Mais do que se pode ver
38 Capitulo 38 - Medos
Notas iniciais
Rachel se apoiou no parapeito da sacada, observando o sol nascer, enquanto tomava um gole do chá em sua caneca e apertava o roupão fechado.
Atrás de si, dentro do quarto, Quinn dormia tranquilamente.
Na noite anterior, as duas tinham conversado por algumas horas e faziam apenas duas horas e meia que Quinn tinha pego no sono – apenas depois que Rachel fingiu dormir, para tranquiliza-la.
Rachel ouviu um barulho na porta e olhou para o relógio. Seis e cinquenta da manhã.
A judia riu fraco e voltou para o quarto, sorrindo para a imagem da namorada dormindo antes de se obrigar a ficar seria e ir para a sala.
Sentou no sofá e respirou fundo, ouvindo o barulho na cozinha.
Não demorou para Kitty aparecer na sala, andando na ponta dos pés, evitando ao máximo fazer barulho.
— Quinn tinha te falado pra não chegar tarde.
Rachel observou a garota dar um pulo, a encarando com os olhos arregalados, e deu risada.
— São quase sete da manhã. Onde você tava?
— Na festa com o pessoal.
— Vai tomar um banho e dormir. Se Quinn perguntar, você chegou as cinco. Mais cedo que isso ela ainda tava acordada.
— A noite foi boa, hein? – Kitty riu.
— Não que seja da sua conta, mas só conversamos. – a judia revirou os olhos – Agora vai logo antes que eu mude de ideia.
— Fui! Valeu, Rachel.
Rachel apenas ergueu sua xicara em direção a loira, que foi para o quarto de hospedes rapidamente.
A judia levantou e, respirando fundo, foi para a cozinha, onde terminou sua bebida em um gole, lavou e guardou a xicara, antes de voltar para o quarto.
Abraçando Quinn, Rachel fechou os olhos e deixou que o sono a embalasse, enquanto sua cabeça girava com mil preocupações.
***
Rachel acordou sozinha na cama, algumas horas depois.
Olhou para o relógio e arregalou os olhos. Duas da tarde.
— Parabéns, Berry. Já pode ficar com o título de pior anfitriã do mundo. – resmungou para si mesma enquanto levantava rapidamente.
Depois de tomar um banho rápido e se considerar apresentável, Rachel saiu do quarto em direção a sala, onde o barulho da televisão se fazia presente.
— Bom dia. – cumprimentou a namorada e a cunhada.
— Boa tarde. – Quinn brincou, e Rachel sentou ao lado dela, lhe dando um selinho – Dormiu bem?
— Mais ou menos. E você?
— Consegui dormir. – a loira deu de ombros.
— Nossa, o que aconteceu com vocês duas? – Kitty as encarou.
— São só uns problemas. Nada demais. – Rachel disse – Mas, enquanto estiver por aqui, tente não fazer amizade com ninguém quando eu não estive por perto, ok?
— Credo, Rachel. Até parece que tem um louco te perseguindo.
— Algo assim. – a judia murmurou.
— Como é?
— Nada com o que se preocupar, Kitty. Só quero garantir que... Que vai ficar tudo bem. Você sabe, por causa dos fãs, e tudo o mais.
— Certo. – a mais nova murmurou, desconfiada – Mas você não vai me tentar impedir de sair por isso, né? Sem vocês, quero dizer.
— Não. – Rachel riu – Alias, como foi ontem a noite?
Kitty ficou vermelha na mesma hora, e a judia arqueou a sobrancelha.
— Bem. Foi tudo ótimo, na verdade. – a garota disse, atropelando as palavras – Me diverti, mas nada demais aconteceu. Tudo tranquilo, como em qualquer festa. O que a gente vai fazer hoje, Rachel?
— Você tá legal? – Rachel riu.
— To. Claro.
— É, não tá não. – Quinn falou.
— Como que não? – Kitty forçou uma risada.
— Você tá me escondendo alguma coisa. O que você aprontou?
— Nada, não aprontei nada.
— Katherine Diana Fabray, o que você está escondendo de mim?
