Malaxophobia

30 Questões dolorosas


Apesar de “Passe para o Inferno” não ser um nome convidativo para um hospital, era o único centro médico em South Park. Vestida numa calça skinny preta, botas de couro rasteiras e uma blusa preta de alças finas, roupas que usou sob a fantasia da mascote, Henrietta encarava os próprios pés, suspensos enquanto sentada à beira da maca. Seu cabelo já não estava tão bagunçado, assim como o rosto não estava mais tão manchado.

Bom, se saiu bem durante o jogo de baseball e teve muitas testemunhas. Jenny Simons não teria a menor chance de provocar sua reprovação este ano. Seu dever estava cumprido. Só não esperava que os vários cigarros que fumou para se acalmar, antes da apresentação, fossem fazê-la desmaiar antes que o jogo terminasse. Aparentemente, seu esforço fez com que seus pulmões se recusassem a funcionar. Se tivesse que descrever, diria que a sensação foi de mil facas perfurando seu peito. A incapacidade de respirar corretamente e a visão se tornando escura foram experiências desesperadoras.

Estava grata a Eric por tê-la ajudado. Por dentro. Desacordada durante todo o tempo, não sabia exatamente o que ele tinha feito; mas, quando acordou nessa mesma sala, sem a fantasia e com a bolsa com suas coisas ao seu lado, o viu se retirando em silêncio para deixar a médica trabalhar. Ao pensar em seu rosto preocupado e em como poderia ter sido trazida por ele até ali, o coração dela aquecia e batia com força. No entanto, sua expressão facial era nula.

Queria falar com ele. Precisava. Por mais que Eric tivesse demonstrado, mais uma vez, o quanto se importava com ela, o pesadelo da noite passada ainda a atormentava.

A médica em questão, que acabara de ouvir seus pulmões com o estetoscópio e agora digitava num computador, tinha cabelos negros e longos divididos no meio, batom vermelho escuro nos lábios, olhos delineados e uma expressão zangada, numa vibe bem Mortícia Addams. Olhando-a discretamente, Henrietta a considerava estilosa e, de alguma forma, familiar, e não só pela similaridade com a personagem. Sem as luvas de látex, conseguia ver tatuagens se estendendo pelo dorso de suas mãos, assim como unhas pretas curtas e uma marca esbranquiçada ao redor do anelar esquerdo, indicando uso constante de aliança.

— Sorte a sua o garoto ter te socorrido. — a mulher falou pela primeira vez em muito tempo. Continuava digitando, sem olhar para a paciente. — Se não fosse a compressão cardíaca, você poderia ter morrido. Ou tido sequelas, no mínimo.

— Hm. — Henrietta emitiu, sem saber exatamente o que responder.

Silêncio. A mulher continuava seu trabalho. Henrietta passou a reparar nos objetos à mesa: uma grande caneca de café com estampa de gatinhos, um porta-lápis decorado com um pequeno Baphomet e um porta-retrato próximo ao monitor. Parecia haver uma família na fotografia. Intrigada com o visual excêntrico dos integrantes, Henrietta se inclinou um pouco para olhá-los melhor: a médica estava à direita, num vestido de veludo preto; duas crianças, aparentemente entre 9 e 12 anos, estavam à frente do casal, em que o garoto vestia roupas pretas e a garota roupas excepcionalmente comuns; e, por fim, à esquerda, estava Grief. O mesmo dono da Luv2Pain, com os mesmos cabelos arrepiados enormes e roupas de couro.

— Você — Henrietta fez uma pausa, concatenando as ideias. Conhecia o gótico veterano há quase uma década e não fazia ideia de que tinha uma família. — É esposa do Grief?

— Ah. — a contragosto, a mulher esboçou um sorriso mínimo. — Devia ter imaginado. Devem ser você e seus amigos que compram com ele desde pequenos. Sou Sofia, eu e Oliver nos conhecemos há cinco anos.

— Oliver? — a garota riu internamente. O nome soava infantil para ela, não combinava com a soturnidade do vendedor.

— O quê? Não pensou que o nome dele fosse Grief, ou pensou? — encerrou sua digitação e passou a olhá-la. Uma folha foi expelida pela impressora ao lado. — É só um apelido de gótico, é assim que o conhecem nos encontros e festas. E um bando de crianças não teria tanto respeito por um “Oliver”.

