Mais do que se pode ver
15 Capitulo 15 - Novo nova direções parte um.
Notas iniciais
O toque do celular parecia distante e próximo ao mesmo tempo.
Quinn gemeu fraco, esticando o braço em direção ao barulho.
— Alô?
— Bom dia, minha linda!
— Bom dia, Rach. – Quinn sorriu no meio de um bocejo.
— Estava dormindo?
— Tava. – murmurou – Espera um pouquinho.
— Ok.
Quinn esticou o braço e apertou o relógio ao seu lado, que lhe informou serem dez e meia da manhã.
Sentou na cama bocejando antes de colocar o telefone novamente no ouvido.
— Pronto, Rach.
— Não quer voltar a dormir? – Quinn podia ouvir o sorriso na voz da judia.
— Não mesmo. Eu já devia estar em pé, na verdade.
— Bom, nesse caso, dormiu bem?
— Seria melhor com você me abraçando, mas não tenho do que reclamar. E você?
— Dormi muito bem, também.
— Já está na escola?
— Oh! Não. Vou sair daqui uma hora, mais ou menos. O coral só começa depois do horário do almoço.
— Ainda não consigo imaginar você dando aula. – brincou.
— Não vou dar aula. Só ajudar o senhor Schue e ensinar uns truques de canto para as crianças.
— Hum... Rach, isso é dar aula.
— Que seja. – a judia sorriu – E você? O que pretende fazer hoje?
— Ah, vou me arrumar e descer para ajudar minha mãe na cozinha. Provavelmente vou passar o dia todo no café. O que sempre faço.
— Queria estar aí pra mudar a sua rotina. – Rachel suspirou.
— Nós temos que aprender a lidar com essa distância, Rae. Então, pare de pensar em como queria mudar minha rotina e me fale sobre como vai mudar a sua.
— Quinn? – Judy chamou batendo na porta.
— Espera aí, Rach. – pediu e tirou o celular da orelha, sem esperar uma resposta – Fala, mãe.
— Estou precisando de você no café.
— Tudo bem. Me dá vinte minutos.
— Ok. Não demore mais que isso.
— Certo. – suspirou – Vou ter que desligar. – Quinn voltou a falar com Rachel – Minha mãe precisa que eu desça.
— Tudo bem. Te ligo a noite?
— Vou ficar esperando.
— Certo. Eu te amo, Quinn.
E, como a loira já esperava, a judia desligou antes que ela pudesse responder.
— Eu também te amo, Rachel. – murmurou mesmo assim.
***
— Bom dia! Ou boa tarde, nesse caso. – Rachel sorriu, entrando na sala do coral, onde os alunos já estavam, e colocou a bolsa que carregava no ombro no banquinho do piano – Nada do Will ainda?
— Não.
— É. Parece que ele não mudou com a pontualidade. – brincou – E aí, o que vocês estão estudando essa semana?
— O senhor Schue ainda não passou um tema. Ele deveria ter passado ontem, mas... – um dos garotos, que Rachel lembrou se chamar Simon, disse.
— E qual foi o último?
— Journey. – o grupo respondeu em coro, revirando os olhos, e Rachel riu.
— Me deixa adivinhar. Vocês cantaram Don’t stop believin’ na sexta-feira.
— Por que essa é a melhor música feita até hoje. – Will disse entrando na sala e colocando sua bolsa em cima do piano.
— Olha, ninguém que já esteve sentado ali concordou com isso um dia. Pelo menos não dos que tiveram aula com você. – Rachel arqueou a sobrancelha e Will revirou os olhos.
— Besteira. Não existe idade para se ouvir Journey.
— Existe sim. Acima dos noventa anos. – uma das garotas, Alexis, pelo que Rachel se lembrava, resmungou, e a judia riu.
— Que seja. Vamos ao que interessa. – Will resmungou e pegou um canetão dentro da bolsa, indo até o quadro, sob o olhar atento de todos – Eu tinha outros planos para essa semana, mas como Rachel está aqui para nos ajudar, e ninguém entende disso como ela... – Will sublinhou a palavra que tinha acabado de escrever e virou para os alunos e Rachel sorrindo – Vamos cantar Broadway.
