Mais cinco minutos, talvez?
7 capítulo 7- Diego.
Notas iniciais
Definitivamente, não foi uma boa ideia.
E também gostaria de aproveitar o momento para dizer que: O plano nem de longe era aquele. Não mesmo. Em momento algum eu estava planejando dar as caras na frente do meu irmão usando o corpo do Erik. Eu só não contava com ideia de que o dito cujo ia levar para o lado da piração e nos deixaria lá fora comendo mosca.
Mas, apesar de tudo, não culpava Caleb por não ter acreditado naquilo. De verdade. Nem fiquei magoado ou coisa do tipo. Até porque, se eu estivesse no lugar dele e alguém chegasse me falando toda aquela baboseira bizarra, eu não pensaria duas vezes antes de enxotar o sujeito para o raio que o parta.
Entretanto...
Vale lembrar que o lascado da história sou eu, certo? E eu não estava podendo me dar o luxo de aceitar tudo tão na boa assim. E, veja bem, quando a sua vida rola colina baixo do mesmo modo que a minha, acredite, você também vai precisar tomar providencias. Mesmo que elas não sejam os meios mais... Legais, de se conseguir alguma coisa.
Por falar nisso, já contei a vocês que sou magnifico na arte de escalar portões?
— Você tem certeza de que seu irmão não vai ter um surto quando perceber que a gente, ou melhor, eu invadi a casa dele? — Erik me questionou. Ele havia, não tão gentilmente assim, me deixado assumir o controle da situação. Apesar de que ainda parecia bem assustado em relação a Caleb.
Mas o Erik parece sempre assustado em relação a qualquer coisa, então... Quem liga?
— Não seja estupido. — Falei a ele, tentando passar a perna pela parte de cima do portão. — É claro que ele vai ficar puto com isso. Mas vale lembrar que eu também moro aqui...
— Certo. Mas eu não moro. E isso é um crime. — Erik choramingou.
Eu não me preocupei muito em responde-lo. Estava ocupado demais tentando não quebrar nenhum osso quando saltei de volta para o chão, dessa vez dentro do quintal.
Sabe, não é muito fácil impedir um garoto ridiculamente pequeno de entrar em qualquer lugar sem ser notado. E isso eu preciso reconhecer. Erik era um bocado útil para este tipo de coisa. De modo que não deu trabalho algum me enfiar entre o vão da janela aberta da sala e deslizar para dentro da casa.
Minha casa, por falar nisso. Não era grande ou espalhafatosa igual a mansão do Erik, é claro. Mas eu me senti muito bem ao estar ali.
Apesar de que entrar foi a parte fácil da coisa.
Você deve imaginar que, antes de dar a louca em mim e eu simplesmente invadir minha própria casa, eu já havia arquitetado todo um plano do que eu ia fazer, uma vez que estivesse dentro. Certo?
Pois é...
Uma pena eu só ter me tocado disso quando senti uma presença atrás de mim, que ainda se deu ao trabalho de dizer:
— O que você acha que está fazendo?
E não falou isso de uma maneira boa. Quer dizer, sério! Caleb não estava nem um pouco feliz com a minha repentina aparição. Tudo bem que eu não estava esperando ser recebido com beijinhos no rosto e abraços, mas, qual é? Se recebido com uma aura assassina? Que falta de recepção.
—Vim falar com você. — Respondi de maneira humilde, enquanto Caleb se aproximava ainda mais. — A verdade é que eu realmente preciso que...
Mas ele não me deixou terminar. Ah, não. Ele simplesmente me jogou em cima do ombro e saiu me carregando em direção a porta. E olha, não sei se era porque o Erik tinha aquele jeito languido dele ou se eu que simplesmente nunca havia notado, mas que Caleb tinha uma força desgraçada naqueles braços, ele tinha. Me carregava como seu eu fosse um tapete, de modo que era impossível até eu me mexer.
E meu Deus, que coisa humilhante foi aquela?
Sem contar que, depois de toda aquela merda, ele estava simplesmente me expulsando. Da minha própria casa! É ou não é o cumulo da miséria?
—Droga, Caleb! Eu estou tentando te contar o que realmente aconteceu comigo. — E também estava tentando fazer aquilo de uma maneira sutil. Eu não queria fritar o cérebro do meu irmão com aquela história bizarra entre mim e o Erik. Até porque, nós estávamos dividindo o mesmo corpo, e não o mesmo apartamento. E isso não é uma coisa fácil de engolir.
— Mas que Inferno é esse? Você está tentando realmente me irritar? — Ele praguejou alto.
