Malaxophobia

6 Uma noite (des)agradável


Notas iniciais
Quero me desculpar pela demora pra atualizar. Poderia dar umas desculpas por isso mas era só preguiça mesmo hahaha Também tiveram algumas outras complicações, como falta de criatividade, mas enfim~ Quero agradecer à Darkchi pela recomendação. Os elogios dessa pessoa linda me EMOcionaram. Escrever essa fic está sendo um pouco complicado, mas os reviews (e recomendações... hohoho) me dão uma tremenda força.


— Bom dia, seus putos — Clyde acabara de chegar ao círculo de Stan, Craig, Kyle, Cartman e Kenny. A forma como falou produziu eco no corredor vazio do colégio, fazendo todos os rapazes olharem diretamente para ele. — Qual é o assunto da vez? Dá pra ouvir as risadas de vocês lá fora.

— Estamos zoando com o Kenny por ter tomado um fora da garota gótica. — Stan respondeu. — É muito divertido.

— Pode crer que é. — Kenny disse com ironia na voz, depois de retirar o capuz laranja do rosto. — Nem sei o motivo de eu ainda estar aqui ouvindo essa merda.

— Não seja um viadinho. — disse Cartman. — Aceite quando fazem piadas com você. Pense bem: você sempre se aproveita das garotas. Não acha que chegou a hora de provar do próprio veneno?

— Olha, eu concordo com o gordo. — disse Kyle. — Se é pra tirar com a cara de alguém, tem que ter motivo. Você mereceu se foder e é isso que torna tudo tão engraçado.

— Quem disse que eu me fodi? É só uma garota. Já fiquei com centenas e ficarei com outras milhares.

— E quanto ao seu título de quem “pegou” todas da sala? Parece que, por "só uma garota", você perdeu. — Craig provocou. — E como você perdeu, eu tenho mais chances com ela. Se acha que é o único fodão da turma, está enganado.

— Acho que isso não vai ser possível, Craig. — disse Clyde, com ar prepotente. — Meio improvável que consiga algo com ela, já que eu a convidei pra ir ao Casa Bonita.

Depois daquelas palavras, Cartman piscou atônito. Dissociou da realidade por alguns segundos. Pela breve agitação de sua mão esquerda, percebeu que Mitch estava tão incomodado quanto ele.

— Não pode ser. — Craig ficou sem reações. — Clyde conseguiu superar o mestre. — olhou para a Kenny. — Chupa essa, seu otário.

— Se toca, Craig. — Kenny deu de ombros. — Acredite, a garota é sem sal pra caralho. Ter dado errado poupou meu tempo.

— Ela não é sem sal. Acreditem. — Clyde replicou. — Só diz isso porque levou um fora. Quem foi que teve interesse na garota primeiro? Você. Quem lançou o desafio pra início de conversa? Você. Então, pare de fazer cu doce.

— Eu não estou fazendo cu doce. — franziu o cenho. — Não vale a pena se esforçar por alguém feito ela. Tenho certeza que você vai levar um fora também.

— Não, não vou. Diferente de você, consegui convidá-la apenas com uma abordagem suave. Uma abordagem tão boa que só deve faltar o último passo pra cumprir minha meta.

Kenny sabe que Henrietta não é uma garota fácil. Se nem ele conseguiu tê-la, Clyde não conseguirá. Por conhecimento próprio, o loiro imagina que Clyde nem se lembrou de pedir o telefone da moça, um detalhe fundamental para se manter contato com alguém.

Do jeito como as coisas vão, é capaz de Kenny ser zombado pela sua derrota com a gótica até a formatura. Talvez até depois. Para evitar mais constrangimentos, estava na hora de usar uma técnica que aprendeu com Cartman: se toda essa vaia é devido à falha com Biggle, Kenny pode desviar a atenção para outra causa. Clyde está se exibindo tanto que virou a pessoa perfeita para virar o novo centro das atenções.

— Se é assim, não vai se importar se eu tornar essa disputa mais interessante. Certo? — Kenny desafiou.

— Nem um pouco. O que tem em mente?

— Se você não conseguir cumprir a aposta, que é conquistar Henrietta e fazê-la sua, vai ter que aparecer na escola vestindo o uniforme de animadora de torcida e participar de um ensaio delas. Não é o uniforme masculino, é o feminino. Com saia curta, maquiagem e tudo que te faça parecer uma garota, o que não é muito difícil. Se conseguir, eu é que vou fazer isso. Topa? — estendeu a mão.

