Maktub
9 Lembranças dolorosas
O calor era sufocante, eu estava presa, amordaçada pela burca. O suor escorria pelas minhas pernas, ajeitei o jarro sobre a cabeça, aquele era um dos muitos castigos que acabei recebendo por tentar ajudar Hessa, não poderia sair de casa sem cobrir completamente o rosto, na verdade só poderia sair de casa para buscar água.
Eu sempre escutei os mais sábios dizerem “quem não compreende um olhar tampouco há de compreender uma longa explicação”, naquela noite, mesmo com todas as dores eu tentei faz entender que tratar uma pessoa daquela maneira era errado.
Apesar de toda dor que eu sentia queria lutar, queria colocar para fora toda aquela fúria, ouvir cada palavra que menosprezava a mulher ou a liberdade. Percebi o quanto eu era diferente daquelas pessoas, um peixe fora do mar.
Joguei a burca em um canto, ali dentro daquela casa abafada eu não precisava esconder a vergonha que tinha trazido para Raafi. Senti naquela época que estava morrendo aos poucos, mas não pensei em desistir apesar da situação ter ficado ruim. Sempre imaginei minha vida como as areias do deserto. Olhando à primeira vista, tudo pode parecer sem vida, que não há mais solução, no entanto aos poucos as coisas começam a se transformar, afinal as areias não ficam paradas por muito tempo, elas sempre se agitam com o vento, criando novas paisagens no deserto.
Luloah estava sentada na cozinha próxima ao fogão à lenha, por incrível que pareça ela parecia feliz, fingi que não tinha visto ela e fui colocar o jarro com água em cima da mesa. Algumas pessoas são antipáticas por natureza, mas Luloah superava qualquer expectativa. Eu nunca entendi como uma pessoa que não tinha absolutamente nada poderia achar que tinha um rei na barriga. Ela ficou ali parada me olhando com aquela expressão de nojo, como se eu fosse algo repulsivo. Como muitos ela se escondia atrás da religião para justificar seus atos e sua conduta.
Eram falsos adoradores, falando de amor e redenção com seus corações cobertos de ódio e suas mãos banhadas em sangue. Um deus bondoso jamais castigaria alguém por não aceitar sua idéia, eles não entendiam que tínhamos recebido o livre arbítrio para poder escolher nosso próprio caminho. Peguei o alcorão e sentei em um canto, talvez eu conseguisse um pouco de paz nas páginas daquele livro sagrado, pois sabia qual era o jogo de Luloah, aqueles olhos negros cheios de raiva, queria-me ver sendo apedrejada ou açoitada até a morte.
Claro que alto controle não era meu forte, me chamar para uma briga era o mesmo que oferecer peixe para um gato, como poderia recusar? Ela fazia aquilo todos os dias, pois Raafi tinha ido na sua peregrinação até a Meca. Uma viagem que demorava quase um mês , nesse meio tempo tive que ficar na casa do senhor Rukan, e com isso aquela megera ficava dando ordem como a própria Cleópatra. Tudo com a única intenção de me ver sendo expulsa de casa, ela não aceitava o modo como eu era tratada.
O mundo está cheio de pessoas que se incomodam com a alegria alheia. Apesar da fome e da guerra, sempre encontramos motivo para sorrir, com toda simplicidade do mundo. Eu conseguia ver beleza onde muitos só viam destruição. Por um longo tempo eu só vi Raafi como um homem mutilado pela guerra, mas a cada ano que eu crescia conseguia enxergar além das cicatrizes. Não era uma paixão e sim um amor simples, algo que levei muito tempo para compreender, sei que ela jamais conseguiria amá-lo do mesmo modo que eu, e talvez isso a incomodava, fazia perceber o quanto amargo era seu coração.
Com isso ela fazia questão de transformar meus dias em tormenta, meu sorriso em lágrimas. Tudo que eu fazia era criticado e debochado com o único intuito de me tirar a paz.
Como eu já falei paciência nunca foi meu forte, o calor estava me deixando louca e ficar trancada o dia inteiro me deixava furiosa. O dia já estava no fim, o sol deixava o céu em tons de laranja e rosa. Com o pouco que tínhamos eu tinha que usar a imaginação para cozinhar. Fiz um *chacliche e um pouco de * homus para se comer com pão. Teria sido um jantar como qualquer outro caso Raafi estivesse em casa. Reclamaria de tudo e de todos, descontaria em mim um pouco de seu mau humor, depois conversaria sobre coisas banais, sonhos sem futuro e iríamos rir das bobagens que passavam pela nossa cabeça.
Ela pegou um pedaço de chacliche e fez sua habitual cara de nojo, para me tirar do sério, pois era sempre um isso está salgado, isso não tem gosto de nada, você quer matar meu futuro marido com essa comida nojenta? , você é uma péssima serviçal, não presta pra nada, tomei o garfo da mão de Luloah. Eu deveria ter pensado um pouco mais, afinal aquele ato simples iria desencadear uma série de acontecimentos e novamente minha vida seguiria um novo curso.
