Notas iniciais
Dei aquela olhada básica na fic e vi uma terceira recomendação..... Knight, agradeço!!! Bom saber que a fic te agrada, pena que não posso prometer atualizações mais rápidas [riso nervoso] Quase abandonei fics por estar desanimada a escrevê-las mas aqui estou, linda e bela, depois de tanto tempo sem postar nada, atualizando a fic na cara de pau sem explicações pela demora. Podem me jogar pedras agora o/


— Henrietta — Cartman tocou o ombro da garota.

— Hm? — Henrietta abriu parcialmente os olhos, desnorteada pelo pós-cochilo.

— Nós chegamos.

Henrietta abriu os olhos completamente e se ergueu. Viu a entrada do cemitério pela janela do carro. A chuva havia cessado.

— Foi mal.  — pediu sem pensar demais.

— Por?

— Por ter dormido. — se deu conta de que pedir desculpas por isso não era necessário. — Enfim. Obrigada. Por tudo.

— Pra quê toda essa gratidão? Vi uma garota desamparada e fiz o que achei que devia. Foi só uma carona, gata — arriscou com um tom brincalhão.

— Não... — suspirou, sentindo-se emocionalmente satisfeita. — Foi muito mais do que isso.

Cartman estabeleceu um semblante convencido ao ver os lábios de Henrietta se moldarem em mais um pequeno sorriso.

Bom. Isso porque não fazia ideia de que a satisfação da gótica se dava pelo quão a vontade se sentia ao lado dele depois de todos esses anos. Ela realmente não sentia nada. Firme feito uma rocha, fria feito gelo.

— Esse "foi muito mais do que isso" significa que gostou de mim? — Cartman arriscou outra vez. O tom nada sério que usava oferecia uma postura imparcial. 

— Talvez. — cruzou os braços. — Não sei se posso entregar minha amizade a um mala como você.

"Amizade" Cartman repetiu em sua mente, e seu estômago afundou. É claro: não poderia esperar nada mais dela neste dia. O que estava pensando? Mas, bem, nada o impediria de dar pequenos sinais do seu interesse. Quando fosse recíproco, ele saberia.

Eric ainda não percebia seu objetivo involuntário de ser um "mais que amigo" da gótica. Todavia, uma coisa era certa: o que Cartman deseja, Cartman consegue. Mesmo que não tenha plena consciência do que quer.

— Sabe, Henrietta... — pôs ambos os braços sob a cabeça, acomodando-se ao assento. — É estranho quando você tenta me ofender. Parece que está flertando comigo.

— Ah, eu mereço. — com braços cruzados, olhou para cima e rolou com os olhos. Cartman riu por dentro.

O rapaz abriu a porta ao seu lado no carro, sugerindo que iria se levantar. De imediato, Henrietta conjecturou que ele viria abrir a porta para que ela saísse.

— Não — o segurou pelo braço. — Honestamente, não precisa disso.

Afinal, se alguém a vir andando com conformistas, ela pode ser punida. Como seria punida ela não sabe, mas também prefere não arriscar.

— Tem certeza? — Eric ergueu uma sobrancelha;

— Absoluta. Estou farta de cavalheirismo por hoje.

— Se quiser, volto aqui e te levo pra casa mais tarde.

— Meus deuses, não. Não precisa se incomodar.

— Não é incômodo nenhum. É só me dizer que horas devo vir. Não vou fazer mais porra nenhuma hoje, mesmo.

— É sério. Não precisa. Eu e meus amigos vamos embora juntos, andando. Mesmo assim, obrigada. Você é um carinha legal. Continua sendo chato, mas aturável.

Eric pensou em perguntar se ela estava flertando com ele outra vez. Só que temeu ser retribuído no melhor dos casos com um soco, então guardou a vontade para si. Henrietta pode estar sendo dócil, mas abusar da sorte daria a ele um final semelhante ao de Kenny. Talvez, se for mais devagar em sua abordagem...

— Então podemos cultivar uma amizade a partir daqui? — entrou em sintonia com ela.