— Com prazer — Clyde apertou a mão do loiro, firmando a proposta. — Estou começando a achar que você tem noção de sua derrota iminente e fez esse desafio só pra justificar sua vontade de ser uma mulher. Sempre desconfiei.

Clyde recebeu um olhar ameaçador de Kenny. Bem, não o bastante para intimidá-lo.

— Eu não mereço escutar essas bobagens a essa hora da manhã. — Kenny se afastou do círculo. — Vejo vocês na sala de aula.

Depois disso, os rapazes começaram a conversar sobre baseball. Aproveitaram o assunto relacionado às líderes de torcida para falar sobre o jogo que futuramente terão contra um time de outra cidade, levando à possibilidade de se ter as líderes para animar o público durante os intervalos. Em meio ao assunto, o que ninguém havia notado era que não havia sido apenas Kenny a se afastar do grupo.

* * *

Eric estava num corredor vazio que encontrou para conversar com a mão falante. Encontrava-se sentado no chão, recostado em armários na parede e folheando algumas páginas de um livro em seus joelhos. Precisaria memorizar cada palavra do livro com auxílio de sua memória fotográfica; item necessário para alguém que não tinha interesse em realmente estudar. Nada melhor para simpatizar com Garrison do que um teste de 30 questões discursivas.

Há algum tempo que Mitch se pôs disponível a ajudá-lo. Estava pronto para ajudar seu hospedeiro a se aproximar de Henrietta, uma gótica intensa, dona de... Alguma massa corporal. Essa tarefa não devia ser complicada para Cartman, que já se aproximou de garotas antes. E algumas delas, que o odiavam no passado, hoje são boas colegas para ele. As questões que o desencorajavam a se aproximar de Henrietta eram:

Primeiro: Henrietta é complexa. Clyde deve ter conseguido convidá-la por sorte. Caso se aproximasse da gótica e recebesse o mesmo que Kenny recebeu, seria bem capaz de Cartman abrir mão dela mais facilmente. Ele é o tipo de rapaz que, devido às suas mudanças como pessoa, não é muito receptivo a rejeições indelicadas e não leva desaforos para casa. É mais fácil que ele se torne um inimigo de Henrietta do que um amigo.

Por último, mas não menos importante: Quando Eric chega perto de uma garota, surge o "Furacão Simons", com altas chances de destruição.

Jenny Simons, sua ex-namorada, é um perfeito espécime vadia insuportável. Depois do que tinham terminar, fez questão de estragar todas as suas tentativas de relacionamentos posteriores. As possíveis pretendentes dele eram ameaçadas ou enganadas pela líder dos vampiros e se distanciavam. Uma delas até precisou sair da cidade. Mais uma razão para Cartman não namorar há bastante tempo.

— Como assim "já era"? — a mão perguntou.

— Clyde convidou Henrietta para o Casa Bonita. Sei que você prestou atenção.

— Sim, só não entendi o porquê desse "já era". Ainda pode ser você a ficar com ela.

— Falando assim parece fácil. Como vou evitar que a Henrietta fique com o Clyde?

— Eu não sei. O expert em trapaças é você, não eu.

— Você está equivocado. Não sou um trapaceiro.

— Mesmo? Suas folhas de cheats para videogames dizem o contrário.

— Pela enésima vez: não tem nada de errado em usar cheats.

— É errado, sim. Eu pesquisei no Google.

Eric piscou. Não por falta de respostas quanto ao uso de cheats, mas por se perguntar como Mitch conseguiu pesquisar alguma coisa na internet se ele... Bem. Mitch é sua mão esquerda, então como poderia...? Quer dizer, como sua mão conseguiu ir até um computador sem que ele visse? E como conseguiu participar da guerra do Vietnã se depende dele para se deslocar...?

— Olha... — Cartman passou a mão disponível pelo rosto, afastando os milhares de questionamentos mal resolvidos. — Por que está insistindo tanto nela?

— Eu já disse o porquê, não se lembra?

— Me refiro à sua persistência, não aos motivos de Henrietta poder ser boa para mim. Quer dizer, eu nem conheço ela direito, como pode ter tanta certeza de que é ela a garota que eu preciso? Se eu me aproximar, posso levar um fora. Se eu conseguir namorar ela, Jenny Simons vai foder tudo. Não é mais fácil deixar a garota livre?

— Tudo bem. Quer motivos para minha persistência?

