você... — parecendo ainda mais impaciente, procurava por adjetivos pouco-ofensivos. Tinha acabado de conhecê-lo e estava em seu carro, afinal. — É chato pra caralho.

— Eu? É você quem tá negando tudo o que eu digo e não responde as minhas perguntas.

— E você continua insistindo nas perguntas, mesmo sabendo que não estou a fim de respondê-las. Isso te torna...?

— ...Chato pra caralho. — assumiu, dando-se por vencido. — Foi mal. Sutileza não é muito meu negócio. — e retomou a direção.

Henrietta sorriu discretamente. Porém, tratou logo de sumir com aquele sorrisinho estúpido. Aconchegou-se mais ao casaco de terno que lhe foi oferecido.

De acordo com o que sempre soube a seu respeito, Cartman parecia estar sendo ele mesmo: irritante, até um pouco inconveniente. Apesar disso, estava sendo amigável e não parecia ter alguma intenção oculta. Mediante as reações dela quando o viu, acuada sem nunca terem interagido um com o outro antes, a curiosidade parecia natural. Na opinião dela, ele merecia alguma resposta.

— Está bem. — suspirando, também deu-se por vencida, apesar do tom orgulhoso na voz. — Eu estava com medo.

— Eu sabia. E por quê?

— Bem, saiba que não é necessariamente de você. É complicado.

— Se puder explicar melhor.

— Poder, eu posso. Só não vou.

Dessa vez, foi Cartman quem soou irritado, com um vinco profundo entre as sobrancelhas. Henrietta o fitou; no todo, considerou-o igualmente cômico. Sufocou o riso.

Afinal... Como explicaria para ele que tem medo de se apaixonar?

E que o admira à distância há muito, muito tempo?

— Fala que sou chato pra caralho, mas olha só você. — retrucou Eric.

— Ah, não me amola.

— Henrietta Biggle, você literalmente aceitou entrar no meu carro. Está intimada a explicar por que me olhou feito um bicho assustado.

— Ou o quê? Vai me jogar na estrada?

Eric se calou, atônito. Precisava confessar a si mesmo que a resposta, e possibilidade, o divertiam. Como imaginava, ela não dava o braço a torcer fácil.

— Tá, medrosa. — afrontou. — Guarda pra você, então.

— Eu vou. — respondeu. — Chato do caralho.

Por um momento, os dois se encararam. A princípio, pareciam trocar desavenças em silêncio.

Gradativamente, a situação mais pareceu um "jogo do sério": aquele que risse primeiro, perderia.

Os lábios de ambos tremiam. Perceber o quanto a situação era ridícula, e que o outro estaria prestes a rir, os levou ao limite.

Incapazes de segurar, gargalharam juntos. Risadas intensas, que por pouco não os fizeram chorar. Cartman acabou perdendo totalmente a concentração, acabando por parar o carro no meio do percurso.

Crianças do primário: esse era o termo. Agiram como crianças do primário.

— Puta merda — Henrietta falou entre risos. Abraçava a si mesma, sentindo dor nas entranhas. — Detesto a minha risada.

Uma risada detestável, de fato. Pelo menos, para um gótico. Alta, sem tom certo, escandalosa e altamente contagiosa. A risada de Cartman, por outro lado, era digna de quem ele era: zombeteira e sarcástica, lembrando vagamente uma risada psicótica.

Uma terceira risada foi ouvida de repente. Ambos silenciaram. Assim que se deu conta de onde a risada adicional vinha, Cartman colidiu com força a própria mão esquerda na porta do carro. E a risada cessou.

Henrietta piscou, sem reação. Novamente, Eric pareceu interagir com sua mão, e dessa vez a mão pareceu ter mesmo vida própria, diante de seus olhos e ouvidos. Ela quase esqueceu desse detalhe bizarro que presenciou pela primeira vez no Wall-Mart.

— Enfim... — de cenho franzido, a garota tentou ignorar o momento tenso. — ...Quem diria. Você parece legal, Eric. Há muito tempo não dou uma risada dessas.

— Pra falar a verdade, eu digo o mesmo.

— Em relação a me achar legal? Ou em não rir há muito tempo?

— Os dois, Henrietta. Os dois.

* * *

Do momento em diante, ficaram em silêncio. Não por falta de temas para conversa ou timidez, mas porque Henrietta pegou no sono depois de algum tempo contemplando a estrada. Ela tinha o rosto voltado para a janela e parecia muito bem aconchegada ao banco onde se sentava. Abraçava-se segurando os braços para se manter aquecida e usava o blazer do terno de Cartman como um cobertor sobre eles.

Sempre que podia, Eric a observava dormir com um meio sorriso tolo no rosto; lembrando-se do momento estranho, mas divertido, que tiveram juntos há poucos minutos.

"Há muito tempo não dou uma risada dessas" as palavras dela retornavam à sua mente vez ou outra, fazendo-o ter orgulho de si. Não fazia ideia de que góticos sequer eram capazes de rir. Há quanto tempo ele mesmo não ria verdadeiramente junto de uma pessoa do sexo oposto?

Cartman dirigia tranquilamente. Talvez 10% de sua concentração estava para a estrada, os outros 90% lembravam-se de como Henrietta ria. Se todos os rapazes soubessem do potencial que ela carrega por trás de um “corpo interessante” ou de um visual assombroso, Henrietta poderia se tornar uma das garotas mais cobiçadas do ensino médio. Pensar que Clyde, Craig e Kenny a queriam apenas para tirar proveito, exibi-la como um troféu e depois dispensá-la o fez sentir raiva genuína. Cartman não estava arrependido do que fez com Clyde antes, e estava muito menos agora.