— "Encare como quiser". — repetiu as palavras dele, pouco antes do momento na fonte onde perguntou se ela sentia frio. — Se cuida, mala.

— Igualmente, medrosa.

— Não me dê apelidos.

— Você me deu apelidos. — Henrietta saiu do carro e fechou a porta. Cartman foi deixado totalmente no vácuo.

Acompanhou com os olhos os passos daquela que adentrava o cemitério. Se podia encarar como quiser, encararia como um sim.

Ao retomar a direção do veículo, teve a sensação de que esqueceu alguma coisa. Mas o que poderia ter esquecido? Do jeito que estava enquanto se lembrava de Henrietta e todos os seus detalhes, era bem provável que tivesse perdido a sanidade. Ou isso, ou algo pouco importante.

* * *

— Cheguei muito tarde? — Henrietta questionou, anunciando sua chegada.

Pete e Firkle, sentados em diferentes lápides num dos cantos do cemitério, se viraram abruptamente em sua direção. Pete pareceu boquiaberto ao vê-la em mais um conjunto diferente de vestuário, e Firkle deixou o cigarro cair de sua boca por pura surpresa de vê-la tão diferente do dia a dia. É como se, em vez de ter sido convidada para um encontro no cemitério, tivesse se preparado para uma reunião executiva.

— Me deve um cigarro. — Firkle queixou-se, pisando no cigarro caído para apagá-lo.

— Aí. — Henrietta puxou um cigarro da bolsa e o jogou para o mais baixo — Pelo visto não cheguei tarde, Michael nem apareceu ainda.

— É. — Pete fez sua habitual jogada de franja. — Junte-se a nós. Michael e sua "surpresa especial" devem estar chegando.

— Tem alguma ideia de que surpresa seja essa?

— Tenho uma ideia, mas não posso confirmar.

Henrietta deu de ombros. Escolheu uma lápide próxima ao melhor amigo para se sentar e cruzou as pernas com classe.

Sentiu olhares sobre si segundos depois. Olhou para os rostos de seus amigos e viu que estava sendo observada por ambos mas, ainda assim, sentia uma estranha presença adicional fitando-a de maior distância. Ultimamente havia muitas pessoas a observando, talvez fosse costume desta cidade de caipiras.

— De quem é o terno? — Firkle perguntou a ela.

— Terno?

— Esse que você está usando, gênia.

Henrietta olhou para seus ombros. O casaco do terno de Cartman. Se esqueceu de devolver, e Cartman esqueceu de pedir de volta. Sem problemas, ela poderia devolver outro dia; o problema real seria como responder à pergunta de Firkle sem admitir que andou por aí com conformistas – embora, para ela, Cartman não seja conformista de modo algum.

— Usar terno sobre os ombros é a última tendência entre as góticas. Dá a impressão de que acabaram de sair de um funeral. — deu um meio sorriso falso. Mas o encerrou rápido. — E veja lá como fala. "Gênia" é o cacete, não sou suas coleguinhas pra ficar me dando apelidos quando bem entender.

— Etta, você está passando bem? — Pete questionou. — Seguir modas é uma das coisas mais conformistas que existem.

— Acontece que a moda é pouco popular. — franziu o cenho para ele, quase mandando-o calar a boca.

— Então ele pode te chamar de Etta e eu não posso te chamar de gênia. — o mais baixo cobrou pela injustiça. — Fala sério.

— Sem essa, Firkle. Eu sou o melhor amigo dela, então eu posso.

— Sem essa você também, Pete. Eu e meu belo traseiro ainda estamos com raiva de você.

— Chega de falar de traseiros. — a atenção de todos foi voltada para Michael, que acabara de chegar acompanhado de uma garota de sua mesma idade, vestida de um jeito... Peculiar até para eles, no melhor dos termos. — Sejam góticos civilizados, porque temos mais uma dama conosco.

— Não precisa dessa cerimônia toda, não sou nenhuma dama. — disse a garota de roupas excepcionais. Ficou na ponta dos pés para beijar o rosto de Michael, fazendo-o corar.

— Oi, Michael. Oi, Shelly. — Pete e Firkle cumprimentaram aos dois.

