Malaxophobia
7 Ponto para Cartman
Notas iniciais
Clyde acabara de deixar seu carro numa das vagas do estacionamento. Finalmente, chegaram ao Casa Bonita. Demorou cerca de trinta minutos para chegarem, isso sem adversidades no trânsito. Para que Henrietta chegue na hora certa do encontro com os góticos esta noite, não poderá demorar demais. Ao se lembrar da menção de Michael sobre levar consigo uma novidade especial, se sentiu ligeiramente ansiosa.
Através do vidro, Henrietta reparou na aparência do Casa Bonita. Muito parecido com um castelo, tendo rosa como cor predominante e uma grande fonte ornamental na fachada. Ela não pôde compreender como o Casa Bonita existe se foi destruído pela versão mecha da Barbara Streisand há anos. Deviam ter reconstruído a partir do que restou.
— O que achou daqui? — Clyde perguntou ao ajudar Henrietta a sair do carro, segurando-a pela mão.
— É um lugar de bom gosto. Se não fosse rosa, seria melhor ainda.
— Imaginei que diria isso. — riu rapidamente, oferecendo o braço. — Vamos. Acho que estão todos esperando por nós.
Henrietta encarou o braço de seu colega, hesitando em aceitar. Não achou certo andar com ele por aí com toda essa proximidade. O melhor seria rejeitar a oferta, sem ser rude demais.
— Isso não é necessário. — se pôs a andar na frente, sozinha de encontro ao restaurante.
Clyde permaneceu paralisado, observando enquanto a gótica ia embora sem ele. O segundo fora da noite. Eram foras o suficiente para fazer qualquer um desistir. Definitivamente, doeria menos se ele levasse um soco.
Apenas uma coisa conseguiu recuperar sua persistência e coragem: a forma como Henrietta rebolava naturalmente ao caminhar.
* * *
A programação da noite acontecia exatamente como Henrietta imaginou: em silêncio, sentava-se à uma mesa cheia de pessoas que ela não conhecia, comendo pratos que garçons vestidos a caráter mexicano serviam.
Pela quantidade de comida que Henrietta consumia, a conta não sairia cara; como será Clyde quem cuidará da despesa de ambos, agradeceu internamente por ela comer pouco. Definitivamente, não esperava isso de uma garota com esse aspecto físico.
Os rostos dos jovens à mesa eram conhecidos por ela. Todos estudavam com a gótica no mesmo colégio. A maioria dos presentes eram garotos, vencendo esmagadoramente a quantidade de apenas mais duas outras garotas além dela; uma morena e outra loira, que conversavam apenas entre si se sentavam do lado oposto. As duas até a convidaram para se juntar a elas, mas Henrietta recusou. Seria melhor não se envolver com conformistas demais.
Até o quarteto daquele loiro metido a pegador estava presente. Henrietta sentia-se grata por Kenny está-la tratando com indiferença depois de quase ter quebrado sua mão. A respeito de Cartman, preferia nem procurar por sua localização à mesa.
Henrietta vez ou outra tinha uma sensação estranha. Como se estivesse sendo observada. Olhando para várias direções, não encontrava ninguém em especial.
— Olá de novo. — Clyde, que havia sumido há 10 minutos, voltou a se sentar na cadeira ao lado dela.
— Aonde foi? — Henrietta perguntou, demonstrando sutilmente a sua impaciência.
— Fui comprar algumas coisas pra você.
— Mas eu não pedi nada.
— Não, não. São presentes. Trouxe coisas que você gosta.
Com suspeita, Henrietta franziu as sobrancelhas.
— Tipo?
— Café. — disse ao deixar um copo médio de café do Harbucks diante dela. — Sei que você gosta de café.
Clyde tinha razão. Henrietta trocaria seu irmão por um só copo de café do Harbucks: um dos lugares mais caros para se comprar. Se bem que ela trocaria seu "irmão frutinha" por qualquer coisa, mas isso não vinha ao caso.
Henrietta gosta de café; no entanto, tem um sério problema com o sabor. Não poderia ser doce ou amargo demais. Teria que estar com a quantidade de açúcar na medida certa. Açúcar comum; nada de mel, açúcares dietéticos, nem nada do tipo. E, principalmente: não poderia ter chantili ou cremes. Na opinião dela, isso tira toda a essência do café e o faz virar uma bebida requintada. No máximo, poderia ter alguns traços sutis de capuccino, como o que é servido no Benny's.
Ela se preparou para experimentar a bebida. Se estivesse amargo demais, doce demais, com adoçantes diferentes do açúcar ou com chantili de surpresa, se veria obrigada a dizer algumas palavras.
Os olhos de Clyde admiravam os lábios com batom escuro de Henrietta se apoderando da bebida quente. Devia ter algo naqueles lábios... Algo magnético. Aos poucos, Henrietta sentia o sabor.
