Malaxophobia
31 Fantasmas
A noite estava bem estabelecida no lado de fora. Caía uma neve finíssima e ventava bastante, em consonância com o dia que foi particularmente quente em relação aos outros. No interior do Benny’s, uma lanchonete e cafeteria de baixo custo, por outro lado, fazia um calor agradável e cheirava a café forte e sanduíches de qualidade duvidosa; os mais saborosos que existem.
Eric, enquanto devorava seu segundo hambúrguer com queijo e bacon, constatava que aquele podia não ser o melhor lugar do mundo para comer. Mas, ainda assim, pela primeira vez, não estava trazendo Henrietta a um lugar estranho. Prestara atenção ao fato de que ela gostava do Benny’s e o frequentava desde sempre com os outros góticos.
De alguma forma, aquela figura sombria e quieta à sua frente, olhando através da janela, com seu casaco dos Vacas de South Park sobre os ombros, parecia ter um pouco mais de cor ao beber da xícara de café em suas mãos. Henrietta tinha devorado o próprio hambúrguer grande e batatas fritas muito rapidamente, deixando somente um prato vazio. Devia mesmo estar com muita fome depois desse dia.
Mesmo melancólica e com manchas irrecuperáveis do que tinha sobrado da maquiagem ao redor dos olhos, Cartman a achava muito atraente. Era interessante poder contemplá-la num momento de paz, para variar; em seu normal, não aguentaria vê-la quieta e começaria a incomodá-la. Mas esse caso era especial. Estava grato e até um pouco surpreso por ela o ter acompanhado até ali depois do que aconteceu no ferro-velho.
Ao se lembrar do beijo, em específico, Eric pigarreou duas vezes com o punho sobre a boca. Tentava afastá-lo da mente. Desde o dia que foram ao shopping, imaginava-se em situação semelhante com ela. Um beijo agressivo era bem diferente de qualquer experiência que teve anteriormente. Lhe provocava sensações... Curiosas.
Depois do som, Henrietta o olhou de canto de olho. Cartman respondeu à sua inexpressividade com um sorriso cínico.
— Matou quem te matava? — o nazista perguntou casualmente antes de continuar comendo. Fazer-se de amigo esquecido era parte da dinâmica com que concordou.
— Porra, sim. — respondeu em seu tom não-emotivo usual. — Parece que comi o melhor hambúrguer do mundo. O café também não está mal. — tomou outro gole da bebida quente, até pensar num desabafo. — Sabe o que iria bem com esse café? Um cigarro. Oh, é mesmo. Eu não posso.
Eric terminava de mastigar sua última mordida. A engoliu e limpou a boca gordurosa com um guardanapo de procedência igualmente questionável.
— Sobre isso, Etta. — cruzou os dedos sobre a mesa. Agora, concentrava toda a atenção nela, deixando-a desconcertada. Ela não se deixou demonstrar, é claro. Tampouco demonstrou a atração por suas mãos. — Em circunstâncias normais, eu não concordaria em mudar os hábitos de ninguém. Ainda menos os seus. Você me aceita do jeito que eu sou, não espera que eu mude em nada, então é quase uma obrigação minha fazer o mesmo por você. Mas agora é diferente. — mostrou um sorriso afetuoso. — Eu preciso de você saudável.
A admiradora do sombrio apenas o olhava. Seu coração acelerou por um instante – respirou fundo por isso.
Procurando não pensar muito, Henrietta enfiou a mão na bolsa ao seu lado no banco longo. Retirou dois maços de cigarro; um lacrado, outro pela metade.
— Leva. — deixou-os sobre a mesa. Os empurrou na direção dele. — Destrói. Joga fora. Enfia na bunda, não importa. Só se livra disso.
Eric os pegou. Analisou os itens. Do maço aberto, retirou um único cigarro; o deslizou pela mesa de volta para ela. Os demais, guardou cuidadosamente num bolso. Sem compreender, Henrietta fitava o cigarro solitário.
— Se parar de uma vez, não vai funcionar. — Eric explicava. — É um vício. Se não lidar aos poucos, volta pior. Se aceita uma sugestão, deixa esse guardado. Fume quando achar que é a hora certa. Esse vai ser o último.
Honestamente... Henrietta não acreditava que poderia funcionar. Mas pegou o cigarro e o guardou de volta na bolsa. E que hora seria a certa?
Apoiou os cotovelos na mesa e baixou a cabeça. A xícara estava vazia; pensava em pedir a próxima. Teve um susto interno quando sua mão começou a se mover contra sua vontade.
A gótica emitiu um grunhido impaciente. Esteve feliz pela longa ausência dela.
— Muito bem, mocinha. — os rabiscos que eram os olhos de Kerstin a olhavam. Alguns pobres coitados na lanchonete também viam a cena. — Estou orgulhosa de você.
— É uma grande atitude a que está tomando. — Mitch Conner também assumiu o controle da mão de Cartman.
— Indo direto ao ponto — Kerstin assumiu seu habitual tom grosseiro. Interrompeu totalmente qualquer provável iniciativa de incentivá-la. — Você deve alguma explicação ao rapaz depois do show que deu há pouco, não acha? Ou, depois de se debulhar em lágrimas no ombro dele, vai continuar negando uma explicação?
Fitando sua mão falante, a gótica piscou. Depois, se voltou para Eric: tanto ele quanto Mitch a olhavam de volta com expectativa.
Henrietta suspirou longamente. Ergueu um dedo, chamando a garçonete para servir outra dose de café.
Não podia mais escapar.
* * *
— Sorria, querida!
O flash da câmera digital deixou-a cega por um segundo. Com a mão fofa, engordurada com pizza, limpou uma lágrima que escorreu do seu olho cinzento, esperando que o choro não tivesse aparecido na foto.
Sua mãe, Sra. Harriet Biggle, tinha um largo sorriso no rosto ao admirar sua pequena menina na câmera, com o chapéu cônico de aniversário na cabeça e um sorriso forçado. Julgou normal: crianças dessa idade sorriam assim para as fotos. Antes de lhe dar as costas outra vez, Harriet repetiu a mesma frase que dissera nos últimos vinte minutos: “Não se preocupe, minha princesa. Seus amigos já devem estar a caminho.”