Rachel observou enquanto alguns comemoravam e outros reviravam os olhos. Ela conhecia bem aquela cena. Sabia que, se ainda fossem os antigos membros, da sua época de colégio, ela e Blaine estariam comemorando na frente da sala, enquanto os jogadores e as líderes revirariam os olhos.
— Rachel? – Will pediu.
— Bom, Broadway não é só música, mas atuação também. Não importa se você está em um clube apenas musical, nem que você não conheça a história. Você tem que entrar no personagem.
— Então musicais são cem por cento atuação. – uma das garotas falou.
— Musicais são dez por cento dança, dez por cento música, dez por cento atuação, e setenta por cento sentimento.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que você não consegue estar de verdade em um musical se não tentar se sentir como o personagem. Na verdade, na minha opinião, nenhuma música é boa se não tiver sentimento. Por exemplo... Quero que pensem na melhor apresentação que já fizeram. Ou melhor! Na música que cantaram melhor até hoje. Seja em um palco, seja no seu quarto ou em baixo do chuveiro. Com ou sem plateia. Com ou sem instrumentos no fundo.
Rachel observou enquanto o grupo fechou os olhos. Alguns murmuravam alguma música baixinho. Outros sorriam. Alguns pareciam tensos.
— Já que todos fecharam os olhos, continuem assim, e eu quero que levantem a mão aqueles que pensaram em uma apresentação.
Todos continuaram com as mãos abaixadas e a judia sorriu.
— Suas melhores performances foram feitas de vocês para vocês. Só vocês e seus sentimentos. É assim que se canta de verdade. E só se chega a Broadway se conseguir cantar de verdade.
Will sorriu para a ex aluna parada na frente da sala, enquanto ela sorria para os alunos, concentrada nos próprios pensamentos.
— Se o Will me permitir, gostaria de dar uma dica sobre o que devem cantar.
— A vontade. – o professor a incentivou a continuar.
— Quero que cantem sobre como se sentem. Saia de O rei leão ou de Chicago. De qualquer um. Encontrem alguma coisa que mostre como se sentem. Se conseguirem isso, estão cantando um musical.
Os alunos encararam Rachel por alguns segundos e ela suspirou.
— Bem... Eu... Acho que é isso.
— Você vai ajudar a gente com isso?
— Estarei aqui no horário do glee durante toda a semana, então, no que precisarem, é só me procurar.
— Bom, Rachel, estamos a duas semanas das regionais. Tem alguma dica pra dar? – Will pediu.
— Faz tempo que eu não me apresento em uma competição. – Rachel sorriu – Mas público é público. Vocês só precisam surpreende-los. O que vocês têm cantado nos últimos anos?
— Musicas velhas. – Alexis respondeu e Rachel riu.
— Quando foi a última vez que cantaram um original, Will?
— Da última vez que você escreveu uma pra gente.
— Bom, acho que vou apertar as coisas pra vocês então. – a judia deu um sorriso de lado – Não sei como funciona esse grupo agora, mas quero a apresentação de todos vocês pra amanhã.
Automaticamente os adolescentes começaram a reclamar e Rachel revirou os olhos.
— E, até sexta, teremos uma música original pronta para as regionais. – falou mais alto que os alunos, que pararam para encara-la – Que dia vai ser a competição?
— Sábado que vem.
— Eu vou estar lá pra ver vocês levantarem esse troféu. E não vou aceitar menos que o primeiro lugar.
— Ela, por acaso, é uma versão mais nova da Sue? – Rachel ouviu alguém resmungar e riu.
— Não me compare a Sue. Não vou fazer ninguém correr por meia hora seguida.
— Mas ela pode te forçar a fazer exercícios vocais por quarenta minutos, sem descanso. Acreditem em mim. Ela fez isso quando ainda era aluna. – Will falou e os alunos riram.
— Ele não tá brincando. – Rachel deu um sorriso de lado.
— Bom, Rachel, tem algo a acrescentar?
— Não.
— Então, estão dispensados.
Os alunos pegaram seus materiais Rachel sentou ao piano, dedilhando as teclas.
— Senhorita Berry? – uma garota parou ao lado de Rachel e a judia deixou as teclas para olha-la, sorrindo – Tem um minuto?
— Claro! Isabelle, certo?
— Isso.
— No que posso ajudar?
— Hey, Izzy. – um garoto parou ao lado das duas – Vai ficar?