Ela precisará, sim, dizer algumas palavras.
— Obrigada pelo café, Clyde. — agradeceu com muito esforço. — É... O melhor que já tomei.
Ela não contava que fosse usar dessa palavra pra descrever algo que consome com tanta frequência. Não pensava que usaria dessa palavra para descrever qualquer coisa na vida, mas usou. Quando tomou o primeiro gole, não teve como não pensar: perfeito. Melhor que o café de sua mãe, melhor que o café do Benny's, melhor que o café que ela obriga Bradley a fazer caso não queira uma surra moral, melhor que o café que ela mesma faz. Parecia que Clyde leu os pensamentos dela e trouxe o melhor café do mundo dentro de um copo do Harbucks. No nível certo de açúcar, no nível certo de fervor... Perfeito.
— Ah, não foi nada. — Clyde retribuiu com falsa modéstia.
— Não, é sério. É o melhor que já tomei. É só um café normal, mas é... Perfeito. — reutilizou a palavra com ênfase. — O que tem aqui?
— Nada. Como você disse, é só café normal.
— Não é possível, tem que ter alguma coisa nisso.
— Tudo bem. — Clyde forçou um suspiro. As coisas iam bem para ele. — Vou confessar uma coisa: foi Bradley quem detalhou pra mim o jeito como você gosta do café. Andei conversado com ele e num momento ele admitiu que já foi obrigado a fazer café pra você se não quisesse ganhar uns cascudos. Depois de dar uma boa risada, perguntei como você gosta do café e com essas informações pedi para o atendente do Harbucks fazer seu "café perfeito". Pedidos personalizados são um pouco mais caros, mas valeu a pena.
Henrietta se impressionou. Clyde a convidou para vir, pretendia bancar as despesas dela, estava tratando-a bem e estava se esforçando para agradá-la. Depois dele ser tão agradável, tão solícito... A gótica percebia que tudo isso estava muito suspeito.
— O café do Harbucks já é uma fortuna naturalmente. Não precisava fazer isso.
— Tudo por você, senhorita Biggle.
Após um sorriso do rapaz, Henrietta sentiu seu rosto ardendo levemente. Estava... Corando?
— Aliás, esse não é o único presente.
— Não? — Henrietta deu graças por sua maquiagem não permitir ao vermelho do seu rosto ficar visível.
— Não. — Clyde permanecia sorrindo. — Tem mais dois. Não resisti a comprar esse porque, assim que vi, lembrei de você.
Rosas negras. Rosas modificadas geneticamente para adquirir coloração preta. Henrietta achava-as encantadoras. Várias vezes teve vontade de comprar algumas para decorar seu quarto. Não precisaria comprá-la, porque acabara de ganhar uma como presente. Uma apenas, mas sente seu rosto queimar ainda mais por ser uma rosa negra natural, não uma artificial. Existem aquelas feitas de plástico, que Henrietta detesta por suas razões.
Ele acertou na escolha do presente. Outra vez.
— Tá. — a gótica evitou contato visual. — Qual é o último?
— O último é algo que não pode ser comprado, nem embrulhado. Se vai gostar ou não, isso só depende de você.
Conforme Clyde se aproximava de olhos selados, Henrietta se dava conta, oficial e definitivamente, do que ele quis dizer com "minhas intenções com você são as melhores". Clyde estava prestes a beijá-la.
Involuntariamente, a mão esquerda da gótica empurrou duramente o rosto de Clyde. Assustado e confuso, o jogador de baseball apenas a olhava depois do gesto.
Ela não teve tempo para pensar nesta defesa. Devia ter feito por impulso.
— Vou dar uma saída, Clyde. — proclamou de forma seca antes de se levantar e procurar pelos portões da frente.
Na melhor das palavras, Henrietta se sentia usada. "O que ele estava pensando?" se perguntava. "Se ele pensou que me encher de presentes fosse fazer com que eu caísse nesse papinho, estava muito enganado".
Ela só havia beijado uma pessoa na vida, e essa pessoa a decepcionou. Clyde nem chegou a beijá-la e já a decepcionou por tê-la enganado com falsas intenções. Só os deuses poderiam dizer o que ele planejava para mais tarde. "Aquele conformista fingido vai para minha lista negra, logo abaixo do McCormick." Por pouco ela não foi capaz de humilhá-lo ali mesmo, na frente de todos os amigos dele e de todas as pessoas no restaurante. Para a sorte dele, ela tem autocontrole quando quer.
Fora do Casa Bonita, a gótica se sentou à margem da imensa fonte ornamental. Após um longo suspiro ouvindo o som da água em cascata, percebeu que a fonte estava elegantemente iluminada. O jeito como a água caía parecia uma cortina de vidro. Um ambiente ótimo e pacífico para fumar e ler.
