Maktub
5 Apenas Diversão
Notas iniciais

—Bate nela, ela é só uma garota, não seja molenga.
—Isso Naja, bate mais nele...
—Não! Como!
—Não reclama, aposta é aposta, agora paga, ela ganhou....
Desculpa, me perdi em pensamentos, fui um pouco além do que falávamos anteriormente, mas toda essa lembrança traz um sentimento avassalador, pulei alguns fatos, deixa eu lhe informar melhor.
Imagine viver sua infância no deserto, andando de um local para outro, se protegendo das tempestades de areia, convivendo com a fome e as doenças, vivendo parado no tempo, sem poder ir à escola, sem conviver com as maravilhas do mundo moderno. Foi assim que Raafi viveu sua infância, e não era difícil perceber que ele tinha certa fascinação pelas cidades.
Na noite que Raafi teve que me separar daquele garoto, ele ficou pensando em um meio de ganhar dinheiro, queria comprar uma casa e montar uma venda em alguma cidade. Mesmo eu sendo magrela, eu não era tão pequena, ele queria tirar proveito disto.
Depois de estender as peles para secar, eu ajudava o restante das mulheres com seu serviço de lavar roupa, as mulheres beduínas eram muito unidas nas tarefas domésticas. Como a senhora Fadwa estava sentido muita dor em sua coluna cabia a mim fazer sua parte na comunidade. Raafi tinha passado a manhã toda rondando o grupo de mulheres, todo o momento perguntava se eu tinha acabado. Quando, por fim, as mulheres me dispensaram dos meus serviços. Caminhamos devagar por entre as tendas, ele mexia a todo o momento em seu *subha.
—Naja! Você gosta de morar aqui?
Olhei em minha volta, as tendas colorindo o deserto, as palmeiras e as tamareiras produzindo sombra para os amimais, e ao longe o que parecia a cidade. Será que eu gostava de morar ali, ou só tinha me acostumado?
—Você não gosta?
Raafi sorriu, pegou um pouco de areia em sua mão e depois a soltou no ar.
—Eu detesto isso aqui, essas areias grudando em minha pele, o gosto dela em minha boca, esse sol quente. – Ele respirou , sua voz parecia cheia de amargura, e tristeza.
—Você pretende ir embora.
—Claro que sim! Você não, Naja?
—Não! Quem ficará com a sua mãe?
—Naja, eu só irei quando minha mãe não estiver mais aqui, mas para ir morar na cidade vou precisar de dinheiro, é nisso que você vai me ajudar.
Ajudar Raafi a ganhar dinheiro, como eu poderia fazer isto? Quando entrei em nossa tenda, a senhora Fadwa estava costurando algumas roupas, fui preparar algo para comermos, precisava distrair a mente, pois ideias loucas de roubos passavam por minha cabeça, eu sabia que roubo era um ḥarām grave, e certamente teria minha mão cortadas.
Admirando o céu, eu nem prestava atenção na história que o ancião estava contando aquela noite. Raafi se aproximou e tocou meu braço.
— Naja! Você consegue bater em qualquer garoto deste acampamento?
—Claro que consigo.
—Ótimo, pois você vai brigar com Ghaazi.
—Por quê?
— Não faça pergunta e não conte a ninguém.
Já percebeu que, quando alguém diz “não conte a ninguém” cresce dentro de você uma necessidade de comentar o fato? Durante a noite inteira fiquei pensando naquela conversa, as palavras estavam querendo escorrer pela minha boca, mil perguntas se formavam em minha mente.
O dia tinha sido longo e tedioso, sentada embaixo da palmeira eu contemplava o crepúsculo, com seu tom de laranja e vermelho banhando as areias. Raafi mandou eu ficar ali, disse que estava preparando tudo. Então eu vi, o não tão magrelo Ghaazi com seu irmão mais velho, todos estavam rindo, como se tivessem ouvido a melhor piada do mundo.
Caminhamos todos mais um pouco, a intenção era ficar bem longe do acampamento. Raafi veio até mim, com a bolsa de couro com água, e seus olhos estavam brilhantes iguais aos meus.
Não havia regras, as vozes daquele dois homens gritando, incentivando duas crianças abrigarem pode parecer algo brutal, mas para mim aquilo era divertido. Adrenalina pulsando dentro de mim trazia a sensação de eu estar viva, entre soco e chutes, eu explodia de felicidade, nem mesmo quando o sangue escorreu de minha boca, deixando seu gosto salgado, não senti medo, de repente o mundo estava em silêncio, e a única coisa que eu via era aquele garoto parado diante de mim.
—Bate nela, ela é só uma garota, não seja molenga.
—Isso Naja, bate mais nele...
Bati com os punhos cerrados, uma, duas, três vezes, seu nariz ficou em um ângulo estranho ele se agachou e começou a chorar. Mesmo assim, eu não consegui parar de bater, queria ele em pé novamente.
Mão forte me trouxe para a realidade, olhei em volta contemplando o deserto escuro, havia se passado algum tempo. Quando fomos para aquele lugar ainda tinha raios de sol e agora somente o brilho da lua e seu frio. Raafi esfregava um pano no meu nariz, foi então que sentia dor, estava no meu corpo todo, cuspi um pouco de saliva vermelha .
Desde que conheci Raafi eu nunca o tinha visto rindo, mas ali estava o brilho em seus olhos e o sorriso descomplicado em seus lábios, ele tentava com a ponta de um lenço limpar o sangue do meu rosto. Não podia imaginar que sentia tal carinho por ele. A lembrança dos meus irmãos e como cuidávamos uns dos outros veio em minha mente.
—O que vai dizer a minha mãe, Naja?
—Direi a verdade!
— Qual verdade?
— Que um camelo me acertou.
Ambos caímos na risada. Mesmo que não tivesse sido a melhor mentira, Fadwa nem se deu ao trabalho de me bater, apenas encarou Raafi seriamente e ficou recitando parte do alcorão para nós.
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