— Vou. Eu quero pedir a ajuda da senhorita Berry.
— Só Rachel, por favor. – a judia piscou e Isabelle sorriu.
— Bom, vou deixar vocês conversarem. Eu e o Jace vamos estar no campo.
— Ok.
O rapaz deu um beijo no rosto da garota e acenou com a cabeça para Rachel antes de sair.
— Então...?
— Bem, eu... – a garota suspirou – Eu gosto de musicais e já até sei o que cantar, mas... Eu acho que pode acabar... Prejudicando alguém.
— Por que?
— Bem... É só que... Hum...
— Qual a música?
— Hopelessly devoted to you.
— Seu namorado ia ficar bravo por saber que você ainda gosta do seu ex?
— O namorado dela ia ficar bravo imaginando que a gente teve alguma coisa, mas não tivemos.
— Então por que Hopelessly devoted to you?
— Por que, tirando o fato de que nunca tivemos nada... É a música perfeita.
— Então precisa de mim para...?
— Eu quero encontrar outra música que se encaixe melhor na situação. Mas não conheço muitos musicais, mesmo que eu goste, então não consigo pensar em nenhuma e sei que vou acabar me focando nessa ao invés de procurar outra, então...
— Eu tenho a música perfeita pra você.
A judia procurou por alguma coisa dentro da bolsa e tirou de lá algumas partituras, entregando para a garota.
— Você só precisa ajustar para o seu tom.
— É perfeita. – Isabelle sorriu – Obrigada, Rachel.
— Disponha.
A garota saiu da sala e Rachel olhou em volta, arqueando a sobrancelha para o último aluno que permanecia ali.
— Precisa de alguma coisa?
— Eu estava pensando se... Você não quer, você sabe, sair comigo. – o rapaz murmurou, ficando vermelho, enquanto parecia colado na cadeira.
Rachel encarou o garoto por alguns segundos e deu uma risada fraca, se aproximando e sentando ao lado dele.
— Simon, certo? – perguntou e o garoto acenou positivamente – Bom, Simon, não vou sair com você por dois motivos simples. Primeiro, eu namoro. Segundo, nós dois somos gays.
— O que? – Simon arregalou os olhos – O que você tá falando? Eu não... Não sou gay.
— É sim. E só quer sair comigo por que sabe sobre os boatos de que sou intersexual. Vi você tentando encontrar um volume na minha calça pelo menos umas oito vezes de ontem pra hoje.
— Eu não sei do que você tá falando.
— Escuta, eu não sei por que você não quer se assumir, e também não é da minha conta, mas esconder não vai fazer você se tornar hetero. Se você não tem coragem de se assumir em casa e publicamente, seja por qual motivo for, tudo bem. Eu sei que é difícil. Mas essa sala é o lugar onde você pode ser você mesmo. Sem medo ou julgamento. O glee é o lugar onde todos são aceitos do jeito que são. E todos vamos te apoiar seja lá o que for. Desde que você não tenha matado alguém sem motivo aparente e queira esconder o corpo nessa sala. Pro resto a gente dá um jeito. – disse fazendo o garoto rir fraco.
— Obrigada, Rachel.
— Não tem de que.
— Então, o que...
— Mas que merda, Becca! – alguém gritou entrando na sala e chamando a atenção dos dois para a porta – Você não pode continuar se metendo em briga desse jeito.
— E esses idiotas tem que parar de jogar raspadinhas em vocês.
— O que aconteceu? – Rachel perguntou se aproximando das três garotas que entravam na sala.
— Um jogador jogou uma raspadinha na Emily e a Becca achou que a melhor forma de resolver o assunto era socando a cara dele.
— E o que mais eu poderia fazer?
— Alguma coisa sem violência seria uma boa. – Rachel respondeu – Senta aqui.
Rachel ajudou a garota a sentar em uma das cadeiras e segurou o rosto dela para cima.
— Alguém pega um bom tanto de papel, por que isso não vai parar de sangrar tão cedo. – a judia resmungou – Quem fez isso?
— Um jogador.
— Eu quero o nome. – pediu fazendo a garota abaixar a cabeça.
— Se você tentar contar isso pra Sue, eu vou ser suspensa.
— Você conseguiu bater nele?
— Eu nem levantei a mão pra ele. Só gritei que ia quebrar a cara do próximo que fizesse isso.