Henrietta permaneceu em silêncio. Fazia sentido. Por alto, sabia que Grief tinha uma filha de um casamento antigo, mas a menina não tinha interesse em costumes góticos. Se ele e Sofia se conheciam há poucos anos, o garoto da foto poderia ser filho dela, também de outro relacionamento. Parecia uma família harmoniosa, apesar da filha de Grief estar passando por uma fase normie difícil.

A garota gordinha sentada à beira da maca assistia à mais velha, em seu jaleco branco, calçando novamente a luva numa das mãos e vindo em sua direção. Não conseguia tirar da cabeça que já a tinha visto antes.

— Há quanto tempo você fuma? — ouviu-a perguntar.

Henrietta parou um momento, tentando se lembrar.

— Sei lá. Oito, nove.

— Meses?

— Anos.

Sofia piscou. Olhou rapidamente numa prancheta sobre a mesa.

— Você tem dezesseis anos?

— Sim.

— Você fuma desde os oito anos?!

— O que é? — demonstrou irritação. — Virou minha mãe, agora?

Sofia a encarava, indignada. Se aproximou da mais nova e, com a mão enluvada, enfiou os dedos em sua boca e examinou seus dentes, feito um cavalo. Fervendo de raiva, Henrietta se afastou.

— É muita sorte os seus dentes não estarem mais amarelados que isso. — Sofia fitava-a com frieza. — Aliás, é muita sorte você ainda ter dentes. Pelo seu exame glicêmico, você também é chegada nuns doces.

— Doces me ajudam a lidar com a ansiedade, tá legal? Não tem nada de errado nisso.

— Claro. Até porque a clínica é você, não é? — debochou, abandonando totalmente a postura profissional. — Eu tomaria vergonha nessa cara, se fosse você. A não ser que queira morrer antes dos trinta.

Novamente, Henrietta se calou. Não esboçava reações. Apesar da pouca paciência da mulher, a frase tinha causado impacto. Como qualquer gótico, Henrietta via a morte como um processo natural e inevitável ao qual não se deve temer; no entanto, essa aceitação não é o mesmo que desejar morrer.

— Me deixe adivinhar — com braços cruzados, Sofia fitava-a. — Você acha que, para ser um gótico de verdade, é preciso fumar e se entupir de cafeína. Acha que deve ter no guarda-roupa as melhores peças do mercado. Que deve andar de cara feia por aí e encarar pessoas de fora da subcultura como repulsivas ou inferiores. E, quando ser gótico se torna popular demais, perde a graça pra você.

— ...Não. — Henrietta desviou o olhar. As bochechas levemente quentes. — Não... Exatamente. Mais ou menos. Mas não sou só eu quem pensa por esse caminho, meus amigos também pensam. Sempre pensamos.

— Então vocês não passam de elitistas babacas. — pressionou com os dedos um vinco raivoso entre as sobrancelhas. Parou por um segundo para tentar se acalmar. — Veja: vocês podem, sim, comprar roupas legais. Vocês não precisam abrir o grupo de vocês pra qualquer um, ou parar de apreciar um bom café. O que quero... preciso dizer, é que não é só sobre isso. Quer um conselho pra você e seus amigos? Leiam um pouco mais sobre o gótico e parem de reproduzir estereótipos. E, principalmente — enviou novamente um olhar gelado. — Parem de ferrar a saúde de vocês. Ser gótico não tem nada a ver com isso.

Sofia entregou nas mãos da mais nova a folha impressa minutos atrás. Ao ler superficialmente o que estava na prescrição, Henrietta sentiu calafrios. O mundo parecia ruir a sua volta.

— Existem muitos caminhos pra parar de fumar. — a mulher prosseguia, alheia ao terror da outra. — Diminuir a frequência aos poucos, adesivos e chicletes de nicotina, acompanhamento psicológico... Você pode escolher um, ou todos. Mas não pode se dar o direito de não tentar nenhum.

— Eu... — parou de encarar o papel. — Não vou aceitar isso. Grief mesmo fuma horrores, desde sempre. Ele parece bem.