— Shelly? — Henrietta perguntou. O nome lhe era familiar.

— Eu explico. — Michael se sentou numa sepultura. Shelly o acompanhou. — Tudo começou quando você esteve distante de South Park...

Os anos foram passando. As crianças de South Park amadureceram e tiveram seus hormônios borbulhando. Conforme a nova geração de jovens ia se descobrindo, se apaixonando e tentando achar o seu lugar na sociedade, muitos quiseram se juntar aos góticos depois de seus primeiros dilemas adolescentes.

Não se sabe ao certo qual foi o número de góticos temporários que tiveram. Havia chegado um período em que o grupo dos góticos ficou enorme; a mesma época em que o número de vampiros foi diminuindo e a líder deles, Jenny Simons, adquiriu um ódio ainda maior e invejou a popularidade deles.

Podiam ser vistos góticos em todas as partes da cidade. Foi o suficiente para Michael, Pete e Firkle notarem que "ser gótico" tinha se tornado uma modinha conformista, deixando de ser um estilo de vida. Saíram do grupo e usaram roupas comuns por um bom tempo. Os góticos restantes, desorientados sem seu líder, a pedido de Jenny foram guiados por Cartman a se unirem aos vampiros. Cartman alegou que os vampiros eram semelhantes aos góticos, só que sem a "viadagem de falar apenas de dor". Parte deles se juntou aos vampiros e, a outra, que era a maioria, considerou que aquele momento era apenas uma “fase” e seguiram com suas vidas vestindo roupas e ouvindo músicas comuns.

Quando ser gótico não pareceu mais conformismo, Michael, Pete e Firkle retornaram com a promessa de jamais aceitar mais góticos no grupo, a não ser que os motivos do indivíduo sejam realmente cabíveis.

Então, ressurgiu Stan Marsh. Ex-gótico que desejava voltar para o grupo pela mesma razão de antes: decepção amorosa com Wendy. Desta vez, mais séria que a anterior. Os góticos não o quiseram de volta: sabiam que Stan sairia do grupo em questão de tempo, da mesma forma que tinha saído quando era uma criança. Eles são um grupo, podem apoiar uns aos outros se preciso, mas não são a lixeira emocional de ninguém.

Anos atrás, os góticos o ajudaram. O mostraram uma nova cultura. O tiraram da depressão — ou não necessariamente, porque o ensinaram que a vida é somente dor. O deram um novo estilo. Um novo nome. O entregaram sua amizade e suporte. E o que ele fez em troca? Por causa das palavras homoafetivas de um amigo dele, Butters, quando estava chorando na sarjeta, Stan não quis mais fazer parte do grupo e ainda ofendeu os novos amigos. Como poderiam aceitar de volta alguém que fez essa filha-da-putagem?

"Faço qualquer coisa pra andar com vocês de novo" foi o que Stan alegou. A razão? Stan precisava de amigos que realmente o entendessem. Os góticos sempre seriam os mais qualificados. Michael, o líder, negaria o pedido; não antes de Firkle ter uma ideia intrigante. Stan poderia se reunir aos góticos, com uma condição: devia se vestir de garota por algum tempo.

De Raven, Stan se tornou Ravena. Não suportando a sensação de humilhação tipicamente heteronormativa, saiu do grupo na segunda semana.

Duas semanas inteiras. Foi o bastante para os góticos, de vez em quando, fazerem algumas visitas à casa dele. E nisso, Michael conheceu Shelly, a irmã mais velha de Stan.

Shelly já havia se formado e Michael, depois de muitos fracassos escolares, estava um ano letivo abaixo de Pete e Henrietta. Vez ou outra, por morarem em residências próximas, os dois se encontravam acidentalmente e acabavam por trocar ideias. Depois de algum tempo, o contato entre eles aumentava. Tornaram-se bons amigos.