Góticos normalmente prefeririam a escuridão de uma sala e apenas a luz de velas para iluminar um livro, mas a fonte e os postes ao redor eram o que tinha para o momento. Prontamente, tirou seu livro com os melhores poemas de Lord Byron e um cigarro da bolsa.
Em seu colo, tinha o livro e a rosa negra. Em uma mão o cigarro, em outra o café. A rosa negra era bela demais para dispensar, e o café ela só não jogou fora porque seria um tremendo desperdício.
De minuto em minuto, olhava para o relógio acima da entrada do Casa Bonita. Quando desse o horário de partir, procuraria por Clyde novamente.
* * *
Foi bem-sucedido, foi elogiado, deu presentes... Onde foi que ele errou?
Quando Henrietta se distanciou, Clyde entrou num estado de confusão onde não foi capaz de perguntar aonde ela iria ou o que havia acontecido de errado. Ele não conseguia compreender aquela garota. Estava tudo indo bem, por que ela não entrou no seu jogo?
Sorte que ninguém notou quando foi rejeitado. Ele não poderia desistir agora. Caso desistisse, teria que se vestir de líder de torcida. Kenny não perdeu a chance de perguntar "onde está a garota que come na sua mão?" quando viu que Henrietta já não estava mais sentada ao seu lado.
Não iria permitir que Kenny vencesse. Tinha até uma ideia pronta: encontrar Henrietta e enrolá-la com desculpas, dizendo que não teve consciência de seus atos quando tentou beijá-la, porque gostava dela e a achava realmente atraente. Clyde ainda poderia levar a melhor se fizesse tudo com jeito. Se conseguiu uma vez, poderia conseguir duas.
— Hola, señor.
Clyde olhou para o lado. Um garçom vestido de mariachi, típicos músicos do México, usando um grande sombrero cuja sombra cobria a maior parte do seu rosto e dono de um bigode imponente, acabara de chamar sua atenção. Em sua mão, trazia uma bandeja com nachos cobertos por um molho vermelho e fumegante.
— Como disse? — Clyde não compreendeu seu espanhol.
— Te acabo de decir hola, señor. Te gustaría probar el nuevo plato de Casa Bonita? Es gratis. — o mariachi abaixou a bandeja o bastante para estar à altura do rosto do cliente.
"Eu sei o que é provar, sei o que é prato e sei o que é grátis." Clyde já imaginava o sabor daqueles nachos cobertos com molho de aparência ótima.
— Eu aceito, sim. — pegou o prato da bandeja. — De graça, não é?
— Sí, sí. Gratis. Cortesía de la casa. — dava para notar um sorriso sob o bigode.
Clyde salivou ao pegar o primeiro nacho com molho. O mariachi permaneceu lá, observando-o comer um nacho atrás do outro. Tudo fica muito mais saboroso quando é grátis. Com o prato finalmente vazio, Clyde se sentiu saciado pelo resto da noite.
— Está aprovado, "señor". — Clyde agradeceu com a mais nova palavra aprendida.
— Estás seguro? — o mariachi não tinha mais um tom amigável e persuasivo de voz. De um hispânico gentil, toda a sua entonação se converteu rapidamente a de um verdadeiro psicopata. — No se sienta a gusto... Diferente?
Clyde estava pronto para responder que não. Pretendia dizer que estava tudo bem, que a comida era maravilhosa... Até sentir uma ardência em sua língua. Se espalhando por sua garganta. Esôfago. depois para o resto do corpo, feito trilhas de chamas. Suas mãos estavam trêmulas e suavam de forma ininterrupta. Por sinal, sentia suor se formando por todo o seu corpo.
— Senhor... — mal pôde perguntar com a dificuldade na respiração. Seu rosto inteiro tomado por vermelho — ...Que tipo de comida é essa?
— Oh... Son sólo nachos con una deliciosa salsa. Pero, me gusta llamar a este plato de... — ergueu suavemente o rosto. — El Diablo.
Por poucos segundos, antes do mariachi partir como se nada tivesse acontecido, Clyde conseguiu ver o brilho maldoso nos olhos assombreados daquele homem. Na combinação de calor interno e medo, a vítima do El Diablo teve um desmaio.
* * *
Cartman acabara de sair do banheiro. Enquanto caminhava até a lixeira mais próxima, assoviava alegremente uma música mexicana. Ao encontrar uma lixeira parcialmente vazia, remexeu no interior até ter espaço para jogar uma fantasia de mariachi e cobri-la por completo com os mesmos dejetos que tinha afastado. Voltou ao banheiro para lavar as mãos e saiu novamente, ainda assoviando a canção, e distribuiu tapas suaves por seu terno para tirar dele alguns amassados e grãos de poeira. Tudo ia muito bem.