— É, eu quero.

 Mitch fez aquele gesto semelhante ao de inspirar profundamente. Teria sido mais compreensível se ele tivesse um nariz.

— Henrietta parece ser uma garota de personalidade marcante e que sabe o que quer. Já que dispensou o Kenny, ela é uma garota refinada e muito seletiva quanto aos homens, o que é um bônus para você, senhor Eric Galanteador Cartman: com um pouco de esforço, você tem chances de se sair bem melhor que o Clyde. Quanto à Jenny Simons, não precisa se preocupar com ela. Do jeito que Henrietta é segura de si, Jenny não poderia afetá-la. Tem razão sobre ela ser complicada, mas você sempre perseguiu e superou dificuldades. Até namorou garotas que nunca pensou em namorar, como Wendy e Patty Nelson. São motivos o suficiente para você trapacear por ela ou precisa de mais?

— Puta merda... Quero saber a razão de você sempre me ajudar, mesmo sem ganhar nada em troca e sem eu pedir.

— Eu sou a porra da sua mão esquerda, Cartman. Você é meu hospedeiro. Se você está bem, eu estou bem. E, bom, dessa vez tem uma outra razão além dessa pra eu te ajudar, mas não vale a pena falar.

Eric o encarou com um olhar intimidador.

— Qual é a outra razão?

— Não quero dizer.

— Fala. — Cartman aproximou uma borracha ao Mitch. — Fala ou eu apago seus olhos.

— Ei ei ei, cuidado aí — a mão tentava se afastar. — Isso é mesmo necessário?

— Diz logo — aproximou mais a borracha.

— Ok, ok, eu falo — rendeu-se. Em seguida, Eric abaixou sua "arma". — É que... A mão esquerda dela me parece interessante.

* * *

   — Estão olhando o quê? — Kenny perguntou a uma dupla de garotas que pareciam fofocar e rir baixinho enquanto o olhavam.

Aquelas garotas nada disseram em resposta. A risada discreta que as duas trocaram indicava que, como Kenny imaginava, estavam falando do assunto mais comentado da semana: a falha dele com a aluna nova. Ele não mais se importava com a perda da garota, tampouco com a perda do título. Queria mais é que todos fossem à merda.

A situação financeira de sua família sempre foi precária, e vem se tornando pior. Ele poderia se tornar motivo de chacota dos colegas pela situação financeira em que se encontra (se bem que aquele que gostava de zombá-lo por ser pobre hoje é uma pessoa diferente) caso não tivesse adquirido uma fama que faz qualquer homem ser admirado: a fama de pegador. Todos têm seu mecanismo de defesa; Kenny também tinha o seu.

Para ser um bom conquistador, ele ficava com garotas por uma baixa quantidade de tempo. Nunca passou mais de 5 horas com uma mesma pois, quando se aproveitava delas, deveria sair pela tangente e não ser encontrado pela mesma nem tão cedo. Se perdeu na contagem de quantos corações já quebrou nessas fugas após curtir com moças vulneráveis. Apenas depois de muito tempo com esse hábito de aproveitar o momento e não pensar no amanhã, percebeu uma situação muito pior do que aquela que sua família vive: Kenny sente-se só. Sente falta do sentimento de uma relação estável, isso se ele se lembra de como uma funciona. Quando se enxerga apenas o sexo e as garotas com que o pratica como ferramentas, não sobra muito espaço para o emocional.

South Park tem garotas muito legais para se investir, mas como ele faria isso se todas o conhecem e odeiam? Poderia buscar por garotas fora da cidade, mas como faria isso diante das poucas condições de se manter e das responsabilidades que possui?

Sentir-se mal por uma escolha que ele mesmo fez é doloroso. Facilitaria muito se todos não ficassem rindo de sua falha, já que ele não tem mais o mesmo orgulho pelo título de conquistador e quer mais é que o mundo se foda depois da rejeição.

Os pensamentos do loiro enquanto passeava pelo corredor foram cessados. O motivo: uma garota, que tentava esconder o riso descontrolado que teve assim que o viu, acabou topando com ele.

— Ai. — Kenny reclamou, esfregando o ombro que havia colidido com o dela.

— Desculpa... — a garota ainda ria, escondendo a boca nas mãos.

Kenny ficou atento a ela. Esse rosto lhe era familiar. Ele sabia que aquela era uma novata da sala, a esquisita e feia de cabelo castanho que usa aparelho. Só que para Kenny é como se a conhecesse de outro lugar. "Talvez alguma garota com quem eu tenha ficado no passado." e deu de ombros.