Shelly se mostrou uma grande apreciadora da cultura gótica. Ficava fascinada pelo jeito de ser de Michael. Não apenas pelo jeito de ser, mas também por ele. Em reflexões, notou que tem “tudo para ser uma gótica", ao menos na concepção deste grupo. Dentre elas, decepções aos 12 anos de idade, quando todos a desprezavam por ser feia; seu primeiro amor foi um adulto com más intenções; seu segundo amor morreu graças a um Homem Aranha bizarro que invadiu o teatro onde ocorria um musical da Broadway; seus principais namoros, até completar 15 anos, foram namoros online, pois ela não precisava mostrar o rosto; tornou-se tímida e, inclusive, não conseguiu ter um relacionamento real com um de seus namorados virtuais, que encontrou na época em que quase todo o país entrou em crise pela falta de acesso à internet. Para não ser menosprezada por quem a chamava de feia, precisava ser sempre agressiva, e por isso não tinha muitos amigos.

Pena que, apesar de tudo, Shelly não poderia se encaixar nos estereótipos góticos. Tornou-se bela ao ser agraciada pela puberdade e tirou o aparelho, agora possuindo um sorriso que beira a perfeição, e conseguiu bons amigos já que não era mais tão agressiva (vulgo continuava sendo, só que menos). Se considerava “feliz demais” para esse estilo de vida.

Daí, encontrou uma vertente perfeita para ela: os cybergoths, também conhecidos como góticos futuristas. Os cybergoths acreditam no fim dos tempos, usam roupas coloridas em tons neon e ouvem músicas eletrônicas intensas ou agressivas, denominadas EBM ou Electronic Body Music. O único problema de Shelly ser tão colorida é que Michael sentiu-se obrigada a apelidá-la como "Teletubbie".

Os cybers são como góticos mais vivos, tanto que alguns não consideram como gótica a vertente cyber, mas isso não importava para ambos. Shelly usava Dread Falls Cyberlox — espécies de dreads sintéticos com combinações de vários materiais — presos ao cabelo castanho natural, meia calça rasgada, corset, botas plataforma, mini-saia e óculos goggles redondos com símbolos de radioatividade nas lentes enfeitando sua cabeça. Tudo com combinações das cores preto, azul, branco e algumas peças de couro. As sobrancelhas dela foram raspadas para um par de sobrancelhas bem finas serem desenhadas no lugar e sua pele ficou extremamente pálida por maquiagem. Shelly parecia feita de plástico.

Cybergoths eram, no mínimo, excêntricos. Mais do que góticos usuais.

— Parabéns ao casal. — Henrietta desejou, na verdade não se importando de fato.

"Não há bem que não se acabe, nem mal que para sempre dure." pensava ao observar o casal de góticos de mãos dadas. "Eles vão se machucar um dia. Sei disso" sofria por antecipação. Michael era mais uma vítima.

— Obrigada. — Shelly retribuiu com um sorriso. — Espero que nos tornemos amigas, Henrietta. Michael falou bem de você.

— Michael, me explica uma coisa — Pete começou. — O que você fez para conquistar a Shelly e pedi-la em namoro?

— Resolvemos isso como pessoas maduras: conversa e um encontro onde decidimos oficializar a coisa.

— Se conheço bem Michael, aposto que ele ensinou Shelly a "pegar na bengala". — Firkle sussurrou apenas para Henrietta.

A gordinha olhou para Michael e viu justamente que ele não usava sua bengala na ocasião. Shelly era quem a usava, o líder devia tê-la emprestado. A situação era tanto embaraçosa quanto cômica, mas Henrietta não conseguiu fazer nada além de dar seu típico sorriso de pouca emoção. Depois do quanto riu num mesmo dia, não deveria conseguir por um bom tempo.

Ou, quem sabe, rever Eric Cartman pudesse fazê-la rir outra vez. Que figura interessante.

* * *

A nova gótica se afastou dos outros junto ao seu namorado para ter um pouco de privacidade, enquanto a gótica mais antiga continuava com a sensação de estar sendo vigiada.

Só então, ao olhar em volta, viu vampiros reunidos do outro lado do cemitério. Sentavam-se juntos a uma mesa, porque tinham medo de infringir a lei ou desrespeitar os mortos sentando em lápides; quase todos bebiam molho de tomate, porque eram covardes demais para beber sangue.  Alguns bebiam suco de laranja porque, de acordo com eles, café fazia mal.

