Maktub
4 Qual é o seu lugar?
Notas iniciais

O pequeno rebanho descansava embaixo das tamareiras, a brisa fresca de fim de tarde soprava meus cabelos sobre meu rosto. Puxei uma mecha solta para medir o comprimento. Por causa das brigas, Fadwa resolveu deixar meus cabelos crescerem, eles estavam encaracolados como ninho de passarinho. Agora eu tinha que usar roupas de menina: saias longas, blusas de mangas... Claro que isso fez minha vida ser uma pouco mais complicada. Tinha que seguir as leis que proibiam as mulheres de muitas coisas, e como minha alma era selvagem como o deserto, não era fácil de controlar.
Voltando para a tenda a fim de prepara o jantar, encontrei a senhora Fadwa ajoelhada, aos pés de um jovem homem. Ela estava chorando, seus olhos encontraram os meus e me pus de joelho ao lado dela, para compartilhar de sua dor, tão acostumada a ouvir as histórias de seus filhos e como ela os amava, mesmo que ela não tivesse gritado comigo, sabia que algo ruim tinha acontecido .
Como a guerra era cruel. Fadwa tinha perdido seu marido, seu filho mais velho e a guerra tinha ficado com partes do corpo do seu filho mais novo. Raafi passava maior tempo possível dentro da tenda, se agarrando ao livro do alcorão, recitando frases para si. Foi nas palavras que ele conseguiu consolo para afastar os pesadelos das muitas mortes que assistiu.
Devagar ele fechou o livro, enrolou no pano de veludo preto para ficar protegido das areias, pegou um pacote de haxixe, e começou a prepara a narguilé. Eu mexia no braseiro para acender o fogo, pois apesar de os dias no deserto serem quentes, as noites eram geladas, capazes de matar mais rápido do que o calor. Logo a tenda estava abafada por causa da fumaça da narguilé e o calor do braseiro.
Com os dedos sujos de carvão cortei um pedaço de *khubz adi e coloquei umas fatias de cordeiro e azeite e comecei a comer. Raafi sentou-se ao meu lado, aquilo não era normal. Já que ele fazia questão de fingir que eu nunca estava por perto, tentei não olhar seu braço amputado, só que era inútil, era algo que saltava aos olhos, de uma forma grotesca. A ferida tinha se curado em um monte enrugado,ela se alongava para dentro de sua camiseta. Uma imagem de um braço sendo estourado e o sangue jorrando como uma torneira aberta, veio em minha mente. Balancei a cabeça tentando apagar essa lembrança, pois diante de mim Raafi me olhava com certo nojo como se eu tivesse alguma ferida exposta e membros em farrapos.
— Você é uma péssima serviçal, fica comendo antes dos seus senhores.
—Não leio pensamento! Não tem como saber que você também quer algo para comer.
—Você é uma *thralla petulante, de agora em diante só vai comer quando eu mandar.
Servi Raafi encarando seus olhos castanhos, esperei ele enfiar o primeiro pedaço na boca, cortei outro pedaço de cordeiro, enfiei todo na boca e saí rápido da tenda. “Ele não é meu dono”,dizia a mim mesma, mas no fundo eu sabia que ele era e eu não passava de uma escrava acorrentada àquelas pessoas sem nenhuma possibilidade de voltar para casa.
Casa, algo que eu já estava me esquecendo que tive algum dia. Sentei-me próxima de alguns camelos, olhei para o céu tingido em dois tons de azul, um mais claro e outro mais escuro pontilhado de estrelas, forcei minha mente a se lembrar de uma época não muito distante, mas as imagens oscilavam sobre a superfície como borrões. Uma leve tristeza brotou dentro de mim e lágrimas pingaram na areia.
Enxuguei o rosto. Uma brisa fria soprava meus cabelos, devagar e com cautela fui me aproximando da tenda. Do lado de fora eu podia ouvir Fadwa e Raafi conversando. Eu era grata por servir esta senhora generosa, apesar das surras tínhamos criado algum laço. Quase sempre ela me chamava de pequena *habibi, e toda vez que me deitava ela ajeitava as cobertas sobre mim e passava a mão em minha cabeça.
