O Lago Stark, nos arredores da cidade, era um ponto visitado regularmente pelos moradores de South Park. Longe das casas, do barulho e do comércio local, era visitado principalmente por quem desejava espairecer na margem das águas, sob a luz do sol. Porém, àquele horário, já não havia mais sol algum.

Na noite, o Lago era um espelho negro refletindo a lua. Os pinheiros cobertos de neve pelo bosque ao redor pareciam lanças escuras apontando para o céu. Morcegos podiam ser vistos voando de uma árvore a outra, seus ruídos característicos também podiam ser ouvidos. Sons de inúmeros animais da noite se uniam à melodia.

A princípio, Henrietta quis espairecer no cemitério da igreja. Encontrá-lo trancado, com o padre responsável olhando-os com desaprovação, foi desanimador. Não estava motivada o suficiente para uma invasão. Pelo menos, não hoje. No fim, a segunda opção acabou por ser inesperadamente satisfatória.

O carro de Cartman foi estacionado não muito distante da beira do Lago. Sentada ao lado dele sobre a traseira da BMW, a gótica fechava os olhos, se permitindo sentir e respirar os ares da noite. Ouvia atentamente cada ruído, cada chiar dos morcegos e corujas, desfrutando da sensação fria nos braços. Um cenário deliciosamente miserável.

E, apesar da paz, um cigarro fazia falta. Muita falta.

Eric arriscou olhá-la. Desde que saíram do Benny’s, Henrietta esteve ricamente maquiada. Era, mais uma vez, a gótica de personalidade forte e segura de si de que tanto gostava. Que gostava de estar perto, de olhar, de beijar... Até de brigar. Nenhum sinal da sua versão de oito anos de idade, com roupas fofas e cabelo loiro, estava à vista.

Permanecia descrente por finalmente ter descoberto o passado dela. No fim, Kenny esteve certo: a oportunidade certa viria. Mais ainda, não acreditava que aquele lado da Henrietta realmente existiu. Simplesmente não fazia jus a ela. Não pareciam a mesma pessoa.

Se perguntava como ele próprio teria agido caso a tivesse conhecido nesse período, tão carente e manipulável, tendo sido ele próprio uma criança tão terrível. Cartman balançou a cabeça rapidamente para afastar esses pensamentos. Com ambos mais velhos e amadurecidos, era como se a vida os tivesse preparado para que se conhecessem dentro das condições corretas. Estava grato por isso. E estava satisfeito por, seja lá onde estivesse, o namoradinho de infância da Henrietta estar plenamente bem. De outra forma, não poderia fazê-lo sofrer.

Obviamente, não dava a mínima se, quando tudo aconteceu, Howard West não passasse de uma criança. Fosse como fosse, acabou rendendo a ele muito trabalho.

— Deve estar pensando que fui uma idiota. — a fala da gótica o surpreendeu. Esteve quieta e bastante calma durante vários minutos. Eric havia decidido que daria a ela esse tempo; não era um bom momento para gracinhas. — Caso esteja... Não tiro a sua razão.

— Não estou. — deu de ombros. Ficou mais à vontade sobre o carro. — Não é a primeira a entregar o coração pra pessoa errada, você sabe.

Você já fez isso?

— Ah... Já. — sorriu com amargura. — Já sentiram muito nojo de mim antes que eu conseguisse alguma coisa. Como sabe, não fui o garoto mais agradável do mundo. Nem socialmente, nem fisicamente.

— Se essa era a opinião de todo mundo — voltou o rosto para ele. — Sinto dizer, mas sou obrigada a discordar. Acho que... — exibiu um sorriso discreto. — Acho que sempre gostei de você.

Eric arqueou as sobrancelhas. Os olhos levemente arregalados. Isso, sim, era inesperado: Henrietta sendo aberta quanto aos seus sentimentos, sem parecer praticamente sentir dor ao expressá-los. A declaração, em si, foi tão surpreendente quanto.

Ela prosseguia:

— Quando eu disse que você não é um conformista, e falei todas aquelas coisas... Que não vou dizer de novo. — fechou a cara ao ver a presunção no rosto dele. — Enfim. Tudo o que disse sobre você, não comecei a ver agora. Eu via desde que éramos crianças. De todos os fracassados da escola, fora o meu grupo, você sempre se destacou pra mim. — selou os olhos. Voltou-se novamente para o lago. — ...E é por isso que eu fui embora.