Um plano daqueles só podia ser obra de Cartman. Mitch sugeriu que esperasse até Henrietta estar bem longe da mesa e que ninguém estivesse olhando para que ele se levantasse e se apresentasse para ela. Mas... Para quê tentar a sorte apenas puxando conversa se ele pode dar um jeito de acabar com a festa de Clyde e conseguir a confiança dela ao mesmo tempo?
Assim, o plano se sucedia: com base no que Mitch falou sobre esperar que ela estivesse bem longe para agir, ele aguardou até que a gótica se levantasse para ir ao banheiro ou desse um fora em Clyde; o que viesse primeiro. De longe, esteve observando-a o tempo inteiro. Quando ela procurava por quem estava olhando, ele desviava o olhar. Isso foi de menos, porque é possível que Henrietta não tenha percebido sua presença.
Tinha a chance de ela não se levantar em nenhum momento ou não dar um fora em Clyde. Seria um tiro no escuro. Caso não acontecesse, ele teria que arquitetar um plano B depressa. Percebendo que Henrietta empurrou o rosto do Clyde e se levantou depois de ele tentar um beijo, o plano B não seria necessário. Clyde não tem jeito com mulher: todas as suas conquistas se baseavam em presenteá-las, principalmente com sapatos, então isso já era esperado.
Então, era hora do passo dois. Aguardou que Henrietta estivesse longe, esperou que ninguém estivesse prestando atenção nele e se retirou da mesa. Foi até o seu carro estacionado fora do Casa Bonita e viu que Henrietta estava lendo um livro à margem da fonte. Com cuidado para não ser visto, e com sucesso no procedimento, carregou uma maleta com a fantasia de mariachi até o banheiro masculino e se vestiu.
Passo três: de dentro da maleta, tirou um prato de nachos com molho picante, embrulhado em plástico, que fez em sua própria casa na noite passada. Batizou o prato de El Diablo, um nome espanhol bem comum para tudo o que é difícil de suportar ou enfrentar. Pode ser feito apenas de nachos e molho, mas seu preparo teve toda uma dedicação: para o molho, precisou pesquisar na internet sobre os diversos tipos de pimentas existentes, até encontrar uma em especial: Trinidad Scorpion Butch T, a pimenta desenvolvida numa empresa australiana que é considerada a mais picante no mundo. Não teve quase nenhum trabalho para encontrar algumas unidades da pimenta. Digamos que Cartman conhece muitas pessoas.
Passou a manhã toda preparando aquilo. Trinidad Scorpion é tão forte que são necessárias luvas para manipulá-las e tão poderosa que não foi necessário esquentar o molho. Só a intensidade da pimenta, mesmo na geladeira, manteve os nachos quentes até momentos atrás.
Quarto, mas não último passo: disfarçado, com bandeja em mãos e agindo naturalmente, foi até a mesa onde todos estavam e convenceu Clyde a experimentar sua comida letal abusando de seu espanhol fluente, muito usado durante sua vida para contratar mexicanos imigrantes.
Clyde ia ingerir o molho picante e passaria mal. Teria que ser levado às pressas pro hospital, então não poderia levar Henrietta para casa ou para qualquer outro lugar como havia prometido. Nem precisou usar sua boa e velha manipulação com Clyde, porque a palavra "grátis" já o convenceu de comer aquele prato de pimenta atômica. Estava sendo um plano de mestre.
— Clyde vai ficar bem depois de comer aquilo, não é? — Mitch Conner perguntou para o hospedeiro, que caminhava para fora do estabelecimento.
— Se alguém que consome um molho feito de quase trinta pimentas letais puder ficar bem... Vai, sim.
— Quê?!
— Mitch, relaxa... Bem talvez não vá ficar, mas ele sobrevive. Com certeza.
— Cartman!
— Calma — sorriu rapidamente. — É brincadeira, Clyde vai ficar bem. Ele só comeu pimenta, não um molho feito dos pais dele. Tudo vai acabar bem, acredite em mim.
— Ah. Então, está bem.
"Ou talvez não. Quem sabe." Cartman concluiu, dando de ombros.
O que virá a seguir é a sequência do plano. Cartman já está fora do Casa Bonita; espertamente "saiu à francesa" e deixou sua conta paga. Não foi muito alta, porque ele esteve ansioso demais para comer ou usar qualquer um dos brinquedos.
Astuto como é, olhou a previsão do tempo mais cedo e viu que choverá esta noite. Oportunista como é, se aproveitará da situação. Já sentindo algumas gotas de chuva tocando seu terno, tirou um grande guarda-chuva preto do porta-malas do carro. Agora, virá a última etapa do plano de mestre; para saber se Henrietta é A Garota ou não, Cartman precisa ser alguém que poucos esperam que ele seja: precisa ser cortês.
Ao menos... Ao seu próprio modo.
* * *
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