— Grief também fuma desde muito jovem, garota. Virou um caso à parte. É tão dependente que, quando tentou parar, desenvolveu outros problemas. Problemas respiratórios acentuados, compulsão alimentar, uma febre que não ia embora nunca... Pensamos que íamos perdê-lo. Parar não é mais uma opção pra ele.

— Ótimo. Posso seguir pelo mesmo caminho.

— O caso dele é uma exceção, Henrietta. E cigarros podem matar de muitas outras formas, até parece que preciso explicar isso pra você.

A gótica estava absurdamente desolada. Ao mesmo tempo que queria ignorar as instruções, não gostaria que um episódio como o de hoje se repetisse. É claro: não precisava dançar loucamente para se sentir mal. No dia a dia, ao subir escadas ou apertar o passo, o corpo dela já reclamava, como se pedisse por socorro. Mas ignorava. Enquanto esses episódios não interferissem verdadeiramente em sua vida, nada pretendia fazer a respeito. No fim, as próprias vivências impuseram esse freio.

— Ei. — Sofia tocou o ombro da outra. Capturou sua atenção. — Fui dura com você quanto à cultura gótica, mas saiba que já cometi os mesmos erros. Todos eles. E, se serve de consolo, eu consegui me livrar dos cigarros enquanto era tempo. Você também consegue.

Assim que a mulher se afastou, Henrietta conseguiu ver uma tatuagem específica próxima ao seu polegar, que a fez arregalar os olhos. Uma delicada tatuagem de violino.

Se lembrava de onde conhecia Sofia. Do contexto em que a conheceu, em sua cidade natal, há muito e muito tempo. Henrietta tocou onde deveria estar seu colar de crucifixo, mas tinha decidido não vir com ele.

O mundo podia, mesmo, ser bastante pequeno.

* * *

Caminhando como se fosse comparecer à sua execução, Tammy Warner trilhava um corredor do Passe para o Inferno. Kenny fora transferido de Denver para cá nas últimas horas e, por mais que não estivesse na melhor situação do mundo, visitas estavam autorizadas. Era inevitável para ela se sentir culpada.

No corredor, cruzou com Henrietta Biggle, que ia pela direção oposta. Nem mesmo olhou de volta para a Warner, mas não podia culpá-la: Tammy a conhecia, não o contrário. A cara da gótica não estava nada boa.

Soubera, por Jenny Simons, que a gordinha se apresentaria como mascote hoje. Assim como as outras meninas do Comitê, exceto por aquelas que foram prestigiar no baseball os garotos que gostam, Tammy decidiu não comparecer. Era claro que Jenny pretendia humilhá-la, e Henrietta era quase uma heroína para elas: não comparecerem foi um acordo silencioso. Inclusive, nos últimos tempos, houve um debate proposto por Wendy sobre convidá-la a participar do Comitê das Garotas. Jenny se opôs ferrenhamente. No fim, todas concordaram com o óbvio: a gótica não aceitaria o convite. A admiravam o suficiente para respeitar sua individualidade.

Parou à frente da porta do quarto de Kenny. Hesitou antes de dar três toques, se certificando de que poderia entrar. Então, a abriu.

Ele estava deitado, imóvel. Coberto até o peito, tinha ataduras firmes em torno das costelas e um braço engessado. Um lado da cabeça também estava enfaixado, e todo o corpo tinha vários hematomas enormes.

O olho azul visível se voltou na direção dela. Kenny sorriu honestamente ao vê-la, embrulhando ainda mais o estômago de Tammy com remorso.

A garota se aproximou lentamente. Viu um cartão de “Fique bem logo” sobre a mesa de cabeceira, porém viu que estava escrito “seu pau no cu” à caneta logo em seguida. Um presente carinhoso de Cartman, que o visitou anteriormente. Tammy gostaria de ter comprado balões, cartas e flores para presenteá-lo também, mas não estava em condições de pagar por elas. Puxou uma cadeira e posicionou-a ao lado da cama, onde se sentou. Forçou um sorriso sereno para ele.

— Sei que é uma pergunta idiota, mas... — Tammy iniciou. — ...Como se sente?

— Dói pra caralho quando os medicamentos perdem o efeito e se eu tentar comer algo posso vomitar sangue. Mas, tirando isso — sorriu novamente. — Eu não poderia estar melhor.