O nazista continuava olhando diretamente para ela. Piscou uma vez. Então, expressou em voz alta, com toda a vontade do seu coração:

— Nem fodendo.

Henrietta tornou a olhar para ele. Nenhuma emoção no rosto.

— Eu também gostava de você. — confessou, irritado. — E você também se destacava pra mim. Os caras adoravam tirar uma comigo porque nós dois éramos gordos, mas honestamente, eu tava pouco me fodendo. Você sempre teve estilo próprio, personalidade, sempre te achei bonita, isso tudo me chamou a atenção. E quando pensei em me apresentar pra você, você sumiu.

O rosto da gótica aqueceu, muito rápido. O ritmo cardíaco acelerado. Vários cenários diferentes, seguidos de diferentes escolhas que poderia ter feito no passado, se desenrolavam em sua consciência.

Entreolharam-se durante alguns segundos. Para Henrietta, pareceram uma eternidade.

— ...Prossiga. — Eric solicitou, apesar da frustração evidente.

— Certo. — tornou a olhar para frente. Tomou um momento para pensar; tinha perdido completamente o raciocínio. E a compostura. — Bem. Depois de tudo o que ouviu, deve ter entendido por que fui embora. E por que, quando voltei, tentei manter distância de você.

— É. Tentou. — sorriu, desdenhoso. Henrietta o olhava, tanto impaciente quanto inexpressiva. — E entendi. Seria bem difícil confiar em alguém depois dessa experiência.

A gótica balançou a cabeça, afirmativa e sutilmente. Se ele compreendeu verdadeiramente, não tinha muito mais a ser dito. E ela, na verdade, não desejava dizer mais nada.

Lentamente, começou a apoiar as costas sobre o carro. Deitou-se conforme as limitações, deixando a cabeça encostar no vidro. Cartman, sem escrúpulos, não demorou a fazer o mesmo, acomodando-se ao lado. Apesar disso, Henrietta permaneceu imóvel.

Contemplavam o céu e suas minúsculas estrelas. No silêncio, Henrietta sentia-se plenamente bem. Eric, por outro lado, tamborilou os dedos sobre a lataria. Via-se incapaz de continuar calado.

— Eu não agiria como aquele garoto. — enunciou. — ...Você sabe.

— É. — suspirou rapidamente. — Acho que sei.

“Acho” era um eufemismo. Ela estava praticamente certa disso; Eric conseguia ser completamente diferente de Howard. Apenas para começar, a atração que tinham um pelo outro não era unilateral como aconteceu com o garoto de WaKeeney. Tampouco a vontade de estarem juntos. A diferença entre as personalidades dos dois garotos também era notável; sequer conseguia compará-los. E, de certa forma, ela sempre esteve ciente desse fato. Não era à toa que Eric já tinha captado sua atenção há tantos anos.

Por mais que estivesse plácida, sentindo-se leve depois de se expor a ele, ainda sentia um temor incontrolável. O trauma poderia até não se repetir como da última vez, mas nada impedia que se repetisse com uma roupagem diferente. Tragédias sabem bem como se reinventar.

— Sabe no que estive pensando? — Henrietta iniciou, no desejo de se desviar daquela conversa. Tinha algo que queria tirar à limpo. — Seu amigo que não morre tentou me convidar ao Casa Bonita. Clyde tentou em seguida, e conseguiu, mas no final, fracassou. Então, você apareceu. — virou o rosto para olhá-lo. — Estavam em algum tipo de aposta, Eric Cartman?

Fazendo-a erguer uma sobrancelha, ele riu. Riu genuinamente.

— Não. — ainda tinha um sorriso. Olhava profundamente nos olhos dela. — Eles? Estavam. Eu, não.

Irritada, Henrietta se ergueu. Se sentou à beira do carro novamente.

— Meio difícil acreditar nisso, diante das circunstâncias. — encarava os pés, com raiva.

De onde estava, Cartman teve uma respiração funda. Também se ergueu. Mas, em vez de se sentar, se levantou completamente, plantando os pés no chão. Caminhou até parar à frente dela.