— Que inferno, eu que o diga! Qual é... É o seu irmão, lembra? O único irmão? Não tem outro de reserva, não. Caramba! Por que você não me escuta? — Gritei de volta.
E isso, graças a Deus, fez ele me colocar de volta no chão. Ainda não muito feliz com a situação, é claro, mas ao menos meus pés estavam em terra firme.
— Estou falando sério! — Caleb me virou de repente para ele e confesso que até me senti mal. Ele parecia mais magoado do que zangando. — Eu não quero machucar você. Então só caia fora. Numa boa. Não insista. Eu não quero falar sobre o Diego. Eu não quero saber de nada disso. Eu realmente não to nem aí pra vocês dois! Então pare logo com essa brincadeira.
— Diego... — Ouvi Erik sussurrar desesperado. Coisa que achei inútil, já que mais ninguém podia ouvi-lo. — Vamos apenas pra casa, sim? Está na cara que isso não vai dar certo. E você só está piorando as coisas...
Se eu comecei a ficar puto com aquilo?
Mas é claro! E como não? Não sei dizer o que era pior: O pessimismo do Erik ou a teimosia filha da puta do meu irmão que me empurrava ainda mais para a sarjeta.
Mas a minha consciência estava limpa. Porque eu havia tentando fazer aquilo da maneira correta. Porém, você já deve saber: Para tudo tem um limite. E eu já estava transbordando o meu.
— Não me faça rir, Caleb. — Respondi entredentes e ergui a cabeça para encará-lo. — “Eu não quero falar sobre o Diego”? “Eu não to nem aí”? Eu sou seu irmão, seu babaca desnaturado! Eu sei que a história é ridícula e inacreditável, mas ainda assim, como você pode dizer uma coisa escrota dessas pra mim?
Acho que aquilo não foi a coisa mais sensata de gritar. Até porque Caleb ficou bem surpreso com a minha explosão. Aliás, com a explosão do Erik. Aquilo fez com ele largasse os meus ombros e desse um passo para trás, com cenho franzido.
Imagino que ele ia perguntar alguma coisa, mas eu ainda estava no meu momento de desabafo, já que eu prossegui:
— Foi você quem falou... — Continuei me aproximando. Apesar de que a cada um passo em frente, Caleb recuava dois. —Quando a mamãe foi embora, que ia cuidar de mim! E quantas vezes já você gritou na minha cara que era meu irmão mais velho? Como se isso fosse um puta título para ostentar. Então, que belo papel de bosta você pensa que está fazendo agora? Cadê a droga do irmão quando eu mais preciso dele?
Foi só depois da última frase que eu comecei a me perguntar que porra eu havia feito. Quer dizer, eu tinha acabado de traumatizar o meu irmão. E isso não é uma coisa muito legal de se fazer. Ele estava me olhando com pavor, entende? Pânico total!
— Você... Como você...? — Tentou balbuciar com a voz um tanto fraca. Pelo menos até notar que aquela pergunta não teria futuro e me fazer uma ainda mais empolgante: — Quem diabos é você?
Suspirei cansado e voltei a olhar para ele.
—Eu deveria ter ouvido você. — Foi o que eu realmente respondi. — Aquele domingo, quando me falou pra não sair com a moto. Aí, nada disso estaria acontecendo agora...
Os olhos de Caleb se arregalaram e algo me dizia que ele já estava sacando a situação. Mas não acho que ele ia levar aquilo muito tranquilamente, já que ele se afastou de mim e correu para o lado oposto da sala.
— Isso é impossível. Impossível... Não tem lógica... — Ele murmurou como um paranoico. Então voltou a olhar fixamente pra mim. — Merda! Sério... Isso não tem graça...
— Mas não é pra ser engraçado mesmo! É trágico. — Ralhei. — E acredite, eu só estou fazendo isso porque estou desesperado. E... Porque eu preciso de você.— Murmurei a ultima parte.
Caleb ficou me encarando entorpecido pela situação. E não vou negar que já estava ficando um clima constrangedor com o tanto de encaradas nada sutis que ele me dava. Digo, o olhar dele sugeria eu fosse uma vaca de duas cabeças que estivesse cantando o hino nacional. Inclusive, eu podia jurar que o cérebro de Caleb tinha tido um curto circuito e não voltaria mais a funcionar.
— Olha, quer saber? — Disse eu. — Esquece. Eu é que não quero ser o responsável por você ter um surto mental ou coisa do tipo...