— Bom — começava a achar difícil sustentar o olhar sobre o dele. — Você praticamente nasceu de novo, Ken. Não sei como está vivo, aquele holofote te atingiu com muita força. Foi horrível.

— Isso não tem importância. Foi um preço pequeno a se pagar.

— Não tem importância? Kenny...

— Tammy, me escute. — a interrompeu. — Os musicais da Broadway...

— Tem mensagens subliminares. — o interrompeu de volta. Olhava para o chão, encabulada. — Eu sei.

Ficaram ambos em silêncio. A morena respirou fundo, tomando forças.

— Eu sabia. Sabia o tempo todo. Eu só queria testar você, saber se você queria mesmo se redimir ou se estava bancando o espertinho. — olhou-o outra vez, procurando alguma reação. Não encontrou nenhuma. Decidiu prosseguir mesmo assim. — Estive usando protetores de ouvido durante o musical. Aquele garoto no bar era Declan. Meu... Ex-namorado.

— ...Ah. — finalmente, Kenny desviou o olhar. — ...Entendi. Ele não parecia daqui.

— É da Califórnia, só está de passagem pelo Colorado. Nos conhecemos online, passei as férias por lá com ele. No fim, não deu muito certo, mas continuamos amigos. Enfim... — corou levemente. — Por conta dele que descobri sobre os musicais da Broadway.

— Ah.

Ironicamente, o silêncio era ensurdecedor. Kenny formou uma expressão de desagrado, mais para si mesmo: não era coerente estar incomodado com isso. No entanto, estava.

E por que, exatamente? Não eram ciúmes. Na verdade, sequer podia se dar o direito de sentir ciúmes. E daí que ela namorou outros caras? Já que ele próprio andou traçando as garotas da escola nos últimos anos. E, além do mais, não estava interessado em Tammy.

Talvez... Fosse uma sensação de inferioridade. Realmente não gostava de Tammy, ou só não se achava no direito de tentar qualquer coisa com ela? Bloquear qualquer tipo de sentimento é o melhor caminho nesse caso, mesmo que o esteja fazendo inconscientemente. Depois do que fez com as garotas, que direito ele teria de simplesmente deixar tudo para trás e embarcar num relacionamento sério com sua namoradinha de infância, como se nada tivesse acontecido? Muitos caras podem fazer isso, poderia até ser bastante simples. Mas ele não se considerava digno.

Era mais fácil Tammy perdoá-lo do que ele perdoar a si próprio.

Kenny considerava intrigante o efeito que uma pancada no ego pode fazer. Não sabia ao certo se estava grato ou mais frustrado com a garota gótica.

— Kenny... — a garota interrompeu seu raciocínio. Com olhos levemente marejados, recusava-se a encará-lo. — Eu sinto muito... Nada disso era pra ter acontecido, se não fosse meu esquema idiota você não estaria todo arrebentado. Eu quase matei você.

— Tammy... — sorriu na tentativa de tranquilizá-la. — Eu repito: foi um preço pequeno a se pagar. Acho que foi merecido.

— Ninguém merece se acidentar assim, Ken. Nem mesmo galinhas babacas.

— Sou obrigado a discordar. — formou um semblante de tristeza. Pelo remorso, não pelo adjetivo. Achava que fazia jus. — Achei que sairmos juntos seria legal pra quebrar o gelo e nos reaproximar. Mas, na real... Não acho que mereço seu perdão de verdade. De todas as garotas, você foi a primeira com que fiz merda. Pensei que estar em paz com você me traria redenção por todas as outras, mas não é assim que as coisas funcionam. Tenho muito o que melhorar antes de pensar em ser até mesmo um amigo seu. Então... — acomodou-se melhor sobre a cama. — Aceito de bom grado as punições do universo.

Depois de escutá-lo atentamente, a garota com aparelho nos dentes parou para absorver aquelas palavras. Soavam genuínas aos seus ouvidos. Com todo o pesar e sentimento de insuficiência que Kenny transparecia, na sua perspectiva, a cabeça dele devia estar uma grande bagunça.

Tammy suspirou.

— Culpa é o primeiro passo, Ken. Você pode, sim, se redimir, e deve fazer isso aos poucos. Se está tão sem segundas intenções quanto parece... Pode contar com minha companhia nesse processo.