— Você é muito encanada com as coisas, Quinn. Tá exagerando. Sabe de uma coisa? Me deu sede. Vou tomar uma água. É, vou tomar água.
A mais nova praticamente correu para a cozinha e Rachel riu.
— É, ela aprontou alguma.
— Eu não quero nem imaginar o que foi. – Quinn suspirou, tentando ficar seria, mas acabou rindo.
— Antes de matar ela, lembra que a garota só tem dezessete, ok?
— Desde que ela tenha voltado pra casa antes das seis, não esteja gravida, e tenha ficado sóbria, eu não ligo, realmente.
— É claro que não liga. Não liga tanto quanto seu pai não ligou quando a gente começou a namorar.
— Que horror, Rachel. Me comparar com Russel?
— Quinn, você é ciumenta com a sua irmã. Muito ciumenta.
— Eu sei disso, mas não quer dizer que eu vá chegar perto de Russel.
— Q, baby, eu realmente não sei como você ainda não foi atrás dela pra saber o que ela fez. – Rachel riu.
— Porque eu prefiro esperar ela voltar.
— Se ela voltar.
Quinn riu e encostou a cabeça no ombro da judia, que passou o braço por cima dos seus ombros.
— Quer conversar sobre ontem?
— Não. – Rachel suspirou – Vamos só torcer pra ela não me procurar, certo?
— Tudo bem.
Rachel deu um beijo na cabeça de Quinn, e Kitty apareceu na sala, sentando no mesmo lugar que antes enquanto tentava passar despercebida.
— E aí, vai me falar o que aprontou agora? – Quinn perguntou e Rachel riu.
— Eu vou deixar vocês sozinhas. – disse, levantando – Vocês já almoçaram?
— Não. Tomamos café tarde. – Quinn respondeu.
— Ótimo. Vou procurar algum lugar pra gente ir almoçar enquanto vocês conversam.
Assim que Rachel saiu da sala, Quinn virou para Kitty, que respirou fundo e fechou os olhos, jogando a cabeça para trás, contra o encosto do sofá.
— Vai me dizer o que você fez agora?
— Eu... Bem...
— Kitty, vamos lá. Você não pode ter feito nada tão ruim assim.
Kitty falou o que tinha feito tão rápido e atropelando as palavras que, no final, tudo pareceu uma palavra só, e Quinn mal pode entender uma letra no meio de tudo.
— Viu? Não foi tão difícil. Agora fale com calma e me deixe entender. – a mais velha pediu.
Kitty respirou fundo e encarou a irmã.
— Eu fiquei com o Sam.
Quinn sorriu e Kitty abaixou a cabeça, passando a mão pelo rosto.
— Eu não devia ter feito isso.
— Não devia? O caramba que não devia.
— Não, eu não devia, Quinn! O Sam... Eu gosto dele e ele não vai querer nada sério comigo. Ter ficado com ele só...
Kitty levantou, balançando a cabeça negativamente, e passou a mão pelo rosto.
— Eu cheguei animada ontem a noite. Eu acordei animada com isso hoje de manhã e daí eu parei pra pensar. Eu sou só uma garota de dezessete anos que não tem nada a oferecer pra um cara como ele. Que futuro a gente teria?
— Quem tá falando de futuro aqui é você. Eu to falando de aproveitar um pouco com o garoto.
Kitty parou no meio da sala e encarou a irmã, franzindo a testa.
— O que diabos a Rachel fez com você?
Quinn riu, balançado a cabeça negativamente e batendo no sofá ao seu lado, e Kitty rapidamente voltou a sentar.
— Não to te mandando ir pra cama com ele, KitKat. Não mesmo. Serio, não mesmo. Não faça isso.
— Eu já entendi. – Kitty riu.
— O que eu to dizendo é pra você aproveitar o tempo que tiver com ele. Sam é um cara legal, e mesmo que ele não queira nada sério, vamos ficar aqui quase um mês.
— Você é quem não tá entendendo, Quinn. Eu gosto do Sam. Tipo, gosto mesmo, entende? Eu não vou conseguir ficar com ele tendo prazo de validade.