Henrietta, então, encontrou quem a observava: a líder dos vampiros. Jenny Simons a encarava como se fosse matá-la. A gótica não se deixaria acovardar: retribuiu o olhar com um ainda mais intenso, até Jenny decidir parar.

Se perguntava o porquê de ter sido ameaçada visualmente pela vampira. Não parecia ter a ver apenas com rivalidade de grupos. 

Outra questão que perturbava a gótica: Michael disse que, no passado, para ajudar a ex-namorada vampira, Cartman se referiu aos góticos como “viadinhos que falam de dor”. Ela ainda resolveria isso com aquele bendito. Era possível que Cartman tenha dito isso apenas para ajudar a ex; ainda assim, Henrietta iria fazê-lo se arrepender pela péssima escolha de palavras.

— Eu sabia que eles iam ficar juntos. — disse Pete tragando seu cigarro. — Suspeitei desde o início.

— Eu devo ter perdido muita coisa enquanto estive fora. — Henrietta lamentou. — Michael está namorando, Firkle está apaixonado...

— Eu não estou apaixonado pela Karen. — o mais novo de todos deu uma resposta automática.

— Karen, hein? — Henrietta se recordou da conversa com Firkle no dia em que tomavam café no Benny's. — Então esse é o nome dela.

Karen, irmã mais nova de Kenny McCormick. Estudavam juntos; Firkle ao fundo e ela à frente da sala. Karen era mais alta que ele, de forma que a testa do garoto ficava à altura de seu nariz. Uma garota muito querida em sala, seja por professores ou alunos, e dona de uma aparência doce e única. Cabelos castanhos claros e lisos, olhos âmbar suaves e ainda se transformando pelo processo de crescimento. 

Firkle, durante o intervalo, sempre observava com discrição Karen entretendo-se junto às amigas. Ele esteve ciente de que dois canadenses da sala de aula, Ike Broflovski e Matthew Tones, andavam brigando para saber quem poderia ser mais qualificado a estar com ela. Karen achava as brigas dos canadenses muito irritantes e, certa vez, Firkle ouviu a conversa dela com as amigas e soube que não estava interessada em nenhum deles.

No dia anterior, durante o intervalo, assim que Firkle retornou do banheiro e se preparou para voltar ao lugar onde ele e os amigos ficam, passou por perto de onde os canadenses discutiam novamente. No pátio, havia um círculo de alunos do 7º ao 9º ano do fundamental, mesmo ano a qual Firkle pertencia, ao redor dos canadenses. Karen também estava lá, e todos tinham cara de paisagem pela maneira de brigar que era comum apenas no país deles.

Matthew começou com — A Karen me pertence, amigo!

Ike respondeu com — Não sou seu amigo, cara!

— Não sou seu cara, companheiro!

— Não sou seu companheiro, mano!

— Não sou seu mano, colega!

Karen respirou fundo, deu meia volta e começou a se afastar. Firkle sabia que estava cansada dessa bobagem e a plateia, que antes achava graça, continuava pouco entusiasmada e alguns se distanciavam, procurando por algo mais interessante para fazer. Ike e Matthew não sabiam que Karen tinha total desinteresse por ambos e por isso prosseguiam com suas "batalhas épicas".

O gótico se sentou num banco para assistir a briga. Por ser o mais próximo, Karen foi em direção ao mesmo banco e sentou-se na ponta oposta, distante, mas ainda assim fazendo-o suar frio em silêncio. Antissocial e estranho para quem vê, ele nunca chegou a trocar qualquer palavra com ela. Não haveria momento mais favorável que este para falar com Karen pela primeira vez. Firkle tomou forças.

— Aborrecida? — perguntou naturalmente para ela. Nunca foi de demonstrar o que realmente sentia, afinal.

— Demais. — respondeu na mesma naturalidade. — Não quero saber de nenhum dos dois, entende? Eles podiam, pelo menos, se resolver num mano a mano real.

— Então você não admitiu seu desinteresse neles por querer vê-los se resolvendo no braço?