Amigos. Henrietta sabia que não os tinha. Bom, não dava a mínima. Geralmente, não dava mesmo. Não sabia exatamente o que tinha pensado quando achou que viriam; podiam não gostar dela, mas talvez gostassem de pizza e jogos no Whistlin’ Willy’s. E, quem sabe, poderiam começar a gostar dela depois disso.
Olhou-se no reflexo da mesa. Tinha, oficialmente, oito anos de idade. Mas, à exceção do chapéu de festa, era a mesma que via todos os dias. Gordinha, pálida. Rosto limpo. Bochechas infladas. Expressão ora desanimada, ora mal-humorada. Um vestido rosa bebê com uma grande flor amarela bordada no centro. Cabelo longo e volumoso, loiro baunilha, preso em duas tranças grossas. Mesmo tom de cabelo do pai – ao menos, antes de começar a cair e se tornar grisalho.
Seu pai, por sinal, não estava presente. Henrietta supunha que estivesse no trabalho. Já sua mãe, numa mesa próxima, bebia e ria com algumas amigas. A menina gostaria que, ao menos ela, estivesse ali, à mesa. Mas não sabia como pedir.
— Para comer, tem que assoviar! — o garçom vestido como a mascote da casa instruía, segurando a bendita bandeja com a pizza de seis queijos que ela queria.
Com raiva, Henrietta assoviou. Recebeu no prato à frente a fatia e começou a comê-la com as mãos avidamente. Que se fodesse aquela gente da sua sala de aula. E daí que ninguém quis vir, mesmo que estivessem em plenas férias de inverno e não tivessem nada melhor para se fazer? Afinal, no inverno da árida WaKeeney, não havia tanta neve. Não o suficiente para brincarem nela. Tinha uma ventania forte e gelada, e só. Sem os colegas de turma, a comida e os jogos seriam todos para ela.
Ao sentir uma movimentação à mesa, seu cérebro parou. Henrietta afastou a fatia de pizza pela metade da boca e ergueu a cabeça.
Não tinha se enganado. Alguém tinha, mesmo, se sentado à longa mesa, numa das cadeiras mais ao centro. Era um garoto, que por acaso ela não se lembra de ter visto antes. Harriet fora responsável pelos convites, então não foi grande surpresa para a menina ver um aluno de outra turma. A surpresa estava, na verdade, em vê-lo ali; a garota tinha se conformado de que ninguém viria.
O menino era magro, tão pálido quanto ela. Usava óculos quadrados com armação azul. O cabelo era escuro, perfeitamente alinhado com gel, e vestia roupas estranhamente formais. Deixou um presente de tamanho médio, com um laço no topo, ao lado de seu prato e talheres. Recolheu da mesa um dos chapéus cônicos coloridos reservados para os convidados e, educadamente, o colocou sobre a cabeça.
Henrietta o encarava fixamente. O garoto olhou-a de volta, desconfortável.
— Feliz aniversário...? — desejou, incerto de qual era o nome dela.
— Henrietta. — respondeu com o mesmo olhar vidrado. — E você é?
— Howard. Howard West. Do terceiro ano. — ajustou os óculos de grau, empurrando-o para cima com o dedo médio. — O colégio julgou melhor avançar meu nível. Meus pais são neurocirurgiões, a educação que recebi em casa antes foi muito superior à das escolas públicas.
A menina continuava a olhá-lo, em silêncio. Howard começava a concordar com os colegas de classe que avisaram que não viriam: a Biggle era esquisita. E assustadora. Se não quisesse tanto vir ao Whistlin’ Willy’s, a que seus pais atarefados nunca tinham tempo para trazê-lo, não teria pagado para ver.
Pigarreou. Começou a empurrar o presente na direção dela, mas não se levantaria para entregá-lo.
— Aqui. — deu mais um toque na caixa. — Foi fácil conseguir esse presente da sua lista. Meus pais têm um monte desses em casa.
Sem hesitar, Henrietta se levantou. Ficou de pé ao lado do presente e desfez o laço com ansiedade. Rasgou o papel em mil pedaços. Abriu a caixa de papelão e ergueu, com dificuldade, o que estava dentro.
Olhou no vazio das órbitas de um crânio humano. Um crânio de verdade, a autenticidade era inconfundível. Era um crânio adulto, pesado e um pouco amarelado pelo tempo. Tinha uma etiqueta amarrada à mandíbula.
— Veio da Suécia. — orientava Howard. — Pertenceu a uma mulher chamada Kerstin Persner. Quando morreu, foi doada à ciência e usada em alguns estudos. Agora, é sua. Pelo menos, uma parte dela.
A menina apenas admirava o presente. Era fantástico, inimaginável; nunca pensara que realmente ganharia seu sonhado crânio verdadeiro. Que poderia contemplar um nas mãos, fora do laboratório de ciências.
Não se lembra como começou. Talvez com os especiais de Halloween dos seus desenhos favoritos que assistia na TV, ou de outras programações com visual macabro que gostava de assistir. De qualquer maneira: era fascinada, quase obcecada, por elementos de horror. E ossos. E histórias de fantasma. Visitar o pequeno cemitério da cidade e ler os escritos nos túmulos, contar quantos anos alguém viveu antes de morrer, nunca soou assustador para ela. Considerava estas atividades mais divertidas e estimulantes para praticar ler e contar do que aquelas propostas em sala de aula. E nada via de errado nisso.
Entre seus colegas, havia crianças colecionadoras de insetos. Ou obcecadas por pôneis. Ou pelo oceano. Por dinossauros. Ou pelo espaço. Qual era a maldita diferença? Por que, nela, tudo devia ser considerado anormal?
Henrietta descansou o crânio de Kerstin sobre a mesa. Se aproximou rapidamente de Howard, pernas gordinhas movendo-se uma atrás da outra. Sem aviso, abraçou seu convidado com força. O garoto permaneceu petrificado.
— ...Obrigada. — pronunciou, sem soltá-lo. — É o melhor presente do mundo.