Quinn suspirou, balançando a cabeça positivamente.
Ela mais do que entendia a irmã.
— Já tentou conversar com ele?
— Bem... Eu ainda não falei com ele hoje.
— Então, fale. Não adianta ficar se preocupando atoa. Talvez Sam esteja louco pra ter alguma coisa com você.
— É. Acho que vou falar com ele.
— Ótimo.
— Obrigada, Q.
— To aqui sempre que precisar, Kitty.
Kitty abraçou a irmã, descansando a cabeça no ombro da mais velha e se permitindo descansar de todos os pensamentos que rondaram sua cabeça nas últimas horas.
— Só, por favor, não se empolgue demais, tá bem?
— Falou a garota que tava transando com a namorada ontem.
— Hey! Me respeita garota. – Quinn riu – De onde tirou isso?
— Ah, Quinn. Eu não sou idiota. Sei que foi por isso que você deixou que eu ficasse mais tempo lá.
— Não, Kitty. Rachel realmente não estava bem.
— E o que ela tinha?
— São... Problemas pessoais.
— Vocês transaram ontem a noite.
— Kitty! – Quinn balançou a cabeça negativamente – Escuta, tem coisas que é melhor você não saber, tá bem? E, quer saber? O que eu e Rachel fazemos também não é da sua conta.
— Ui, estressadinha. Tá bom. Não tá mais aqui quem falou. – Kitty riu.
— Ótimo. Vamos ver se Rachel encontrou algum lugar pra irmos, porque eu to com fome.
— Perfeito, porque eu também. – Kitty reclamou – E quando vamos sair pra conhecer New York?
— Definitivamente, hoje não.
— Eu não vejo a hora de ir ao central Park.
— Podemos falar com Rachel e fazer isso amanhã.
— Ouvi meu nome? – Rachel apareceu na porta da sala, trocada e com a bolsa no ombro.
— Ouviu. Encontrou algum restaurante? – Kitty perguntou.
— Marley fez reserva em um pra gente. Vamos?
— Você não vive sem a Marley, hein? – Quinn disse.
— Isso foi ciúme?
— Não, foi a constatação de um fato. Aliás, já falou com ela sobre a mudança?
— Que mudança? – Kitty as encarou.
— Mais uma das coisas nas quais você não precisa se meter. – Quinn disse, levantando – Vamos logo que eu to com fome.
— Sim, senhora. – Rachel disse se aproximando e entrelaçando seus braços.
As três saíram da casa em direção ao restaurante entre conversas leves, e, mesmo que por pouco tempo, com a cabeça vazia de preocupações.
***
Michael observou a garota se aproximar com um sorriso no rosto.
— E ai? Valeu mesmo a pena pegar um avião pra ficar menos de vinte e quatro horas lá? – perguntou quando a morena se aproximou, apenas com sua bagagem de mão.
— Valeu e muito. Ela estava perfeita no palco. – respondeu abraçando o rapaz, que suspirou.
— Não é como se você não tivesse ido ver ela outras vezes.
— Ela me viu.
— O que?
— Ela me viu lá. Na saída do teatro. – disse começando a andar, sendo seguida de perto pelo mais velho – E eu tenho quase certeza que o Blaine me viu também.
— O que ela fez?
— Nada. Pareceu assustada, na verdade. Eu não queria que ela me visse. Não ainda. Mas...
— Pelo amor de Deus! O que você quer dessa garota afinal?
— Nós temos uma história que não terminou, Michael, e eu não vou conseguir dormir em paz enquanto não resolver isso.
— Resolver como? Rachel tá feliz agora, seguindo a vida. Porque não faz o mesmo?
— Porque eu e Rachel temos assuntos pendentes.
— E o que você realmente quer? Ela de volta?
A garota apenas olhou para o rapaz antes de apresar o passo para fora do aeroporto.
***
— Central Park? Com tanto lugar pra ir, você quer conhecer o Central Park?
— Dizem que é lindo, e é um dos pontos turísticos daqui. Você deveria estar surpresa se eu não quisesse conhecer o lugar. – Kitty reclamou.