— Então você não agrediu ninguém.
— Seja como for, eu tentei.
— Bom, será sua palavra contra a dele. E você tem um nariz quebrado.
— Por favor, não faz isso. Não seria a primeira vez que isso acontece.
Alguém estendeu um pouco de papel para Rachel que suspirou antes de entrega-lo a garota.
Becca se ocupou de limpar o sangue que escorria do seu nariz e a judia se virou para encarar os outros três estudantes dentro da sala.
— Isso acontece com frequência?
— Mais do que gostaríamos. – uma garota suja de raspadinha resmungou.
— Eu costumava levar um desse todo dia quando estudava. A raspadinha, quero dizer. E isso nem era o pior.
— Como você aguentava?
— Não aguentava. – sorriu – Mas valeu a pena aguentar o ensino médio. Não teria chegado onde cheguei sem isso aqui. Por incrível que pareça.
— Emily leva raspadinhas todos os dias. Com a gente é menos frequente, mas... Me irrita ver pegarem tanto no pé dela. – Becca resmungou.
— Pegavam no meu pé também. Olha onde eu cheguei.
— O que quer dizer?
— Uma vez Sue me disse que uma plateia te vaiando ou te aplaudindo são a mesma coisa, por que os dois só estão fazendo barulho. Tudo depende de como você vai levar isso. Eu aprendi a levar essas raspadinhas como um elogio.
— Eles tentavam te humilhar, e você se sentia elogiada?
— Se eles pegam tanto no pé de vocês, é por que querem chamar a atenção. De alguma forma bizarra, eles querem que vocês olhem pra eles. Eles têm inveja do talento de vocês.
— Deveríamos agradecer os sucos na cara, então? – Chloe debochou.
— Não. Só não abaixem a cabeça. Vocês são melhores do que eles, e esse é o motivo das raspadinhas. Eles sabem disso. Sabem que vão estar pedindo seus autógrafos daqui há alguns anos.
— É um jeito estranho de ver as coisas.
— É um jeito de não enlouquecer. Mas não levem isso como uma verdade para a vida de vocês. Só se encaixa em algumas poucas situações.
— Minha mãe me falava que o clube do coral era o mais popular dessa escola. – Emily resmungou.
— Ela estudava na época do Will, não é? Ele sempre nos disse isso também. Mas, por motivos que não merecem ser citados, o clube afundou.
— Bom, eu tenho um trabalho pra fazer, então, a gente se vê amanhã.
— Ate, Simon. – Rachel sorriu para o garoto – E vocês, meninas, já sabem o que vão cantar essa semana?
— Tem alguma música sobre querer arrebentar um jogador de futebol? – Becca resmungou.
— Não que eu me lembre. Mas você pode procurar alguma coisa em... Les Mis ou West Side History.
— Eu to pensando em pegar de algum conhecido. Tipo Cats, ou algo assim. – Emily se pronunciou pela primeira vez.
— Como eu disse, não importa de onde vem, mas o quanto você sente. – Rachel falou.
— Eu já sei o que cantar. – Chloe disse.
— Bem, eu tenho que procurar ainda. E ir no medico colocar o nariz de volta no lugar. – Becca disse levantando – Então, acho que tá na nossa hora.
— Eu te levo pro médico. – Chloe suspirou.
— Mas vamos passar e deixar a Emily na casa dela primeiro. Ela precisa de um banho.
— Eu posso ir andando.
— A gente te deixa.
As garotas saíram da sala discutindo e Rachel balançou a cabeça negativamente, voltando para o piano.
— Muita gente pedindo ajuda? – Will perguntou entrando novamente na sala quando Rachel já tocava as notas finais de Defying Gravity.
— Só uma, na verdade. Você sabia que alguns dos seus alunos tem se metido em briga pra tentar parar as raspadinhas?
— Becca brigou com quem dessa vez?
— Com um jogador. Eu pensei que depois de ganharmos as nacionais as coisas iam melhorar para os próximos. Quero dizer, vocês têm ganhado nos últimos... Dez anos?
— Estamos indo pra decima nacional. Mas isso não nos ajuda em nada. Fora daqui nós somos aplaudidos de pé, mas no McKinley, os alunos levam raspadinhas e são empurrados no armário. Eu não sei mais o que fazer.
