Mais um verão
17 Pelas ruas de São Francisco
Notas iniciais
ANDREW (Point of View)
Acho que eram seis da manhã. Eu estava deitado, no fim de uma rua sem saída, minhas roupas sujas e rasgadas. Além disso, eu estava com medo. Na noite passada, fui atacado diversas vezes por coisas que eu nunca tinha visto antes. Pelo menos, eu não me lembro de tê-las visto antes. Acho que já vi algo parecido, mas nada como aquelas coisas. Levantei-me, olhando para todos os lados, para ter certeza de que aqueles seres haviam desaparecido. De alguns dias para cá, desde que fugi de casa, coisas fora do normal vêm acontecendo.
Você está bem? — ouvi uma voz perguntar, e olhei para o lado.
Instantaneamente, lembrei-me de alguns momentos antes do ataque daqueles seres na noite anterior. Eu estava andando pelas ruas, então vi essa garota cercada daquelas coisas. Eu não suportei ver uma menina indefesa sendo atacada por aqueles... Aqueles... O que seriam aquilo? Monstros? Não tenho certeza.
Sim... E você? — respondi, e perguntei.
Se você não tivesse chamado a atenção deles, eu agora estaria morta. — ela falou, e eu assenti.
Mas... Você sabe o que eles são? — perguntei.
Não. Mas eles disseram algo... Sobre nós sermos iguais. — ela respondeu.
Sim... Eles disseram que nossos sangues...
Fui interrompido por uma explosão. Olhei para o céu, e vi que um deles estava vindo em nossa direção, voando. Ele havia lançado... Uma bola de fogo? Agora, com ajuda da luz do sol, percebi que aquilo... Aquilo parecia uma mulher. Rapidamente lembrei da conversa que tive com minha vó antes de sair de casa. Ela me disse algo sobre monstros, e deuses. Eu não levei muito a sério, mas agora, olhando para aquela coisa descendo do céu e vindo em minha direção... A história da minha vó não parecia mais tão maluca. Eu também me lembrei que ela havia me dado uma moeda. Sim, isto mesmo. Uma velha moeda de metal, que parecia bronze. Minha vó disse que era... Bronze Celestial. Sim, exato. Admito que pensei que só existia um tipo de bronze, e que não acreditei muito em minha vó contando que aquele metal era especial. Pois bem, a minha vó disse que quando eu estivesse em uma situação de extremo perigo, que parecia exatamente agora com aquilo vindo em minha direção, eu poderia usar aquela moeda para me proteger. Quando ela disse isto, eu comecei a ter certeza de que minha vó ficou maluca. Como uma moeda velha de bronze poderia me proteger de um monstro que voava, e que a cada segundo estava mais próximo de mim?
Cuidado! — a garota falou.
Eu não tinha opção. Peguei a moeda que estava em meu bolso, ainda sem acreditar em como aquilo poderia me ajudar, e fechei os olhos. Se for pra algo acontecer, é bom que aconteça logo. Pensei. Quando abri meus olhos novamente, não acreditei no que vi. A coisa que veio em minha direção estava em minha frente, com uma lança encravada no peito.
Arghhh! — aquela coisa gritava de dor.
Espera... Uma lança? De onde uma lança poderia ter saído?! Mas onde está a moeda? Aí eu pensei em algo, mas rapidamente admiti que a ideia era ridícula: achei que a moeda havia se tranformado na lança. A coisa começou a derreter... Virou areia, literalmente. Instantes depois, eu estava em pé, segurando uma lança, com uma garota em pé ao meu lado, olhando incrédulamente.
Como você... — ela fez que ia perguntar.
Eu não sei. Não me pergunte. — respondi.