E, ainda que sua ingenuidade não permitisse expressar, não estava falando somente de ser um presente material que há muito queria. Se referia a, enfim, ter encontrado alguém que, ao que tudo indicava, não via nada de errado com ela. Ao contrário de todos os outros.
Não muito distante, Harriet admirava as duas crianças. Sua pequena Etta encontrou um amigo, alguém realmente veio! Estava genuinamente feliz.
Viu Henrietta passar toda a tarde ao lado dele. Comeram pizza e jogaram juntos no fliperama até que se acabassem as energias. Era bom vê-la sorrindo.
— — —
As férias de inverno se encerraram. O ano letivo na WaKeeney Elementary School teria continuidade. Tendo passado o restante das férias sozinha, Henrietta contou os dias para que acabassem. Contou os dias até o momento em que poderia ver Howard novamente.
Vestida para ir à escola, dava uma última olhada no desenho que fez. Desta vez, não envolvia monstros, ou sangue, ou seus inimigos. Era apenas ela e Howard, se divertindo na pizzaria. Seus respectivos nomes estavam no desenho, com setas apontando claramente quem eram, para não deixar dúvidas. Tinha dado tudo de si.
Admirou a obra. Até seus nomes combinavam: Henrietta e Howard. Hen e How. Soava bonito para ela tanto ao ler quanto ao pronunciar. Sorria largamente; dobrou o desenho com cuidado e o inseriu num envelope. O enfeitou com um laço rosa.
Recolheu sua mochila minúscula e guardou o envelope nela cuidadosamente. Foi até a cozinha – a casa, de médio padrão, tinha apenas um andar, com dois quartos. Recolheu a lancheira do balcão, que já continha tudo o que comeria, deixada pronta pela mãe. Ambos os pais saíam para trabalhar cedo. Mais tarde, a mãe a buscaria na escola, onde Henrietta ficava durante quase todo o dia. Aulas aliadas a atividades extras preenchiam o máximo de tempo possível.
Henrietta também recolheu as moedas de emergência, separadas caso precisasse comprar comida a mais. Às vezes, sentia mais fome; em outras, roubavam sorrateiramente da sua lancheira o seu sanduíche, ou seu suco, ou os biscoitos. Ninguém nunca sabia quem era, ninguém encontrava o culpado.
Com mochila nas costas e lancheira em mãos, caminhava pela calçada até a escola, que não era distante. Ainda fazia um pouco de frio, mas não tinha neve. Apenas o mesmo solo de terra avermelhada à frente das casas, com salpicos de grama desbotada aqui e ali.
Já segurava na mão útil, fechada num punho apertado, as moedas. Há algum tempo, desde antes das férias, que as usava para um mesmo fim. Aproximando-se da pequena escola, ao ouvir os acordes daquele instrumento fantástico, seu rosto se iluminou: esteve torcendo para que a moça de preto ainda estivesse ali.
Ela sempre ficava no mesmo local. Não devia ter mais que dezoito anos. Tinha sobrancelhas finas, bastante marcadas, e cabelos pretos, longos e divididos ao meio, muito lisos. A maquiagem no rosto era peculiar: muito dramática e escura, até o batom nos lábios era preto. Também tinha vários piercings: no nariz, no lábio inferior, nas orelhas, nas bochechas. Além do vestido preto médio e justo que usava, vestia um corset apertado, cintos cheios de penduricalhos prateados, uma infinidade de colares com símbolos místicos uns sobre os outros e calçava botas pesadas cobertas de fivelas. Completando o arranjo sinistro, havia uma tatuagem delicada de violino em sua mão direita, próxima ao polegar. Instrumento esse que tocava, diariamente, por trocados.
A “moça de preto” era a criatura mais peculiar que os olhos de Henrietta já presenciaram. Era um ser que destoava completamente de qualquer outra coisa ou pessoa na cidadezinha rural de WaKeeney. E Henrietta a achava linda.
Aproximou-se dela com a mesma timidez de sempre, ganhando sua atenção. Despejou todas as moedas no estojo do violino, aberto sobre a calçada para receber doações como esta. A primeira nos últimos dias. Henrietta permitiu-se parar um momento, apenas para apreciar a música.
A violinista sorriu de canto para a menina. Era uma surpresa agradável vê-la seguindo os mesmos costumes mesmo depois das férias escolares. Quase um alívio para a alma.
Sofia fora expulsa de casa há alguns meses. Desde então, passou a morar com o namorado, que não era lá um exemplo de companheiro saudável. Lutava para conseguir uma bolsa na faculdade e lidar com as despesas afins fazendo o que sabia fazer de melhor, mas que não dava grande retorno financeiro.
Não tinha o amparo dos pais. Não tinha apoio do namorado. Fora totalmente esquecida pelas “amigas”. Lidava com uma dependência por cigarros e destilados. E, para completar, suspeitava de uma gravidez indesejada.
Por mais que estivesse sobrevivendo ao caos, aquela menina gordinha sempre colocava um sorriso no seu rosto. De alguma forma, fazia as coisas não parecerem tão ruins.
Pela primeira vez, a “moça de preto” parou de tocar. Para a decepção da garotinha.
— Aí. — distanciou o violino do pescoço. — Por quanto tempo vai ficar me dando seu dinheiro, guria?
— Enquanto você continuar tocando. — Henrietta deu de ombros.
Seguiu olhando para a criança. Muito em breve, não a veria mais. Planejava ir embora de WaKeeney e de tudo o que representava em sua vida o mais rápido possível, não sentiria falta de nada ali. Exceto por aquela menina.
Sofia tirou um dentre seus muitos colares pendurados ao pescoço. Era uma cruz prateada simples, presa por uma corda fina: um dos que mais gostava. Certamente ficaria longo demais no corpo da garotinha, mas seria parte do charme. Aproximou-se dela e, com gentileza, passou o colar ao redor de sua cabeça, como se a coroasse. Ao corpo minúsculo, o crucifixo quase alcançava os quadris.
— Ainda dão aulas de violino na sua escola, não é? — com os olhos à sua altura, Sofia perguntou à criança.
Henrietta assentiu.
— Ótimo. — sorriu com os lábios negros. — Continue o meu legado aqui. Pode ser?