E acredite, daquela porta sairia o Diego mais frustrado que já existiu na vida. Pelo menos até Caleb finalmente tomar a iniciativa de dizer:
— Você realmente... — Então eu acho que ele arquejou. — Realmente... É o meu irmãozinho?
E não é brincadeira! Ele realmente disse “ irmãozinho”. No diminuitivo. Coisa que eu achei bem sem logica. Mas, por ora, achei melhor não discutir o termo e respondi:
— Bem... Não exatamente em carne e osso, mas, é, vamos dizer que sim...
O que aconteceu em seguida?
Bem, só posso dizer que, a última vez que Caleb me abraçou tão forte daquele jeito, eu devia ter uns quatro dias de nascido. Então você pode imaginar a minha surpresa quando ele se jogou em cima de mim, e do Erik, sem se importar com o fato dele ser, tipo, uns trinta quilos mais pesado.
— Diego...? — Ele sussurrou, agarrando a minha cabeça. — De verdade? Eu não estou louco, não é?
Não dava para responder com Caleb me apertando daquele jeito. Por isso o máximo que eu fiz foi dar palmadinhas solidarias nas costas dele e assentir.
Erik, por outro lado, pareceu bem emocionado. Já que ele falou de uma maneira engraçada:
—Parece que seu irmão te reconheceu. E... Agora, ele está... Me abraçando... — E então concluiu meio débil: — Isso é legal. —Mas não sei por qual das duas coisas o “legal” se referia. E não fiz esforço pra descobrir.
Até porque não tive como. O amor fraternal de Caleb acabou tão rápido quanto começou. Já que nem deu tempo de eu entrar na pegada da emoção antes dele começar a dizer:
— E você ainda tem a cara de pau de vir aqui? — E literalmente me deu um puxão de orelha. — Seu merdinha! Você tem noção do que você fez? Tem noção de como ficamos quando descobrimos que você tinha sido todo estropiado naquele acidente? Ah, não, você não tem. Porque noção é algo desconhecido na droga do seu dicionário.
Olha, eu estava com tanta saudade, que mesmo com ele me xingando eu fiquei feliz.
— Bem, foi um acidente. Literalmente. Não tive culpa de morrer. Sério. Não tive mesmo. — Então parei pra pensar um pouco. — Espera... Eu não morri, certo?
A cara de Caleb nublou. E eu não gostei. Aliás, gostei menos ainda quando ele disse:
— Ainda não. Pelo menos, não exatamente...— Então suspirou com uma voz contida. — O seu estado é péssimo se quer saber. Chances de recuperação, zero. E só está vivo por causa dos aparelhos. Se desligarmos você já era...
— Mas vocês não vão fazer isso, não é? — Me apressei em perguntar. — Quer dizer, eu ainda estou aqui, apesar de não saber como voltar...
Caleb deu uma olhada duvidosa para a aparência do Erik. E eu nem o culpo. Fiz a mesma coisa da primeira vez. Era a parte mais difícil de aceitar. Acho que ele esperava mais me ver na forma de fantasma do que encarnado no Erik.
— É claro que não vamos desligar. Não seja estupido. — Ele murmurou e apontou pra mim. — Então, por que você... Não começa a me contar como acabou desse jeito?
Suspirei.
— É melhor acreditar...— E lá fui eu. Contar toda aquela novela que vinha acontecendo. Bom, não tudo exatamente, já que eu deixei alguns detalhes de fora. Detalhes tipo Isaac e o problema secreto dele com o Erik, por exemplo. Achei que não era necessário contar.
Mas, enfim, quando eu terminei aquela montanha de loucura que vinha acontecendo, Caleb apenas balançou a cabeça.
— Eu não sei dizer o que é pior. Você no corpo desse garoto. A vida dele... Ou eu, sentando aqui, ouvindo e acreditando nisso como se fosse normal.
Apertei meus olhos para ele.
— Acredita mesmo? Ou vai chamar a polícia assim que eu cruzar a porta?
Caleb me deu um sorriso forçado.
— Ah, eu acredito. — Ele respondeu de uma forma irritadiça. — Porque eu prefiro imaginar que só existe um imbecíl teimoso como você. Que adora desobedecer tudo o que eu digo. Realmente só existe um. Nenhuma pessoa normal pularia o portão da casa alheia para contar esse tipo de história...
— Tà , já entendi. — Eu interrompi. — Teimoso, imbecíl, único, exclusivo e... Você sentiu a minha falta.