— Não precisamos dessa menina, mãe.
— Claro que preciso do serviço dela Raafi, ela é forte e esperta, além do mais nem me custou tanto assim.
—Mãe ela é insolente, não se põe em seu lugar.
— E qual é o lugar dela?
Uma pergunta que ficou suspensa no ar, pairando sobre minha cabeça. “Qual é o meu lugar?” Esperei pela resposta de Raafi, porém nada foi dito, e o silêncio esmagador foi engolindo a noite. Quando o ar frio já causava arrepios sobre minha pele, resolvi voltar para a tenda, ambos estavam deitados em seus devidos lugares. Ajeitei os cobertores no local onde dormia, próximo tinha uma tigela com harira. Fadwa estava me observando com um sorriso singelo em seus lábios finos e bem desenhados.
Hoje em dia quando eu penso naquele tempo, eu não vejo Fadwa como a senhora que me comprou, e sim como uma mulher forte, que sobreviveu no deserto, que seguiu e respeitou sua religião e tradição, e mesmo assim tinha um coração puro.Com o pouco de conhecimento me ensinou sua língua e seu conhecimento em negócios, mesmo que nunca tenha dito que gostava de mim era em suas demonstrações que eu percebia isto.
Apesar das implicâncias de Raafi a vida continuava, eu fazia todos os dias minhas tarefas como algo sagrado. Um nascer do sol, um pôr do sol. Sempre a mesma coisa. Ás vezes para quebrar o tédio, alguma travessura de garota. Se estiver imaginando que estas travessuras envolviam soco e sangue, está correto.
O céu tinha tons de roxo e laranjada, onde o sol tocava a areia fazendo parecer ouro derretido. Estava em pleno verão e os dias eram sempre longos, mais quentes que o normal, coloquei o jarro perto do poço e comecei a puxar a lata com água. Não era um serviço fácil, tinha que ter muita força nos braços para conseguir puxar a corda. Enquanto eu colocava a água no jarro vários garotos apareceram e estavam cada um com seus jarros. Quando tentei me levantar um deles me empurrou, fazendo-me derrubar o jarro todo de água. Caída em meio a areia molhada eu tentei me levantar, mas ele continuava me empurrando para o chão. Suas risadas me deixaram enfurecida.
Senti a areia úmida em meu rosto, para mim aquilo foi a gota d’água, agarrei o primeiro garoto que vi em minha frente e tentei derrubá-lo.Os outros fizeram uma roda. Eu sentia a areia embaixo do meu corpo magro enquanto aquele garoto tentava me socar. Senti alguém me segurar pelos cabelos, uma mão puxava o garoto para longe de minhas unhas, filetas de sangue escorriam de ambos os rostos.
— Que Allāh te queime no mármore do inferno.
— Allāh vai diminuir seus dias, sua escrava imunda.
Nem tive tempo de completar outro insulto, senti a força de um tapa em meu rosto que me jogou novamente no chão. Levantei meu rosto devagar e encontrei os olhos castanhos de Raafi, sua expressão não era séria e nem parecia com raiva, parecia que estava se divertindo.
Caminhamos de volta para a tenda em silêncio. ao passar por algumas pessoas, mantinha meu olhar baixo, aquilo tudo era tão injusto, eu seria castigada por não aceitar as provocações dos outros garotos. Dentro da tenda coloquei o jarro em seu devido lugar e esperei pelas chicotadas, no entanto Raafi apenas sentou-se e ficou me analisando por algum tempo.
— Você sabe brigar, Naja. Vem cá, tenho uma oferta para lhe fazer!
— Oferta? Como assim?
— Como você aprendeu a brigar? conseguiu tirar sangue daquele garoto.
— Eu gosto de brigar com eles, é fácil.
Raafi gargalhou divertindo-se com a conversa, ele tinha planos para minha pequena fúria.
Naquela noite não houve surra, somente uma conversa regada a longas tragadas de narguilé, e o surgimento de uma amizade.
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