— Sério? — um brilho esperançoso apareceu em seu olhar.

— Sério. — Tammy sorriu de canto.

— Obrigada, Tammy. De verdade. Acho que seria mais difícil fazer isso... — sufocou o que pretendia dizer ao fim dessa frase: “sem você”. — ...Sozinho.

— Bem, um dia de cada vez. Só vai ser difícil convencer as garotas de que você tá mesmo querendo evoluir. De qualquer modo... — ajeitou a postura sobre a cadeira. — A lição número um pra sua evolução é: vou te acompanhar, Ken. Não te consertar. Não sou terapeuta, não sou mãe e não sou babá. O único que pode te consertar é você mesmo.

— Eu... — Kenny não sabia onde enfiar sua cara. — Entendo.

— E a segunda lição: ao lidar com uma garota, comece a ser sincero sobre o que quer. Se você só quer algo casual, basta ser claro e aprender a aceitar um “não” caso ela não queira o mesmo. Você não tem que prometer mil coisas a ela, só estaria criando ilusões, e sabe muito bem disso. Não estou dizendo nada além do óbvio. É essa a sua estrategiazinha.

— Foi o que fiz com você. — Kenny lamentou. — Quando éramos crianças.

— E com outras meninas depois, Ken. Estou ciente.

Cada lição expressa por Tammy, destas em diante, o atingiam como socos. Seria um longo processo. Kenny sentia-se como um moleque imaturo, saindo da bolha e aprendendo como o mundo funciona e como se colocar no lugar dos outros.

Porque, de fato, o era.

* * *

Ao pisar na sala de espera com a prescrição médica em mãos, Henrietta olhou em volta. Encontrar quem procurava não foi difícil: apoiado contra a parede, Cartman ainda usava o uniforme verde e branco do baseball, embora sem os aparatos de proteção de receptor. Um morcego se debateu nas paredes do seu estômago. Não era exatamente uma surpresa ele ter decidido ficar e esperar por ela, mas constatar esse fato, ainda assim, lhe trazia satisfação.

O coração dela palpitou quando o olhar do antissemita cruzou o seu. Chegou a se sentir gelada quando ele começou a vir em sua direção, a ansiedade em falar com Eric se apoderou do seu ser. Mas, quando apareceu no rosto dele aquele sorriso que dizia “vou tirar uma com a sua cara”, Henrietta endureceu a expressão outra vez. Rolou os olhos por antecipação.

— Bela dança. — Eric iniciou sem nem mesmo cumprimentá-la. Estava zombando dela, mas ao mesmo tempo era um elogio sincero. — Nunca pensei que te veria dançando daquele jeito.

— Não era eu. — deu de ombros, livrando-se das emoções. — Era a Vaca.

Com um meio sorriso, Cartman emitiu uma risada curta. Fez um gesto de cabeça para que a gótica o seguisse para fora dali. Igualmente cansada daquele lugar, Henrietta o acompanhou.

— Então — enquanto caminhavam lado a lado pelo exterior do hospital, Eric começava a primeira de uma série de perguntas. As botas de ambos esmagavam a neve baixa. — Posso saber por que era você naquela fantasia? Pensei que fosse deixar outro no seu lugar.

— A Simons pressupôs que eu faria isso. Ao fim do jogo, teria que tirar a máscara pra provar que era eu ali. Caso contrário, nada de pontos de clube pra mim.

“Isso explica tantas vampiras na arquibancada”, pensou ele. “E o bom humor da Jenny.” No fim, foi tudo milimetricamente planejado pela líder das torcedoras para constranger e irritar a gótica. Aparentemente, não teve lá muito sucesso.

— Ela armou pra você e você não me disse nada?

— Eu já disse que não preciso da sua caridade. Prefiro me virar sozinha. Principalmente com a vampira de araque. — refletindo, parou um momento. — E, convenhamos. Não é como se você pudesse fazer algo a respeito, a garota é obcecada por você.

Cartman se calou quanto a esse comentário, sem saber o que dizer. Intimamente, achava a situação constrangedora: Jenny aprendeu muitas coisas com ele, mas não absorveu nada sobre autovalor. Henrietta também percebia.

— Você se saiu bem sozinha, mesmo. Tenho que admitir.