E como não sentiria? Eu era a luz daquela casa. A prova disso eram as olheiras que Caleb tinha na cara. Pra um cara que dormia mais de doze horas por dia aquilo era até irônico. Só existia uma pessoa capaz de fazer aquilo com ele: Eu.
—É claro que eu senti. Não tinha mais ninguém para lavar as louças e eu tive que ficar com o serviço. — Caleb começou com um sorriso, mas este desapareceu segundos seguintes: — Eu realmente senti sua falta. E o papai...
— Não quero falar sobre o papai. — Me apressei em dizer. — De verdade. Eu prefiro não saber.
E me tragam o prêmio de egoísta do ano, por favor. Mas falei sério. Não queria. Porque eu sei que, apesar dos pesares, meu pai não lida muito bem com perdas. Se eu soubesse como ele estava... Não acho que ia ajudar muito na minha situação.
Daí, escolhi me poupar.
— Como assim não quer falar? — Caleb trovejou. — Você ao menos tem ideia de como ele está?
— Eu tenho uma ideia. — Falei vagamente. — Mas até que tudo esteja em seu devido lugar, não vamos falar nada para ele, ok? Até que eu volte?
Caleb cruzou os braços pouco feliz.
— E quando isso vai ser?
Ah... Aí que entra a parte boa. Eu esperava que ele me desse uma luz, mas acho que o pobre entendia daquilo tanto quanto eu.
— Na verdade, eu esperava que você pudesse me ajudar com isso. Me ajudar a encontrar uma maneira de... Você sabe... Despossuir o Erik...
— E você por um acaso acha que eu sou um exorcista? — Caleb indagou cheio de graça. — Estou completamente leigo nisso. Aliás, eu poderia te aconselhar um ...
—Espero que você não diga exorcismo. Sério. Espero mesmo. — Avisei.
Ele apenas deu de ombros.
— Uma maneira deve ter. Se você conseguiu entrar, você consegue sair. — Admirei a confiança na voz de Caleb. Tanto que preferi nem comentar o fato de que, pra eu entrar ali, eu precisei primeiro morrer e o Erik precisou se matar.
E eu realmente esperava que houvesse uma maneira menos... Mórbida, de resolver aquele caos.
— De qualquer forma, obrigado. — Falei a ele. — Por, apesar de ter dando um puta trabalho, ao menos acreditar em mim. — E eu estava mesmo agradecido. Só de Caleb ter aguentado continuar conversando comigo sem chamar uma camisa de força... Puxa, ele renovou a minha fé na humanidade.
—Não me agradeça por isso. — Ele apontou. — Porque no fundo eu ainda tenho a sensação de estar participando de um surto coletivo de loucura...— Então fez uma pausa. — Você vai ficar, não é?
Acabei soltando um riso.
— Isso é meio impossível. — Falei com humor. — O Erik tem família também, sabe? Aliás, ele tem uma mãe que é a reencarnação de Hitler. E ela vai me deixar sem comida de novo se a gente voltar tarde...
Caleb pareceu entender. Então se aproximou de mim, ao ponto de eu achar que ele ia me abraçar de novo, mas ele resolveu fazer algo ainda mais esquisito: Segurou o meu rosto com ambas as mãos e olhou bem no fundo dos meus olhos.
—Uaau... — Ele disse simplesmente, estudando sabe-se lá o que. — Você ficou realmente bonitinho nessa aparência...
Fiz uma careta para o comentário e dei-lhe um tapa na mão. E pra completar o pacote, o Erik achou que seria fantástico ficar vermelho naquela situação.
— Meu Deus, Caleb! Deixa de falar merda. Isso é estranho. — Por acaso isso é um complô contra mim? Quando não é o Erik, é ele?
A resposta foi uma disfarçada gargalhada.
— É que não dá pra te levar muito a sério desse jeito. Desculpa... — Ele falou com a voz esganiçada. — Simplesmente... Não dava pra ser mais engraçado.
— É, Caleb. Muito engraçado. Cólicas de risos aqui. Meu Deus! Melhor piada. — Resmunguei. — Quer saber, eu vou embora.
Em parte, porque eu precisava mesmo ir, em outra, porque... Bem, porque aquilo já havia ficado constrangedor e eu não era obrigado a aguentar aquela tirada de sarro.
— Ah, qual é? Não precisa ficar magoado. O garoto é bonitinho mesmo. — Apertei os olhos pouco feliz. — Ao menos lembra disso.
—Não tem como esquecer... — E acredite, eu bem que queria.