A garota piscou. Sentia-se honrada pela responsabilidade em suas mãos. Aprender a tocar um instrumento tão fascinante, e se parecer mais com o alvo de sua admiração, eram ideias empolgantes. Balançou a cabeça afirmativamente outra vez.
— — —
A apreciação musical fora incrível, mas Henrietta precisava seguir seu rumo. Escondeu o colar dentro das roupas, pois temia se atrapalhar com ele. Planejava nunca mais tirá-lo.
WaKeeney Elementary era uma escola pequena, com paredes de tijolos maciços crus, erguida para abrigar os filhos até os onze anos de idade daquela população de quase dois mil habitantes. Não havia tantas crianças assim; apenas o suficiente para infernizá-la.
Tanto as meninas quanto os meninos pareciam achar tudo em Henrietta muito engraçado e estranho. O jeito que andava; o jeito que se vestia; seu penteado; seu rosto inflado. O jeito que falava, ou quando escolhia não falar. Sua barriguinha protuberante.
A garota recusava-se a enxergar os fatos. Mas, no fundo, sabia bem por que era tão cômica aos outros: era a única maldita criança gorda naquela escola de magricelas.
Mas ninguém tinha coragem de atacá-la diretamente. Não depois do que fez com Sally, uma antiga bully e colega de sala. Henrietta a puxou pelos cabelos pela sala inteira e enfiou-os no ventilador. Foi praticamente escalpelada, não sobrara quase nada. Muitas crianças testemunharam, mas ninguém podia provar. Sra. Biggle defendeu a inocência da filha com unhas e dentes. As notícias apenas circularam. Enquanto ninguém mais tentasse enfrentá-la, nenhuma providência adicional precisaria ser tomada – mas, caso encontrasse o ladrão dos seus lanches, as coisas ficariam bem feias. No mais, as opiniões dos outros sobre sua suposta agressividade não importavam.
Entretanto, doía. Doía demais. Não precisaria fazer ninguém a temer se simplesmente parassem de ser cruéis com ela. Trocaria, sem pensar duas vezes, o temor pela apreciação alheia. Por amigos.
Mas fez um amigo. O melhor entre todos eles.
Apressou o passo quando avistou Howard. Estava sozinho. Arrumava alguns livros na mochila ao chão, os óculos escorregavam pelo nariz. O coração dela saltitava no peito.
— Howard — cumprimentou com felicidade incontida, embora ainda soasse ranzinza. — Ei.
— Ah. É você. — tinha um tom indiferente ao se erguer e olhá-la. — Sabe... Por alguma razão, ninguém queria andar comigo antes. Talvez porque estou cercado de invejosos. Mas, depois que descobriram que fui ao seu aniversário, tudo ficou muito pior.
Diante dessas palavras, Henrietta recuou um passo. Sentiu seu pequeno coração murchando. Seu braço, que já estava no interior da mochila para sacar o desenho que preparou com esmero, paralisado.
— O que tem aí? — Howard indagou ao vê-la naquela posição.
Mesmo com receio, a garota ergueu o envelope lentamente. Fechou a mochila, colocou-a de volta às costas e, finalmente, entregou-o ao menino, sem conseguir olhá-lo. Recolheu a mão estendida rapidamente quando Howard pegou seu presente.
Ouviu quando ele desfez o laço. Quando parou para ver o desenho. Ouviu quando ele suspirou. Mas não o viu rolar os olhos.
— Bem. — Howard dobrou o desenho novamente. O guardou e o enfiou de qualquer maneira entre os próprios materiais. — Acho que só temos um ao outro, agora.
O rosto e os olhos de Henrietta brilharam como mil sóis. Pensara exatamente a mesma coisa.
— — —
Henrietta queria estar o tempo todo com Howard.
Era um azar enorme não estarem na mesma sala de aula. Teria se sentado ao lado dele, com toda a certeza. E todos veriam como ela tinha um amigo e o quanto não precisava de nenhum deles.
Contava os segundos para os intervalos. Sempre se sentavam juntos. Aonde ele fosse, ela também estaria. A falta de jeito para conversar com ele, aos poucos, se dissipava. Não fazia diferença para ela que ele adorasse falar de si e de como era privilegiado, ou que as conversas não rendessem muito quando partiam de temas que ela gostasse. “Amigos aceitam-se da forma como são”, ela acreditava.
Professora Amber Doughty, ou só Srta. Doughty, do segundo ano, era uma das pessoas e educadoras mais preciosas que existem por aí, de acordo tanto com alunos quanto demais profissionais da área. Era alta, vestia roupas elegantes, tinha o cabelo escuro bem curto e uma voz de trovão. Se preocupava com os alunos sob sua responsabilidade e com seus desempenhos verdadeiramente.
Entendia que Henrietta podia ser rebelde; no início, foi difícil tratarem uma com a outra. A menina não gostava da escola, nem das aulas, nem das pessoas. Mas a professora compreendia: já flagrou algumas crianças dizendo coisas horríveis sobre ela. Associava essa tratativa, simplesmente, ao medo: sabia dos boatos sobre a menina ter escalpelado uma colega e estava ciente de seus desenhos sangrentos. Poderia, também, ser inveja: Henrietta era uma leitora voraz e artista em potencial, apesar de não ser tão habilidosa em outras questões.
Assim como com todos os demais alunos, srta. Doughty escrevia o relatório anual sobre Henrietta aos poucos. Tinha uma fé inexplicável sobre a menina. Esperava que, com a tratativa certa, conseguiria ajudá-la a criar algumas memórias positivas durante o ensino fundamental. Mas lhe parecia que, sem sua influência, a garota já encontrara algumas razões para sorrir.
Anotou mentalmente que, assim que tivesse tempo, adicionaria ao relatório a proximidade entre Henrietta e Howard. Segundo sua perspectiva, eram de uma pureza sem igual. Achava-os uma graça.
— — —
Henrietta se matriculara nas aulas de violino. Era uma turma pequena, o que achou fantástico. Seria uma substituição das aulas de piano, que fazia de má vontade. Participou da primeira aula, com um instrumento iniciante de tamanho infantil emprestado pela escola, com entusiasmo.
