Mal Particular
1 Capítulo 1 - Prefácio
Notas iniciais
Qualquer barulho existente naquele momento cessou.
Carros circulando, pessoas conversando, cachorros latindo, pássaros cantando. Todos esses barulhos calaram-se naquele exato momento.
Escutava-se apenas o som do vento que batia nas folhas das árvores, fazendo um uivo baixo e calmo, tranqüilo e triste.
“Estamos aqui hoje...”- dizia o Padre com voz profissional, não transparecendo qualquer tipo de emoção –“Para um momento difícil e triste. Todos nós sabemos que, de certa forma, nosso querido amigo David Mitchell está em paz eterna nesse momento.”
Meu coração se apertou ao escutar seu nome.
Meu pai, David Mitchell, havia sido assassinado quando voltava do trabalho. Com um tiro em sua cabeça e um em seu maxilar fez com que não fosse possível abrir o caixão.
Sendo assim...a última vez que vira meu pai foi a três dias atrás, no meu aniversário de treze anos. Onde eu escutei pela ultima vez “Eu te amo” saindo de seus lábios ao me abraçar, com aquele abraço quente e seguro.
O Padre continuava com suas frases feitas, todos choravam, ou fingiam que choravam, minha mãe estava sentada em um canto mais distante, chorando. Meu irmão já havia voltado para a Flórida a cinco minutos atrás, nem esperando seu pai ser enterrado primeiro para voltar ao trabalho. Todos meus tios e tias estavam em minha volta, estavam tristes...ou não.
Anne não estava aqui, mesmo pensando que ela iria fazer falta, ela não fazia. Porque tudo que eu pensava era naquele momento, naquele vazio, naquela dor.
Meu rosto estava sem expressão, eu olhava para o nada em minha frente e as lágrimas caíam. Mas nada de escândalo, como minha mãe havia feito mais cedo.
Todos havia ido embora, meu Tio Martin levara minha mãe para casa já que estava mal. Então apenas eu sobrara, apenas eu estava ali junto de meu pai, sentada no chão observando seu túmulo. Eu não conseguia acreditar que ele havia ido, eu não queria acreditar nisso.
O céu havia se fechado e os primeiros pingos de água repousavam em meu rosto. Fechei meus olhos, cheirando a brisa fria que faziam meus cabelos voarem. E me lembrara das frases que meu pai me dizia, quando minha mãe me batia pelo efeito do álcool. Ele me achava no quarto no canto, chorando descontrolavelmente com o corpo cheio de hematomas e cortes.
“Anjo, sei que as vezes o mundo não é justo com você. Mas saiba que tudo terminará bem...”
A chuva se tornara mais forte, a essa altura meu corpo inteiro já estava ensopado. Abri meus olhos, me coloquei de pé e olhei para o túmulo pela última vez.
“Saiba que eu sempre vou continuar te amando”
Sussurrei, quase sem voz.
Senti um grande arrepio, meus pelos da nunca se eriçaram e senti meu corpo tremer. Parecia que ali estava congelando, eu sentia alguém por ali. Eu sentia uma presença perto de mim.
Olhei para os lados e o vi.
Estava encostado na árvore, com um sobretudo preto, uma camiseta preta meio rasgada por baixo, calça preta uma bota preta.
Seus cabelos eram de tamanho mediano, liso e desalinhado, escuro como a noite...
Não pude ver seu rosto muito bem, seus olhos eram impossíveis de ver. Mas tive a impressão de que estava sorrindo.
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