Maktub

10 Vendida novamente


Notas iniciais
Nhaja esta descobrindo um novo caminho em sua vida e pelo visto essa não sera nada fácil.....

Algo áspero e mau cheiroso tocava meu rosto, devagar abri os olhos e me assustei vendo várias cabras ao meu redor, levei um tempo para lembrar como tinha ido parar naquele curral fedido, então me lembrei da noite e percebi que não tinha sido um pesadelo.Uma mulher me olhava desconfiada, talvez fosse pelas roupas rasgadas ou por ter dormido junto de cabras. Não importa o que ela pensava eu nem dei tempo de ela gritar comigo ou chamar alguém, precisava voltar para casa, talvez Raafi já tivesse voltado. Ele precisava saber o que o velho pervertido pretendia fazer comigo. Parei de correr a algumas quadras da casa, eu não fazia idéia de como contar aquilo. Caminhando devagar eu repassava a conversa que teria com Raafi, o modo como contaria tudo. Fiquei tão distraída que nem percebi os dois homens vindo pelas minhas costas e me agarrando. Fui arrastada pelas ruas de terras. As pessoas me olhavam curiosas, algumas me lançavam um olhar de pena, mas a maioria dos olhares era de acusação.Fui levada para uma casa e jogada no chão como se fosse um saco vazio,quando tentei me levantar novamente fui ao chão, alguém riu enquanto pisava em minhas costas, naquele momento me senti humilhada. Meus olhos ardiam dentro de mim, eu lutava para não chorar, mãos ásperas puxaram meus cabelos curvando meu pescoço para trás, senti aquele hálito fedido junto da minha pele.

— O chão sempre foi seu lugar.

Aquele velho asqueroso se vangloriava sobre mim, quanto mais eu demonstrava raiva mais ele puxava meu cabelo causando dor, ouvi risos, não consegui mover a cabeça para ver, mas sabia que um daqueles risos pertencia a Luloah, e naquele momento eu queria estar livre para socar aquele rosto debochado, queria ver o sangue escorrer daquele nariz fino.

Sei que aquela tortura poderia ter durado horas, mas foi interrompida por um homem. O velho puxou meus cabelos para me colocar em pé, um quarto homem entrava naquela casa, se vestia como um comerciante, turbante marrom e uma farta barba. Eu nunca entendia o costume onde homens se abraçam e se beijam no rosto mesmo nunca tendo se visto, conversava alegremente como se fosse apenas um dia normal e alegre. Olhei a minha volta a procura da janela ou porta mais próxima, se tivesse alguma sorte eu conseguiria sair correndo e sumir, pois era tudo que eu mais desejava naquele instante.

Antes que eu pudesse ter um pouco de sorte o comerciante veio até mim, segurou meu rosto me analisando como uma mercadoria de pouco valor.

— Ela não é muito bonita, parece selvagem.

—Quanto você oferece por ela?

—Somente quarenta Dirhan.

O velho fez uma careta com a proposta, pareceu analisar a situação e suspirou desanimado.

—Esse valor me parece baixo, ela é uma garota forte e saudável, sei que você pode me oferecer mais que isso.

—Ela não vale muito, é magra e parece selvagem.

—Pense em quanto você vai obter com os serviços dela, seja generoso com seu velho amigo.

Era assustador ver ambos falando de mim como uma mercadoria qualquer, mesmo sendo um ser humano parecia não ter valor nenhum. Mesmo estando em pleno século vinte e um onde o homem faz planos para viver na lua ou chegar à marte, é difícil acreditar que milhares de pessoas diariamente são comercializadas como simples animais.

No final a minha venda ficou acertada em cinqüenta Dirhan, o comerciante prendeu meu pulso com velhas correntes, neste instante eu senti que a única coisa que me restava era a morte, foi a primeira vez que perdi minhas forças e meu ânimo. Aceitei meu destino, eu iria seguir o curso do meu rio, por que ser uma escrava era tudo que eu era e não importava o que fizesse jamais mudaria isso.

Caminhei devagar atrás do comerciante, não tinha coragem de levantar minha cabeça, não queria ver os olhares daquelas pessoas que se achavam no direito de me tratar daquela maneira.