— Cartman. está me ouvindo?

— Hã? — foi tirado de seus devaneios. — Ah. O que foi, Mitch?

— Você tá viajando aí. No que estava pensando?

Cartman corou feito uma criança ingênua.

— Espera aí... — Mitch compreendeu a expressão do outro. — Não vá me dizer que você...?

— Fala baixo. Vai acabar acordando a garota.

— Cartman. Você está gostando dela, não está?

— É muito cedo pra dizer isso. Acabamos de nos conhecer. 

— Sim, você está gostando dela. Todas aquelas brincadeiras que seus amigos faziam, dizendo que você e ela dariam um belo casal, estavam certas.

— Já disse, é muito cedo pra afirmar qualquer coisa.

— Posso até imaginar vocês dois andando juntos por aí. Todo mundo acharia que as baleias criaram pernas e decidiram viver em sociedade para procriar.

— Mitch, porra, é cedo pra... Baleias?

— Sabe, é que vocês dois são gordinhos, então...

Não conseguiu terminar a frase. Recebeu um olhar ameaçador do hospedeiro. Cartman pode ficar emburrado de forma cômica, mas sabe matar com um olhar quando necessário.

— Não sou gordo, tenho ossos grandes. E Henrietta não é gorda, é...  — olhou-a de relance. — Fofinha.

— Pensei que tivesse se livrado dessas desculpas.

— Calado. Você precisa controlar mais o que diz e o que faz, quase queimou meu filme com ela quando começou a rir com a gente e agora vem com essa piadinha de gordo.

— Foi sem querer, a risada dessa garota é contagiosa. Só acho que foi desnecessário me bater na porta.

— Talvez. Mas foda-se. Não queria ver se a mão da Henrietta tem vida própria? Aí está a sua chance.

— Não é assim que funciona. A mão viva tem que aparecer naturalmente, ou a partir do momento em que alguém começa usá-la como fantoche. Igual você fez comigo quando eu fui Jennifer Lopez.

— Bem, então pode esquecer. As mãos dela são normais.

— Nunca se sabe. Talvez, com o tempo, a mão dela possa dar algum sinal de vida. A mão esquerda dessa gótica é realmente muito bonita. — fez uma observação discreta. As unhas pretas tinham seu charme. — Mas e quanto a você?

— O que tem eu?

— Quero saber o que falta pra começar a investir nela de verdade.

O primeiro contato com Henrietta serviu para conseguir a confiança dela e conhecê-la melhor. Ou, quase isso. Mitch deu justificativas razoáveis para ela ser uma garota interessante, além de ela ser... Muito agradável visualmente. Agora que se apresentou e a conheceu de tão perto... A considerava muito além de tudo isso.

Era uma garota fascinante. Boa com respostas rápidas, agradável de se conversar e irresistível de se provocar. O tratou muito bem, mas sem medir palavras. E o melhor: Cartman conseguiu fazê-la rir. Ele tem certeza de que Clyde não foi capaz de fazê-la sequer sorrir. Viu que Clyde a fez corar, mas isso teria que ficar à parte.

— Pra dizer a verdade — Cartman olhou novamente a gótica em sono. Sentiu um calafrio no estômago. — Não... Falta nada. Eu só... Gostaria de fazer algo.

— Se é assim, vá em frente. O que tem em mente?

Nenhuma resposta foi dada. Dirigiu mais um pouco — com uma mão apenas, porque Mitch teve o desprazer de ocupar a outra — até chegar à frente dos portões do cemitério.

Estacionou na calçada. Seus olhos, ainda focados em Henrietta, admiravam os lábios volumosos revestidos com batom preto. Se aproximou, levou sua mão útil até o rosto da moça e pôs uma mecha do cabelo escuro e rebelde atrás da orelha. Lentamente, apreciando o momento, tomando cautela para que não a acordasse.

Seus dedos tocaram o brinco prateado de crucifixo que ela usava. Brincos que ficavam perfeitos em contraste com o colar, cujo pingente repousava sobre o peito. "Preciso ser breve" Cartman ponderou. E, assim, começava a se aproximar um pouco mais. 

Pôs a mão no rosto da gótica. Cuidadosa e lentamente, o virou em sua direção. Com os dedos, Eric acariciou a face pálida e gelada. Por alguns segundos, tentava imaginar como ela poderia ser sem toda a maquiagem pesada. Não que fosse preferir dessa forma: compreendia ser uma parte da personalidade da garota. Não passava de pura curiosidade.

Cartman — Mitch sussurrou. — O que pensa que está fazendo?!

Outra vez, não ofereceu qualquer resposta. Enquanto aproximava o rosto do dela, Cartman se sentiu receoso, como se confrontado com extremo perigo. 

Fechou os olhos. Com uma mão tocando o pescoço da gótica, selou os lábios com os dela.

Teve uma sensação estranha nos lábios. Parecia ser o primeiro beijo da sua vida, embora não fosse. Podia sentir nela um aroma agradável de café, cigarros e perfume. O coração dele retumbava, não sabia ao certo se era pela sensação do toque ou pelo perigo.

Infelizmente, aquele beijo precisou parar. Henrietta poderia acordar se ele prosseguisse.

Mas ele queria continuar. O faria, se pudesse.

— ...Cartman? — Mitch preocupou-se.

— O quê? — de lábios ainda trêmulos, mal conseguia guardar o sorriso para si.

— Limpe sua boca, rapaz. Parece que beijou as mãos de um mecânico.

Eric se viu no retrovisor interno. Uma mancha de batom preto ficou como evidência de seu crime. Tratou de limpar aquilo para, em seguida, acordar a Trevosa Adormecida.

* * *