Karen se calou. A conclusão dos fatos viera ao garoto muito facilmente; ouviu sua máscara de boa menina rachando-se.

— Cruel da sua parte. — Firkle disse, para a surpresa da garota, em tom de elogio. — Legal.

— Hã... Obrigada. — respondeu, um tanto desorientada. O gótico sorriu discretamente. — De qualquer maneira, não acho que eles pretendam parar.

— Quer que eu dê um jeito nisso?

— E você tem esse poder?

Percebeu que Karen tinha um interessante brilho nos olhos.

Dito isso, Firkle apenas respondeu: — Observe. 

O responsável pela jardinagem na área do fundamental, há pouco, esteve usando uma motosserra para livrar o solo de uma árvore caída. O funcionário foi chamado na coordenação e obrigado a se ausentar por algum tempo, deixando o equipamento sem vigilância. Firkle se levantou do banco sob o atento olhar de Karen, caminhou até a motosserra e a pegou, sentindo-se como um verdadeiro protagonista de filme de horror.

— Dou três segundos para os dois pararem de discutir feito bichas e vazarem. — Firkle se aproximou dos que discutiam. — Ela não quer nenhum dos dois. Se toquem.

— Nenhum de nós te perguntou nada. — respondeu o judeu.

— Eu estou avisando. — Firkle manteinha sua típica voz sem emoção. — Saiam.

Matthew teve reação semelhante a de Ike ao dizer — Não pode nos obrigar. O que você vai fazer pra nos parar, seu viadinho de preto?

"Estava esperando alguém perguntar." Firkle pensou com uma face perversa. Os canadenses não tinham percebido que o gótico portava a motosserra, até que a acionou. A aproximação dele com o instrumento letal em mãos, com ares de quem não tinha medo de usá-lo, finalmente fez os canadenses perceberem que o "viadinho de preto" não estava de brincadeira.

Muitos na plateia restante se retiraram rapidamente. Matthew e Ike se abraçaram e gritaram fino, pedindo por piedade.

— Sumam da minha frente. — Firkle ergueu a motosserra, ameaçando cortá-los ao meio.

Os canadenses procuraram algum espaço entre o cerco de alunos e correram para longe, em alta velocidade e em direções opostas. 

Os que antes tinham cara de paisagem para a briga agora estavam admirados. Firkle sempre teve uma aparência esquisita e acabou mostrando ser exatamente o que aparenta e além. Olhando para trás, o portador da motosserra viu Karen observando-o com aquele verdadeiro brilho no olhar. Conseguiu ler um "Uau" nos lábios dela.

— Vamos, Karen — apareceu uma colega dela, também do 9º ano. — O intervalo já vai terminar.

No caminho por onde Karen ia sendo empurrada por Tricia, sua amiga, continuava com os olhos em Firkle. O gótico, sentindo cada batida de seu coração, só conseguia se perguntar quando poderia falar com ela novamente.

— Firkle? Você está aí? — Henrietta estalava os dedos à frente do rosto dele. Ainda assim, o pequeno gótico continuava olhando para o nada, em silêncio. Esteve desse jeito desde o momento em que Henrietta perguntou sobre Karen. — Cruzes. Ele nem pisca.

— Esqueça, Etta. Perdemos ele. — Pete deu de ombros. — Quando Firkle começa a pensar, ninguém pode pará-lo.

Com o silêncio que se instaurou, Henrietta tentava achar um novo tema para debater.

— Michael está namorando, Firkle está indo pelo mesmo caminho... Mas e quanto a você?

— Nunca namorei. — Pete tragou o cigarro.

— Por alguma razão?

— Só... Estava esperando a garota certa.

— "Estava"? Não está mais?

Pete parou de olhar sua melhor amiga nos olhos e levou novamente o cigarro à boca. Henrietta, assim como ele, desistiu da conversa para acender mais um dos próprios cigarros. Enquanto isso, o líder e a cybergoth retornavam ao grupo e Firkle continuava perdido em si mesmo.