Via aquela mão fina pintada de hera vindo em direção ao meu rosto, nem preciso dizer que eu revidei aquele tapa. Antes mesmo de ela conseguir me tocar eu já tinha segurado seu braço e a empurrado contra a mesa. Como uma louca Luloah gritava e chorava, aquela vadia sabia fazer um encenação dramática muito bem.Desculpe pelo linguajar, mas sério, só de lembrar eu ainda fico com raiva daquele dia.
Era naqueles momentos que eu sentia muita mágoa de minha mãe, por ela ter me vendido como se eu fosse um nada. Apesar de eu ter me tornado forte para muitas coisas da vida em muitos momentos desejei ser frágil e ter alguém para me proteger. Como a injustiça que era minha vida, eu fui castigada pela mãe de Luloah.
Tive que ficar fora da casa, só poderia entrar novamente quando eles me chamassem. Todas as noites eu só comia as sobras dos pratos deles. Toda comida era colocada em armários e trancada, desde que vendida eu nunca tinha conhecido pessoas tão mesquinhas e cruéis como aquelas. Eles não tinham consideração algumas pelo próximo, enquanto eu juntava tudo que estava nos pratos em uma vasilha para poder comer, o velho senhor entrou na abafada cozinha com seu habitual sorriso de escárnio.
Jamais gostei daquele homem, de todos que passaram pela minha vida ele é o único que conseguiu me fazer sentir ódio e nojo por alguém. Ele ficou me olhando como se eu fosse um carneiro pronto para o abate. Por algum tempo tive pesadelos com o rosto daquele homem, em muitos eu ainda podia sentir o fedor de seu hálito contra a minha pele.
— Você não precisa comer os restos. Se quiser eu pego comida para você.
Virei as costas fingindo não ter escutado nada e comecei a comer, não queria nenhum favor. Ele se manteve parado atrás de mim, como uma sombra agourenta.
— Não seja tão ingrata menina, você pode ter uma boa vida se quiser.
— Eu tinha uma boa vida, antes de vir para esta merda de cidade. – As palavras foram cuspidas junto com um bocado de comida, eu aprendi a amar o deserto, imaginava que no final de cada duna de areia estaria uma praia de areia branca com um mar azul, e viver naquela cidade coberta de pobreza e destruição por causa da guerra era amedrontador.
—Você é uma menina muito arrogante, mas eu sei um remédio pra te deixar bem calma.
—Não sou arrogante, só não vou me curvar às vontades de sua família.
—Seja boazinha que você será muito bem recompensada.
Cada palavra dita era um passo em minha direção, não tinha muito espaço para eu poder correr, ele estava de costas para a porta. Ele tirou do bolso uma pulseira dourada do bolso, e estendeu a mão como se oferecesse um doce a uma criança.
— Está vendo como sou generoso?Isso pode ser seu se quiser, basta você ser boazinha.
Naquele instante meu coração acelerou, eu tive ânsia e um medo terrível do que poderia acontecer, aquele velho nojento acariciava por cima do jalabiyah seu pênis.
—Eu prefiro queimar no mármore do inferno mil vezes.
—Não se preocupe, você irá para o inferno pelos seus pecados, sua menina estúpida.
Ele veio em minha direção, tentei me esquivar, mas suas mãos agarraram meus cabelos, fazendo nossos corpos ficarem perto. Talvez você nunca tenha desejado a morte, mas quando aquele velho conseguiu colocar seu peso para me prender contra a parede de areia branca eu quis morrer. Senti sua mão apalpando meus seios, tentando a todo o custo levantar a minha saia. Naquele instante o medo tinha me dominado de tal modo que não conseguia lembrar nada, nem um golpe de luta para me defender.Um imagem assustadora de minha infância invadiu minha mente.
Lembrei que já tinha visto uma cena igual aquela. O pior de sofrer um ato violento de abuso é presenciar um. Minha irmã dois anos mais velha, gritando e chorando enquanto aquele homem forçava seu corpo sobre o dela. A única coisa que eu pude fazer naquela época foi chorar junto dela e jurar para mim mesma que jamais deixaria aquilo acontecer comigo. Neste momento foi como se estivesse escutado o próprio choro de minha irmã e eu despertei e dei um golpe nele.
Algo inesperado que surtiu muito efeito. Ele se afastou de mim deixando-me livre, eu não esperei muito para atacá-lo. Com a mão espalmada o soquei direto no nariz. Ele urrou de dor. Enquanto eu tentava socar novamente, neste instante Luloah e sua mãe apareceram na porta, ambas com olhar espantado com a cena, eu não esperei por um olhar de desculpa ou cumplicidade, eu nem esperei que elas começassem a gritar, simplesmente saí correndo e só parei quando minhas pernas começaram a doer. Com tudo isso nem percebi minhas roupas rasgadas, caí no chão de cascalho e chorei pela primeira vezes depois de muito tempo, despejando toda minha dor, raiva e medo naquela noite fria e silenciosa.
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