Cartman se posicionou entre suas pernas. As mãos apoiadas sobre o carro, uma em cada lado do seu corpo. Olhava-a de cima, os rostos perigosamente próximos, as respirações se misturavam. Olhares fixos um no outro. O coração de Henrietta retumbava na caixa torácica.

— Quer saber por que me aproximei de você naquele dia? — falou ao ouvido da gótica. Por um momento deixou, propositalmente, que seus lábios a tocassem. Sentiu-a tremer sob ele. — Porque eu quis você. Armei pra cima do Clyde, te tirei da chuva, te coloquei no meu carro, porque eu quis. E, depois de tudo o que vivi com você desde então, eu não deixaria outro fazer o que tô fazendo agora. Foderia com qualquer um que tentasse. E nada disso tem a ver com a porra de uma aposta.

Henrietta se arrepiava. Quando ele tornou a olhá-la nos olhos, a garota encarava-o como um cervo sob a luz de faróis. Eric sorriu. Era interessante tê-la sob domínio, para variar.

Os pensamentos da garota fervilhavam. O momento em que se apresentaram um para o outro, que para ela parecera aleatório, tinha sido planejado. Em minúcias. E o mariachi no Casa Bonita, que quase mandou Clyde para o inferno... Foi ele.

É claro. É claro que foi Cartman. Talvez, se o tivesse visto à caráter, tivesse tirado essa conclusão antes. Ainda que ele não estivesse sendo preciso sobre aquele dia, todo o planejamento se desenrolava na mente dela a partir daquelas poucas palavras. Era, simplesmente, a natureza de Eric Cartman.

— Agora sei por que o medo te controla tanto. — ele prosseguia. A proximidade começava a deixá-la com falta de ar. Mas não se via capaz de se mover. E ele sequer a segurava. — Você não é dada a relações rasas. Quando quer alguém, você se entrega, e espera que o outro faça o mesmo. O seu medo é que isso não aconteça. — tocou o queixo dela e, com firmeza, levantou seu rosto. Certificava-se de que ela o olhava. De que absorvia cada palavra. — Então eu te pergunto, Henrietta. Eu pareço não querer você?

A gótica entreabriu os lábios na intenção de responder. Repentinamente furiosa consigo mesma, fechou os olhos. Quase não acreditava na posição em que se encontrava, sem palavras feito um bichinho assustado.

Quando ele pôs a mão em seu pescoço, ela se desarmou outra vez. Se derreteu sob o toque quente, arrepiando a pele fria. Quando sentiu os lábios dele tomando os seus, pareceu que o coração dela ia explodir. Que ela ia explodir. Que o lago ia secar e o bosque arderia em chamas.

Tão rápido quanto começou, o beijo terminou. Eric ainda tocava o pescoço dela, o polegar em sua bochecha. Respirando com dificuldade, Henrietta arriscou algumas palavras:

— Nada garante que não vai deixar de querer.

— Etta. — mostrou um meio sorriso. — Acredite ou não, eu penso como você. Já fui rejeitado demais. Ser apreciado de verdade, de verdade mesmo, é do caralho. E você é do caralho. Seria burrice não te querer mais.

— E os relacionamentos que teve antes? — perguntava, totalmente ciente do quanto soava insensível. — Todos acabaram por alguma razão.

— Só pra começar, nenhuma delas era você. Nenhuma me via como você vê. Acha que eu tinha tanta liberdade com as outras?

— ...Não. — fez um biquinho irritado. Parou para pensar. — Seria difícil acreditar que outra teria te aguentado.

Dessa vez, Cartman não riu. Henrietta, ao contrário; sufocou um riso. Agora, sim, ele sorriu. Ao menos, por dentro.

— É só a merda da minha opinião, mas — acariciou o rosto dela com o polegar. — Acho que valeria tentar. Se o seu medo é que eu te decepcione, você tem cinco amigos no seu grupo. Só a Shelly arrancaria minhas bolas se eu não andasse na linha, ela gosta mesmo de você. E, pelo que soube, as garotas do colégio te elogiam pelos quatro cantos desde o que fez com o Kenny. Se elas se organizarem direitinho, não dou um dia pra eu acordar numa cova.