— Vou tentar pensar em algo. – Rachel prometeu. Os dois conversaram por mais alguns minutos antes de Will se despedir, deixando Rachel sozinha na sala.
A judia voltou a dedilhar o piano, sem tocar nenhuma música, enquanto pensava em sua época de escola.
Os garotos que faziam parte do coral agora lhe lembravam – e muito – o coral da sua época. Era quase como se pudesse ver cada um dos seus antigos amigos em um dos novatos.
Rachel suspirou, se perguntando qual deles acabaria com medo da sua época de colegial, fazendo fama em um musical e revendo os passos da sua vida pessoal. Ela só desejava que essa pessoa encontrasse sua Quinn também.
Quando faltavam vinte minutos para que o horário do clube do coral acabasse oficialmente, Rachel estava juntando suas coisas para ir embora, e se assustou com a porta abrindo.
— Hey. – ela sorriu para o garoto.
— Hey. Hum.. O senhor Schue ainda está por aqui?
— Não, ele já foi. Posso ajudar?
— Não. Eu... Acho que não.
— Você tá bem?
O rapaz passou a mão pelo rosto e suspirou, balançando a cabeça negativamente.
— Quer conversar?
— Eu não quero incomodar.
— Não incomoda. – Rachel sentou e apontou a cadeira ao seu lado – Eu posso ajudar mais do que só com a música.
— É só que... É minha namorada. Ela anda estranha ultimamente e... – o rapaz suspirou, se jogando na cadeira ao lado de Rachel – Eu não sei lidar com isso.
— Primeira namorada?
— Não. É só que... Ela tem me evitado, e sempre que eu pergunto o que tá errado ela desconversa. Diz que tá tudo bem.
— Jace... É Jace, certo?
— Isso.
— Bem... Você já falou sobre isso com alguém?
— Eu já tinha conversado com o senhor Schue, e eu falei com o meu pai também, mas... Esse foi um daqueles momentos em que ele claramente queria que minha mãe estivesse aqui pra me aconselhar, ao invés dele.
— Olha, eu não quero te apavorar nem nada, mas... Eu só consigo ver três coisas acontecendo ai.
— O que seriam?
— Ou ela tá te traindo, ou tá gravida, ou de TPM.
O garoto arregalou os olhos para Rachel e a judia suspirou.
— Entretanto é bom que você saiba que eu só namorei serio duas vezes na minha vida. A primeira foi um desastre, e a segunda não temos nem uma semana de namoro ainda, então...
— Gravida?
— Sério que você focou nisso? Não ouviu a parte da TPM?
— O que eu vou fazer?
— Jace, conversa com ela, tá bem? Eu posso estar completamente errada. Pode ser só uma fase.
— Meu pai vai me matar.
— Ok, e se ela tiver te traindo, então?
— Nesse caso, sou eu quem mato ela.
— Agora você me ouve. – Rachel resmungou – Tudo em um relacionamento deve ser conversado. Se ela estiver gravida, vocês vão ter que lidar com isso. Se for outra coisa... Vocês vão ter que lidar também. Mas você não vai saber se não conversar.
— Eu já tentei, mas ela não me diz o que tá errado.
— Insiste. Mostra que tá preocupado. Que quer estar lá por ela.
— Isso cansa, sabe? Tentar, tentar, tentar e não chegar a lugar nenhum.
— Toma uma atitude, então.
— Como?
— Se a conversa não dá certo, encara o problema de frente. Põe ela contra a parede. Ou fala, ou acabou. Mas sem violência, por favor. Só... Às vezes a gente tem que parar e pensar se está valendo a pena.
O garoto balançou a cabeça positivamente e levantou, suspirando e jogando a mochila de volta no ombro.
— Obrigada, senhorita Berry.
— Não foi nada, Jace. A gente se vê amanhã?
— Até amanhã.
O garoto foi embora e Rachel terminou de guardar suas coisas, saindo da sala menos de cinco minutos antes do termino das primeiras atividades extras.
A judia jogou sua bolsa dentro do carro e dirigiu até o Starbucks próximo a escola.
Ela e os amigos iam muito ali quando ainda estudava. Era um lugar tranquilo, onde mesmo com os gorilas uniformizados e as barbies flexíveis por perto os integrantes do coral nunca tiveram problema.