Olhando mais perto, ela não era tão feia como parecia. O aparelho ortodôntico é bem discreto; não é do mesmo tipo que Shelly, irmã mais velha de Stan, usava aos 12 anos.

— Vê se presta atenção. — Kenny falou sem qualquer tato. — Por acaso o reflexo nesse seu aparelho tá te impedindo de enxergar?

Ele precisou dizer isso; além de ser uma oportunidade para descarregar a raiva, a garota não parava de rir nem por um mísero segundo. Certamente pela mesma razão que todos os outros, e ele não suportava mais. Não estava exausto das zombarias por ter perdido uma garota; estava exausto porque todos estiveram aguardando pelo seu fracasso. Precisar ouvir piadinhas e risadas incessantes ultrapassa seus limites.

— Fala direito com as pessoas, garoto — ela finalmente havia parado. — Quem você pensa que é?

"Essa voz..." pensou ele quando a ouviu falar com mais clareza. "Esses acessórios..." relembrou quando percebeu alguns colares de ouro, ou melhor, colares falsos no pescoço da garota e viu que ela usava um bracelete roxo. "Esse cabelo." finalmente concluiu sua dedução quando, olhando mais perto, notou que existem algumas mechas louras em meio às castanhas. "Agora sei o motivo dela precisar usar aparelho."

— Tammy? — Kenny ignorou a ousadia da mais baixa. — Tammy Warner?

Em alguns segundos, o tom dela tornou-se calmo.

— Sim. Tammy Warner. — abriu um pequeno sorriso. — Estou surpresa que tenha me reconhecido dentre tantas garotas com quem já ficou, "Ken".

Tammy Warner foi uma de suas primeiras namoradas. Na época onde estiveram juntos, o que os tinha aproximado foi a pobreza que compartilhavam, sendo Tammy ainda mais pobre que ele. Acontece que o loiro tinha más intenções com ela, começando por levá-la ao show dos Jonas Brothers. As intenções dele foram estragadas por anéis de pureza que o transformaram num zumbi sem personalidade.

Acabou que Kenny conseguiu o que desejava. Como consequência, morreu infectado por sífilis. Ou, ao menos, é uma parte cheia de omissões em toda a história de ambos.

— Como eu poderia esquecer de alguém que causou uma das minhas mortes?

— O quê? — ela indagou sem compreender.

— Nada. — mudou de assunto rapidamente. — Então, está de volta à cidade?

— Eu nunca saí da cidade. Estudei em outra escola, onde eu não tive fama de galinha.

— Bem, você está estudando na minha sala. — desviou o foco outra vez. Constrangimento demais para lidar. — Não devia já ter se formado? Você é um ano mais velha que eu.

— Seria isso se eu não tivesse ficado sem foco nos estudo graças à perseguição pela minha má fama. Aliás, por que estou desperdiçando meu tempo com você? — se preparou para se afastar.

— Tammy, espera — segurou-a pelo braço, fazendo-a ficar. — Não tem necessidade disso. Quero conversar com você.

— Jura? Pois eu não quero. Eu odeio você. Poderia me soltar, por favor? Ou quer que eu prenda sua mão no armário do mesmo jeito que Henrietta Biggle? Desta vez, prometo que vou me certificar de prender sua mão direita com tanta força que você não poderia usá-la para se masturbar por dois anos.

— Você me odeia? — ainda segurava o braço garota, desta vez com mais leveza. — Por quê?

— Além de ter me feito repetir um ano letivo? De foder minha reputação? Bem, você me enganou. Parecia querer apenas um namoro saudável, mas só queria me usar e faz isso com outras garotas até hoje. Você me manipulou e piorou a má impressão que os outros tinham de mim. Hoje, o galinha é você. Está pior que o Cartman. O pior é que, além de tudo que falei, você me traiu. Não foi de mim que você pegou aquela doença. Ou foi?

Algumas pessoas não têm um bom controle sobre o que chamam de “instintos” — que, para aqueles que possuem bom senso, não passam de desvio de caráter. Kenny é uma dessas pessoas. Mal sabia ele que seu passado um dia estaria aqui, de volta para atormentá-lo.

Não, não foi de Tammy que ele contraiu sífilis. Foi de uma prostituta, tempos antes dele realizar seu objetivo com a ex-namorada. Tammy é perfeitamente saudável, não tem nenhuma DST para passar.