Dessa vez, ela riu. Riu de verdade. De se formarem lágrimas. Não sabia ao certo se por achar graça de fato, ou se era só nervoso. Ou desespero.

— Tá me pedindo em namoro, Eric Cartman? — perguntou ao secar um dos olhos, num surto repentino de coragem.

— Estou. — respondeu, calma e simplesmente. Henrietta se encolheu. — E não pense que um “não” vai me desmotivar. Nós dois sabemos que você também me quer.

Henrietta abriu a boca para retrucar. Porém, nada veio à cabeça. Nada além de concordância. E se odiou.

Diante do silêncio, o antissemita acrescentou:

— Posso fazer um pedido formal, se quiser.

— Meus deuses, não — ela respondeu imediatamente, ao que Cartman riu. Imaginava essa reação.

— Bom. E então? — indagou, divertindo-se. — O que me diz?

A gótica torceu os lábios. Voltou os olhos para qualquer direção, para qualquer coisa que não fosse ele, enquanto seu corpo inteiro queimava. Uma voz, que parecia uma versão infantil dela mesma, gritava em sua mente. Pedia socorro. Clamava para que, em hipótese alguma, fizesse isso.

Mas havia outra voz. Uma mais madura e menos perdida, que pedia calmamente para ignorar a anterior. Que dizia que, ainda que fracassassem, ela teria mais a ganhar do que perder. E que correr esse risco, ao fim de tudo, poderia ser menos doloroso do que a segurança de nunca ter tentado.

— Tá. — tensa, disse a muito custo. Os olhos duramente fechados.

Cartman sorriu cruelmente.

— Tá, o quê?

— ...Tá. — repetiu, incapaz de usar outra palavra no lugar. — Tá bom. Ok? Eu vou... — parou para se autocorrigir. — Nós. Nós vamos tentar... — procurou mentalmente por uma nomenclatura. — Cara.

Incapaz de segurar, o nazista ergueu o rosto e gargalhou.

— Nossa, tão romântica. — colocou novamente os olhos nos dela. — Tô quase chorando de emoção.

— Olha Eric, por que não vai se f...

Bem, isso era clichê. E romântico. Calá-la com um beijo... Que original.

Mas não era bem esse pensamento que se passava na mente dela. Na verdade, naquele momento, Henrietta não pensava em nada. Só conseguia sentir o calor, o cheiro, e o toque. A textura macia e quente do toque de lábios. E as batidas nervosas, porém lentas, do seu coração.

Silenciosamente, às costas dela, Cartman erguia um punho trêmulo e triunfante. Nas profundezas da sua mente, a canção da vitória tocava.

* * *

Acomodados no interior, trancavam as portas dianteiras do carro. Ela no carona, ele na direção. Ainda era fim de semana, não era como se tivessem hora para voltar – e se tivessem, a ignorariam, de toda forma. Porém, por mais certa que estivesse da sua decisão, Henrietta precisava despressurizar. Sozinha. Calada.

Para Cartman, estava tudo bem. A gótica poderia se isolar tranquilamente; agora, decididamente, ela não conseguiria fugir dele.

A escuridão na saída da região do Lago era quase total. No caminho de terra úmida, entre as árvores macabras com animais de olhos brilhantes olhando-os das copas, pareciam estar num cenário de filme de terror. Mas Henrietta, sem surpresas, parecia muito confortável na visão dele.

O rapaz estendeu os dedos até seu celular, próximo ao freio de mão. Ainda se concentrava no caminho, até então em reta contínua. Ciente de que o celular estava sincronizado com o rádio automotivo, deslizava a tela até encontrar a música que queria. Ter aprendido uma coisa ou outra sobre cultura gótica com Henrietta o ofereceu alguma noção sobre os gêneros musicais.

Observando a paisagem através da janela ao lado, Henrietta arregalou os olhos ao ouvir o início de “Love Me To Death”, do The Mission, tocar em volume ambiente. Banda oitentista de rock gótico, um verdadeiro clássico; Eric merecia ser elogiado pela escolha. Todavia, obviamente, essa canção específica estava entre as que ela evitava. Acreditar e pensar no amor há muito não era seu feitio.