— É claro que sim. Reverti a armação e fiz voltar bem na cara dela.

— Quando pretende fazer aquela dança sem a fantasia?

Henrietta o encarou friamente. Cartman teve um riso engasgado.

Alcançaram a BMW vermelha. Depois de passar por Denver, voltado a South Park e sido usada duas vezes neste mesmo dia, a lataria já não tinha o mesmo brilho. O rapaz suspirou. Ao prestar atenção a esse detalhe, por pouco se distraiu: viu Henrietta caminhar sozinha até o lado do carona. Correu à frente dela para abrir a porta, assustando-a no processo.

— Retardado. — disse a gótica ao se sentar no interior do carro. O rapaz segurava a porta para ela.

— Desculpe por te incomodar com a minha gentileza. — zombou, satisfeito. De outra forma, ela não teria deixado-o fazer isso.

Conforme Cartman fechava a porta e se encaminhava para o outro lado, Henrietta selou os olhos. Abaixou levemente o rosto e riu, muito discretamente. Ele conseguia ser chato até sendo agradável. O que não era surpresa: ela concordou com esses termos quando quis que continuassem próximos.

E quando admitiu que não queria perdê-lo.

Abriu os olhos. O pesadelo dessa noite voltou à sua mente num lapso doloroso. A sensação que tinha antes, de tranquilidade e humor, foi substituída por horror. O pensamento de que Eric a qualquer momento se cansaria de estar com ela, preferindo qualquer outra garota, persistia.

Pelos olhos da lógica, não fazia sentido. Ele estava ali, não estava? Bem ao seu lado. Não com Simons. Não na partida de baseball. Não com qualquer outra pessoa, ou outra garota. Estava ali, com ela, sendo irritante como sempre.

Mas, pelos olhos do sentimento, não existe sentido. Só há irracionalidade. Não à toa, Henrietta passou tanto tempo os ignorando.

Por quanto tempo a mera amizade que podia oferecer seria suficiente?

Gradativamente, a gótica sentia raiva fluir por suas veias. Uma raiva intensa que a deixava quente. E por que, afinal, sentia raiva?

Estava com raiva de si mesma, pelo mesmo pensamento inseguro estar se repetindo na sua cabeça o tempo todo. Estava com raiva de Jenny, por ser uma vadia conformista insuportável que aceita ser a cadelinha sem personalidade de um cara que claramente não a quer. Uma vadia insuportável que, ainda assim, ativou um gatilho de insegurança dentro dela. E que teve poder para obrigá-la a dançar feito uma idiota.

Tinha raiva de seus traumas, por não permitirem fazer o que realmente queria. Tinha raiva até de Eric, por tê-la tirado da zona de conforto criada com tanto esforço e em que esteve segura durante anos, longe de qualquer situação relacionada a romance. Raiva de Sofia, por ter lhe dado um sermão e questionado sua legitimidade como gótica.

Por fim, tinha ódio. Ódio por ter que parar de fumar. Por arrancarem dela um dos poucos prazeres que apreciava e que a ajudava a lidar com todo o resto.

Antes de assumir a direção, Cartman olhou para a gordinha ao lado. Viu-a com braços cruzados, expressão fechada, olhar fixo para a frente e perna direita mexendo freneticamente. Todo o corpo tremia como se a ponto de explodir. Não pôde deixar de reparar que era a primeira vez vendo-a usando calças, e portanto podia ver a circunferência de suas coxas, mas fez o possível para manter o foco.

Talvez, melhor do que qualquer um, ele sabia o que era ódio. Sabia os efeitos de não lidar com isso durante muito tempo.

— Cê tá legal? — questionou, mesmo que soubesse a resposta.

Henrietta hesitou. Seu instinto natural foi de responder agressivamente, mas surpreendentemente se conteve. Calada, esticou as recomendações impressas por Sofia na direção dele. Esperava que fosse explicação o suficiente.

Ficou ainda mais surpresa quando, ao terminar de ler as prescrições, Eric não fez nenhuma piada ou comentário ácido. Afinal, ele já deixou bem claras as suas opiniões sobre o cigarro. Henrietta, inclusive, evitava fumá-los em sua presença – não por consideração, mas por saber que ele esmigalharia o cigarro na sua frente outra vez.