As três estavam saindo do restaurante logo após terminarem de almoçar, em direção ao carro da judia.
— Bom, nesse caso, podemos ir lá agora, se quiser.
— Serio?
— É. – Rachel sorriu – Fica há menos de dez minutos da minha casa, e a gente chegaria a tempo de ver o pôr-do-sol. Tem um lugar perto do lago lá que é lindo.
— O que acha, Quinn? – Kitty perguntou enquanto Rachel abria a porta do carro para a mais velha.
— Bom, eu não vou poder apreciar a vista, mas tudo bem. – brincou.
Quando as três estavam devidamente acomodadas e com cintos, Rachel sorriu para Kitty pelo retrovisor – já que a judia havia decidido dirigir aquela tarde.
— Para o Central Park.
Menos de meia hora depois Rachel estacionou e Kitty praticamente pulou do carro, arrancando uma risada da morena, que deu a volta no mesmo para abrir a porta para Quinn.
As três caminharam por alguns minutos. Kitty olhava tudo admirada e, por vezes, através da tela do celular, enquanto Rachel e Quinn iam um pouco mais atrás da garota, conversando.
— E você já tem planos agora? Profissionalmente falando, quero dizer.
— Alguns, na verdade. Nada muito grande, só algumas participações pequenas em filmes e series.
— Vai para as telas agora? – Quinn brincou.
— Já tenho uma participação em um filme fechada, senhorita Fabray!
— Olha só, então eu namoro uma estrela de cinema, agora? Não vá me trocar por alguma famosa peituda, heim.
— Meu amor, eu não te trocaria nem por um clone de você mesma, porque, com certeza, não seria tão perfeita.
Quinn sorriu, puxando o rosto da judia para si e lhe dando um selinho.
— Eu amo você. E amo como você fala essas coisas assim, do nada.
— Faz parte do charme. – Rachel brincou, passando o braço pela cintura da loira, que riu – Hey, Kitty! O lago é logo ali, a direita, e o pôr do sol começa em... Quinze minutos. – disse olhando o relógio – Vamos parar?
— Claro!
Kitty correu em direção ao lago como uma criança corre para a arvore em uma manhã de natal, enquanto Rachel e Quinn a seguiam.
— Ela está realmente animada com isso, não é?
— Estar em New York? É um sonho pra ela. Ficar na sua casa, então... Você não tem ideia de como ela pirou. Aposto que ela ainda vai tirar foto em todos os cômodos. – Quinn disse rindo, e Rachel a acompanhou.
— Sabe, eu nunca tive uma fã na minha casa antes.
— Não diga isso a ela.
— Anotado. Vamos sentar? Kitty tá na beira do lago, mas tem um banco por perto que tá vazio e... Eu acho que vejo ela de lá.
— Claro, pode ser.
Rachel levou a loira até o banco e as duas sentaram. A judia passou o braço pelo ombro da namorada e Quinn encostou a cabeça em seu ombro.
— Quinn, como é?
— Como é o que?
— Não ver.
— Bom, eu... Só não vejo. Quero dizer... Eu não lembro de quando enxergava, pra poder comparar.
— Você não tem medo?
— Do que?
— De sair e não saber voltar. De bater em alguma coisa. De se aproveitarem da sua situação...
— Rachel, eu aposto que você pode continuar com essa lista por algumas horas, então, vamos parar ai. – Quinn riu – Eu já tive medo. Mas se eu for deixar o medo me parar sempre que alguma coisa parecer perigosa, eu não faria nada. Não teria andado sozinha, ido a escola e nem estaria namorando você. Eu teria perdido... Caramba, é impossível por em palavras o que eu teria perdido se não tivesse andado. Nunca teria conhecido a Santana se não tivesse ido à escola e continuasse tendo aulas em casa, e não teria você, se não tivesse te beijado.
— Então você enfrenta tudo de frente. – Rachel sorriu, dando um beijo na bochecha da loira.
— Não tudo. Eu não tenho tanta coragem. Mas enfrento algumas coisas. E você também, só que de um jeito diferente.