Ao prestar mais atenção à música, ela compreendeu que esta não se tratava apenas de amar até a morte. Toda a letra era uma metáfora claramente sexual. Se sentiu constrangida automaticamente.

— Caralho. — vermelha, cobriu metade do rosto. — Eu te odeio.

Cartman segurou o riso dentro de si, uma expressão de pura serenidade. É claro que fez de propósito. Também estava tudo bem ela querer que ficassem um pouco em silêncio; para tirá-la do sério, ele não precisava dizer nada. Criatividade bastava.

— Nós dois sabemos que não odeia. — e continuou dirigindo tranquilamente.

Para o desgosto dele, chegaram rápido demais. Depois de estacionar na calçada dos Biggle, Cartman apenas saiu do carro, sem explicar nada. Dando de ombros, Henrietta recolheu suas coisas e também tomou iniciativa para sair.

Porém, quando abriu a porta ao lado e fez um mínimo movimento para se levantar, foi surpreendida pela mão do antissemita empurrando-a de volta para dentro. Trancou-a novamente em seguida.

Feito um lorde, um gentleman, no momento seguinte Eric abriu a porta para ela, fazendo um cortês gesto de mão para ajudá-la a se erguer. De canto de olho, Henrietta mirava-o profundamente. Uma expressão nula que encobria a perplexidade.

— Meus deuses. — mesmo contrariada, segurou a mão dele e se permitiu ser ajudada. — Quê que eu tô fazendo da minha vida.

— Tá fodida. — oferecendo o braço a ela, a conduzia pelo caminho de concreto até a casa.

Ao pararem diante da porta, Cartman a olhava intensamente. Uma euforia sem fim tomava conta dele. Estava, mesmo, inspirado pela ideia de mexer com ela. Aquela garota à sua frente — interessante, segura, gostosa, olhando-o com aquela cara de poucos amigos — era dele mesmo. Oficialmente, agora. Sentia-se como uma criança que, depois de muito se esforçar e esperar, finalmente conseguiu o que queria.

Ele conseguia perturbá-la. Com maestria, talvez. Mas também sabia como tranquilizá-la, a seu próprio modo. E queria fazê-lo.

— É aqui que que nos separamos. — segurou os dedos da gótica entre os dele. Henrietta apenas olhava as mãos juntas, sem nenhuma expressão. — Mas se prepara que amanhã tem mais. Não tentaria me esconder, se fosse você.

— Que seja. — respondeu de imediato.

Tinha sido uma tentativa de soar fria, até grosseira. No entanto, o que saiu foi uma voz ansiosa e trêmula. Não olhava para ele de nenhuma forma. Cartman sorriu de canto.

— Etta. — se aproximou dela. A garota olhá-lo pareceu um grande sacrifício. Levantou o rosto na direção dele com lentidão. — Acho que não pensou numa coisa. Devia ter mais medo de eu nunca mais sair de perto de você.

— ...Você tem um ponto. — cruzou os braços sobre o peito.

Incapaz de parar de admirar os lábios dela, Cartman tomou-os outra vez. Sem avisos. Os olhos de Henrietta ampliados ao máximo. Se sujaria com o batom preto de novo, isso não importava.

A segurava, respectivamente, pelo quadril e pela nuca, trazendo-a para extremamente perto de si. Ela ainda cheirava a perfume, incenso, velas queimando, cigarros e até um pouco de suor, suave conforme a natureza feminina permitia. Porém, o gosto dos cigarros no beijo soava menor em relação a outras vezes, fator que o tornava ainda mais saboroso. Se acostumaria muito facilmente à ideia de não vê-la fumar mais.

Para a surpresa de Cartman, sentiu os dedos de ambas as mãos dela no seu cabelo. Sentiu-a reduzir ainda mais a distância entre eles, aprofundando o beijo, tocando-o com a língua. “Que porra...?!” foi o que se passou em seus pensamentos; quando ela segurou sua cabeça com firmeza, assumindo o controle, quem se arrepiou foi ele.