— Por isso eu estava rindo, e pretendo rir um pouco mais. Você não presta, McCormick. Pode até ter conseguido se salvar da doença, mas pelo menos está pagando o preço pelo restante. Merecidamente, está sendo zombado por ser o otário que é.

— Me desculpe. — murmurou, incapaz de olhá-la nos olhos.

Tammy abafou uma exclamação. Ela não esperava por isso. Precisava ouvir isso outra vez.

— Poderia repetir?

— Me desculpa, ta legal? — ergueu o rosto. — Eu mereço mesmo tudo isso. Não precisa me perdoar se não quiser. — soltou-a.

— Não preciso. Não quero. E não vou. — o olhou por uma última vez, transbordando desprezo. — Aqui vai o meu adeus, "Ken".

Kenny apenas observou a garota se afastar. Pela primeira vez depois de anos, o “pegador sem sentimentos” estava sentindo remorsos por uma garota somente. Uma garota pouco atraente, com aparelho nos dentes e coração ferido. Ele consegue sentir que se importa com ela verdadeiramente. Há quanto tempo não sabia o que isso era?

"E por que eu me importo?" se perguntou enquanto caminhava pela direção oposta a que Tammy seguiu.

Poderia ser culpa. Poderiam ser suas memórias.

* * *

Finalmente, chegara o grande dia. Esta noite, Clyde levará a gótica para o "encontro de amigos", de acordo com palavras dele, ao Casa Bonita.

Henrietta não esteve nem um pouco animada para ir, e continuava não estando. Porém, uma garota de palavra precisa seguir seus princípios. Se ela aceitou o compromisso, irá cumpri-lo. Como recompensa, receberá uma carona até o evento entre seus amigos que foi planejado para as 10 da noite.

Para hoje, pela falta de empolgação, Henrietta escolheu literalmente a primeira roupa que viu. Sapatos de salto alto, uma meia calça preta fina e um vestido simples e médio – adivinha – totalmente preto. Apesar da barriguinha marcada, Henrietta possuía um corpo bonito, valorizado razoavelmente pelo vestido que usava. O tão comentado traseiro, os quadris largos, os seios fartos e a cintura que parecia cuidadosamente moldada poderiam torná-la muito atraente se desejasse.

Por fim, usava seu colar com a cruz de prata e brincos semelhantes. O cabelo estava ao mesmo modelo de todos os dias, e sua maquiagem escura, como sempre, bastante marcada. Em uma bolsa, só levava isqueiro, cigarros e um livro. Dinheiro e identidade não são necessários para quem não se importa com leis.

— Aonde vai desse jeito, flor de lótus? — perguntou sua mãe, que a viu descer as escadas vestida de forma bem diferente do natural. Se não fosse a maquiagem e os crucifixos de prata, seria como uma adolescente comum — vestindo bastante preto.

— A um lugar qualquer. Volto tarde, não me esperem acordados. Quanto a você, Bradley — olhava para o irmão sentado no sofá da sala. — Nem ouse entrar no meu quarto na minha ausência.

Henrietta não pediu permissão para sair ou avisou seus pais com antecedência. Se ela quer sair, ela sai. Além de ser seu costume na casa, a mãe de Henrietta aceita tudo o que a filha faz e o pai pouco se importa. Na verdade, ele sequer estava presente.

Clyde já esperava do lado de fora da casa. Vestia terno, de pé, ao lado de seu carro, e segurava aberta a porta por onde Henrietta iria passar.

— Boa noite. — Clyde inclinou-se numa saudação cortês. — Está encantadora.

— Bem... Gostei da cor do carro. — evitou um elogio ao rapaz. Não saberia o que dizer sobre ele, nem se quisesse.

— Imaginei que preto te agradasse. Por favor, deixe-me conduzi-la até nosso destino. — e segurou a mão da gótica para que entrasse.

Em seguida, Clyde fechou a porta, depois entrou no carro também, ficando no banco do motorista. Logo, eles estavam a caminho do lugar. Haveria alguma estrada pela frente.

Para descontrair, o rapaz decidiu iniciar uma conversa.

— Bom... O que achou da maneira como te tratei agora a pouco?

— Você quer sinceridade?

— Claro.

— Cordialidade é legal, mas não exagera, Clyde. Estava parecendo aqueles cavalheiros viadinhos.

* * *