— ...Quanto mais de esforço acha que consegue fazer hoje? — ele perguntou, por fim.

— Quê? — ela questionou de volta, impaciente.

— Só responde. Você dançou pra caralho e quase se matou, não sei se tem que ficar de repouso ou eu sei lá.

A gótica inspirou fundo e bufou pelo nariz. — Tô bem, eu acho. Já descansei o suficiente. E há horas que não fumo.

— Ótimo. — e começou a, simplesmente, dirigir.

Ainda zangada, mas agora também curiosa, Henrietta continuou batendo o pé.

— Dá pra me dizer onde vai me levar? Essa sua pergunta foi super estranha.

— Não.

Ao escutar essa resposta, olhou para Eric com absoluto desgosto. Foi difícil para ele não cair na risada.

Sem alternativa, Henrietta olhou através da janela ao lado. Outro questionamento lhe veio à cabeça.

— O que você fez? Pra... Você sabe. Me tirar do campo de baseball e me trazer ao hospital em segurança.

— Quando você caiu, saí do campo e te carreguei até o carro. Não achei que qualquer um ali devesse te ver naquele estado. Então fiz compressão no seu peito até que respirasse e dirigi até aqui.

— Ah. — o rosto dela queimou violentamente. Não achou que poderia ficar mais constrangida. E grata. — Ambulâncias existem, você sabe. Não era responsabilidade sua.

— E ficar sentado esperando outra pessoa tomar uma atitude? — soou aborrecido — Até parece que não me conhece.

Bom. Na verdade, era costume dele sair pela tangente e deixar responsabilidades para os outros. Desde sempre. Só era diferente quando se tratava de seus interesses pessoais.

* * *

Os céus de South Park eram uma mescla de laranja e lilás durante o fim de tarde. Mesmo sem entender exatamente onde tinham chegado, Henrietta saiu do carro junto a ele. Olhou os arredores, tentando identificar o lugar. Quando avistou a placa antiga e imunda do Ferro-Velho, compreendeu que os morros não muito distantes se tratavam de pilhas de sucata. Pousou uma mão no rosto imediatamente.

— Porra, Eric. — massageava os olhos para não surtar. — Tá decidido: não vou mais sair com você. Olha os lugares em que você me traz.

— Falou a que acha o cemitério um ótimo lugar pra sair com as amigas.

— Cemitérios têm fundamento pra nós.

— Esse lugar, também. — pronunciou enquanto abria o porta-malas do carro. — Nenhum dos lugares em que te levo são por acaso.

Ao vê-lo erguer um taco de baseball em madeira maciça, Henrietta levantou uma sobrancelha. Eric virou-o para baixo e estendeu-o em sua direção, não ajudando em nada na sua confusão.

— Posso não ser um especialista, mas sei identificar ódio acumulado quando vejo. — insistia em oferecer o bastão. — E a única forma que conheço pra combater o ódio, é com mais ódio.

Após a última frase proferida pelo antissemita, a gótica entendeu rapidamente o recado. Toda a raiva que sentia, e continuara sentindo durante todo o trajeto, fluía por seu corpo em alta velocidade. Ao erguer o braço e segurar o objeto num aperto firme, sentiu a ira ser transmitida para ele, como se fossem um só ser. Tomou o taco para si e marchou, firmemente, até o interior do ferro-velho. Uma veia, circulando puro ódio, pulsava em sua testa.

Henrietta acertou com tudo uma garrafa de cerveja vazia sobre uma plataforma, estilhaçando-a em centenas de pedaços. A sensação foi surreal. Criar e destruir eram capacidades inerentes ao ser humano, mas a destruição a fazia sentir infinitamente mais poderosa.

Contrariando novamente imposições sociais, em vez de tentar acalmá-la, Eric levou-a para expressar e canalizar a raiva. A motivação dela em continuar era indescritível.

Reduziu manequins e eletrodomésticos antigos ao nada. Pisoteou e golpeou uma televisão de tubo até que ficasse irreconhecível. Vasos de cerâmica viraram pó sob as pancadas. A uma distância segura, Eric a assistia extravasar a raiva feito uma maníaca tanto envolvido quanto achando certa graça. Ele próprio esteve naquela situação algumas vezes; sua evolução pessoal, seu maior autocontrole, não tinham sido adquiridos sem trabalho.