Um tanto atordoado pela novidade, Cartman lutou para retomar o controle. Envolveu totalmente o quadril da gótica, aumentou o aperto sobre seu corpo, tentou reconduzir o beijo. Gradativamente, o que era para ser um momento afetuoso se tornou uma briga pelo poder. Talvez inconscientemente, o nazista a conduziu em direção à casa, na tentativa de apoiá-la na parede como um facilitador do seu trabalho. No entanto, a apoiou sobre a porta de entrada. Nenhum deles contava que não estava trancada.

Caíram com tudo sobre o carpete da sala dos Biggle. Henrietta emitiu um ruído agudo e estrangulado, que se não fosse seu autocontrole teria sido um grito. Por reflexo, durante a queda, Cartman se posicionou de forma que seu peso não decaísse sobre ela, e ao mesmo tempo a segurou de maneira a amenizar seus danos. Ambos ofegavam.

No sofá da sala, usando enormes fones de ouvido e com o controle do videogame nas mãos, Bradley os olhava embasbacado. Os três encaravam-se mutuamente, milhares de interrogações pareciam brotar da cabeça do loiro. Cartman se reposicionou para se levantar, enquanto Henrietta se levantou num salto.

Ao mesmo tempo em que o racista se erguia e se concertava, a gótica o olhou uma última vez. Pareceu ter alguma intenção de dizer algo, mas acabou por não dizê-lo. Disparou na direção das escadas e as subiu sem olhar para trás.

Eric permaneceu parado diante da sala. Uma pequena parte dele estava frustrada, a outra queria rir. Ainda melhorariam a questão das despedidas.

Saiu da casa, agarrou a maçaneta e começou a fechar a porta. Porém, notando que Bradley ainda o encarava, fez gestos balançando os dedos médios e cantarolou sem emitir som. O Biggle, com ouvidos totalmente selados pelos fones, antes que ele fosse embora, conseguiu ler nos lábios do antissemita algo que se parecia com “Nyah-nyah-nyah-nyah, eu tô pegando sua irmã”.

Simplesmente não resistiu.

* * *

Ela esteve, mesmo, precisando de um banho.

Por pouco não acabou com a água do quarteirão inteiro. Henrietta ficou tempo demais sob o chuveiro, até os dedos enrugarem, apenas respirando o vapor e deixando a água cair no seu corpo. Esperava que o banho levasse embora o suor e o cansaço, mas que também lavasse o seu turbilhão de pensamentos acelerados.

Sentada em sua cama, vestindo sua camisola de seda negra, tinha o cabelo úmido e murcho, sem o volume que lhe era característico. No celular, que deixou de lado, tinha mensagens de Shelly, de Karen, de Michael e ligações não atendidas de Pete. Não surpreendendo-a, nada de Firkle. Certamente souberam do que aconteceu no jogo de baseball, mas não por onde ela esteve depois. Não estava com cabeça para dar retorno a nenhum deles.

Não sabia por onde começar a assimilar as coisas. Entender, por exemplo, que sua mão falante era influenciada por uma mulher morta, ou que Sofia, do Hospital Passe para o Inferno e esposa de Grief, foi sua figura inspiradora na infância e antiga proprietária do seu colar favorito... Essas questões estavam na parte fácil.

Em seus discretos fones de ouvido, ouvia uma das melhores músicas do Plastique Noir, segundo ela mesma. Prezava-a enormemente, pois a escutava diária e quase que religiosamente há anos. “Desire or Disease” representava, em versos poéticos como em qualquer canção gótica, tudo o que ela pensava sobre paixão e relacionamentos. E ouvi-la, desta vez, não a fazia se sentir uma fortaleza. Só causava um aperto gelado no peito.

“A paixão é um inferno em forma de coração

Um clichê do amor que conhecemos muito bem.

Então, vá em frente, caia em desgraça

Nós estamos condenados e não podemos escapar.”

“Bem...” Henrietta pensava ao suspirar. “Pelo menos, eu tentei.”

O desejo, a paixão e o amor são diferentes estágios da mesma estupidez, fadados à dor e ao fracasso. E, no fim, todos são pegos por suas garras e se rendem. Cedo ou tarde, todos dançam essa valsa da insanidade.

No silêncio do seu quarto sombrio e extremamente decorado, a gótica acendeu seu último cigarro. Precisava acalmar os ânimos. Para ela, esse parecia bastante com o tal do momento certo.

* * *