No entanto, entusiasmo não foi o bastante. Fora completamente desajeitada em todos os aspectos. Na maneira de segurar o violino; na forma como manuseava o arco; na forma como quase o quebrou ao aprender a afiná-lo. É claro: era sua primeira aula, dificilmente acertaria em tudo. Mas a pouca paciência da instrutora e os olhares de desgosto dos colegas mais avançados em nada ajudaram.
Procurava por Howard pelos corredores. Levava o violino e o arco consigo, ansiosa para mostrá-los. Ao passar pela biblioteca, que se tratava de uma sala diminuta com poucas estantes e algumas mesas, sorriu ao encontrá-lo consultando uma velha enciclopédia de ciências.
— How! — chamou-o para fora com um sussurro.
O garoto ergueu o rosto em sua direção. Fez uma careta desgostosa. Então, se levantou.
— O que foi? — indagou à frente dela.
— Veja — exibiu o instrumento musical com orgulho.
Howard analisou o objeto de ponta a ponta. Olhou de volta para Henrietta, esperando por uma explicação.
— Me inscrevi nas aulas de violino. Não é legal? — a menina sorria com todos os dentes. — Tudo bem... Não fui tão bem de início. Mas sonhos grandes precisam começar de algum lugar.
— Esse é seu sonho?
Henrietta assentiu veementemente. Por que não, afinal? A moça de preto o fazia. Poderia se especializar na música, se tornar violinista profissional. Poderia se tornar famosa fazendo o que tanto admirava. Só precisaria de tempo e prática.
— É um sonho pequeno. Chega a ser ridículo. — a resposta dele a fez sentir uma pontada no peito. Henrietta apertou o arco com força. — Quer dizer, quais as probabilidades disso funcionar? Devia sonhar com a área médica. Ou empreendedorismo.
— ...É. — encarou o pequeno instrumento. — Talvez tenha razão.
Henrietta não prosseguiu com as aulas de violino.
— — —
No dia seguinte, a musa violinista de Henrietta não apareceu. A garota lamentou profundamente. Gostaria de falar sobre a continuidade do legado que havia prometido. E explicar por que não poderia cumpri-lo.
Depois de entregar a atividade da manhã, Henrietta observava a Srta. Doughty. A mulher estava à mesa, corrigindo as tarefas com atenção. Considerava o cabelo dela muito bonito: curto e escuro, um pouco assimétrico, bem diferente da maioria das mulheres adultas que conhecia. Bem diferente do dela mesma, inclusive. Henrietta precisava deixar seus longos cabelos sempre presos, pois alguma hora acabavam a incomodando.
A garota teve uma ideia.
— E se eu cortasse meu cabelo? — perguntou ao Howard durante o recreio.
Sentavam-se lado a lado, à uma das mesas externas. As lancheiras de ambos abertas, com sanduíches, frutas e biscoitos dispostos. Ouviam as crianças brincando no parquinho ao redor.
— Cortar, quanto? — Howard perguntou de volta.
— Como o da srta. Doughty. — mordiscou o sanduíche de geleia.
Howard olhou-a, indignado. As sobrancelhas formando um vinco.
— Por que faria isso?
— A srta. Doughty é bonita, não é? Quero me parecer com ela.
— Bonita? — sorriu com desdém. — O corte de cabelo da srta. Doughty é uma depravação. É lamentável ver uma moça jogando a beleza fora desse jeito.
— Não gosta de garotas cabelo curto? — inclinou a cabeça levemente para o lado.
— Definitivamente, não. Meu pai diz que apenas mulheres da vida têm cabelo curto.
— O que são mulheres da vida?
— Não faço ideia. Mas não me parece boa coisa. — ajeitava os óculos pelas hastes. Decidiu tirá-los para limpar. — De qualquer modo. Gosto mil vezes mais de você do jeito que está, não devia estar pensando nessas coisas.
Henrietta ficou paralisada. Seu coração disparou, as bochechas queimavam. Não fora engano: ela tinha ouvido, mesmo, aquela palavra. Howard gostava dela. Gostava dela do jeito que era. Gostava dela da mesma forma que gostava dele.
Às vezes, duvidava disso. Sentia-se uma boba por ter esse tipo de pensamento. É claro que seu How gostava dela. Por que outra razão estariam sempre juntos?
— — —
Sob o velho carvalho, no alto da colina atrás da WaKeeney Elementary, Henrietta Biggle o surpreendeu.
Ela estava com um vestido diferente do habitual. Era branco, com muitos babados, rendas e pérolas, no padrão que as mães vestem as filhas para levá-las às missas. Ela estava com os longos cabelos soltos, as madeixas claras se movendo com a brisa, diferente do usual.
Depois de Howard se cansar subindo toda a colina após as aulas, conforme ela pediu, vê-la dessa forma foi quase recompensador. Sequer parecia a mesma garota. Henrietta tinha as mãos atrás do corpo, como se escondesse algo.
— Bom, aqui estou. — o garoto ofegava à frente dela.
— Que bom que veio. — sorriu timidamente. As bochechas rosadas.
Howard levantou uma sobrancelha, aguardando. Henrietta estar mais agradável aos olhos do que o usual não modificava sua baixa paciência.
— Por que estamos aqui? — perguntou.
A garota respirou fundo. Sentia calafrios, tremores. Um formigamento esquisito na barriga; borboletas batendo com força as suas asas.
— Me acha bonita? — perguntou de volta em aflição.
— Hã... — hesitou. De todas as perguntas possíveis, essa foi a mais inesperada. — ...Acho. Nesse momento, exatamente, acho. Quase dá pra esquecer que você é gorda.
Os olhos dela se ampliaram. Sentiu o coração rachando. Foi tomada por sentimentos conflituosos.
Devia se sentir mal por aquela escolha de palavras? Acabara de ouvir que ele a achava bela, afinal. Que era gorda, era um fato inquestionável. Não podia julgá-lo por conseguir enxergar.