— O que quer dizer?
— Sair de Lima para New York pra seguir seu sonho não foi assustador?
— Foi.
— E você enfrentou.
— Mas... Ainda parece diferente.
— E talvez seja. Mas eu não posso me deixar parar por causa disso. Todos temos nossas dificuldades. A minha é não ver.
— Você já pensou em... Tentar uma operação, ou algo do tipo?
— Quando eu era pequena, sim, mas nenhum médico achou uma solução naquela época. Todos que procurei disseram que era possível que eu voltasse a ver, mas que ainda não tinham o que era necessário.
— E nos últimos anos?
— Nos últimos anos eu cheguei a conclusão de que não ver já faz parte de mim. E é melhor assim. Muita gente se deixa levar pela aparência. Eu consigo sentir as pessoas, sabe? É como se eu tivesse ganhado um novo sentido quando perdi a visão. Eu presto atenção nos detalhes do som. Posso ver o que você vê através do toque. A energia de cada um... São coisas que você não pode ver, só perceber. E eu tenho muita facilidade com isso. Eu não sei se ainda seria a mesma pessoa se pudesse ver.
Rachel sorriu e segurou a mão da namorada com a mão livre.
— Obrigada.
— Por?
— Por ser você. Por me amar. Por estar comigo.
— Bom, não acho que você precise agradecer por isso.
As duas ficaram em silêncio por um tempo, enquanto Rachel observava o sol se por.
Quinn podia não ver aquela cena, mas, como ela mesmo tinha dito, sentia. Sentia como as pessoas a sua volta reagiam a cena, e isso a fez sorrir. O sentimento de paz e tranquilidade reinava naquele lugar enquanto casais, grupos de amigos e famílias completas observavam o fenômeno natural diário.
Quando o sol finalmente sumiu por trás das arvores e do lago, Kitty levantou e olhou em volta, em busca das duas.
Não demorou para acha-las e se aproximar, sorrindo.
— Isso aqui é incrível.
— É sim. – Rachel sorriu – Tem mais algum lugar onde vocês queiram ir?
— Por hoje, acho que não. – Quinn respondeu
— Eu tenho uma lista de lugares. – Kitty falou, ignorando a irmã.
— Kitty, por hoje já chega. Temos que dormir essa noite se quisermos controlar nossos horários e aproveitar a viagem.
— Só porque dormimos tarde um dia, não quer dizer que estamos em outro fuso-horário, Quinn.
— Kitty, casa.
— Rachel. – a mais nova resmungou e Rachel riu.
— Não me envolvam nisso.
— Q, por favor.
— Quando tivermos um filho será assim, não é? – Rachel sorriu e Quinn riu fraco.
— É, então pode começar a ter pulso firme.
— Certo. – Rachel arrumou a postura, sentando com a coluna reta e limpou a garganta, enquanto encarava Kitty – Kitty, hoje não. Vamos para casa. – disse seria e voltou a olhar Quinn, relaxando – O que achou?
— Não foi ruim, mas pode melhor.
— Uma dica. Eu tenho dezessete anos. Se quer me dizer não, tenha uma justificativa.
— Porque a Quinn disse não? – Rachel olhou para Kitty franzindo a testa.
— Tente algo mais convincente.
— Você está sob minha responsabilidade até a gente voltar pra casa. Sabe aquelas festas que você tava pensando em ir com o Sam? – Quinn falou.
— Vamos pra casa. – Kitty disse e saiu andando na frente das duas, fazendo o caminho de volta para o carro.
— Você é boa nisso. – Rachel sorriu, levantando com a namorada e seguindo o mesmo caminho que a cunhada – Já posso imaginar você cuidando da Kate.
— É, mas acho que ela não vai dar tanto trabalho quanto a Kitty.
— E Kitty dá trabalho?
— Ela tem umas ideias loucas as vezes. Não dá trabalho pros meus pais, mas dá pra mim fazer ela desistir de algumas loucuras.
— Vocês são bem próximas, não é?