Um caminhão velho transportando algumas galinhas e ração e no meio daquilo tudo uma garota com olhos cor de areia chorava em silêncio, lágrimas eram tudo que restava naquela hora, queria chorar até parar de respirar caso isso fosse possível. Não sei por quanto tempo o caminhão ficou rodando, nem a distância percorrida, pois isso não me importava, nunca mais voltaria a ver Raafi. Quando paramos próximo ao casebre, o homem me fez tirar tudo que tinha no caminhão e colocar no meio de uma sala, ajeitou um mesa na frente da casa com seus produtos, depois me deu uma sacola com um pedaço de pão e me levou para um quarto. Quando abriu um mau cheiro de fezes e urina me deixou enjoada, ele acendeu uma lanterna e iluminou os cantos do quarto, então pude ver três crianças se escondendo, o comerciante esbravejou e me empurrou para dentro trancando a porta, o lugar estava quente e o fedor era quase insuportável. Próximo ao telhado tinha vários furos para se entrar ventilação.

Em um canto eu sentei, as correntes estavam fazendo meu pulso arder, mexi na sacola com o pão, vi os olhares daquelas crianças brilhando no escuro, parti o pão em três pedaços, joguei um pedaço para os dois meninos e para a menina, ali no escuro eu não sentia nada por aqueles pequenos, eu não tinha força para pensar nem criticar.

Hoje quando lembro aquele dia, eu sinto tanta tristeza por aquelas crianças que nunca soube qual foi o destino de cada uma, quais as marcas o tempo deixaram sobre suas peles e sua alma, sempre quis saber suas histórias o motivo de elas terem ido parar naquele casebre imundo.

Aos poucos o calor ia diminuindo, sinal típico de que a noite fria do deserto estava próxima. Quando ouvi barulho na porta, o comerciante entrou apressado e foi logo me puxando pelas correntes e me arrastando para fora do quarto, também pegou a garotinha que chorava e protestava e nos arrastou para fora da casa. Por uma breve instante fiquei cega pela claridade e não consegui ver o homem parado à minha frente.

— O que achas destas duas hein!

—Essa é muito pequena, essa outra... – Senti sua mão afastando meu cabelo do rosto, para analisar melhor, era um homem muito bem trajado.

—Olha que beleza, têm todos os dentes, é forte para trabalho manual, e vai satisfazer todas as suas necessidades, e caso queria levar as duas faço um bom preço.

— Eu já falei que não quero essa criança, já essa não é feia, e o corpo...

O homem deslizou a mão até o meu seio direito e o apertou, não se contendo continuou apalpando cada centímetro do meu corpo, como um pedaço de carne e o comerciante fazia questão de mostrar cada parte ao seu cliente, levantou minha saia até a minha virilha ficar à mostra.

—Já basta, vi o bastante vou levar ela.

—Que maravilha, não vai reconsiderar sobre esta outra, posso garantir que ela também pode fazer o que o senhor ordenar.

O homem apenas fez um gesto com a cabeça e tirou várias notas do bloco, pelo visto não estava com tempo para negociação, claro que o comerciante iria ganhar bem mais do que gastou para me comprar. As correntes foram tiradas do meu pulso, o homem me colocou dentro de um carro, pela janela eu contemplei o deserto o máximo que eu podia isso também me deixava distraída à fome e a tudo que vinha me acontecendo.

Já era noite quando nos aproximamos da cidade de Al Zubai, toda minha vida no deserto eu tinha ouvido história sobre aquela cidade que muitos chamavam de o oásis do deserto. Muitos contavam que um califa se perdeu naquela região há muito tempo, então pediu a Allāh que o ajudasse e do meio das areias brotou água cristalina e foi então que ele criou sua cidade envolta desta mina de água. Era uma cidade próspera mesmo estando no meio do deserto, ninguém jamais quis comprar briga com o sultão Abdullah, considerado um dos homens mais ricos do mundo.

O carro adentrou a cidade, as casas eram brancas e todas com mesma aparência, deveria ser a parte mais pobre da cidade, à medida que o carro entrava ainda mais na cidade eu contemplava sua beleza, sua arquitetura chamativa até eu avistar as grandes torres do palácio de Abdullah, para minha surpresa o carro continuou no sentido dos fundos do palácio branco.

Se eu pudesse imaginar naquela época como minha vida mudaria eu não teria ficado tão assustada. E talvez tivesse ficado feliz.

Notas finais
obrigado por ler esta historia deixe sua opinião. até o próximo capitulo