* * *

Estava indo para o colégio, caminhando sozinha pela calçada. Trouxe comigo o casaco do terno de Eric Cartman, para devolvê-lo. Depois da noite em que acidentalmente não o devolvi, pensava o tempo inteiro que devia fazer isso o mais rápido possível. Diante do frio, estava quase usando o terno para me aquecer novamente. Mais uma vez, não quis dar ouvidos à minha mãe quando pediu que me agasalhasse.

Tive um pequeno desconforto numa das pernas. Parei no lugar onde estava, próxima a um beco, e ajeitei o incômodo por conta da meia calça. Uma brisa gelada veio do beco em direção a mim, agitando meu vestido preto, carregando consigo um aroma familiar.

O cheiro da toalha que usei pra secar meu rosto naquele dia ficou gravado na memória. Como suspeitava, pude ver Eric próximo à parede ao fim do beco. Se não fosse o cheiro, nunca o teria visto.

— Eric? — perguntei alto o bastante para que notasse minha presença. Passei a caminhar em sua direção. — O que faz aqui?

Ele não respondeu, mas sorriu.

— Aqui. Quero devolver seu terno. — falei quando estava próxima o bastante. Tirei-o da bolsa e o mostrei. — Desculpa, mesmo. Estava com pressa no sábado. 

Silencioso, Eric se aproximava de mim a passos curtos, ainda com aquele sorriso esquisito e olhos perigosamente estreitos. Tirou o terno da minha mão e o largou no chão ao seu lado.

— Mas... Que porra — comecei a andar para trás. Ele me seguia com a mesma feição maquiavélica. — Eric, não estou brincando. Eu vou partir sua cara ao meio se não parar com...

Não pude terminar minha sentença. Também não conseguia mais me mover, graças a uma parede que se formou atrás de mim. Tinha se formado um cubículo de blocos de concreto ao nosso redor. Não havia para onde qualquer um de nós pudesse ir.

Eric segurou meu colar e o usou para me trazer em sua direção, obrigando-me a aproximarmos nossos rostos. Meu rosto estava paralisado com a respiração que saía por sua boca entreaberta. Sua proximidade me fez sentir calafrios no estômago. Não sinto isso há tantos anos que não me lembrava de como era terrível e agradável ao mesmo tempo.

Eu podia ouvir os batimentos cardíacos de Eric. Nossos corações pareciam estar num ritmo semelhante. Tão próximos que era inevitável sentir... Calor. 

E lá estava ele, com os lábios entre os meus, me beijando lentamente com olhos selados. Eu não desejava aquilo, mas não conseguia impedir.

Não conseguia me impedir de retribuir.

As paredes entre nós desapareceram; eu podia fugir. Não sabia o que me prendia a ele e me deixava incapaz de interromper aquele beijo, xingá-lo de todos os maus nomes possíveis e ir embora.

Para desfrutar do momento, fechei meus olhos no sonho. Para acordar, os abri na realidade.

Henrietta "conheceu" Cartman esta noite e acaba de vê-lo em seus sonhos. Ao acordar, quis gritar, assustado por seu sonho estranho e inadequado. Ou seria um pesadelo?

Henrietta não gosta de chamar atenção. Usa roupas pretas, evita atitudes escandalosas. Por não ser escandalosa, não realizou a vontade de ter gritado para a casa inteira acordar. Levantou-se da cama, foi ao banheiro no mesmo andar, lavou o rosto com água fria e viu-se no espelho, perguntando-se o que diabos poderia ter acontecido com ela.

Beijar Cartman não lhe parecia ruim. O ruim seria apaixonar-se por ele. Ter borboletas no estômago acontece com quem está apaixonado; aí está o problema. Ela teme o amor. Sem contar que “borboletas no estômago” é um conceito bem gay, vai totalmente contra o estilo de vida gótico. Fugir da cidade como sempre faz em situações onde o coração toma o controle seria o mais prudente a fazer? Seria tão fácil pedir à sua mãe para se mudar...

Mas há motivos o bastante para isso?