Se assustou internamente quando a viu parar de detonar uma mobília devorada por traças e se virar em sua direção. Seu rosto raivoso era acariciado pelas mechas de cabelo rebeldes que balançavam no vento. Henrietta estava uma bagunça: com o corpo fervendo, coberta de poeira, empunhando o taco e desalinhada, parecia uma completa selvagem.

A raiva também era direcionada a ele, afinal.

Quando a gótica começou a se aproximar com pisadas duras, inicialmente Cartman achou que bateria nele. Acabou por contagiá-lo com ira, também. Mas, quando ela simplesmente abandonou o taco no caminho, ele compreendeu o que se passava.

Marchou na direção dela com convicção. Desta vez, não. O controle seria dele.

Quando envolveu os quadris dela num dos braços, seus corpos formaram um encaixe perfeito. Nuca e cabelos curtos da gótica seguros entre seus dedos, trazendo-a pra mais perto de si. Olhos selados. Seus lábios se chocaram uns nos outros com violência.

Um beijo quente. Raivoso. Intenso. Henrietta o segurou de volta, ambas as mãos em sua nuca, tomando-o e deixando-se ser tomada. O atrito entre línguas e corpos os deixavam gradativamente excitados. Cartman instintivamente segurou o cabelo ao fim do pescoço dela com mais força, cada movimento fazia parecer que travavam uma guerra. A realidade parecia se quebrar ao redor, se arrepiavam como se estivessem em meio à tempestade. Ambas as respirações falhavam.

De súbito, Henrietta abriu os olhos. Toda a realidade veio à tona de uma vez. Pôs as mãos no peito de Cartman e o empurrou; não teria sido exatamente efetivo se ele próprio não tivesse se distanciado ao perceber sua mudança de comportamento.

Olhavam um para o outro. Não necessariamente com ódio, ou confusão; eram olhares de fome. Por mais receosa que ela estivesse, a voracidade era muito clara. Respiravam pesadamente, como se tivessem corrido quilômetros.

Quase que de forma involuntária, os olhos da gótica pararam num enorme letreiro danificado, cheio de lâmpadas quebradas, aos pés de uma pilha de sucata. Era circular, similar a uma roda de carroça, com a caricatura de um homem velho assoviando ao centro, vestindo um chapéu de cowboy adornado por uma pizza. A expressão de choque profundo no rosto dela foi incontrolável.

Curioso, e ao mesmo tempo impressionado por ela estar sendo tão expressiva para variar, Cartman virou para trás. Avistou o mesmo letreiro e o identificou facilmente: era da velha pizzaria e arcade Whistlin’ Willy’s, muito frequentada por ele e os amigos na infância. Há alguns anos, a pizzaria fechou: faliu, foi vendida, ele não se lembra ao certo. Lembra-se apenas que a pizza não era essas coisas e o atendimento dependia de um processo irritante.

Não encontrando sentido na reação da gótica, voltou-se novamente para ela. Foi a vez dele de paralisar. A viu curvada, com as mãos apoiadas nos joelhos e rosto totalmente voltado para baixo, oculto pelos cabelos caídos. Sentiu como se garras geladas tivessem arrancado seu coração fora quando ouviu dela um ruído sufocado.

Henrietta estava chorando. Soluçava baixo. Trincava os dentes e arranhava o tecido da calça, fazendo força para tentar controlar o incontrolável. Se odiava por estar nesse estado. Por estar à frente de Eric. Por se lembrar. Por sentir.

Cartman se aproximou. Gostava dela enquanto uma mulher forte, orgulhosa e divertida de se incomodar; logo, vê-la tão frágil era surpreendente. Inesperado. Porém, como antes dito, gostava dela. Aprenderia a lidar com esse lado.

A tocou com cuidado, ajudando-a a se erguer. Sequer parecia a mesma Henrietta enquanto a envolvia nos braços; mais se parecia com a menina de coração partido e assustada que um dia foi.

De início, ela hesitou. Aos poucos, apoiou o rosto no ombro dele. Chorava baixinho, permitindo-se ser abraçada. Chorou até os olhos doerem.

Precisavam conversar. Precisavam verdadeiramente.

* * *