Henrietta selou os olhos para manter a compostura. Não devia se ofender. Não devia se magoar. Howard não devia ter feito por mal, era apenas a maneira dele de se expressar. Gostava dele como era. O aceitava como era. Pois ele, obviamente, sentia o mesmo por ela. Não tinha dúvidas. Não alimentaria dúvidas.
Tomou coragem. Henrietta moveu as mãos detrás do corpo, mostrando ao Howard o que trazia. Dois anéis de plástico, um azul e outro roxo, daqueles que se vendem em lojas de doces com enormes balas coloridas em forma de diamante no topo. Exceto pelo detalhe de que os doces, que deviam enfeitar os anéis, não estavam ali. Não suportando a ansiedade, a garota os tinha comido enquanto esperava.
Se envergonhou por ter que dá-los daquela forma. Mas esperava que ele, que a aceitava como era, compreendesse.
— O que é isso? — Howard indagou, analisando os objetos.
— São... Anéis. — Henrietta encarava os próprios pés. Estava vermelha até as orelhas. — Quero... Quero me casar com você, Howard.
O silêncio que se fez era quase mortal. Tamanha a quietude, podiam ouvir os sons do vento. O garoto não tinha expressão alguma ao olhá-la.
Não sabia, exatamente, o que pensar de Henrietta Biggle. Não sabia dizer se simplesmente apiedava-se dela, ou se algo mais o motivava a continuar a acompanhando. Antes de conhecê-la, sabia apenas que era a esquisitona que ninguém desejava se aproximar; depois de comparecer ao seu aniversário, presenteá-la, passar toda uma tarde e posteriormente todos os dias com ela, receber dela um desenho dedicado e tantos outros gestos, a interpretava como uma garota inofensiva e carente, temida por ter escolhido se defender uma única vez. Ao menos ele, como podia observar, podia tratá-la de qualquer maneira e ela continuaria ali, dócil e disponível.
Achava-a uma grande tola por se declarar para ele dessa forma. Por outro lado, a maneira como a via agora era diferente dos outros dias. Ela conseguia não parecer repulsiva, caso se esforçasse. Era fácil de lidar e controlar, não demandando grandes esforços. Não via desvantagens nesse acordo, desde que houvesse algumas condições.
— Tudo bem, por mim. — respondeu, finalmente. A viu sorrir quando o coração dela se encheu de alegria. — Desde que isso fique entre a gente.
Afinal de contas, por mais que Howard não tivesse outros amigos para dever satisfações, ninguém precisava saber que seria, verdadeiramente, o namoradinho idiota da Biggle. Os boatos, que retrucava a todo o tempo ao declará-la como feia demais para isso, já eram ruins o suficiente.
— Tudo bem! — Henrietta correspondeu com entusiasmo. Como ele esperava.
Outra vez, se calaram. Uma tensão no ar.
— E então? — disse ele. — O que fazemos agora?
— Colocamos os anéis, eu acho.
— Ah. Claro.
E trocaram as alianças de plástico, adornadas por pontas em que pedras feitas de doce deviam estar presas. Howard analisou o anel azul em seu anelar esquerdo, não compreendendo seu design estranho.
— Bom. Então, é isso? — perguntou a ela novamente.
— Acho que é agora que nos beijamos.
— Ah.
Henrietta trincava os dentes de nervoso. Mordiscou o lábio inferior. Ter sido tão direta foi um ato de coragem.
Como crianças, beijar alguém pela primeira vez era uma curiosidade que ambos nutriam. Howard sentia-se encabulado com a oportunidade, mas não necessariamente nervoso. Naquele momento, Henrietta estava bela; era o bastante, para um primeiro beijo.
A viu fechar os olhos e formar um biquinho, esperando que ele desse o próximo passo. Por dentro, Howard riu; ela era mesmo capaz de ser uma graça.
Se aproximou da garota, um pouco sem jeito. A velocidade das batidas do coração de Henrietta aumentava gradativamente, quanto mais perto ele chegava.
E então, aconteceu. Aconteceu de verdade. Henrietta “se casou” e beijou seu grande amor sob o velho carvalho. Não passara de um selinho demorado, mas para ela, significava tudo.
Pois estava certa de que o amava. E tinha certeza de que nenhum outro dia em sua vida seria melhor do que este.
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De mãos dadas com a mãe, Henrietta voltava para casa saltitante. Contara à mulher apenas o essencial: ela e Howard estavam namorando. Não achava que ela precisava saber sobre o “casamento”, ou sobre o beijo. Ao menos, ainda não.
Exausta demais para cozinhar devido à semana de trabalho, Harriet levara a filha para comer fora. Passavam pela pequeníssima rodoviária de WaKeeney, iluminada em meio à noite fria. O vapor podia ser visto nas respirações e falas alheias.
Uma pessoa conhecida, de pé na rodoviária, chamou instintivamente a atenção da menina. Era a moça de preto, agasalhada, levando uma mala de viagem com rodinhas e fumando um cigarro. Também trazia consigo o violino, pendurado ao ombro e coberto por uma capa.
Era uma visão pitoresca; Henrietta se permitiu admirá-la. Mesmo que não estivesse maquiada, a moça de preto era sombria. Melancolicamente linda, ainda mais fumando aquele cigarro. Ao finalizá-lo, o arremessou para o meio fio, onde terminou de queimar sozinho. Arrastando sua bagagem, embarcou no ônibus de dois andares sem olhar para trás. Sua passagem só de ida para a Universidade do Colorado.
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Henrietta, mantendo seus cabelos soltos, caminhava pela escola contando os passos. Em seu íntimo, achava que qualquer movimento em falso entregaria a todos o segredo que carregava em sua mochila. Itens que roubou da caixa do pai, guardada na gaveta da sala de estar.
Quando encontrou Howard, o puxou pelo corredor segurando-o pelo pulso. Não ofereceu grandes explicações. O levou até a sala de música, onde sabia que não seriam descobertos. Só era usada em dias e horários específicos.
— O que te deu, Henrietta?! — o garoto perguntou enquanto a via trancar a porta.
— Eu trouxe algo. — virou-se na direção dele. — Algo que vai nos tornar legais, como os adultos.
— Tá. O que é?