Uma forte dor atingiu minha cabeça. Eram muitos pensamentos de uma só vez. Eu me vi em pé, em frente à minha vó, antes de fugir, e ela dizia: Andrew, você ainda não descobriu qual seu verdadeiro poder... Mas em breve descobrirá. Seu pai divino o reclamará, e tudo se tornará mais claro. Lembrei-me de algumas histórias mitológicas que minha vó contara alguns anos atrás. Histórias com heróis gregos, filhos de deuses e mortais... E olhei para a lança. Por alguns segundos, não aconteceu nada. Mas de repente, a lança se transformou — em uma moeda de bronze. Então, era mesmo verdade. Eu pensava que minha vó havia ficado maluca, mas eu que estava completamente pirado neste momento. Quase que caio para trás, mas a garota me equilibrou. O que tudo isso significava? O que são todas aquelas coisas que minha vó me contou? Por que eu e aquela garota estamos sendo perseguidos por seres sobrenaturais? Isto é mesmo realidade, ou é um sonho?
Você está bem? — a garota me perguntou.
Eu... Eu não sei! — falei, dando alguns passos para frente, e virando em direção à ela. — Você... Você viu aquilo?! Aquela coisa descendo do céu... E a lança! A moeda que virou lança! Você viu aquilo? — a garota assentiu, e isto me deixou mais preocupado. Então, isto tudo aconteceu mesmo. Seria mais fácil dizer que eu estava ficando maluco.
Tentei ficar calmo. Não consegui. Tentei novamente. Dessa vez, obtive algum sucesso. Estava tentando organizar meus pensamentos. Aquelas coisas também haviam tentado me atacar enquanto estava em casa... E então, eu só lembro da minha vó dizendo para eu ir embora. Achei que ela não queria mais me ver, mas agora percebi que era para o meu próprio bem. Ela falou que eu estaria salvo em um acampamento... Mas que acampamento era esse? Como eu poderia chegar lá? A garota também parecia preocupada. Agora que parei, notei que ela tinha cabelos escuros, e olhos cor de âmbar. Ela era bastante bonita. Devia ter a mesma idade que eu, quatorze.
Bom... — falei, tentando juntar as palavras. Estava muito atordoado com tudo que havia acontecido. — Acho melhor sairmos daqui antes que mais daquelas coisas voltem. Meu nome é Andrew. Andrew Erkert.
Prazer, meu nome é Sophia. — ela falou, tentando sorrir. Deveria ser difícil para uma garota sorrir depois de passar uma noite ao ar livre, sendo atacada por coisas sobrenaturais, e de quebra, pela manhã, ver um garoto que ela não conhecia destruindo um ser voador mal que queria matá-los, sabe?
Olha... Eu realmente não sei o que está acontecendo. Não sei por que nos encontramos. — falei, explicando tudo que sabia. Ela era boa ouvinte. Mas tudo o que eu disse ela já sabia. Contei desde a parte que decidi ajudá-la após vê-la cercada por aquelas coisas, até a parte que havia destruído um daqueles monstros com uma lança que eu não sabia que possuía. Contei também sobre eu ter fugido de casa, para que aquelas coisas não tentassem atacar minha vó. E perguntei de onde ela era. Onde estava indo antes de ser cercada por aquelas coisas.
Eu também fugi de casa. Essas coisas começaram a aparecer, e eu estava bastante assustada. Consegui fugir de todos, mas não dos de ontem... E como eu falei, se você não tivesse aparecido ontem... — ela falava, enquanto uma lágrima rolou por seu rosto. Eu enxuguei com meu dedo.
Olha, não se preocupa. Estamos juntos agora. Eu não te conheço muito bem, e nem você me conhece, mas vamos cuidar um do outro. — falei, tentado confortá-la.
Sabe Andrew... Eu tenho medo. Perdi meu pai muito nova, e também fui criada por minha avó. Quando ela morreu, meu mundo caiu. Vaguei pelas casas de familiares, até não aguentar mais e fugir. Eu nunca cheguei a conhecer minha mãe. — falou Sophia, entre soluços.
Tudo bem... Agora estamos juntos. Eu vou cuidar de você... Como se você fosse uma irmã para mim... Prometo que nenhum daqueles monstros vai te machucar. — quando terminei de falar, mesmo com medo ela esboçou um sorriso. Talvez o mais bonito que eu já tenha visto na vida.
E então, começamos a andar pelas ruas de São Francisco.
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