Ela esteve sozinha, sem amigos, por anos desde que desapareceu. Não ter amigos é quase como não existir. Ninguém conversava com ela, ninguém perguntava como foi seu dia. E, quem se aproximava, se aproximava para implicar. Ela sentiu falta de seus melhores amigos. Sua mãe e Bradley tentaram assumir o posto de amigos pois Henrietta sentia-se só, mas não poderia dar certo. Se na época soubesse o que era não ter amigos, jamais teria partido.

Partir não é mais uma opção. Ela não sabe ao certo se começando a ter sentimentos por Eric Cartman. Evitá-lo, sim, é uma opção: caso esteja gostando dele mais do que devia, evitá-lo pode fazer a situação não se agravar. Uma pena, porque ele daria um ótimo amigo. Tem uma personalidade livre de conformismo, até poderia ser um gótico perfeito; não que ele precise ser mudado, em sua opinião.

"Sabia que não devia ter aceitado a gentileza dele" ela pensava sentada à beira da cama, com as mãos no rosto. "Soube que Eric era um problema assim que o vi. Por que aceitei sua conversa? Sua proteção da chuva? Sua carona? Seu..." olhou para o travesseiro. "Seu casaco."

Não sabe o porquê, mas o terno de Eric estava sobre o travesseiro. Não fazia sentido algum, se o havia deixado no armário para devolvê-lo na segunda-feira.

Ela esteve segurando o terno de Eric. Esteve segurando uma peça de roupa de Eric Cartman perto do rosto enquanto dormia.

Sentiu a textura do casaco em sua mão. Levou-o ao nariz e inspirou fundo, capturando o cheiro agradável. O aroma da toalha que lhe foi oferecida para secar o rosto mais cedo não era um cheiro somente da toalha: era o cheiro do próprio Cartman. Flashes do pesadelo tido passaram por sua cabeça, especialmente a brisa com seu perfume e o momento em que foi beijada. Por um momento, tentou imaginar como seria um beijo dele fora do sonho. Um beijo dele de verdade.

Atirou o casaco do terno violentamente para um canto qualquer do quarto. Jogou o corpo para trás, deitando-se na cama com violência, deixando as pernas para fora. Seus batimentos cardíacos eram dolorosos e não-ritmados. 

Ficou de pé. Saiu do quarto, andou pelo extenso corredor do primeiro andar, desceu as escadas e passou pelo portal para a cozinha. Muitos, inclusive Pete, já perguntaram a Henrietta pelo menos uma vez na vida o porquê de ela beber muito café, fumar muitos cigarros e continuar gordinha.

Pete supõe, apenas supõe, que ela não come quase nada gorduroso ou com altas cargas de açúcar. Existe um motivo que ninguém além da família dela têm conhecimento: Henrietta come doces, muitos deles, quando está nervosa.

A gótica cai em tentação sempre que o nervosismo ataca. Seja antes ou depois de situações de estresse, como situações diárias, exames médicos, idas ao dentista... Principalmente esse último. Pete e todo o resto estava errado.

O desejo compulsivo por doces começou quando descobriu que o açúcar a acalma mais que os cigarros. Curioso é o fato de Henrietta comer doces não por vontade, mas por impulso. Se ela gostasse verdadeiramente, deixaria de ser tão exigente com o açúcar em cafés, por exemplo.

A mãe dela é responsável por manter seu estoque de doces sempre cheio. Caso contrário, Henrietta come todo o açúcar que encontrar pela casa; não importam as fontes. O caso mais assustador causado pela compulsão foi quando Henrietta sofreu os efeitos do período menstrual pela primeira vez e os doces da casa acabaram. Henrietta ingeriu, sozinha, cerca de um quilo de açúcar puro. Assustador para a mãe dela mas, para seu irmão mais novo, não. Para ele, aquela foi a situação mais engraçada já vista. Bradley acabou gargalhando na cara de sua irmã, e à época pagou pela ousadia levando uma generosa surra.

Diante da alimentação que Henrietta segue, se ela não comesse doces, hoje seria tão magra quanto as líderes de torcida.

 Enquanto consumia uma porção de doces coloridos da despensa, Henrietta definia: iria evitar Eric Cartman, cortaria qualquer proximidade. Definitivamente.

* * *