Henrietta largou, com tudo, a mochila no chão. Abriu-a com violência e começou a procurar os itens, envolvidos com papéis arrancados do caderno. Ao encontrá-los, tirou-os de lá com ansiedade e rasgou o embrulho, libertando o que ali estava.
A repulsa na expressão de Howard era bastante clara – exceto para ela, empolgada demais com o que pretendia fazer e em compartilhar esse experimento com ele. Henrietta tinha nas mãos um estojo de metal contendo alguns cigarros, assim como um isqueiro vintage com entalhes, movido a querosene.
— É essa a sua ideia de legal? — o garoto desdenhou.
— Bem... Sim. É o que os mais velhos fazem, então...
— Henrietta. Minha família trabalha com a saúde, eu não acho... — assustou-se quando ela acionou o isqueiro. Uma chama azul e laranja escapava, alta. — Ha!
Tendo perdido toda a pouca calma que tinha para com ela, estapeou sua mão, fazendo o isqueiro voar por metros. Henrietta segurou os dedos atingidos com a mão que restou, mirando Howard com olhos arregalados.
— Você é maluca?! Eu não vou fumar nada, de onde tirou essa ideia idiota?
— Tudo bem, me desculpe, tem razão — envergonhada, tentava tranquilizá-lo a todo custo. O ato lhe roubara a fala. — É que pensei que... Que...
— Pensou o quê?!
— Que... Que agora que nos casamos, achei que podíamos...
— “Nos casamos”. — repetiu, cuspindo as palavras. Viu algumas lágrimas brotarem nos olhos da garota; só o deixaram mais irritado. — Não sei o que eu estava pensando quando achei que seria uma boa ideia. Você é doida, totalmente doida, falando o tempo todo sobre histórias de terror e morte, e agora inventando essa de me fazer fumar.
— How... — o lábio inferior de Henrietta tremia. Colocava todos os esforços em não chorar. Em se manter estável. — Eu que fiquei curiosa com o cigarro. Você não precisava fazer nada, eu só queria que estivesse comigo. Eu sinto muito.
Antes que Howard pudesse responder qualquer coisa, viram um clarão e sentiram a temperatura do ambiente aumentar. Olharam simultaneamente para a fonte da luz. O isqueiro, que havia pousado numa pilha de partituras, esteve acionado durante todo o tempo, envolvendo os papéis com chamas.
O fogo se alastrava rapidamente pelos instrumentos de madeira. Pelas cadeiras velhas. Pelo carpete. A fumaça subia até os detectores de incêndio no teto em ritmo vertiginoso; em breve, o alarme soaria.
Henrietta arriscou olhar novamente para Howard. Ele já a encarava de volta, profundamente. O nojo no rosto dele a fez sentir dor física.
— Nunca mais se aproxime de mim, Henrietta Biggle. — disse o garoto ao passar por ela. — Sua esquisita.
A menina ouviu-o se aproximar da porta. Destrancou-a, despejou na lixeira ao lado a aliança de plástico, e saiu. O alarme de incêndio berrou nos quatro cantos da escola, as chamas se espalhavam mais e mais. Como se estivesse em transe, sem nenhuma expressão no rosto, Henrietta começou a dar passos lentos para ir embora.
Tudo parecia um grande borrão. Via a fumaça se espalhando pelos corredores e o calor das chamas, escapando pela sala de música, tingindo o piso de laranja. Viu colegas correndo para as portas de entrada, professores segurando portas das salas e instruindo os alunos a saírem. Alguns funcionários corriam na direção do fogo com extintores de incêndio nas mãos, mas logo viam que a situação estava fora de controle.
Ao passar pela sua sala de aula habitual, Henrietta cruzou o caminho da srta. Doughty. A professora, ao vê-la, a abraçou muito rapidamente, aliviada, pois não a tinha encontrado em lugar algum. Disse em alto e bom som algo sobre a menina precisar correr para fora, mas Henrietta não ouviu direito. Apenas continuou seu caminho no mesmo ritmo, ao mesmo tempo em que a professora continuava a dar voltas na busca de crianças que precisassem de ajuda. Encontrara uma sala com alunos dentro, as janelas trancadas e a porta bloqueada por uma viga.
Henrietta alcançou os degraus da entrada. O cabelo, o rosto e o vestido manchados com cinzas. No gramado ao redor, à uma distância segura, crianças de idades diferentes agrupavam-se, olhando assustadas para o colégio em chamas. Podia ver o veículo dos bombeiros ao fim da rua, aproximando-se.
Uma explosão foi ouvida e o fogo se multiplicou. Janelas se quebraram, espalhando cacos. O estrondo pareceu vir do refeitório.
Nenhum sinal de Howard.
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Da WaKeeney Elementary, só sobrara um pouco da estrutura. O fogo deixou a escola irreconhecível, transformando-a num esqueleto negro e vazio.
Henrietta recebeu, da mãe, a notícia de que Howard estava bem. Fora um dos primeiros alunos a sair quando tudo começou. Os materiais escolares dela, deixados para trás assim como o isqueiro e os cigarros do pai, foram consumidos pelas chamas como todo o resto.
Doze crianças tinham morrido; sufocaram numa sala de aula bloqueada. Entre eles, o garoto que furtava da lancheira de Henrietta, embora ela não o soubesse. Professora Amber Doughty teve 90% do corpo queimado tentando salvar todas elas; tudo indicava que não ia sobreviver. Os colegas da classe de Henrietta, salvos anteriormente pela professora, estavam ok.
Henrietta se sentava sobre a cama. Uma perna cruzada sobre a outra. Olhava seu quarto: normalmente vivaz, em rosa e amarelo, com bichos de pelúcia e bonecas, agora estava escuro. As cortinas seladas, a porta trancada. Não pronunciava uma única palavra há três dias.
Ao seu lado, na cama, estava um espelho de mão. Do outro, uma tesoura afiada. Suas madeixas louras, cortadas com desleixo e desalinho, se espalhavam pelo cobertor e pelo chão. O cabelo estava curto, arrepiado, assimétrico, maior do que a srta. Doughty tinha. Estava a seu próprio modo. Do jeito que o coração dela queria.