— Ah, você esquece sim. Eu te conheço. Você vai é arrumar confusão com alguém qualquer hora dessa. Mas você não está no seu corpo, Diego. E vai ser catastrófico...— Ele falou em tom de aviso.
Agora entende porque achei melhor não comentar sobre o Zack, né?
— Não vou me meter em confusão. — Caleb subiu uma sobrancelha em descrença. — É sério! Não vou.
Achei mesmo que não valia a pena explicar a situação. Acredite, ia render um sermão pra duas horas e eu não estava com tempo, ou disposição, pra ouvir aquilo. Por isso dei a minha discussão com Caleb encerrada no ponto final.
Eu já estava considerando uma vitória o meu dia não ter sido de todo em vão. Quer dizer, olha só as minhas conquistas: Descobri que Erik não era tão santo, que Isaac por dia ficar vermelho de vergonha e o meu irmão sabia que eu estava vivo! Não é um máximo?
— Eu adorei o seu irmão. — Erik falou assim que saímos de casa. E note que ele disse “ adorei”, e não “gostei” ou “achei legal”.
— Não adore meu irmão, Erik. — Resmunguei, cansado. — Ele não é alguém que você deve muito adorar.
Erik pareceu calar a boca. Mas só pareceu mesmo.
— Você também parece gostar dele.
— Bem... — Analisei a frase. — Depois de quase dezoito anos com ele, seria meio impossível não gostar, certo?
— Ele disse que eu sou bonitinho... — Ele me lembrou e eu revirei os olhos. Meus Deus, como o Erik se vende fácil. Um comentário, um abraço e pronto. O garoto está apaixonado. O que ele é? Um cachorrinho?
Resolvi ignorar. Não dava pra discutir quele tipo de coisa com o Erik.
Na verdade, eu descobri que eu podia ficar exausto. Sério, daquele tipo sem força pra nada mesmo. Apesar de que tenho quase certeza que era o corpinho anêmico do Erik finalmente descarregando.
E eu adoraria chegar aqui e dizer que o meu dia havia acabado. Que tudo que eu fiz depois daquilo é ter ido pra casa, dormir.
Mas não foi.
Porque por algum motivo fudido do destino... Isaac estava na bosta da esquina. Esperando adivinhe por quem?
O lado bom foi que eu o vi primeiro.
— Merda. — Sussurrei. — Por que esse cara tá aqui? Ele sabe onde você mora? — Indaguei para o Erik.
— É claro que ele sabe. — Ele respondeu como se fosse óbvio. — Mesmo assim, por favor... Não causa outra confusão. Ao menos, não na frente da minha casa...
E o Erik nem precisava implorar. Eu não estava disposto a brigar com o cara. Eu estava morto. Bem, quase que literalmente. Não tinha forças pra aquilo.
Só que o dito cujo do Isaac não estava compartilhando o mesmo sentimento.
— Erik. — Ele chamou assim que me notou. E não parecia uma visitinha casual, do tipo” estava passando por aqui e resolvi te visitar”, ah não. Isaac parecia estar ali há horas.
— Ah, qual é, Isaac? — Resmunguei baixinho. — O que aconteceu de manhã já não foi o suficiente?
O cara riu como se aquilo fosse inacreditável. E depois cruzou os braços.
— Realmente. — Disse ele sério. — O que aconteceu hoje foi bastante...
— Humilhante. — Completei. — Pra você, diga de passagem. Então... Vaza daqui. — Fiz até o sinal com as mãos pra ver se ele caia fora.
O que Isaac fez? Me empurrou e me prensou contra a parede, de modo que o braço dele estava esmagando a minha traqueia.
Por que a minha dignidade ainda não havia sido destruída o suficiente...
— Eu estive te esperando por quase duas horas! — Ele sibilou como se a culpa fosse minha.
— E daí? Você é um tarado pra ficar me esperando na droga de uma esquina?
Achei que Isaac ia responder rápido. Mas não. Ele estava encarando. Encarando demais, aliás. De uma maneira estranha. Com as sobrancelhas franzidas e os olhos estreitos.
— Há algo de errado... — Erik deduziu magicamente. Como se eu já não tivesse notado. — Ele não está normal...
— Eu vim aqui pra conversar. — Ele disse logo em seguida. — Por que eu acho que eu preciso saber...
— Saber o que, cacete? — Murmurei entredentes e tentei tirar o braço dele de mim.
Mas não teve muito resultado. Aliás, minhas forças, minha mente e tudo que você conseguir imaginar, apagou no momento seguinte em que as palavras saíram da boca de Isaac:
— Quem realmente, e exatamente, é você?
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