— Sabe, eu nunca vi a Kitty. Mas é como se eu pudesse adivinhar cada expressão dela. Eu cresci querendo proteger aquele projeto de gente que crescia dentro da barriga da minha mãe quando eu parei de enxergar.
— Nossa.
— E você, Rach? Nunca quis ter um irmão?
— Eu quis, por um tempo. Meus pais me diziam que tentariam me dar um quando fosse mais velha e pudesse ajudar a cuidar dele. Quando eu tinha dez anos eles pensaram em adotar.
— E porque não adotaram?
— Porque eu não queria mais um irmão. – Rachel riu fraco – Na verdade, as crianças tinham começado a ser más comigo naquela época. Pais preconceituosos, crianças iguais. Me diziam que pai e papai eram uma aberração e que eu também era por ser filha deles. Eu tinha dez anos e um segredo. Eu acreditei neles, e não queria que meu irmão fosse uma aberração também.
— Sinto muito.
— Não, tudo bem. Essa fase não durou muito. Logo namorar, ser rebelde e descobrir novos estilos musicais se tornou mais importante pra eles.
As duas seguiram o restante do caminho até o carro em silencio.
Assim que chegaram no veículo, Kitty entrou no banco traseiro, ainda resmungando sobre ser cedo e elas poderem aproveitar mais – problema que, Rachel tinha certeza, Quinn resolveria com meia dúzia de palavras – e a judia ajudou a namorada a entrar no banco do passageiro.
Antes de entrar no banco do motorista, Rachel olhou por todos os lados, em busca do rosto que virá no dia anterior. Após não encontrar nada além de uma lente de câmera – para a qual sorriu e acenou – Rachel entrou no carro, dirigindo não tão tranquilamente até o seu apartamento.
***
— Você tá mais tranquila? – Quinn perguntou, deitada no peito de Rachel.
As duas e Kitty tinham voltado para casa horas antes.
Depois de passarem um tempo conversando e assistindo televisão, Rachel preparou o jantar para as três – por volta das dez da noite – e, uma hora após comerem, Quinn obrigou a irmã e a namorada a irem para o banho e, logo em seguida dormir – ou tentar, ao menos.
— Do que tá falando?
— Daquela história de ontem. Sei que ainda tá preocupada com isso, Rach, mas pode não ser nada demais.
— Sempre é alguma coisa demais quando se trata daquela mulher.
— Faz anos, Rach.
— Quinn, existem duas pessoas nesse mundo que eu não quero encontrar nunca mais. Minha mãe é uma. A outra, como você deve imaginar, a vadia da minha ex. Ver qualquer uma das duas, a possibilidade de uma delas de volta na minha vida... Só de pensar nisso, é como se meus piores pesadelos estivessem se tornando realidade.
— O que aconteceu entre você e sua mãe, afinal?
— Quando nos encontramos, faziam apenas alguns meses desde que Jéssica tinha espalhado minha foto. As coisas estavam controladas, mas eu ainda estava abalada. Precisava de uma mãe. Encontrei a minha e descobri que era a minha pior inimiga, por assim dizer.
— Como assim?
— Ela treinava o coral rival. – Rachel riu – Eu estava tão desesperada por um pouco de amor de qualquer um que não fossem pai e papai na época, que cogitei trocar de escola. Mas, quando tentei falar com ela... Não foi a primeira nem a última vez que me chamaram de aberração, mas foi a que mais doeu.
— Eu sinto tanto, Rachel.
— Tudo bem. Nós discutimos, e me afetou na época, mas já faz muito tempo. Eu descobri há pouco tempo que o sonho dela era fazer uma peça na Broadway. Bem, ela pode ver que a aberração chegou no topo, mas ela não, agora.
— Sinto muito por todas essas coisas que você passou, Rach.
— Todos temos nossas dificuldades, Q. Enquanto ela não voltar, eu estou bem.
— Ela não vai. Nenhuma das duas.
— Não vão. – Rachel sorriu, e Quinn se aconchegou ainda mais contra ela.
A judia observou Quinn adormecer nos seus braços com um sorriso no rosto.
O passado já não importava mais.
Ela tinha Quinn e, enquanto tivesse, estaria tudo bem.
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