Num canto do cômodo, o crânio de Kerstin Persner seguia espatifado. A mandíbula estava num lado, a cabeça rachada no outro. Alguns dentes estavam soltos. Henrietta o tinha lançado contra a parede, criando nela uma ranhura enorme.
Prosseguir com os estudos, durante um bom tempo, estava fora de cogitação. Para Henrietta, continuar naquela cidade, também.
A garota ouviu três toques na porta. Provavelmente, era sua mãe; de licença do trabalho, esteve dedicando-se a mimá-la e servir comida o tempo todo. Principalmente doces, dos mais variados tipos, muito requisitados pela filha. Henrietta não respondeu às batidas, pois a mãe tinha uma cópia da chave do lado de fora. Entraria de qualquer maneira.
Encolheu os olhos quando a mulher destrancou a porta e deixou a luz entrar. Apesar do desastre, a primavera seria bela e ensolarada.
Harriet sorria para a filha. Trancou, a sete chaves, o que sentiu ao vê-la com seus preciosos cabelos horrivelmente cortados. Temia perturbá-la num momento tão difícil. Temia por usar palavras erradas.
Não vinha só. Apoiava uma mão sobre o ombro de um garotinho, muito loiro, com cabelo em corte de cuia e mais novo que Henrietta por pouco. Vestia roupas engomadas e tinha, segundo os pensamentos da menina, uma insuperável cara de bocó. A antipatia foi imediata.
Uma amiga psicoterapeuta de Harriet aconselhara a adoção de uma criança, para que Henrietta lidasse melhor com questões como sociabilidade, compartilhamento e trauma. Se para ela era difícil fazer e manter amigos, que tivesse um irmão.
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Como se lembrava, a cidade de WaKeeney não tinha muita neve. A nova cidade, por outro lado, tinha toda a neve que poderia desejar. Talvez Henrietta fosse gostar de South Park.
Adotar Bradley tinha sido uma escolha questionável, mas não podiam questionar os resultados. Ele e Henrietta interagiam bastante, o garoto realmente ocupou sua mente. Embora não fossem as interações mais doces e saudáveis do mundo.
Os pais de ambos apenas não contavam com o desespero da menina em abandonar WaKeeney. Com a melancolia que nunca passava. Com os desenhos constantes, feitos com giz de cera, envolvendo corações partidos e frases escritas repetidamente, como “nunca amar. Nunca se apaixonar”. Não queria cruzar o caminho de Howard West, nunca mais.
Transferências de locais de emprego foram providenciadas. Harriet e o marido encontraram oportunidades ótimas nas proximidades de uma cidadezinha gelada entre as montanhas do Colorado. A compra da nova casa e a mudança ocorreram com relativa facilidade.
Henrietta caminhava na nova escola, conhecendo cada canto durante o intervalo entre as aulas. Não se sentia insegura, ou desconfortável. Não temia a atenção negativa que recebia por ser gorda. Pisava como se tudo e todos ao redor fossem insignificantes, porque eram. O cabelo curto e claro estava orgulhosamente à mostra, assim como seu longo colar de cruz. Usava um vestido de inverno cinza, a peça mais escura que possuía. Nunca mais se mostraria ao mundo como os outros queriam.
Encontrou um local quieto e isolado. Analisou bem o espaço, para ter certeza de que estava, mesmo, só. Tirou do bolso seus pequenos segredos: um cigarro. E um isqueiro simples.
Não precisava que ninguém a acompanhasse em suas experiências. Experimentaria o maldito cigarro sozinha. E ninguém incendiaria nada. Ninguém se prejudicaria, além dela mesma.
Apoiou o cigarro nos lábios. Acendeu a ponta, tirando tragos fracos. Por pouco não se engasgou ao sentir a fumaça quente e levemente amarga invadir a garganta. O sabor e o cheiro do tabaco eram fortes. Era estranho, mas não ruim.
Começou a ouvir passos se aproximando. Irritada pela provável interrupção, Henrietta franziu o cenho, porém continuou o que estava fazendo. Tentou de tudo para que ninguém a visse fumando, mas se alguém insistia tanto em vê-la, já não se importava. Poderia lidar com a denúncia aos pais: a tratavam como se fosse de vidro desde Howard. E desde a tragédia.
Ergueu a face para ver quem parou ao lado. Era um rapaz alto e aparentemente mais velho, muito provavelmente um sextanista. Tinha cabelo crespo e o nariz notadamente torto. Vestia sobretudo preto, coturnos de couro, usava maquiagem escura nos olhos e se apoiava numa bengala, fatores que chamaram a atenção dela. Mas não tanto quanto o fato de ele também munir um cigarro aceso.
— Finalmente. — iniciava Michael. Tragou longamente o cigarro antes de continuar. — ...Alguém que não é um idiota completo nessa merda de lugar.
Michael foi respeitoso e compreensivo com a história dela. Apresentou-a a uma nova cultura, com a qual se identificou facilmente. Foi seu verdadeiro primeiro amigo.
* * *
Depois de tantos anos, relembrar esta etapa da sua história foi menos doloroso do que ela pensou que seria. Se lembrou, inclusive, de detalhes que antes pareciam sem importância.
Henrietta seguia debruçada sobre a mesa do Benny’s, acompanhada de Eric e o casal de mãos falantes. A garçonete fazia expressões feias, recolhendo mais xícaras e servindo mais cafés que o normal àquela garota já tão conhecida. Ao menos, desta vez, ela não estava fumando no interior da loja junto aos amigos bizarros.
A pior parte de trazer à tona todas aquelas memórias, como Henrietta podia garantir, não era ter exposto ao Eric a sua versão tola, conformista e emocional, deixada para trás há tanto tempo. A pior parte foi, tão escancaradamente, ter enxergado suas semelhanças com Jenny.
Talvez por isso a odiasse e ao mesmo tempo sentisse pena de Simons. Talvez, por isso, detestasse as atitudes dela em relação ao Eric, sempre rastejando por migalhas de atenção. Faziam-na lembrar da criança ingênua e apaixonada que um dia foi. A criança que, para se proteger, Henrietta precisou enterrar em si mesma.
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