Pegou sua carteira e entrou no estabelecimento, olhando em volta para o lugar que parecia não ter mudado nada.
Fez seu pedido e sentou em uma das mesas, esperando pelo café. Pegou o celular e entrou em seu e-mail. A caixa de entrada quase vazia tinha apenas três e-mails não lidos. Nenhum da sua assistente, o que significava que seriam todos ignorados.
— Então Rachel Berry está mesmo de volta a cidade. – ouviu alguém dizer atrás de si e virou.
— Tina? Quanto tempo! – Rachel levantou para abraçar a antiga colega de coral – Não sabia que ainda morava aqui.
— Oh! Eu não moro. Estou visitando meus pais nas próximas semanas. E você, grande estrela da Broadway? Nunca mais deu sinal de vida.
— Eu queria deixar tudo isso pra trás. – deu de ombros.
— Até os amigos?
— Só as lembranças ruins.
O barulho irritante de uma nova senha sendo chamada soou pelo lugar e Tina se afastou, indo buscar seu café e voltando logo depois para perto da judia com quatro copos apoiados em uma bandeja de papelão.
— Bom, Rachel, eu tenho que ir. Mas temos que marcar de sair antes de irmos embora.
— Que tal hoje a noite? Eu não vou ficar por muito tempo, então...
— Claro! Seria ótimo. Que tal... Nos encontramos na mesma boate de sempre?
— Aquele lugar ainda funciona?
— Não me pergunte como. – a asiática riu.
— Nos encontramos lá as oito, então?
— Que tal as dez?
— Não vou poder ficar até muito tarde. Estou ajudando o Will com o coral. Eu diria pra deixarmos pro fim de semana, mas pai e papai vão querer minha atenção quando estiverem em casa, então...
— Bom, as oito, então.
— Até a noite.
— Até.
Rachel voltou sua atenção para o celular novamente, entrando em suas redes sociais até que um copo de café e um cupcake foram colocados na sua frente.
— Seu pedido, senhorita Berry.
— Obrigada. – sorriu para o menino – Hey, você é do New directions, não é?
— Sou sim.
— Hey! Nerdizinho! – uma garota com o uniforme das cherrios chamou em uma mesa e o rapaz respirou fundo.
— Lá vou eu. – murmurou.
Rachel observou o garoto praticamente se arrastar até a mesa.
— Pois não?
— Esse chá tá muito gelado.
— Você pediu chá gelado, Anne.
— Mas não tão gelado assim. Leva de volta e me traz outro. Agora.
— Tá certo.
Rachel acompanhou com o olhar enquanto o garoto devolvia o chá no balcão e o homem atrás dele balançava a cabeça negativamente.
Logo em seguida o garoto entregava um novo copo para a líder de torcida.
— Isso não é chá gelado! Não está gelado. – ela reclamou após tomar um gole e o rapaz respirou fundo enquanto as outras líderes e jogadores riam – Você não sabe fazer nada direito?
— Anne, você não tá, tipo assim, atrasada para o treino?
— O que isso tem a ver com a sua vida?
— Vai querer outro chá?
— Não, incompetente. Eu fico com esse mesmo. Some daqui.
Rachel revirou os olhos e chamou o garoto com a mão, que se aproximou dela com um sorriso tímido.
— É sempre assim?
— Quase todo dia.
Rachel observou o grupo de estudantes levantar e saírem do estabelecimento rapidamente, quase correndo.
— Por que você aguenta isso?
— Eu preciso do emprego. – deu de ombros.
— Certo... Bom... James?
— Jesse.
— Jesse! Sinto muito.
— Sem problemas.
— Bom, quero mais dez cupcakes, um cappuccino e um americano pra viajem.
Rachel saiu do café pouco menos de vinte minutos depois, deixando uma gorjeta generosa para o garoto.
***
— Bom dia. – Rachel murmurou, descendo no dia seguinte com uma incrível dor de cabeça.
— Bom dia. – Hiram disse – Aproveitou a noite?
— Acho que sim.
— Aproveitou demais. – Leroy disse, aparecendo na cozinha e colocando o jornal na frente da filha.
— A diva voltou? – Rachel arregalou os olhos para sua foto entrando em casa com Tina ao lado, enquanto a abraçava.
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